quinta-feira, 14 de janeiro de 2016


De que género é o teu sexo?


P. Miguel Almeida, sj, Observador, 9 de Janeiro de 2016

Nem tudo o que somos é socialmente construído ou exclusivamente biológico. Mas negar que a biologia é a base daquilo que somos é negar a realidade.

A propósito dos presentes de Natal, discutiu-se sobre se à feminilidade ou masculinidade das crianças ajuda ou desajuda dar camiões ao menino e bonecas à menina. Se se deve vestir o filho de azul – ainda que turquesa – e a filha de cor-de-rosa, ou se esta é uma atitude ofensiva e provoca distúrbios psicológicos imperdoáveis.

Até há relativamente pouco tempo, em linguagem comum, as pessoas tinham sexo e as coisas tinham género. A palavra género era usada para categorizar gramaticalmente nomes, adjectivos, artigos e pronomes. Num artigo de Ana García-Mina Freire (La categoría «género»: historia de una necesidad), encontrei alguns dados históricos interessantes que uso para este meu escrito.

A meados do século passado, John Money, deparando-se com diversos casos de hermafroditismo, sentiu a necessidade de empregar um termo complementar a sexo. O médico encontrara vários rapazes que foram criados como raparigas devido a um síndrome feminizante testicular e diversas raparigas criadas como rapazes por sofrerem de síndrome andrenogenital. Devido a estas malformações congénitas dos órgãos sexuais e ao consequente desenvolvimento de uma identidade construída sobre uma biologia que a contradizia, a palavra sexo mostrava-se insuficiente para qualificar estas pessoas.

Money adoptou, então, a palavra género. Sexo referir-se-ia aos componentes biológicos que determinam se uma pessoa é homem ou mulher, e género aludiria aos aspectos psicológicos e culturais que constituem as definições sociais das categorias mulher e homem.

Do restrito âmbito das ciências biomédicas, o termo género deu um rapidíssimo salto para as ciências sociais, graças ao movimento feminista, e tornou-se uma das opções epistemológicas mais relevantes para referenciar a relação entre homens e mulheres. Na IV Conferência Mundial sobre as Mulheres (ONU), o género respeita «à forma como todas as sociedades do mundo determinam as funções, atitudes, valores e relações que concernem ao homem e à mulher, enquanto o sexo se refere aos aspectos biológicos que derivam das diferenças sexuais. Portanto, o sexo de uma pessoa é determinado pela natureza, mas o seu género é elaborado pela sociedade e tem claras repercussões políticas».

O sexo é um dos critérios fundamentais na organização e compreensão da interacção social. Cada sociedade desenvolve modelos normativos que prescreve a cada sexo. Daí que a construção da nossa identidade seja influenciada pelos modelos normativos da sociedade à qual pertencemos.

Mas, em princípio, reconhecemos que um homem é homem e uma mulher é mulher porque o seu corpo e o seu organismo os distinguem como tal. Todos sabemos que há casos de androginia e transexualidade. E os que não vivemos esta experiência na primeira pessoa, apenas podemos vislumbrar e intuir o possível sofrimento de quem a vive. Mas as excepções tratam-se como excepções. Deduzir daqui a geral – e até saudável – absoluta separação entre os conceitos de sexo e de género é absurdo. Porque, embora a Conferência sobre as Mulheres acima citada afirme que «o sexo é determinado pela natureza» e «o género é elaborado pela sociedade», há já quem ideologicamente considere que até essa é uma interpretação conservadora. Porque, como sabemos, já é possível «escolher» ou «mudar de sexo». Ora, se elaboramos o género e escolhemos sexo, tornámo-nos criadores de nós mesmos!

Ser mãe é diferente de ser pai. A mãe pode dar de mamar ao filho sem sair do quarto; o pai tem que ir comprar o leite ao supermercado. E esta é uma função social que decorre directamente do sexo, não do género. Claro que daqui a defender que a mãe é mais apta para mudar as fraldas ao filho só porque é mulher e isso lhe é natural… (e, já agora, que o avental lhe fica a matar e que, como todos sabemos, ninguém faz a cama ou limpa o pó tão bem como as mulheres…) é um salto injusto do sexo para o género que funcionou durante demasiado tempo.

Neste sentido, o conceito de género veio ajudar, e muito, à evolução e ao desenvolvimento ético das sociedades. Faz-nos tomar consciência de que muitas das supostas características femininas ou masculinas não são, afinal, mais do que construções sociais. E dos inúmeros abusos que se lhes escondem por detrás. Quando, numa sociedade que sobrevaloriza o género masculino face ao género feminino, se atinge uma maior igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres, essa não é uma vitória apenas das mulheres, mas do ser humano. Mesmo que a devamos agradecer às mulheres.

Manifestar a diferença ao vestir o menino de azul e a menina de cor-de-rosa não é mau. A não ser que essa indumentária transporte consigo todo o imaginário de homem eficaz e eficiente, gestor e executivo de sucesso e, por outro lado, de mulher submissa, caseira para quem não faz sentido uma carreira profissional digna e intelectualmente estimulante.

Como em quase todas as áreas da vida, também aqui os extremos não ajudam. Nem tudo o que somos é socialmente construído ou exclusivamente biológico. Mas negar que a biologia é a base daquilo que somos é negar a realidade. O ser homem ou o ser mulher, só porque se nasceu assim, traz consigo diferentes características e funções sociais que ultrapassam a biologia. E isso é saudável! Até onde se pode e deve ultrapassar, eis a questão.





segunda-feira, 11 de janeiro de 2016


Quanto a costumes, mais do mesmo no CDS:

sai o Paulo, entra a Assunção Cristas...

E chamam a isto democracia cristã...


Heduíno Gomes


Sai o Portas. Já sabemos o que pensa em questões
de Civilização e da família.

Entra a Assunção Cristas.
Também já sabemos o que pensa.

Vejamos.

Em 6.6.2010, Assunção Cristas deu uma entrevista ao Público, em que diz:

«Na declaração de voto disse que votava com o partido, porque era o que estava no programa eleitoral, tinha havido um compromisso dentro do próprio grupo e toda a gente votaria dessa maneira. Mas só por essa razão votava contra a proposta do Governo. Eu seria favorável a um casamento [entre pessoas do mesmo sexo]. O que pode parecer uma posição estranha da minha parte. Muita gente me aborda achando que sou contra; mas não sou. Curiosamente, desagradei a toda a gente. Os que concordavam comigo reclamaram, mesmo com a declaração de voto, por acharem que isso não servia de nada. E reclamaram comigo os que achavam que eu devia ser radicalmente contra e, no final, tinha feito uma declaração de voto; então, que tivesse sido contra!

«Não se incomodou de ficar sozinha.

«Não. Neste caso, fiz o que podia fazer, de acordo com a minha consciência. Dou muito valor ao contracto com o eleitorado. É mau dizer-se uma coisa e fazer-se outra. Todos cedemos um bocadinho para que fique espelhada a sensibilidade maioritária.

«Essa sua posição tem a ver com a convivência...

«Com amigos homossexuais, sim. Tenho amigos próximos que me fazem ver as coisas de outra maneira. Fazem-me perceber que são pessoas iguais a nós, com tanto desejo e expectativa de ter uma vida feliz como nós. O que digo aos meus amigos que não entendem esta minha posição é que há um caminho de felicidade que não pode ser fechado, sobretudo quando os valores dessas pessoas não comprimem os nossos. Não acho que isto seja um ataque à família «tradicional». Tem de haver espaço na sociedade para que todos se sintam confortáveis. E não me parece que uma família com uma mulher, um homem e filhos possa ficar afectada por outras realidades.»

A bandeira de Assunção Cristas

Mas há mais. Em entrevista à revista do Expresso (2 de Julho de 2011),
Assunção Cristas reza (salvo seja...) assim:

FILIPE SANTOS COSTA — «Para alguém que assume que a formação católica pesa em todos os aspectos da sua vida, a sua posição sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi bastante heterodoxa...

ASSUNÇÃO CRISTAS — «Foi heterodoxa e foi difícil, porque senti que decepcionei muita gente.

(...)

...«fui a favor do não no referendo ao aborto, logo teria de ser contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo... »

Outro aspecto interessantíssimo (entre muitos) na entrevista de Assunção Cristas à revista do Expresso.

Enquanto se farta de falar de missas, Assunção Cristas define-se como pupila do sinistro e herético P. (?) José Tolentino de Mendonça, o cripto-maçon eclesiástico do pior que por aí existe.

ASSUNÇÃO CRISTAS — «Pertenço às Equipas de Nossa Senhora, onde tenho um magnífico padre assistente, o José Tolentino de Mendonça, o que é uma grande graça, uma grande sorte.»



NOTAS

Este padre (?) Tolentino, com o frei (?) Bento Domingues, são animadores da seita herética «Nós Somos Igreja», que defende tudo do pior na questão da moral familiar.

Tolentino é também um dos colaboradores do cardeal (?) Ravasi, outro apologista da maçonaria que anda a espalhar enxofre pelos corredores do Vaticano (parafraseando, eu, Paulo VI...), supostamente a ocupar-se da «cultura cristã»...

Tolentino e o bispo (?) Carlos Azevedo são por cá os dois grandes expoentes dessa «cultura cristã» à moda de Ravasi. Carlos Azevedo é outro cripto-maçon — se dúvidas houver, veja-se a sua entrevista à televisão onde defende que as divergências entre a Igreja e a maçonaria são coisas do passado! Não o temos por cá porque foi transferido à pressa da Diocese de Lisboa para Roma, para junto do Ravasi, por razões assaz curiosas.

Conclusão moral da história: com Cristas, Tolentino, Bento Domingues, Carlos Azevedo, Ravasi... tudo se encaixa no grande plano...





terça-feira, 5 de janeiro de 2016


O candidato Henrique Neto conhecia fraudes


Notícias Lusófonas

Henrique Neto, administrador da Iberomoldes que chegou a ser constituído arguido na Operação Furacão, mas não foi acusado, porque pagou o que devia ao fisco, confessou no depoimento que consta do processo ter «consciência» de que estavam a ser criadas ou usadas empresas «para aumentar os custos» da Iber Oleff – sociedade que foi visada na investigação e da qual era sócio – e de que havia «distribuição de ‘dinheiros’ a alguns sócios que não chegavam a ser declarados».


A Iber Oleff – Componentes Técnicos em Plástico, nascida de uma parceria entre o grupo alemão Olho Tecknik e o grupo Iberomoldes, foi uma das empresas que recorreram aos serviços do grupo Finatlantic, que visava obter vantagens fiscais atractivas para os seus clientes. O esquema que levou, em Junho, à acusação de 30 pessoas num processo nascido da Operação Furacão, terá lesado o Estado em mais de 36 milhões de euros (36 639 21 euros) e passava por ocultar os rendimentos através da transferência de dinheiro para entidades sedeadas em paraísos fiscais e no Reino Unido.

A casa e empresa de Henrique Neto foram alvo de buscas no final de 2007. Nessa altura, o ex-deputado socialista adiantou à imprensa não ter razões «para suspeitar» que estariam «em falta». Admitia, contudo, poderem existir «questões pontuais na relação do grupo com o Estado». Dois meses depois, a 13 de Fevereiro de 2008, admitiu aos procuradores Rosário Teixeira e Ana Catalão ter «tomado conhecimento da intenção da sociedade Iber Oleff de aderir a um esquema que visasse a diminuição de resultados ou lucros». Mas acrescentou não saber pormenores sobre como iria funcionar.

Nesse depoimento, o empresário viria também a confessar «ter recebido alguns montantes monetários, tendo-os utilizado, pelo menos em parte, em benefício próprio». Nesse mesmo dia, o administrador da Iberomoldes remeteu às finanças os rendimentos não declarados e pagou o imposto num total superior a 30 mil euros: 22 621,94 euros, relativos ao ano de 2002, e 8 174 euros, relativos a 2005. Um dia depois, foi a vez de a Iber Oleff pagar o que devia às Finanças: 433 487 euros. Por terem pago, apesar da resistência do juiz Carlos Alexandre, quer o empresário, quer a empresa, viriam a beneficiar da suspensão provisória do processo, livrando-se de uma acusação por fraude fiscal qualificada.

No final de 2002, a sociedade Iber Oleff entrou em contacto com a Finatlantic, com vista à criação e/ou utilização de uma sociedade suíça, uma no Delaware, EUA, uma no Reino Unido e outra sedeada no Belize. De acordo com os autos do processo que o i consultou, parte dos montantes que circularam entre as sociedades offshore entre 2002 e 2005 foram transferidos para as contas da sociedade DTA (Belize) e SITAR (Delaware), abertas no Banco Fiduciário Internacional (BFI) até serem finalmente divididos pelos três administradores, consoante a participação que tinham na Iber Oleff: Henrique Neto viria a receber 85 mil euros em 2003 e 17 083 euros em 2005. Interrogado pelos procuradores do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), disse nunca ter ouvido falar do BFI, nem da Finatlantantic, nem do cabecilha da empresa, Diogo Viana.






Juramento d’El-Rei D. Affonso Anriques



Conservado no Archivo do Real Mosteiro de Alcobaça

Eu Affonso Rei de Portugal, filho do Conde Henrique, e neto do grande Rei D. Affonso, diante de vós Bispo de Braga, e Bispo de Coimbra, e Theotonio, e de todos os mais Vassallos de meu Reino, juro em esta Cruz de metal, e neste livro dos Santos Evangelhos, em que ponho minhas mãos, que eu miseravel peccador vi com estes olhos indignos a nosso Senhor JESU Christo estendido na Cruz, no modo seguinte.

Eu estava com meu exercito nas terras de Alentejo, no Campo de Ourique, para dar batalha a Ismael, e outros quatro Reis Mouros, que tinham consigo infinitos milhares de homens, e minha gente temerosa de sua multidão, estava atribulada, e triste sobremaneira, em tanto que publicamente diziam alguns ser temeridade acommetter tal jornada. E eu enfadado do que ouvia, comecei a cuidar comigo, que faria; e como tivesse na minha tenda um livro em que estava escripto o Testamento Velho, e o de Jesu Christo, abri-o, e li nelle a vitoria de Gedeão, e disse entre mim mesmo. Mui bem sabeis vós, Senhor JESU Christo, que por amor vosso tomei sobre mim esta guerra contra vossos adversarios, em vossa mão está dar a mim, e aos meus fortaleza para vencer estes blasfemadores de vosso nome.

Ditas estas palavras adormeci sobre o livro, e comecei a sonhar, que via um homem velho vir para onde eu estava, e que me dizia: Affonso, tem confiança, porque vencerás, e destruirás estes Reis infieis, e desfarás sua potencia, e o Senhor se te mostrará.

Estando nesta visão, chegou João Fernandes de Sousa meu Camareiro
dizendo-me: 

Acordai, senhor meu, porque está aqui um homem velho, que vos quer fallar. Entre (lhe respondi) se é Catholico: e tanto que entrou, conheci ser aquelle, que no sonho vira; o qual me disse:

Senhor tende bom coração, vencereis, e não sereis vencido; sois amado do Senhor, porque sem duvida poz sobre vós, e sobre vossa geração depois de vossos dias os olhos de sua misericordia, até a decima sexta decendencia, na qual se diminuiria a successão, mas nella assim diminuida elle tornará a pôr os olhos e verá.

Elle me manda dizer-vos, que quando na seguinte noite ouvirdes a campainha de minha Ermida, na qual vivo ha sessenta e seis annos, guardado no meio dos infieis, com o favor do mui Alto, saias fóra do Real sem nenhuns creados, porque vos quer mostrar sua grande piedade.

Obedeci, e prostrado em terra com muita reverencia, venerei o Embaixador, e quem o mandava; e como posto em oração aguardasse o som, na segunda vela da noite ouvi a campainha, e armado com espada e rodela sahi fóra dos Reais, e subitamente vi a parte direita contra o Nacente, um raio resplandecente; e indo-se pouco, e pouco clarificando, cada hora se fazia maior; e pondo de proposito os olhos para aquella parte, vi de repente no proprio raio o sinal da Cruz, mais resplandecente que o Sol, e Jesu Christo Crucificado nella, e de uma e de outra parte, uma copia grande de mancebos resplandecentes, os quaes creio, que seriam os Santos Anjos. Vendo pois esta visão, pondo á parte o Escudo, e espada, e lançando em terra as roupas, e calçado me lancei de bruços, e desfeito em lagrimas comecei a rogar pela consolação de meus vassallos, e disse sem nenhum temor.

A que fim me apareceis Senhor? Quereis por ventura accrescentar fé a quem tem tanta? Melhor é por certo que vos vejam os inimigos, e cream em vós, que eu, que desde a fonte do Baptismo vos conheci por Deos verdadeiro, Filho da Virgem, e do Padre Eterno, e assim vos conheço agora. A Cruz era de maravilhosa grandeza, levantada da terra quasi dez covados.

O Senhor com um tom de voz suave, que minhas orelhas indignas ouviram, me disse.

Não te apareci deste modo para accrescentar tua fé, mas para fortalecer teu coração neste conflito, e fundar os principios de teu Reino sobre pedra firme. Confia Affonso, porque não só vencerás esta batalha, mas todas as outras em que pelejares contra os inimigos de minha Cruz. Acharás tua gente alegre, e esforçada para a peleja, e te pedirá que entres na batalha com titulo de Rei. Não ponhas duvida, mas tudo quanto te pedirem lhe concede facilmente. Eu sou o fundador, e destruidor dos Reinos, e Imperios, e quero em ti, e teus decendentes fundar para mim um Imperio, por cujo meio seja meu nome publicado entre as Nações mais estranhas. E para que teus decendentes conheçam quem lhe dá o Reino, comporás o Escudo de tuas Armas do preço com que eu remi o genero humano, e daquelle porque fui comprado dos judeos, e ser-me-ha Reino santificado, puro na fé, e amado por minha piedade.

Eu tanto que ouvi estas cousas, prostrado em terra o adorei dizendo:

Porque meritos, Senhor, me mostrais tão grande misericordia? Ponde pois vossos benignos olhos nos successores que me prometeis, e guardai salva a gente Portugueza. E se acontecer, que tenhais contra ella algum castigo apparelhado, executai-o antes em mim, e em meus descendentes, e livrai este povo, que amo como a único filho.

Consentindo nisto o Senhor, disse:

Não se apartará delles, nem de ti nunca minha misericordia, porque por sua via tenho apparelhadas grandes searas, e a elles escolhidos por meus segadores em terras mui remotas.

Ditas estas palavras dezapareceu, e eu cheio de confiança, e suavidade me tornei para o Real. E que isto passasse na verdade, juro eu D. Affonso pelos Santos Evangelhos de JESU Christo tocados com estas mãos. E por tanto mando a meus decendentes, que para sempre succederem, que em honra da Cruz e cinco Chagas de JESU Christo tragam em seu Escudo cinco Escudos partidos em Cruz, e em cada um delles os trinta dinheiros, e por timbre a Serpente de Moysés, por ser figura de Christo, e este seja o tropheo de nossa geração. E se alguem intentar o contrario, seja maldito do Senhor, e atormentado no Inferno com Judas o treidor.

Foi feita a presenta carta em Coimbra aos vinte e nove de Outubro, era de mil e cento e cincoenta e dous.


Eu El-Rei D. Affonso.


João Metropolitano Bracharense. - João Bispo de Coimbra.- Theotonio Prior. - Fernão Peres Vedor da Casa.- Vasco Sanches.- Affonso Mendes Governador de Lisboa.- Gonçalo de Sousa Procurador de entre Douro e Minho.- Payo Mendes Procurador de Viseu.- Sueiro Martins Procurador de Coimbra.- Mem Peres o escreveu por Mestre Alberto Cancellario del-Rei.






Conferência


A Associação Cristóvão Colon apresenta a Conferência

«Colon, dito Colombo – foi um Português que descobriu a América?»

Organizado pela Junta de Freguesia de Alvalade (Rua Conde de Arnoso, 5-B, Lisboa) no dia 11 de Janeiro às 10h30, e que terá lugar no respectivo auditório.






segunda-feira, 4 de janeiro de 2016


O CDS depois de Portas


André Azevedo Alves, Observador, 2 de Janeiro de 2016

Não comungando das concepções liberais do autor, não deixamos de achar interessante para documentação este texto sobre Paulo Portas, que reproduzimos.

Mais do que saber quem será o próximo líder, importa que o CDS discuta ideias e políticas e reflicta sobre a sua razão de ser no sistema político-partidário português.

Alguns dias antes do anúncio público de Paulo Portas de que vai abandonar a liderança do CDS, numa conversa informal com um amigo, foi-me perguntado por que utilizo ocasionalmente um tom algo agreste quando escrevo sobre Portas. Respondi que não tenho qualquer animosidade pessoal contra Paulo Portas e que lhe reconheço até várias importantes qualidades para a acção política, mas que ao mesmo tempo o seu tacticismo extremo e a sua excessiva flexibilidade no plano das ideias e dos princípios me desagradam profundamente.

O meu interlocutor nessa conversa – conhecedor profundo da realidade política portuguesa – chamou-me a atenção para o facto de esses defeitos estarem longe de serem exclusivos de Portas, existindo também em muitos outros actores políticos que, adicionalmente, não partilham os seus méritos. Esta pertinente constatação levou-me a examinar de forma mais profunda a avaliação que faço do trajecto e da figura política de Paulo Portas. Uma reflexão que se torna mais oportuna depois do anúncio de que não se recandidatará à liderança do partido que nos últimos 15 anos moldou progressivamente à sua imagem.

Após realizar esse exame, creio que a resposta reside em parte no projecto que trouxe Portas para a ribalta: o semanário «O Independente». Como muitos outros da minha geração, fui um aficionado e, durante bastante tempo, fiel seguidor do jornal. Retrospectivamente, não hesito em concordar com o Henrique Raposo que «O Independente» foi essencialmente um projecto estético, sem um conjunto claro e coerente de ideais morais e políticas orientadoras e mais pós-moderno do que conservador.

Mais: hoje é para mim claro que todo o projecto (incluindo os seus aficionados, grupo de que fiz parte) padecia de um provincianismo e de um deslumbramento com algumas referências externas que o diminuíam. A soberba conduziu com demasiada frequência à boçalidade e a comportamentos mesquinhos e até vingativos. Mas, mesmo reconhecendo tudo isto, «O Independente» não deixou de ter um impacto revolucionário na política portuguesa da época e de ser profundamente marcante. E Paulo Portas foi indiscutivelmente a sua figura de proa.

Ora, creio que é em larga medida por esse trajecto anterior que a conduta política de Portas ao longo dos anos se torna mais criticável. Ao defender ideias que muito justamente criticou e condenou no passado e ao praticar ele próprio grande parte dos vícios que denunciou, Paulo Portas carrega na sua encarnação como político um odioso maior do que a generalidade dos membros da classe política portuguesa. Era-lhe exigível mais e Portas não conseguiu estar à altura do padrão que lhe era exigível.

A situação em que Paulo Portas deixa o seu partido foi muito bem sintetizada por Rui Albuquerque, um conhecedor simultaneamente profundo e distanciado da realidade do CDS:

« (…) Paulo Portas não deixa um projecto político, nem foi capaz de o criar. O CDS é «o partido do Paulo» e, apesar do brilhantismo do «Paulo» ou, se calhar, por causa dele, o CDS não tem alma própria, nem existência real, o que é bem visível na quase inexistência autárquica do partido. Se alguém estiver interessado em encontrar no CDS, não digo um programa político ou uma ideologia, duas ou três ideias avulsas que o caracterizem politicamente, não será fácil achá-las. (…) O problema da demissão de Paulo Portas não está, assim, em encontrar-lhe um sucessor. Nomes e candidatos não faltarão. Mas no facto do carisma de Portas não se transmitir «mortis causa» e do CDS não ter mais nada para legar.»

Ironicamente, neste contexto, a vontade de poder de António Costa e a «geringonça» governamental que articulou em precária articulação com bloquistas e comunistas acabou por dar um valioso contributo para a continuação do CDS enquanto partido autónomo. Depois de praticamente dizimada a base autárquica do CDS, sem princípios que o distingam no panorama partidário português e com uma organização e imagem totalmente centradas na figura do seu líder, dificilmente o CDS resistiria a mais quatro anos de coligação governamental com o PSD.

Chegados a este ponto, importa olhar para o futuro do partido. A escolha caberá – como não poderia deixar de ser – aos militantes do CDS mas parece claro que o grande desafio que se coloca é fazer o que Portas não fez (e já não teria condições para fazer, depois do slogan vazio do «partido do contribuinte» e do inenarrável guião para a reforma do Estado que apresentou): afirmar o CDS como um partido com uma plataforma e discurso consistentes, distintivos e que marquem um espaço próprio à direita. Um espaço que não deve ser delimitado de forma exclusivista e pode provavelmente incluir tendências conservadoras, liberais e democratas-cristãs.

Mais do que saber quem será o próximo líder, importa que o CDS discuta ideias e políticas e reflicta sobre a sua razão de ser no sistema político-partidário português. O primeiro passo para o conseguir é ultrapassar rapidamente a dicotomia entre seguidores e opositores de Paulo Portas. O segundo passo será que o próximo líder não tente imitar Portas que, para o bem e para o mal, será inimitável. Quanto ao próprio Paulo Portas, com todos os seus talentos e defeitos – e, recorde-se, com apenas 53 anos – vai certamente continuar a andar por aí.





sábado, 2 de janeiro de 2016


Cinco razões porque Paulo Portas

sair da liderança do CDS é uma boa notícia




Tiago Cavaco, Voz do Deserto

[Aqui há uns dias explicava da tragédia que é ler alguns pastores espalharem-se ao comprido em comentários políticos descuidados. Espero não fazer o mesmo agora. Mas, precisamente por Paulo Portas estar na área política onde o meu voto tem acontecido, julgo pertinente este comentário.]

1. Porque Paulo Portas nunca foi conservador

A explicação mais erudita deste ponto entrego-a ao Henrique Raposo, que assim bem explicou no Expresso online: «a própria fonte de Portas era pós-moderna, imprecisa, escorregadia.  No fundo, ele foi um jovem do seu tempo. Apesar de leituras conservadoras do baú francês, Portas foi varrido pela ‘dispositivo pós-moderno’, isto é, pela fuga às grandes narrativas, pela recusa ideológica da coerência, pela desistência da busca da verdade (quer no sentido objectivo, quer no sentido moral).»

2. Porque Paulo Portas significa continuar a confundir conservadorismo
com o fenómeno MEC

Este ponto é consequente do primeiro, bem explicado pelo Henrique. Aquilo que passou pela suposta nova direita nos últimos trinta anos é uma salganhada burguesa coquete que foi tolerada ao Miguel Esteves Cardoso porque eticamente não se distingue da esquerda niilista (a cartilha coca, cópula e calão). Para ser conservador não chega gostar de comprar roupa em Londres ou citar os Smiths em vez dos Clash.

3. Porque Paulo Portas mostrou-se um homem sem palavra

Decidi não votar mais CDS desde a crise do «irrevogável». Um homem não pode voltar atrás e explicar que mudou de ideias? Certamente que sim. Mas Paulo Portas nunca voltou atrás e explicou que mudou de ideias, simplesmente saltou para a frente como se a sua palavra não valesse nada. Num partido conservador a palavra dada tem de valer a própria vida. Para desconstruções semânticas temos a esquerda.

4. Porque Paulo Portas é demasiado talentoso no seu jogo
para conseguir deixar substituto à altura

Não há nenhum beto mais novo que Portas capaz de disfarçar cinismo em conservadorismo com o talento dele. Digamos que é uma excelente desvantagem da geração de noventa. A geração de noventa sabe ser cínica, claro. Mas já não passou por nenhum fenómeno anglo-pop que a fizesse enamorar-se de aparências conservadoras (o britpop dos Oasis e dos Blur é demasiado classe média comparado com o genuíno snobismo da década anterior).

5. Porque vai fazer com que os que sejam realmente conservadores
no CDS tenham de começar a trabalhar a sério

Eu não tenho problemas pelo CDS ser um partido de betos. Eu tenho problemas pelo CDS ser um partido sem coragem. As vozes tidas por esclarecidas são as que pedem para ir à casa de banho sempre que o assunto exige clareza moral. Divórcio, aborto, o chamado casamento homossexual, adopção por ditos casais homossexuais, e podia continuar. Ou o CDS começa a querer conservar alguma coisa concreta ou restringe ao nosso capitalismo coxo a sua única causa — mas para isso já temos o PSD.





terça-feira, 22 de dezembro de 2015


Eslovénia rejeita em referendo

casamento entre pessoas do mesmo sexo


Mais de 60% dos eslovenos rejeitaram hoje em referendo uma lei que autorizava o casamento entre pessoas do mesmo sexo, aprovada em Março no Parlamento, segundo os resultados quase definitivos divulgados pela comissão eleitoral.

O referendo foi realizado por iniciativa dos opositores do casamento homossexual, que obtiveram 63,12% quando estavam contados 96% dos votos, enquanto os apoiantes da lei ficaram com 36,88%, de acordo com os resultados.

A votação contou apenas com a participação de 35,65% dos eleitores, mas mesmo assim o referendo é válido, dado que só necessitava de uma participação de 20%.

No Parlamento, a lei alcançara uma larga maioria, com o apoio da esquerda e do partido centrista do primeiro-ministro, Miro Cerar, reconhecendo aos casais do mesmo sexo os mesmos direitos dos casais heterossexuais, incluindo o direito de adopção, o ponto mais contestado pelos opositores.

O Papa Francisco defendeu esta semana o «não», convidando os eslovenos a «apoiarem a família, estrutura de referência da vida em sociedade».

Os defensores do «não» eram apoiados pela oposição de direita e pela Igreja católica e lançaram este processo conseguindo reunir as 40 mil assinaturas necessárias para a realização de um referendo de iniciativa popular.

A organização do referendo suspendeu a aplicação da lei e não chegou a realizar-se qualquer casamento ao abrigo da mesma.

O Primeiro-Ministro e o Presidente da Eslovénia, Borut Pahor, apoiaram o «sim».






quinta-feira, 17 de dezembro de 2015


Como irão contar o Natal

aos vossos filhos e netos


Nuno Serras Pereira

(Ilustrações da responsabilidade da redacção)

Estava Jerusalém inundada de luminárias que faziam da noite, dia, quando sobre ela se abateu uma escuridão sombria, trevas tremendas e pavorosas, das quais se arrancavam guinchos lúgubres, gritos lancinantes, sonoras iras raivosas entoando: glória a lúcifer nas profunduras e prazer irrestrito aos homens de vontade autónoma; anunciamo-vos uma grande dor, nasceu-vos hoje um desprotegedor, que o será para todo o povo; isto vos servirá de sinal, encontrareis um menino, adorado por um homem e pela mulher.


Imediatamente, os sacerdotes do género e os príncipes dos ambientalistas acorreram aos campos até encontrarem num estábulo tudo como lhes tinha sido dito. Os géneristas escandalizados com aquela discriminação claramente homofóbica, logo substituíram o homem por uma mulher, mas ao saberem que a primeira era Virgem, prontamente a vituperaram e expulsaram por constituir um péssimo e devastador exemplo para toda a gente ao renegar tão obstinadamente os ensinamentos dos doutores do género – havia a máxima urgência em retirar a criança àqueles pais, uma vez que era óbvia a sua incapacidade de lhe assegurarem uma formação sexual adequada, livre de preconceitos e discriminações.


Os príncipes dos ambientalistas, por seu turno, ao repararem na vaca, cuja emissão de gazes intestinais constituía um factor alarmante para o aquecimento global e consequente iminente fim do nosso planeta, logo dela se apoderaram para a matar ali mesmo, oferecendo-a como um sacrifício propício à mãe terra, intentando aplacar assim a sua ira – é certo que houve uma grande disputa até tomarem a resolução, pois alguns advogavam que se não se podia matar cães (dentro ou fora de canis), muito menos uma vaca, uma vez que era muito maior pois, de facto, argumentavam, se todos podemos fulminar melgas por serem pequenas, então não se pode aniquilar um bovino por ser muito maior; os sectários da matança do boi (pois, uma vez que a identidade de género não passa de uma construção social, tanto monta uma nomeação feminil como masculina) convenceram, no entanto, os seus adversários, provando que o impacto ambiental do cão era insignificante em comparação com a vaca.

Quanto ao burro, que tinha suportado tão grandes humilhações, sendo compelido violentamente, como se fora uma mísera besta, a percorrer tão longo caminho, suportando a intolerável carga, daqueles humanos – os terríveis predadores da natureza –, a mãe grávida e seu filho, era absolutamente imperativo reconhecer a sua eminente dignidade divina, para reparar uma injúria tão blasfema e sacrílega. Por isso, encaminhando-o para fora daquele reles presépio, de pronto lhe construíram um altar, adorando-o e ofertando-lhe oblações e sacrifícios dignos de tão magnificente divindade, a qual correspondia aos louvores e adorações com jubilosos zurros. Exaustos da cerimónia orgiástica, o frenesim foi diminuindo até que se dirigiram de novo ao presépio onde depararam com gentes esfarrapadas entoando, diante da criança envolta em paninhos, uma estranha antífona: Baixíssimo, impotente, grosseiro escravo,  a ti todo o aviltamento, o desprezo, a desonra e toda a maldição. A ti só, baixíssimo, se hão-de prestar e todo o ser humano é digníssimo de te nomear.

De súbito, um estardalhaço de trovão ribombante atroou os campos articulando palavras retumbantes: Sou o vosso Deus, o vosso Pai, que vos tem conduzido através da história operando prodígios de amor e Este é o Meu Filho humanado que vos enviei para vos resgatar.


Imediatamente, à uma, os sacerdotes do género e os príncipes dos ambientalistas desataram numa gritaria estridente enquanto tapavam os ouvidos, não fossem escutar blasfémias maiores.

Espumando raivas incontidas e ódios viscerais desenfaixaram a criança e enquanto o faziam os príncipes dos ambientalistas logo pontificaram que a ser verdade ou ao menos que houvesse uma suspeita razoável da criança ser deus incarnado seria então necessário condená-lo, sem demora, à morte, uma vez que esse deus era malvado, um perigo extremo para o desenvolvimento sustentável.  Não tinha ele arrasado as fertilíssimas terras de Sodoma e de Gomorra, tornando-as totalmente estéreis e matando toda a fauna marítima no mar, que por isso mesmo se chama morto? A esta indignação se ajuntou a ira descontrolada dos sacerdotes do género, acusando esse deus de homofobia, de discriminação, de coração duro, mente fechada, alheio a qualquer tipo de misericórdia.


Entretanto, desenfaixada a criança, verificaram se tratava de um varão, de um menino. Este horror veio irritar e transtornar ainda mais os sacerdotes do género, que, imediatamente, em cóleras desenfreadas acusaram a divindade de ser uma fraude, um resquício de uma projecção patriarcal, pois era evidente que o verdadeiro deus, caso se fizesse homem traria no seu corpo simultaneamente todas as características da sua identidade, a saber, lgbtqi. Aliás, a única divindade era a terra e os que naquela diversidade a habitavam.

Sem mais hesitações, num arrebatamento de indignação, desfizeram a manjedoura, e aproveitando os pregos e as tábuas da mesma, com ela formaram uma pequena cruz. Unanimemente o consideraram culpado, um engano do maligno, e todos concordaram que deveria ser crucificado. Como os pregos se mostraram demasiado grossos para prender os pulsos e os pés do Menino, arranjaram uns alfinetes especiais que serviam o propósito. Alguns dos que o escarneciam, impacientes com a demora da sua morte, recorreram a um canivete suíço para lhe trespassar o coração, do qual brotou sangue e água.

Verificada a sua morte, todos se regozijaram e a celebraram com um grande banquete, pois tinham conseguido salvar o planeta e o prazer promíscuo sem freio.








quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

terça-feira, 15 de dezembro de 2015


Breve esclarecimento sobre o texto

Misericonsideração


Nuno Serras Pereira, 12 de Dezembro de 2015

Tenho vindo a receber as mais diversas reacções ao artigo que vos enviei intitulado Misericonsideração. Sobre o mesmo direi somente o seguinte:

1. O texto é ficcional;

2. Com ele pretendi, pintando a traços largos, mostrar que a «lógica» que preside à pretensão de conceder a Sagrada Comunhão aos validamente casados pela Igreja que se divorciaram civilmente e também civilmente «recasaram» conduz necessariamente a concedê-la também às personagens cujo drama desenhei em traços breves;

3. Com isto não quero significar que os casos sejam iguais, mas sim que aquele caminho conduzirá inevitavelmente a uma abertura «inclusiva» (como hoje impropriamente se usa dizer na Igreja) que admita a um grande número de pessoas que vivem numa diversidade enorme de situações;

4. A) Alguns opinaram que era um ultraje ao Santo Padre imaginá-lo (não se diz que se trata de Francisco, nem que foi um pronunciamento Magisterial) dizendo que aquela «família» dava um grande testemunho – somente um delírio psicótico ou uma alucinação patológica é que poderia parir tal fantasmagoria pavorosa, disforme, monstruosa; B) Mas, «contra-ataco», dizei-me com toda a franqueza e honestidade: porventura alguém ao longo de 2014 (dois mil e catorze anos) de Catolicismo imaginou a possibilidade de que um Papa, proclamasse aos quatro ventos (neste caso através da comunicação social) o que Francisco advogou, a propósito dos «casados divorciados recasados» numa entrevista em Dezembro do ano passado ao jornal argentino La Nación, a saber: «¿Por qué no pueden ser padrinos? ‘No, fijate, qué testimonio le van a dar al ahijado’. Testimonio de un hombre y una mujer que le digan ‘mirá querido, yo me equivoqué, yo patiné en este punto, pero creo que el Señor me quiere, quiero seguir a Dios, el pecado no me venció a mí, sino que yo sigo adelante’. ¿Más testimonio cristiano que ése?» Como comentei na altura:

Por outras palavras, talvez cruas mas verdadeiras, continuo  a fornicar adulteramente com aquele que não é meu marido, mas o pecado não me venceu. Aliás, transformou-se num modelo de testemunho cristão. Adeus arrependimento, adeus conversão, coisas inúteis e perniciosas, pelos vistos. Um Papa, afirmando isto de pessoas que vivem em estado objectivo de adultério, foi coisa que nunca pensei ouvir (e isto aterra-me ao ponto de pedir ao Senhor que se tem um lugar no Purgatório para mim, me leve antes de que venha a topar com uma decisão nesse sentido). Vive objectivamente em pecado, nele permanece e nada faz para mudar e diz que não foi vencida pelo pecado! E a Santa Igreja confirma-a no seu perverso erro! Se eu fora um demónio, exultaria de alegria … ! É obra!, se não lesse não acreditaria! A não ser, claro, que Francisco subscreva, o que me parece impossível, a heresia de Kasper, em contradição flagrante com as afirmações de Deus feito homem de que é uma injúria dizer que os «divorciados recasados civilmente» vivem em estado de adultério. De facto, só será possível advogar tal tese se se considera que não existem pecados sexuais quando entre adultos e consentidos (o que significaria a rendição da Igreja à revolução sexual); ou então que o casamento civil, e, talvez, a geração de filhos nesse pseudocasamento, têm o mesmo efeito que a Confissão Sacramental e que o Sacramento do Matrimónio. Uma vez que a Doutrina de Cristo na Sua Igreja sempre ensinou que os pecados graves, para os baptizados, exceptuado o perigo de morte iminente, só se perdoam pela Confissão Sacramental, teríamos aqui um novo Sacramento, não instituido por Cristo, mas sim por W. Kasper.;

5. Quando grande parte de católicos, mesmo comprometidos, não se choca, nem estranha, o estado calamitoso das «pregações» contínuas de grandes eminências eclesiais, a elas se habituando e conformando, cuidei que uma «sátira» os despertasse  para a gravidade do que se está a passar. Infelizmente, parece que muitos não o entenderam. E, pela Graça de Deus, assanharam-se contra mim o que me dá uma enorme alegria por poder participar na Cruz de Nosso Senhor;

6. Com isto termino. Atendendo a declarações de várias conferências episcopais, de Cardeais, de bispos designados por este Papa, de alguns teólogos, em particular de não poucos jesuítas, a Igreja deveria dar a Sagrada Comunhão a todos sem excepção – Católicos ou não, uma vez que a Igreja tem de ser inclusiva, não excluindo a ninguém e já que desconhece as intenções do coração de qualquer pessoa e a sua culpabilidade subjectiva, que só Deus pode julgar (exceptuando, claro está, os que Francisco julga, porque se escondem atrás da doutrina para fazerem uso da sua soberba), todas elas podem estar na Sua Graça, pelo que a Sagrada Comunhão a ninguém deve ser negada, mas antes distribuída à toa. Afinal, segundo testemunhos de sacerdotes e amigos que colaboraram de perto com o então Cardeal Bergoglio, seria isso, a crer nas suas versões, que ele recomendaria aos padres que fizessem.





domingo, 13 de dezembro de 2015


A misericórdia segundo Bergoglio


Misericonsideração


Nuno Serras Pereira

Tiveram um namoro sério e demorado, sem nunca se terem antecipado aos actos próprios do casamento. Um amor sereno e profundo pedia a entrega total no matrimónio. Assim acabou por ser. Após a celebração do Sacramento, para o qual se tinham preparado com esmero, e das bodas entregaram-se inteiramente no acto conjugal, que incarnou o que tinha sido celebrado na Igreja. Aquele abraço tão íntimo, tão entusiasmante, como que pedia um terceiro, que o amor é por natureza difusivo. Sentiam-se naquela comunhão de amor envoltos por uma multidão de Anjos e penetrados de uma Paternidade transcendente, infinita e vivificante. Nove meses depois acolheram com uma alegria de êxtase aquele que sendo embora um, em que eles estavam e se reviam, entendendo melhor o significado de serem uma só carne, um que era a união dos dois, era também outro diferente, único e irrepetível. Não estiveram com vagares para baptizá-lo, pois sabiam que este Sacramento não só apagava o pecado herdado, chamado original, mas conferindo a Graça o arrancava às mãos sedutoras e sinistras do Maligno, fazendo-o participante da natureza Divina, Filho de Deus, irmão de Cristo, templo vivo do Espírito Santo.

Nesse mesmo dia, no final da cerimónia, ajoelharam-se diante de Jesus Cristo Ressuscitado, presente no Sacrário, e juraram-Lhe solenemente que nunca se deixariam, pois não só acharam oportuno renovar os votos matrimoniais mas também porque não queriam de modo nenhum que seu filho não fosse acompanhado e educado pelos pais que o geraram. Estavam bem cientes do traumatismo que sofreria seu filho caso se divorciassem.

Deram muitas graças e louvores a Deus quando seis meses depois, tendo ela acolhido aquele presente, aquela marca de amor, que o marido numa entrega da totalidade do seu ser, do seu corpo e alma, correspondido evidentemente por ela, veio a tornar-se grávida em virtude da nova geração de uma pessoa humana. Mais tarde vieram a saber que era uma filha, o que lhes deu também grande regozijo. No entanto, a gravidez foi considerada de risco, uma vez que havia grandes probabilidades de nascimento pré-termo, o que poderia significar um aborto espontâneo. Por isso, o médico ginecologista informou-os, que para garantirem a sobrevivência da bebé, teriam de se abster do acto conjugal, recomendando ainda à mãe repouso e quietação. Esta, não sei ao certo se pela mesma causa começou a sentir enjoos, tédios prolongados, algumas impaciências e acessos de ira desusados, apetites bizarros e outras coisas que deixavam o marido perplexo e abatido. Não só se sentia desamparado por falta daquele apoio que em partilhas íntimas habituais com sua mulher o sossegavam nas suas inquietações, o esclareciam nas confusões e o energizavam nos seus desânimos. Depois, aquele jejum prolongado da entrega corpórea-espiritual no acto conjugal, a que se tinha habituado, provocava-lhe uma aridez, uma secura, um aborrecimento feito rebeldia, embora a procurasse conter.

Ora sucedeu que, em virtude da reorganização laboral da empresa, lhe foi destinada uma colega que, independentemente da sua, dele, vontade o deixou em polvorosa, como que se desencadeou uma híper-produção de hormonas animalescas, instintivas, que o deixou literalmente desvairado. Tudo nela, o mais pequeno gesto, um olhar insignificante, a voz na mais pequena observação o deixava excitado, com um ímpeto, que com enorme esforço refreava, sentia que ela era um imã poderosíssimo que o atraía invencivelmente. Ao sair do trabalho procurava esquecê-la, mas era inútil, pois que ela como que tinha entrado na sua cabeça, na sua imaginação, no seu peito, enfim sentia-se dominado, desejava ser seu escravo.

Um ou outro dia almoçavam juntos com outros colegas, no entanto, sucedeu, que tendo estes de viajar por razões de trabalho, se viram a almoçar só os dois. Ela desabafou mágoas, e como as confidências convidam a confidências também ele acabou por se expandir. Dali brotou uma cumplicidade afectiva que veio a desembocar em fornicações adúlteras. Ele confessava-se, arrependido, ao sacerdote da sua paróquia, tanto mais que continuava a amar perdidamente a mulher e a prole. Este confortava-o, dava-lhe bons conselhos, lembrava-lhe a gravidade do adultério, a ofensa para com Deus, o bem infinito e a alegria total que o esperava no Céu, caso fosse fiel, ou o mal horrendo da condenação eterna no Inferno.

Entretanto sucedeu que a sua concubina engravidou de gémeos. Ela ficou esfuziante, ele assustado, mas passado o impacto conformou-se contente, afinal eram seus filhos, e depois, apesar de em nada, assim o achava, ter diminuído o amor por sua esposa, o afecto que tinha por esta tinha vindo a crescer cada vez mais com o tempo.


Terminada a fase da amamentação da filha de seu casamento, propôs a sua esposa que se divorciassem pelo civil argumentando com as facilidades económicas que lhes trariam vantagens. Tratados os papéis, não passou muito tempo até casar pelo civil com a mãe dos gémeos, entretanto já nascidos. Entendia que tinha deveres imperativos de justiça para com ela e seus filhos, sabendo embora que os tinha também, e em primeiro lugar, para com a esposa e filhos. O sacerdote que antes o admoestava em relação ao adultério passou a sugerir-lhe e a acompanhá-lo nestas decisões. Porque, segundo ele seria uma injúria farisaica considerar que ele vivia, nestas circunstâncias, em adultério. Aliás, aconselhou-o mesmo a viverem todos na mesma casa mantendo a relação carnal com ambas, para não injustiçar nenhuma. A concubina, agora elevada à categoria de esposa, achou muito bem, pois ela sabia que nunca o tinha tido exclusivamente para si. Quanto àquela com quem se matrimoniara, ele não tinha dúvidas de que apesar de ser um choque para ela vir a saber a verdade, amava-o tanto e era tão fiel aos seus juramentos que acabaria por aceitar a solução. O tal padre, confessor dele, que os tinha casado e por quem ela tinha um enorme respeito e amizade fez-lhe uma prédica pessoal sobre a Misericórdia de Deus, aplicando-a ao assunto em questão. Todos ficaram a saber que se poderiam confessar e comungar à vontade, continuando a viver assim e mais ainda vivendo todos numa mesma casa para uma comunhão maior entre toda a família. Entretanto nasceram mais filhos dele e de ambas. Entretanto o Pároco fê-los leitores e ministros da Comunhão e pediu-lhes que fossem padrinhos de baptismo de algumas crianças pobres. Tornou-se, enfim, uma família exemplar que o Papa recebeu no Vaticano, apontando-os como um grande testemunho.