sábado, 17 de setembro de 2016


E para já!…








«O Papa contra Hitler»:

Uma recensão e um pedido


Brad Miner

O que é que Pio XII sabia sobre o regime nazi na Alemanha, e será que fez o suficiente para o combater? Terá feito o suficiente para salvar os judeus de serem massacrados pelos nazis, tanto em Roma e no resto da Europa? Estas e outras questões continuam em aberto, mas podem ser esclarecidas se o Papa Francisco quiser.

O canal National Geographic (NatGeoTV, para os amigos) está a transmitir um novo «ecodrama» chamado «O Papa vs. Hitler», sobre o braço de ferro entre Pio XII e Adolfo Hitler. O filme recorre a uma dúzia de bons historiadores, o principal dos quais é Mark Riebling, autor de «Church of Spies». Outros peritos consultados incluem o padre George W. Rutler, Eric Metaxas e Nigel Jones. Poderia nomeá-los a todos, mas mais vale avançar com a recensão.

Respondendo à primeira questão apresentada em cima: O Papa sabia muito. «O Papa vs. Hitler» demonstra que Pio XII se esforçou por boicotar o regime nazi logo desde o início. E mesmo antes disso, uma vez que, enquanto secretário de estado do Vaticano, foi ele o principal autor de «Mit brennender Sorge» (Com Ardente Preocupação 1937), a única das encíclicas de Pio XI que não foi originalmente publicada em latim. Trata-se de uma forte condenação dos ataques dos nazis à Igreja e aos judeus alemães convertidos ao catolicismo. Mas não diz nada sobre a desapropriação, deportação e detenção de judeus por parte do regime. (O primeiro dos campos de morte começou a operar em 1939).

Houve uma primeira tentativa de assassinato de Hitler, levada a cabo por membros da Abwehr, a divisão de informação do exército alemão. O Papa Pio XII deu-lhe o seu apoio. Mas o plano acabou por não ser bem-sucedido e depois disso as acções do Papa a este respeito tornaram-se mais circunspectas. Na verdade, todas as nobres conspirações contra Hitler falharam.

Nas palavras de Nigel Jones: «É quase como se o Diabo estivesse do seu lado».

Pois… Sim.

Antes, durante e depois da guerra, o Papa Pacelli foi avisado de que quaisquer intervenções mais fortes da sua parte levariam a um aumento das já pesadas restrições contra a Igreja e os católicos nos países ocupados pelos alemães.

Este estilo de programa, claro, mistura imagens de arquivo, especialistas e encenações de eventos históricos. E nesse sentido é um exemplo bem conseguido. A meu ver, é também uma avaliação globalmente positiva de Pio XII. Mas não totalmente. O rabino Shmuley Boteach diz que entre os historiadores existe um «consenso» de que a Shoah (o holocausto) «não poderia ter tido a magnitude» que teve se o Papa tivesse condenado mais firmemente a solução final nazi. O historiador britânico Geoffrey Robertson concorda: «A condenação do Papa teria tido repercussões em todo o mundo».

Não duvido que isso seja verdade, mas uma visita ao Museu Americano do Holocausto em Washington D.C., mostra que os relatos sobre os crimes dos nazis eram frequentemente ignorados ou desvalorizados, tanto pelo New York Times como pela Administração Roosevelt.

Uma boa parte de «O Papa vs. Hitler» lida com as conspirações falhadas contra o Führer, o que é interessante do ponto de vista histórico, embora bastante conhecido, sobretudo no que diz respeito à tentativa mais famosa, com nome de código Valquíria, levada a cabo pelo coronel Claus von Stauffenberg no dia 20 de Julho de 1944. Quase que foi bem-sucedida. Stauffenberg devia ser um católico devoto (os historiadores divergem neste ponto), mas neste caso não recebeu qualquer apoio ou encorajamento do Vaticano. Então porque é que aparece no filme?

Talvez porque na véspera de colocar a mala-bomba perto de Hitler, Stauffenberg foi-se confessar e, segundo Riebling, pediu e recebeu a «Absolvição de São Leão». É a primeira vez que ouço falar de tal coisa: perdão dos pecados antes de uma batalha, dada por vezes a soldados.

Resumindo, parece claro que Pio XII não era «o Papa de Hitler», como tem sido apelidado por alguns.

Mas isso leva-nos à segunda questão: Será que o Papa fez o suficiente para livrar os judeus do genocídio? O rabino Boteach reconhece que o Papa escondeu judeus sempre que possível – em mosteiros e em catacumbas – mas quando centenas de judeus de Roma foram detidos e colocados em comboios para seguir para os campos de morte (de entre os quais apenas uma mão cheia sobreviveu), o Papa não reagiu. Se o Papa tivesse ido à estação e dito aos soldados alemães – entre os quais certamente havia alguns católicos – que estavam a colaborar com um pecado mortal, quais teriam sido as consequências?

Bom, esse é o problema, não é? Na história as coisas ou se fizeram ou não se fizeram e apenas podemos julgar o que aconteceu, não o que poderá ter acontecido.

E isso leva-me ao pedido: Papa Francisco, revele por favor o material de arquivo do pontificado do seu venerável antecessor Eugenio Pacelli relativo aos anos da guerra.

Passei vários anos a fazer investigação para um livro (sobre o qual escreverei mais tarde) nos arquivos da diocese de Nova Iorque e compreendo porque é que o material de arquivo deve ser selado durante um certo período. O fundador do WikiLeaks, Julian Assange, não concorda, porque tem uma visão absolutista de que a verdade nunca deve ser escondida. Isso é um disparate, e não apenas no que diz respeito a dados secretos.

Tanto eu como o meu co-autor (o Sr. Marlin) não pudemos ver vários ficheiros sobre o cardeal John O’Connor, que morreu no ano 2000. Isso pode dever-se ao facto de haver, nesses documentos, afirmações sobre pessoas que ainda estão vivas e que são difamatórias, ou que não são verdade, ou ambos. A regra é esperar 25 anos. Tanto quanto sei, o Vaticano espera 75.

Isso implica reter os arquivos de Pio XII, que morreu em 1958, até 2033. Mas porque não libertar alguns documentos agora? Pelo menos até 1940, com os restantes anos da guerra a serem tornados públicos até 2020? Ajudaria certamente a responder a várias questões e isso é algo que a Igreja deveria querer fazer o mais rapidamente possível.


(Publicado em The Catholic Thing)





quinta-feira, 15 de setembro de 2016

A preguiça mental contra a acção



Cid Alencastro

Pode parecer surpreendente, mas talvez a preguiça, sobretudo a mental, seja a paixão mais frequente em produzir mentecaptos. Habituando-se a não fazer esforço, a não querer enfrentar o ambiente hostil que o rodeia, a nunca lutar — «dá trabalho»… «dá preocupação»… «exige empenho»… «não é comigo»… — a pessoa acaba por ficar meio aparvalhada e deixa-se levar pela televisão, pela moda, pela opinião dos outros, como uma folha seca que o vento carrega para qualquer lado e acaba por ser pisada como inútil e desprezível. É um néscio, um idiota, um imbecil com o qual não se pode contar para nada de sério ou racional.

A preguiça mental costuma exercer forte tirania em relação aos seus escravos, a ponto de estes preferirem qualquer coisa a terem que lutar ou fazer algum esforço. Disseram-me que o colesterol é produzido por gorduras que aderem às faces internas das veias e impedem o sangue de circular normalmente. A imagem é-me muito cómoda para exprimir esse «engorduramento» das veias do pensamento, que impede a irrigação do cérebro pelo sangue vivo e borbulhante da reflexão bem feita, da observação precisa, da análise objectiva da realidade. E, tudo isso, porque pensar pode levar a conclusões desagradáveis, pode ser um convite à luta, ao esforço, em suma, obriga a sair de entre os lençóis mentalmente «engordurados» da preguiça para o campo de batalha. Se as evidências furam os olhos, o melhor é fechá-los para não ver e não ter que sair das prazerosas comodidades interiores da moleza.

Esse gosto mórbido da inacção mental explica que tenha sido possível aos arautos da esquerda ir introduzindo no convívio social das nações, sem oposição proporcionada, as maiores aberrações intelectuais, como a Ideologia de Género, a generalização da matança de inocentes no ventre materno, os horrores da arte moderna; e, na Igreja, a contestação de doutrinas evidentes, a demolição de cerimónias ancestrais belíssimas, de costumes tocantes. São máquinas de opinião pública que vêm despejando sobre as pessoas esses e outros horrores, como certos tubos enormes despejam asfalto numa via de terra para se constituir ali uma estrada, enquanto o «louco» olha para isso com olhar desagradado, mas aparvalhado.

Alguém dirá: mas muitas pessoas não estiveram de acordo com essas novidades malsãs!

O problema é exactamente esse! A grande maioria dos que não estavam de acordo não quis lutar, limitou-se a um choramingo, a exprimir um desagrado. Preferia que não houvesse essas mudanças, mas deixar as suas comodidades interiores para entrar no campo de batalha ideológico, muitas vezes psicológico, isso não! Ante tal omissão, as muralhas da civilização cristã foram sendo derrubadas uma a uma, sem que os habitantes da cidade de Deus se levantassem corajosamente para impedir a entrada dos inimigos. Hoje estes dominam.

Tudo isso é verdade, pode-se ponderar, mas agora já é tarde, o mundo está entregue e muitos pastores transformaram-se em lobos.





sábado, 10 de setembro de 2016


Seminários tradicionais enchem em França:

mas por cada padre ordenado

morrem oito «modernizados»!


Num ambiente de «Igreja jovem» sacerdotes idosos
se vêem extinguir o sonho de uma Igreja dessacralizada e igualitária.

Luis Dufaur

O clero católico «modernizado» está em crise no preciso momento em que o número dos fiéis no mundo aumentou 1,5% no último ano.

Cresce assustadoramente na Europa o número das igrejas que são dessacralizadas e transformadas em hotéis, bares, mesquitas ou museus. Paróquias e até dioceses são fusionadas por falta de clero.

Dom Bernard Podvin, ex-porta-voz da Conferência Episcopal de França, declarou à TV católica KTO, no final de 2014: «Carecemos de vocações… Quando em solo francês são ordenados cem sacerdotes por ano e morrem 800 no mesmo período, a conclusão é evidente. O déficit esta aí, exclamando».

De facto, o desequilíbrio é evidente – comentou o site boulevard Voltaire –, e atinge em cheio a chamada «Igreja conciliar». Mas não é tanto assim para o sector do clero apelidado de «Igreja tradicionalista.

Com efeito, os números dos «tradicionalistas» projectam conclusões também evidentes, porém esperançosas, que sobressaem no meio de um horizonte de devastação.

Continuando com a tendência inaugurada nos tempos do Concílio Vaticano II, acrescenta o site, a França ficará logo sem padres e terá de mandá-los vir de África ou da Ásia.

Já são muitas as paróquias, inclusive em Paris, administradas por um sacerdote de outro continente.

Infografia do jornal «Le Figaro» de Paris
sobre as ordenações em França
Nos últimos 20 anos, o número de sacerdotes diocesanos e religiosos em França caiu
de 29 000 em 1995 para 13 000 hoje, quando em 1970 eram quase 50 000!

A Revolução Francesa inaugurou esse sinistro processo, tendo a sua continuação na crise aberta pelo pós-Concílio Vaticano II.

Em 1789, a França contava com 110 000 sacerdotes para uma população de menos de 12 milhões de habitantes. Hoje tem 13 000 para uma população de quase 67 milhões.

O site fornece dois exemplos. A região de Lozère só tem 35 padres no activo, e apenas cinco deles têm menos de 60 anos. Na região de Creuse, na diocese de Limoges, só restam em actividade sete padres para seis paróquias. Em 2020, essas regiões provavelmente serão desertos religiosos.

A «Igreja Nova» comemora alguns resultados, decepcionantes no todo, mas que inserido no desastre significam algo.

Em 2015, os bispos franceses ordenaram uma centena de seminaristas que estudaram em seminário vazios. A diocese de Vannes ordenou sete sacerdotes em 2016, o seu recorde desde 1968!

Segundo o jornal «Le Figaro» foram 140 ordenações em 2014; 120 (68 diocesanos e 52 de ordens religiosas) em 2015; e perspectiva de 87 para 2016.

O facto notável é que os institutos que proporcionam uma formação inteiramente tradicional não param de crescer. A liturgia dita de São Pio V, em latim, a batina, o rigor da austeridade eclesiástica e o ensino da Igreja de sempre atrai vocações, recruta sacerdotes e congrega fiéis.

Seminário da Fraternidade Sacerdotal São Pedro, em Wigratzbad, 2016,
um dos que forma segundo os estilos tradicionais e enche de candidatos.

Esses sacerdotes segundo o modelo tradicional na sua grandíssima maioria foram ordenados nos últimos anos e constituem 15% do clero francês. E os seminários dos institutos tradicionalistas estão repletos.

Na linha restauradora, estão em formação 140 seminaristas, algo mais de 16% do total dos 840 seminaristas franceses.





segunda-feira, 29 de agosto de 2016


Livro denuncia montagem verde

contra agricultores e pecuaristas


Luis Dufaur

A «Inquisição verde» está activa. Os cientistas honestos e objectivos são as suas vítimas previamente apontadas, julgadas e condenadas sem direito de defesa.

«As questões ambientais não são de causa antropogénica, ou seja, não foram causadas pela acção humana»
: é o que concluiu o jornalista Richard Jakubaszko após longos anos de estudo e análise.

Expôs as suas conclusões num substancioso livro: «CO2, aquecimento e mudanças climáticas: estão nos enganando?»

(DBO Editores Associados, São Paulo, 2015, 287 páginas).

Richard Jakubaszko

O autor explica que «depois de mais de 8 anos estudando a fundo quase todas as ‘acusações’ e ‘ameaças’ dos ambientalistas, em que um mosaico multifacetado de problemas devastadores são divulgados no dia a dia, especialmente através dos media, acabei por me deparar diversas vezes com a aversão humana ao debate de ideias, manifestada por contestações».

Jakubaszko não é o primeiro a fazer esta dolorosa constatação. Já há muitos anos distintos cientistas brasileiros e estrangeiros vêm sofrendo esta «aversão à razão» na própria pele. Até com injusta marginalização pessoal pelos media e órgãos científicos dependentes dos recursos de governos e organismos internacionais.

Este ambientalismo não é outra coisa senão aquilo que nós denunciamos continuadamente no nosso blog: uma metamorfose do velho comunismo falido com a URSS.

Esta metamorfose infiltrou, deturpou e gerou um movimento tingido de «verde» que surpreendeu muitas pessoas que não imaginariam essa ousadia.

A transformação foi levada adiante por velhos militantes vermelhos – marxistas ou análogos – e  «companheiros de estrada» que ficaram desempregados.

Eles souberam adaptar a filosofia socialista-comunista e mascarar o seu linguajar visando sempre a meta utópica de um comunismo anarco-tribal que Marx e os seus seguidores sonharam num auge de intoxicação ideológica.

O substancioso livro do jornalista Richard Jakubaszko
Para tal era preciso que ninguém percebesse a manobra e ninguém bradasse «o rei está nu». Porém, houve quem viu, as denúncias multiplicaram-se e os livros sobre o caso apareceram. O do jornalista Jakubaszko é um dos mais recentes e mais interessantes.

O ambientalismo genuinamente vermelho, mas camuflado de falso verde, escolheu a estrada da «aversão à razão» e do patrulhamento ideológico como é da praxe nos regimes totalitários ou socialistas-comunistas.

«Os grupos ambientalistas exercem patrulhamento e pressão sobre os cépticos, de natureza política e económica impensáveis, dignas dos tempos de difícil convívio humano», escreve Jakubaszko.

A «Inquisição verde» está activa. Os cientistas honestos e objectivos são as suas vítimas previamente apontadas, julgadas e condenadas sem direito de defesa.

Nesse ambiente, a ciência é manipulada e desvirtuada com intuitos ideológicos pela utopia marxista e por os seus postuladores habilmente infiltrados em órgãos públicos e internacionais, além de ONGs militantes e nos media.

Este activismo não fica por aí.

«Todavia, ignorando dificuldades e realidades que trazem à sociedade em geral, diante das suas acções, explica o autor do livro que comentamos, as entidades ambientalistas e ONGs estão sempre preparando um novo tratado que se anuncia cada vez mais radical com base no propalado aquecimento global».

E Jakubaszko testemunha: «uma das principais acusações que provocaram contrariedades na minha óptica de perceber e avaliar a questão ambiental está no comportamento das ONGs e de alguns dos meus colegas jornalistas que, de forma insistente e até mesmo radical, continuam a culpar os produtores rurais como os principais criminosos ambientais do planeta. (…)

«Mas além dessa falsa acusação contra agricultores e pecuaristas somam-se outras, como a prática de trabalho escravo, trabalho infantil, contaminação do solo, dos rios e dos alimentos por uso de agro-tóxicos e fertilizantes, além do derrube de árvores».

Vermelhos e verdes visam mesmo objectivo.
Ambientalistas e «movimentos sociais» contra
o progresso da agro-pecuária.
 
Em termos nossos, é a velha pregação da luta de classes contra os patrões feita outrora pela «vanguarda do proletariado» e hoje por certas ONGs militantes que se arrogam a representação dos estratos inferiores da organização material para condenar os superiores.

«No transcorrer das páginas deste livro procuro dar respostas a essas acusações, algumas procedentes, apesar de serem excepções, mas a maioria delas levianas e infundadas, pois mostram visões urbanas daquilo que seja o produtor rural brasileiro, considerado uma espécie de Jeca Tatu moderno, ainda inculto, mas que enriqueceu às burras e que continuaria ganancioso».

O livro do jornalista Richard Jakubaszko apresenta uma densa e qualificada documentação das melhores fontes brasileiras, entre os quais se destacam os professores Luiz Carlos Baldicero Molion e José Carlos Parente de Oliveira.

É uma obra indispensável para quem queira manter uma visão da realidade verdadeiramente despoluída de slogans e distorções eco-radicais e sustentar o seu pensamento com informações verdadeiramente científicas, objectivamente apresentadas e raciocinadas.

«CO2, aquecimento e mudanças climáticas: estão nos enganando?» (DBO Editores Associados, São Paulo, 2015, 287 páginas) está à venda apenas pela internet ou por telefone (11 3879.7099) e retirado pessoalmente na DBO Editores, ou pelo e-mail co2clima@gmail.com. Preço: R$ 30,00 mais despesas postais (em média de 8,00 para qualquer ponto do Brasil).


Veja mais: https://www.youtube.com/watch?v=S4rW5d9UlI0





segunda-feira, 22 de agosto de 2016


Salazar, 48 anos depois


Helena Matos, Observador, 3 de Agosto de 2016

Os nossos líderes quiseram acreditar que bastava dizerem-se anti-salazarista para serem melhores portugueses e saberem o que era melhor para Portugal. Não bastava, como se viu e como se vê.

Quarenta e oito anos depois de Salazar ter saído de cena onde estamos? A quem viveu o PREC basta fazer as contas e perceber que levamos sem Salazar aquele número mágico dos 48 anos que, em 1974, tudo explicavam: era a longa noite dos 48 anos do fascismo, os 48 anos de opressão, os 48 anos de miséria… num crescendo em que os 48 anos pareciam um século.

Salazar morreu oficialmente há 46 anos, a 27 de Julho de 1970. Mas a sua morte política teve lugar dois anos antes quando, no dia 3 de Agosto de 1968, caiu no Forte de Santo António. As histórias da História registam uma queda acidental numa cadeira de lona como a causa do processo que levaria, em Setembro desse mesmo ano de 1968, ao seu afastamento do cargo de Presidente do Conselho.

Para a oposição, cujos líderes eram então jovens, a imagem de Salazar a estatelar-se de costas, era mais um episódio da decrepitude que eles achavam que nunca iriam sofrer. Para o regime a queda da cadeira foi também uma história conveniente pois, caso a queda não tivesse sido acidental, haveria que reconhecer que ela era apenas o culminar de uma doença de que Salazar já dera sinais no Conselho de Ministros que tivera lugar a 12 de Junho de 1968. Nesse Conselho de Ministros, segundo recorda Franco Nogueira, um Presidente do Conselho fisicamente debilitado repetiu, sem aparentar qualquer consciência disso, parte da intervenção que fizera no dia anterior.

Reconhecer que Salazar estivera quase três meses (de 12 Junho – quando ocorre o conselho de ministros em que Salazar manifestamente mostra um quadro de alguma confusão – a 6 de Setembro, quando é hospitalizado) já intelectualmente diminuído em funções era per si embaraçoso mas para cúmulo nesse período, ou mais precisamente a 19 de Agosto, Salazar remodelara o Governo, mexendo em pastas tão importantes quanto o Exército, Marinha, Educação e Finanças. Assim a queda acidental na cadeira tornou-se a versão conveniente para todas as partes.

Mas tenha sido acidente ou sinal de doença, a queda da cadeira nesse Agosto de 1968 é o princípio da morte de Salazar. Rapidamente o salazarismo, que nunca foi uma ideologia, arreigou-se como uma espécie de nostalgia tão mais tranquila quanto garantidamente a tal tempo e modo de viver não se pode regressar e presumo que ninguém verdadeiramente o queira, a começar pelos próprios salazaristas.

Ao lado deste «salazarismo-produto da nostalgia» emprateleirado entre artigos tradicionais que tal como o salazarismo ninguém usa, impôs-se vigorosamente o anti-salazarismo. Durante décadas da nossa democracia, tudo em Portugal foi bom ou mau consoante fosse, ou não, apresentado como salazarista ou «do tempo de Salazar». As mais prosaicas leis ou até simples regulamentos de cargas e descargas ganhavam estatuto de mudança urgente caso alguém descobrisse que tinham sido rubricados por Salazar.

(Quando os tempos impuseram que se gostasse do que, por sinal muito erradamente, fora sendo associado a Salazar – casos do fado, do futebol e também de Fátima – rapidamente se conferiu a esses até aí pilares do salazarismo a aura da expressão popular e da resistência ao Portugal de Salazar. Dada a rapidez das mudanças do campo «do pilar do salazarismo» para o «da resistência ao Portugal de Salazar», espero pelo Verão, certamente próximo, em que veremos a «Cantiga da boa gente» a ser estudada nos acampamentos do BE como «manifesto alternativo feminino qualquer coisa».)


O estatuto de anti-salazarista tornou-se num dos maiores paradoxos da democracia portuguesa: o facto de se ter feito equivaler anti-salazarismo a combate pela liberdade levou a que terroristas, ladrões, violadores e orgulhosos servidores de regimes totalitários estrangeiros (a que alguns até transmitiram informações militares) acabassem a ser apresentados como defensores da democracia, regime que alguns dos anti-salazaristas abominavam ainda mais que Salazar.

Se esta identificação entre anti-salazarismo e liberdade gera equívocos quando falamos do período em que Salazar esteve no governo (1928-1968), para o período da I República o resultado é anedótico pois pretende-se que os líderes da I República não só estavam imbuídos de um presciente anti-salazarismo como que o próprio regime republicano se regia pelas regras institucionais nossas contemporâneas. Resultado: assuntos como a repressão das greves na I República – que nesta versão dos factos não é suposto ter acontecido – e o voto das mulheres no Estado Novo – sim, no Estado Novo, para grande irritação da oposição, as mulheres passaram, embora com limitações, a poder votar e ser eleitas – acabam a causar a maior estranheza e incompreensão. A guerra que Portugal travou entre 1961 e 1974 em África é adjectivada como colonial porque decidida por Salazar. Já o esforço militar que Portugal travou em África durante a I Guerra é apresentado como defesa patriótica dos territórios ultramarinos.

Avaliar o passado em função da posição tomada por Salazar em cada contexto leva-nos a paradoxos como os atrás enumerados e, ironicamente, exime Salazar daquelas que são as suas óbvias responsabilidades políticas. Afinal Salazar, como muitos dos líderes não democráticos que se acreditam intelectual e moralmente muito acima dos seus contemporâneos, sejam eles seus apoiantes ou opositores, conduziu o regime que edificara para um beco sem saída ou de que a única saída seria um golpe.

Daqui resultou o inevitável: a natureza autoritária do regime condenava Portugal a ficar, mais cedo ou mais tarde, politicamente nas mãos dos militares o que no caso do então Ultramar seria trágico pois ao reprimir a formação de líderes políticos no âmbito partidário, o regime deixou o lugar de representantes daqueles territórios para os líderes dos auto-denominados movimentos de libertação que de libertação nada tinham e a quem, sobretudo no caso de Angola e São Tomé, faltava muito para serem movimentos fosse do que fosse.

Os moldes em que decorreu aquilo a que se chama descolonização resultam assim não de uma derrota militar mas sim da natureza ditatorial do Estado Novo – sem líderes políticos fortes no então Ultramar (não os havia nem os podia haver porque o regime não o permitia) o destino daqueles territórios e de quem neles habitava acabou como tinha acabar: a ser decidido, em 1974, em reuniões e plenários de oficiais, sargentos e praças. Naquilo a que então se chamava metrópole o desfecho foi outro porque nestas coisas a Geografia conta e os EUA (nessa época) também.

A democracia recuperou Salazar. O homem que o marcelismo progressivamente afastara de cena em 1968 e enterrara em 1970, que pouco a pouco fora ficando reduzido a umas breves notícias sobre a fundação que levava o seu nome e a missas por sua intenção voltou ao centro da retórica política. Afinal, descobria a nomenclatura do novo regime, era difícil viver retoricamente sem Salazar. Sem o poder culpar. Sem o poder julgar. Sem o poder invocar… E assim ao longo destes 48 anos tivemos o salazarista, o anti-salazarista e por fim o salazarento que até rima com bafiento.

Mas agora que a máquina fiscal detém mais informação sobre as nossas vidas do que a PIDE alguma vez conseguiu sobre os cidadãos, mesmo os que caíam na sua alçada, agora que já vimos como a decrepitude física e intelectual chega a todos, agora que estamos a caminho de mais uma falência, agora que os populismos tomaram conta da agenda, é mais que chegado o tempo de nos confrontarmos com o óbvio: boa parte da mediocridade do nosso presente e muitos dos nossos actuais bloqueios nascem do facto de boa parte dos líderes da nossa democracia e das nossas elites terem acreditado e feito acreditar que bastava declararem-se anti-salazarista para serem melhores portugueses e saberem o que era melhor para Portugal. Não bastava, como se viu e como se vê.





sexta-feira, 5 de agosto de 2016

terça-feira, 2 de agosto de 2016

sábado, 30 de julho de 2016


O Bergoglio diz que não...

Nice: prossegue a guerra de religião




Roberto de Mattei, Il Tempo, 16 de Julho de 2016

O Papa Francisco tinha razão quando há mais de um ano afirmou que a Terceira Guerra Mundial já havia começado e que está sendo travada «em fragmentos». Mas é preciso acrescentar que se trata de uma guerra de religião, pois os motivos dos que a declararam são religiosos e até os homicídios perpetrados em seu nome são de índole ritual.

Francisco qualificou o massacre de Nice de acto de violência cega. Ora, a fúria homicida que induziu o condutor do caminhão a semear a morte na orla marítima não foi um acto irracional de loucura, mas fruto de uma religião que incita ao ódio e instiga à violência. Os mesmos motivos religiosos desencadearam as carnificinas do Bataclan de Paris, dos aeroportos de Bruxelas e Istambul e do restaurante de Dacca. Por mais bárbaros que tenham sido esses atentados, nenhum deles foi cego, mas foi parte de um plano lucidamente exposto pelo Estado Islâmico nos seus documentos.

O porta-voz do EI, Abu al-Adnani, numa gravação difundida pelo Twitter em fins de Maio, lançou um apelo ao assassinato na Europa em nome de Alá, com estas palavras: «Quebra-lhe a cabeça com uma pedra, assassina-o a facadas,  atropela-o, atira-o de um lugar elevado, estrangula-o ou envenena-o.» E o Corão não se expressa de modo diverso ao falar dos infiéis. O que sim constitui sintoma de loucura cega é continuar fechando os olhos para esta realidade.

É uma ilusão crer que a guerra ora travada não foi declarada pelo Islão ao Ocidente, mas que é uma guerra intestina do mundo muçulmano, e que a única forma de se salvar é ajudando o Islão moderado a derrotar o fundamentalista. Mas falar de Islão moderado é cair em contradição, porque os maometanos que se secularizam e se integram na sociedade ocidental deixam de ser muçulmanos, ou se tornam muçulmanos não observantes ou maus muçulmanos. Um verdadeiro muçulmano pode renunciar à violência por oportunismo, mas sempre considerará legítimo fazer uso dela contra os infiéis, porque assim ensina Maomé.

A guerra actualmente em curso é uma guerra contra o Ocidente, mas também contra o cristianismo, porque o Islão quer substituir a religião de Cristo pela de Maomé. Por isso, o objectivo final da sua conquista não é Paris nem Nova York, mas Roma, centro da única religião que o Islão se propõe aniquilar desde a sua origem. A guerra contra Roma remonta ao nascimento do próprio Islão, no século VIII. Roma era o objectivo dos árabes que em 830 e 846 ocuparam, saquearam e depois se viram obrigados a abandonar a Cidade Eterna. Roma era o ponto de mira dos muçulmanos que em 1480 decapitaram os 800 cristãos de Otranto e degolaram os nossos compatriotas em Dacca em 2016.

Trata-se de uma guerra religiosa, declarada pelo EI à irreligiosidade ocidental e à sua religião, que é o cristianismo. E à medida que este se seculariza, vai abrindo caminho para o seu adversário, que só pode ser derrotado por uma sociedade com uma identidade religiosa e cultural forte. Como observa o historiador inglês Christopher Dawson, o factor de coesão de uma sociedade e de uma cultura é o impulso religioso: «As grandes civilizações não dão à luz as grandes religiões como uma espécie de subproduto cultural; as grandes religiões são a base sobre as quais se sustentam as grandes civilizações. Uma sociedade que perdeu a sua religião está fadada a perder cedo ou tarde a sua cultura.»

Esta guerra religiosa já é uma guerra civil europeia, porque se combate no interior das nações e das cidades de um continente invadido por milhões de imigrantes. Ouve-se com frequência que, face à invasão, devemos construir pontes em vez de levantar muros; mas só se defende uma fortaleza sitiada subindo a ponte levadiça, e não baixando. Alguns começam a dar-se conta.

As autoridades francesas previram a irrupção de uma guerra civil destinada a ser travada antes de tudo no interior dos grandes centros urbanos, onde a multiculturalidade impôs a impossível convivência de grupos étnicos e religiosos diversos. Em 1 de Junho passado, um comunicado do Estado-Maior francês anunciou oficialmente a criação de uma força convencional do Exército, o Comando terrestre para o território nacional (COM TN), destinado a combater a jihad em território francês. Baptizado de Au contact, o novo modelo estratégico compõe-se de duas divisões sob um comando único, com um total de aproximadamente 77 mil homens dispostos a enfrentar o perigo de uma insurreição islâmica.

Ante esse perigo, além das armas materiais, utilizadas em todo o conflito para exterminar o inimigo, são também e sobretudo necessárias as armas culturais e morais, consistentes na consciência de que somos herdeiros de uma grande civilização que definiu a sua identidade ao longo dos séculos precisamente combatendo o Islão. Instamos respeitosamente o Papa Francisco, Vigário de Cristo, a ser o porta-voz da nossa história e da nossa tradição cristã face ao perigo que nos ameaça.






A Amoris laetitia abre os braços da Igreja

e da sociedade para a demolição programada

do casamento e da família


Apelo aos bispos, aos sacerdotes
e aos movimentos de leigos silenciosos

http://ipco.org.br/ipco/wp-content/uploads/2016/07/Amoris-laetitia-IPCO.pdf







Bispos polacos contra Bergoglio

Isto está a aquecer...


TEXTO EM INGLÊS: http://www.thetablet.co.uk/news/5920/0/polish-bishops-vow-to-refuse-communion-to-divorced-and-remarrieds


TRADUÇÃO AUTOMÁTICA:

Bispos polacos prometem se recusar
a comunhão a divorciados e recasados

Christopher Lamb, The Tablet, 28 de Julho de 2016

Anúncio destaca as tensões entre Francis e hierarquia do polonês após o porta fechada reunião ontem à noite.

Um bispo sênior disse que a Igreja na Polónia irá se recusar a comunhão aos católicos divorciados e recasados, apesar de o documento marco da família do papa Francis, que abriu a possibilidade.

Arcebispo Stanislaw Gadecki, o Presidente da Conferência Episcopal Polaca ', disse que dar a comunhão não pode ser autorizada após um período de discernimento pastoral - algo que Francis tem defendido - acrescentando que, se os divorciados recasados ​​teve um primeiro casamento válido eles não podem receber a Eucaristia.

As declarações foram feitas poucas horas após a chegada do Papa em Cracóvia para um encontro mundial de jovens católicos e destacou as tensões entre a hierarquia de Francis e na Polónia. "Este [comunhão para divorciados novamente casados] não pode ser resolvido em um confessionário em dois minutos ou mesmo um par de anos ", o arcebispo disse aos jornalistas em uma coletiva de ontem à noite. "Este é um caminho para os sacerdotes e os leigos a caminhar juntos sabendo que, se um casamento tem sido validamente celebrado não há motivo para administrar a comunhão aos divorciados recasados.

"O arcebispo citou documento de João Paulo II sobre a família - onde a comunhão para divorciados novamente casados ​​foi efetivamente excluída -. ​​E disse que o texto de Francisco, emitido na sequência de duas reuniões sinodais, tinha tomado em consideração as recomendações da hierarquia Polish  Estes, acrescentou, " reter a verdade do evangelho que não podemos deliberadamente ultrapassar preceito de Cristo contra o divórcio ".

Arcebispo Gadecki também apontou para o desejo de Francisco para as igrejas locais para ter uma palavra a dizer:  "O Santo Padre diz que as leis gerais são muito difíceis de cumprir em cada país - o Papa fala sobre a descentralização, ou seja, as conferências em países individuais podem interpretar encíclicas papais olhando para suas próprias situações religiosas e culturais ", disse o arcebispo Gadecki em um briefing a jornalistas na noite passada.

No dia da sua chegada, o Papa teve um encontro de portas fechadas com os bispos, onde há discursos foram feitas - no passado Francis usou tais reuniões no México e nos Estados Unidos a censurar hierarquias nacionais. Mas, dado que o legado do seu antecessor polonês João Paulo II se agiganta durante a sua visita, o Papa procurou evitar quaisquer confrontos públicos.

Durante sua visita à Polônia Francis citou regularmente João Paulo II e na noite passada repetiu a frase palavra de ordem do papado Wojtyla - "não tenha medo" - ao cumprimentar uma multidão de jovens. A figura de João Paulo II também paira sobre a visita papal à Polônia dado que Francis é aqui para o Dia Mundial da Juventude, um evento criado pelo Papa polonês.

Esta manhã Francis viajou para Czestochowa, cerca de 90 milhas de Cracóvia, para marcar o 1050 aniversário do que é conhecido como o Baptismo da Polónia. Lá, ele orou em frente à famosa imagem da Virgem Negra, no mosteiro de Jasna Gora e depois celebrou uma missa ao ar livre para centenas de milhares se reuniram em frente.


Houve uma grande preocupação durante a procissão de entrada quando o Papa tropeçou e caiu no chão, enquanto ainda segurando o turíbulo. Mas ele foi ajudado a se levantar e foi bem o suficiente para continuar com a celebração da missa, sem assistência médica.  Durante a homilia, o Papa disse que Deus não é algo que nos livros de história, mas uma realidade concreta na vida das pessoas.  "O Senhor não quer a ser temido como um soberano poderoso e distante. Ele não quer manter-se no seu trono no céu ou nos livros de história ".

Esta tarde ele vai voltar para Cracóvia para saudar oficialmente os cerca de 400.000 jovens católicos que se reuniram para o evento que está sendo acompanhado por cerca de 800 bispos e 70 cardeais.  Na sexta-feira ele vai viajar para o local do antigo campo de concentração nazista de Auschwitz, onde vai orar em silêncio e se reunir com alguns sobreviventes do Holocausto.

O Tablet Roma Correspondente Christopher Lamb está em Cracóvia para o Dia Mundial da Juventude





segunda-feira, 25 de julho de 2016


Quem irá escrever o futuro de França?


Daniel Pipes, Washington Times, 7 de Junho de 2016

Dois romances franceses de grande repercussão, diferentes quanto ao tom e ao timing, retratam duas influentes visões de França no futuro. Não se trata apenas de boa leitura (ambos já foram traduzidos para o inglês), juntos estimulam o pensamento sobre a crise da imigração no país e as mudanças culturais.

Jean Raspail (1925-) imagina a invasão racial vinda pelo mar, por meio de jangadas e botes partindo do subcontinente indiano navegando vagarosamente, inexoravelmente rumo ao Sul de França. No Le Camp des Saints (O Campo dos Santos, 1973), primordialmente documenta a impotente reacção francesa, tomada pelo pânico, à medida que a horda (palavra usada 34 vezes) «continua engrossando ainda mais as suas fileiras».

É uma perfeita fantasia anti-utópica sobre a raça branca e a vida europeia que corresponde aos receios articulados por ninguém menos que Charles de Gaulle, o principal político de França pós-guerra, que dava cordial acolhimento a cidadãos franceses não brancos, «desde que permanecessem uma pequena minoria. Senão, a França deixará de ser a França. Afinal de contas, somos todos, acima de tudo, um povo europeu de raça branca».

Camp também antecipa a noção da «Grande Substituição» (Le Grand Remplacement) conceptualizada pelo intelectual francês Renaud Camus, que antecipa a rápida substituição «do histórico povo do nosso país por povos de origem imigratória que são em grande medida não europeus». É o mesmo receio, a grosso modo – dos imigrantes passarem o povo francês autóctone para segundo plano e apoderarem-se do país – que inspira o partido Frente Nacional, que já atinge índices de 30% dos votos nas pesquisas de opinião e continua crescendo.

Michel Houellebecq (1956-) conta a história, não de um país (França), mas de um indivíduo (François) em estado de Soumission (Submissão, 2015). François é um professor já cansado, decadente, do movimento decadente da literatura francesa. Não tem família, amigos nem ambição; embora tenha somente quarenta e poucos anos, a sua vontade de viver deteriorou-se e chegou ao tédio a ponto de se alimentar de pratos prontos e uma sucessão de troca de parceiros sexuais.

Quando um político muçulmano, ostensivamente moderado, inesperadamente se tornar presidente de França em 2022, uma série de mudanças radicais na vida francesa tomarão forma rapidamente. Numa guinada, o que começa de forma sinistra (um corpo num posto de gasolina) mais do que depressa se torna em algo bom (deliciosa comida do Médio Oriente). Atraído por uma boa e recompensadora oferta de trabalho com a vantagem de poder conhecer e casar com várias estudantes, todas cobertas com véus, François imediatamente abandona os seus antigos costumes e converte-se ao Islão, que lhe promete recompensas de uma vida sumptuosa, exótica e patriarcal.

Se por um lado o romance de 1973 nunca menciona a palavra Islão ou muçulmano, em contrapartida o romance de 2015 adapta-se às duas – começando pelo título: Islão que em árabe significa «submissão». Da mesma forma, o primeiro livro tem como foco a raça enquanto o segundo praticamente não toma conhecimento dela (a prostituta favorita de François é do Norte de África). A tomada do poder da primeira obra termina de forma diabólica, a outra de forma agradável. O primeiro livro é um tratado político apocalíptico disfarçado de entretenimento, o segundo apresenta uma visão literária e sardónica no tocante à perda de força de vontade sem também expressar qualquer ânimo em relação ao Islão ou aos muçulmanos. O primeiro documenta uma agressão o segundo um consolo.

Os romances capturam duas importantes e praticamente contraditórias correntes do pós-guerra: a atracção exercida pela Europa livre e rica nos povos remotos e empobrecidos, principalmente muçulmanos; e a atracção de um Islão vigoroso em vez de uma Europa pós-cristã enfraquecida. Em ambos os casos, a Europa – apenas 7% do território mundial, contudo a região dominante por cinco séculos, de 1450 a 1950 – está prestes a perder os seus costumes, cultura e convenções sociais, tornando-se uma mera extensão ou até dependente do Norte de África.

Os romances sugerem que a alarmante preocupação expressada há décadas (multidões de pessoas furiosas e violentas de pele escura) tornam-se um lugar comum e até benignas (as universidades do Médio Oriente pagam salários mais altos). Sugerem que o clima de pânico já passou, sendo substituído por uma época de graciosa capitulação.

Camp causou furor na Direita quando do lançamento do livro, os dois livros, no entanto, abordam temores muito mais disseminados nos dias de hoje; a republicação de Camp em 2011 saltou para o topo da lista de best sellers em França e Submissão  simultaneamente tornou-se o best seller n.º 1 quatro anos depois em França, Itália e Alemanha.

Um hiato de quarenta anos separa os dois livros; se saltarmos mais 42 anos, que tipo de história poderá contar um romance futurista publicado em 2057? Intelectuais como Oriana Fallaci, Bat Ye'or e Mark Steyn assumiriam a vitória do Islão e a caça aos poucos remanescentes franceses da fé cristã. A minha previsão, no entanto, é praticamente contrária a essa: um relato que assume o fracasso da grande substituição de Camus, imaginando a violenta repressão aos muçulmanos (nas palavras de Claire Berlinski) «libertando os franceses da ofuscação da História europeia» acompanhada pela reafirmação nativista francesa.

Original em inglês: Who Will Write France's Future?

Tradução: Joseph Skilnik