sábado, 22 de outubro de 2016


Progressistas pela moral e contra os vícios


Maria João Marques, Observador, 19 de Outubro de 2016

Credo, os religiosos ambientalistas não se querem confundir com os religiosos católicos, que esses são ultramontanos e rústicos. Que proponham exactamente o mesmo é um mero pormenor.

A literatura é um instrumento muito útil para percebermos o mundo ou, o que vai dar ao mesmo, a natureza humana. Dou um exemplo: para entendermos as hordas moderníssimas e progressistas actuais, Mr. Henry Spoffard dá-nos uma bestial ajuda.

Apresento-vos Mr. Henry Spoffard. Filho de uma família antiga e piedosa de Filadélfia, tinha uma importante missão no mundo: manter a moralidade do bom povo americano, por via de o afastar coercivamente das tentações que o encarrilhariam no caminho do pecado. Mr. Henry Spoffard acreditava em manter a pureza dos outros mesmo, ou sobretudo, contra a vontade desses outros. Foi criado por Anita Loos, diz-se que inspirado num censor de Hollywood com que a autora embateu, para um dos romances mais divertidos do século XX americano: Gentlemen Prefer Blondes. E vinha na tradição dos moralistas anteriores: a sua grande causa de escândalo eram as transgressões sexuais das endiabradas sociedades.

Noventa anos depois do debute no mundo de Mr. Henry Spoffard, felizmente os assuntos de cama – excepto os que atropelam a liberdade sexual de cada indivíduo, também conhecidos por violações ou abusos sexuais – já são vistos como estando fora da esfera opinativa (e punitiva) dos abelhudos moralistas. Mas, para a troca, temos um rol infindável de puritanos, expansionistas militantes da sua moral estrita, em todas as questões alheias à sexualidade. Infelizmente nem têm o benefício de Mr. Henry Spoffard – o de ser ficcional, claro.

Vejamos os religiosos do aquecimento global, por exemplo. E em minha defesa – antes que me excomunguem – digo já que sou bastante sovina, e poupada, no que toca a bens isentos de qualidades estéticas como gasolina e electricidade, e que tenho uma forte paranoia com a reciclagem e reutilização de uns tantos materiais. Mas, lá está, falta-me o fervor religioso.

A incitação para que as populações se abstenham de consumir, um exemplo, costuma mergulhar-me na vontade de praticar vudu contra os detentores de tal opinião. Não (ou sim, mas de maneira diferente) que estejam preocupados ser mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha que um rico entrar no reino dos céus. Credo, os religiosos ambientalistas não se querem confundir com os religiosos católicos, que esses são ultramontanos e rústicos. Que proponham exactamente o mesmo é um mero pormenor. As motivações são muito mais nobres que essas tretas de não nos deixarmos escravizar pelos bens materiais. Os ecofanáticos defendem que se extermine o consumo (e, de caminho, o bem estar das populações) para poupar os recursos do planeta (estes religiosos nunca leram Malthus) e para não causar poluição com transportes de mercadorias.

Outro tipo de moralista, bem mais perigoso, é o purista sanitário. Pode-se praticar sexo à vontade, felizmente está estabelecido, e uma ou outra consequência para a saúde ou para a vida (uns sopapos do cônjuge enganado, por exemplo) devem ser encarados com bonomia, que as pulsões sexuais são fortes e difíceis de conter.

Mas não há cá complacência com o álcool (já os antigos diziam que era o pai de todos os vícios, e os antigos alguma vez haviam de ter razão), ousar ter a comida bem apaladada com sal (as pessoas puras de corpo e alma não têm de lhe pagar os comprimidos para a tensão arterial) ou beber refrigerantes açucarados (agora que já se verificou que afinal o colesterol e a gordura não causam o apocalipse humano que os médicos prometeram, teve de se encontrar novo inimigo para atormentar as populações e viraram-se para o açúcar, o novo supervilão; até, claro, dentro de uns anos se reconhecer que o açúcar é essencial para um bom desenvolvimento cerebral das crianças, entre outras maravilhas que então o açúcar de súbito conquistará).

Fumar, esse hábito decadente, devia ser tipificado no código penal ao lado de, pelo menos, uma agressão agravada. Ou, em alternativa, sentenciado sumariamente a internamentos compulsivos de seis meses numa colónia vegan. Só pessoas muito depravadas fumam.

Sem surpresa, o método preferido para estes moralistas obrigarem os celerados hipertensos, chaminés e sucedâneos de Winston Churchill a reformarem-se são os impostos. Inevitavelmente, abundam à esquerda – e acabaram de aprovar impostos sobre estes vícios imorais. Afinal pagamos tão poucos impostos agora, era mesmo muita lata nossa exigirmos um SNS a acudir às doenças em vez de, sei lá, um SNS para pagar mais aos profissionais de saúde por via das 35 horas. (E quando digo esquerda incluo, evidentemente, parte da anterior coligação que sonhava com o mesmo entusiasmo com estas medidas.)

Voltando a Mr. Henry Spoffard, como descreveu Anita Loos na sequela But Gentlemen Marry Brunettes, «ele não se importava verdadeiramente o que uma rapariga tinha feito, desde que ela não se divertisse no final […] se raparigas como Dorothy não pagassem, e pagassem, como conseguiriam ter as pessoas morais a satisfação de as ver sofrer. E o que aconteceria à Cristandade?» É acautelamo-nos, porque enquanto estes moralistas não sentenciarem que já tivemos dolorosa penitência por aquele gin tónico com frutos silvestres, não descansarão as garras.


Nota: nos comentários ao meu último texto, um ex-secretário de Estado de Guterres, Francisco Seixas da Costa, rebateu – com uma (in)exatidão factual proporcional à (des)elegância argumentativa – que o episódio com Pina Moura afinal se passara com Manuela Arcanjo (e que eu isto e aquilo). Ora é falso. Pina Moura estava, como ministro das Finanças, na AR a defender o orçamento rectificativo a 29 de Junho de 2001 quando se soube do seu afastamento (aqui uma notícia do meio do dia confirmando a substituição). Manuela Arcanjo saiu na mesma altura do Governo, proferindo cobras e lagartos de Guterres, mas com um processo diferente.






Pedofilia no clero, uma crise moral e doutrinária.


Roberto de Mattei

O diário «Il Tempo», de Roma, dirigido por Gian Marco Chiocci, publicou no dia 8 de Outubro uma ampla reportagem dedicada à difusão da pedofilia no clero italiano. Triste fenómeno, que resultou em 130 sacerdotes condenados e 100 processados. Para erradicá-lo, o padre Nicola Bux declarou em entrevista ao referido quotidiano que «é preciso ter a coragem de dizer que a pedofilia é conexa à homossexualidade. Todos o negam, mas os estudiosos e especialistas afirmam que é assim». Reportamo-nos à contribuição de Roberto de Mattei publicada em «Il Tempo» sob o título Crise moral e doutrinária.

* * *

A difusão da pedofilia no clero é uma das muitas manifestações da profunda crise moral que explodiu nas últimas décadas dentro da Igreja. Bento XVI, que na Via Crucis de 2005 denunciou a «sujeira na Igreja», sempre se expressou por uma linha extremamente rigorosa contra os abusos do clero, sublinhando a urgência de uma reforma moral da Igreja. Entre as suas muitas declarações nesse sentido, destaca-se a Carta aos católicos da Irlanda, de 19 de Março de 2010.


Às vezes, porém, a pedofilia é utilizada instrumentalmente para desqualificar o clero como um todo, e propor a abolição do celibato como solução para o problema. Na verdade, a pedofilia não afecta senão uma parte mínima do clero, e os casos de padres pedófilos não nos devem fazer esquecer a existência de sacerdotes acusados falsamente, como o padre Giorgio Govoni, pároco da Bassa Modenese, acusado por um assistente social no final dos anos noventa de liderar um grupo de «satanistas pedófilos». O Supremo Tribunal confirmou em 2002 a decisão do Tribunal de Recurso de Bolonha, segundo o qual o sacerdote havia sido difamado injustamente. Mas o padre Govoni, atingido pela vergonha, morreu em 19 de Maio de 2000 de ataque cardíaco, no escritório do seu advogado.

Além disso, segundo o sociólogo Philip Jenkins, um dos principais estudiosos da pedofilia no clero, a taxa de padres condenados por abuso infantil varia, de acordo com as áreas geográficas, de 0,2% a 1,7% do total, enquanto que para ministros protestantes ela é de 2 a 3%. Nos Estados Unidos, em particular, a presença de pedófilos entre os pastores protestantes supera de duas a dez vezes aquela existente entre padres católicos.

A estatística é importante, porque o facto de os pastores protestantes serem quase todos casados demonstra que o problema não reside de modo algum no celibato dos sacerdotes. Outro estudo da John Jay College of Criminal Justice da City University of New York, citado pelo sociólogo Massimo Introvigne, afirma que mais de 80% dos padres incriminados por pedofilia são de orientação homossexual.

Isso não estabelece a equivalência entre homossexualidade e pedofilia, mas confirma que a solução do problema não está no casamento dos padres. Deve também ser dito que dentro da Igreja Católica se espalhou uma cultura hedonista e relativista, existindo hoje seminários, faculdades de teologia e instituições religiosas nas quais a homossexualidade, ou pelo menos uma tendência homossexual, é considerada irrelevante do ponto de vista moral e pacificamente tolerada. Mas as práticas homossexuais, que ao contrário da pedofilia não são crime na maioria dos países, continuam a ser um grave pecado para a Igreja Católica e a sua propagação no interior do clero deveria provocar na hierarquia eclesiástica um alarme que tem faltado.

O verdadeiro problema reside no facto de a crise moral da Igreja vir acompanhada de uma crise doutrinária. A Igreja, em vez de converter o mundo com a lei do Evangelho, parece querer adaptar o Evangelho às exigências do mundo. É o caminho que parece indicar a Exortação Amoris laetitia do Papa Francisco, cujo equívoco de fundo está na ilusão de que, acolhendo com «misericórdia» as tendências amorais da cultura contemporânea, será a sociedade, e não a Igreja, quem vai renunciar à sua identidade.






segunda-feira, 10 de outubro de 2016


Pilares da islamização da Turquia:

Escolas, mesquitas e prisões


Burak Bekdil, The Gatestone Institute

A Turquia tem duas vezes mais mesquitas per capita
do que o Irão

(Tradução automática no fim)

One way the rise of Islamist authoritarianism in a country can be seen is by the rise in the number of mosques, religious schools and prisons – coupled with a sharp decline in the quality of education. Turkey is no exception.

Most recently, the Turkish government said that it would build 174 new prisons, increasing capacity by 100,000 convicts. This is Turkey's reply to complaints that six convicts must share a cell built for three. Convicts say they must sleep in turns in their bunk beds.

Before that, Turkey's government release nearly 40,000 convicted criminals, in order to make space for tens of thousands of suspects, including journalists, businessmen and academics, detained after the failed coup of July 15.

The other type of trendy building in Turkey is the mosque. Turkey's state-funded Directorate for Religious Affairs (Diyanet) has proudly announced that nearly 9,000 new mosques were built across the country between 2005 and 2015.

The number of mosques in Turkey is estimated at around 90,000, or one mosque per 866 people. Iran, with a similar population to Turkey’s [nearly 78 million] boasts just 48,000 mosques. In other words, Turkey has twice as many mosques as the Islamic Republic of Iran, for roughly the same population. Egypt, which has a population -- nearly 90 million -- bigger than Turkey's, has 67,000 mosques.

Turkey's president, Recep Tayyip Erdogan, has not only been building mosques and prisons to further Islamize the country. He has also passionately been building religious schools [from which he once graduated]. He boasts that during his term as prime minister and president (since November 2002), the number of students enrolled at religious schools, officially called "imam schools," has risen from 60,000 to more than 1.2 million -- a 20-fold increase. In his study, «The Islamization of Turkey: Erdogan's Education Reforms,» Svante E. Cornell wrote that:

The growing efforts at Islamization of Turkish society have largely gone unnoticed. For many years, Islamization was the dog that did not bark: in spite of dire predictions by secularists, the [ruling] AKP did not introduce conspicuous efforts to Islamize Turkey. But since 2011, this has changed. The main exhibit is the education sector, which President Recep Tayyip Erdoğan has remodeled to instill considerably more Islamic content, in line with his stated purpose to raise "pious generations". Ultimately, the Islamic overhaul of the education system is bound to have implications for Turkey's civilizational identity, and on the choices it will make on where it belongs politically.

In 2012, Erdogan's government introduced a contentious 12-year compulsory education system, paving the way for religious middle schools. In 2014, it introduced a scheme which forcibly enrolled about 40,000 students at imam schools. In some districts, imam schools were suddenly the only option for parents who could not afford private schooling. Also in 2014, the government granted permission for girls as young as 10 to wear Islamic headscarves in class.

So, where does Turkey's increasingly Islamist education stand after all those efforts? According to a report released this month by the Organization for Economic Co-operation and Development (OECD), Turkey is one of the countries with the lowest spending per student. Turkey's public spending for primary and secondary school education, and its spending per university student, were all below the OECD average. The OECD study also found that 43% of Turkish women aged between 15 and 29 were neither working nor receiving education. The OECD average for that group is 17%.

But it is not just about the quantitative findings; qualitative findings also point to an alarming education deficit in Turkey. In 2016, more than two million Turkish high school graduates took the annual national test to enroll at a post-secondary institution. According to the nationwide test results, the students scored an average 4.6 out of 40 questions in mathematics; 7.8 in science and 10.7 in humanities. Ironically, the test results show that the Turkish students do not even have adequate skills in their own language. The average score in Turkish was 19.1 out of 40.

This is the inevitable outcome of systematic Islamization of society in general, and of education in particular, over the past 14 years. The next 14 years will doubtless be far bleaker.

Burak Bekdil is an Ankara-based columnist for the Turkish newspaper Hürriyet Daily News and a fellow at the Middle East Forum.

(Tradução automática)


Pilares da islamização da Turquia:

Escolas, mesquitas e Prisões



Burak Bekdil

Uma maneira a ascensão do autoritarismo islâmico em um país pode ser visto é pelo aumento no número de mesquitas, escolas religiosas e prisões – juntamente com um declínio acentuado na qualidade da educação. Turquia não é excepção.

Mais recentemente, o governo turco disse que iria construir 174 novas prisões , aumentando a capacidade de 100.000 condenados. Esta é a resposta da Turquia de queixas de que seis condenados devem compartilhar uma cela construída para três. Condenados dizem que deve dormir em turnos em seus beliches.

Antes disso, o governo da Turquia lançou cerca de 40.000 criminosos condenados , a fim de abrir espaço para dezenas de milhares de suspeitos, incluindo jornalistas, empresários e acadêmicos, detidos após o fracassado golpe de 15 de Julho.

O outro tipo de edifício moderno na Turquia é a mesquita. Direcção financiada pelo Estado da Turquia para os Assuntos Religiosos ( Diyanet ) orgulhosamente anunciou que cerca de 9.000 novas mesquitas foram construídas em todo o país entre 2005 e 2015.

A Turquia tem duas vezes mais mesquitas per capita do que o Irão

O número de mesquitas na Turquia é estimado em cerca de 90.000, ou uma mesquita por 866 pessoas. Irã, com uma população semelhante à da Turquia [quase 78 milhões] possui apenas 48.000 mesquitas. Em outras palavras, a Turquia tem o dobro de mesquitas do que a República Islâmica do Irão, para aproximadamente a mesma população. O Egito, que tem uma população - quase 90 milhões - maior do que da Turquia, tem 67.000 mesquitas.

O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, não só tem vindo a construir mesquitas e prisões para islamizar ainda mais o país. Ele também apaixonadamente vindo a construir escolas religiosas [a partir da qual ele já se formou]. Ele se gaba de que durante o seu mandato como primeiro-ministro e presidente (desde Novembro de 2002), o número de alunos matriculados em escolas religiosas, oficialmente chamado de "escolas imam", tem aumentado de 60.000 para mais de 1,2 milhões - um aumento de 20 vezes. Em seu estudo, « A islamização da Turquia: Reforma do Ensino de Erdogan ,» Svante E. Cornell escreveu que:

Os esforços crescentes no islamização da sociedade turca em grande parte passaram despercebidos.Por muitos anos, islamização era o cão que não latiu: apesar de terríveis previsões por secularistas, a [decisão] AKP não introduzir esforços notáveis ​​para islamizar a Turquia. Mas desde 2011, isso mudou. A principal exposição é o sector da educação, que o presidente Recep Tayyip Erdoğan remodelou para incutir consideravelmente mais conteúdo islâmica, em linha com o seu objectivo declarado de levantar "gerações piedosas". Em última análise, a reforma islâmica do sistema de ensino é obrigado a ter implicações para a identidade civilizacional da Turquia, e sobre as escolhas que vai fazer sobre onde ele pertence politicamente.

Em 2012, o governo de Erdogan introduziu um sistema de escolaridade obrigatória de 12 anos contencioso, abrindo o caminho para escolas de ensino médio religiosas. Em 2014, introduziu um regime que, à força inscritos cerca de 40.000 alunos de escolas imã. Em alguns distritos, escolas imam eram de repente a única opção para os pais que não podiam pagar o ensino privado. Também em 2014, o governo concedeu permissão para meninas de 10 a usar véu islâmico em sala de aula.

Então, onde é que suporte a educação cada vez mais islamita da Turquia depois de todos esses esforços? De acordo com um relatório divulgado este mês pela Organização para a Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OCDE), a Turquia é um dos países com o menor gasto por aluno. A despesa pública da Turquia para o ensino primário e secundário, e seus gastos por estudante universitário, foram todos abaixo da média da OCDE. O estudo da OCDE também constatou que 43% das mulheres turcas com idade entre 15 e 29 eram não trabalhar nem de receber educação. A média da OCDE para esse grupo é de 17%.

Mas não é apenas sobre os resultados quantitativos; achados qualitativos também apontam para um défice de educação alarmante na Turquia. Em 2016, mais de dois milhões de graduados do ensino médio turcos fizeram o teste nacional anual para se inscrever em uma instituição pós-secundária. De acordo com os resultados dos testes em todo o país, os estudantes marcou uma média 4.6 de 40 questões de matemática; 7,8 em ciência e 10,7 em humanidades. Ironicamente, os resultados do teste mostram  que os estudantes turcos nem sequer têm competências adequadas em sua própria língua.A pontuação média em turco foi de 19,1 de 40.

Este é o resultado inevitável de islamização sistemática da sociedade em geral, e da educação, em particular, ao longo dos últimos 14 anos. Os próximos 14 anos será sem dúvida muito mais sombrio.

Burak Bekdil é um colunista com sede em Ankara para o jornal turco Hürriyet Daily News e pesquisador do Middle East Forum.






Bombardeiros russos dançam com a morte

nos céus da Europa


Luis Dufaur

O facto foi revelado posteriormente visando amortecer o seu impacto previsível.

Em 22 de Setembro, dois bombardeiros nucleares russos Tupolev TU-16 ingressaram no espaço aéreo europeu pelo norte da Noruega e chegaram próximo de Bilbao, Espanha, antes de regressar às suas bases, noticiou o «Le Figaro» de Paris.

A invasão teve um carácter provocatório e relembrou os piores momentos de tensão da Guerra Fria. Os bombardeiros foram sendo acompanhados por dez aviões de quatro países europeus: Noruega, Grã-Bretanha, França e Espanha.

Um Tupolev Tu 160 escoltado por um jacto francês.

Os intrusos não aceitavam comunicações nem contacto algum. Os dois foram interceptados a uma centena de quilómetros da costa da Bretanha por caças Rafale franceses, segundo o site do ministério da Defesa em Paris.

E daí, desviaram para a Espanha onde foram interceptados por caças bombardeiros F18. A dança da morte durou quatro horas.

O Tupolev Tu-160 Blackjack é um grande bombardeiro supersónico construído no fim dos anos 1970 em plena era soviética. É o maior supersónico do mundo e está destinado a ataques a grandes distâncias. Pode e leva entre 12 e 24 misseis, com ogivas nucleares.

O avião só teve o seu baptismo de fogo em Novembro de 2015 bombardeando a população civil na Síria. Vladimir Putin ordenou modernizá-los e relançar a sua produção, pois encontram-se deteriorados pelo tempo e desfasados tecnologicamente.

A provocação desta envergadura foi a segunda em 2016. A anterior em costas francesas aconteceu em Fevereiro. Nessa ocasião dois Blackjack fizeram um percurso análogo.

O chefe do Estado Maior da Força Aérea francesa, general André Lanata, explicou à France Press que esse tipo de manobras «faz parte das gesticulações russas», segundo «Le Figaro».

Só um dos Tu-160 que protagonizou o incidente
pode levar entre 12 e 24 mísseis com ogivas atómicas.

Outros atritos aconteceram com grandes bombardeiros russos Tu-95 Bear sobre o Canal da Mancha em datas recentes.

O jornal «La Vanguardia» de Barcelona sublinhou que a irrupção sem aviso prévio dos aviões de ataque vindos da Rússia, constituíram «um insólito e provocativo movimento da parte de Moscovo».

O maior jornal catalão sublinhou o facto de os bombardeiros terem chegado até Bilbao, grande cidade no mar Cantábrico onde foram afastados pelos F18 espanhóis.

Quatro bases aéreas francesas estão em estado operacional permanente para defender o território. Em caso de alerta, os interceptores encostam-se aos intrusos suspeitos e tentam comunicar.

Se o intruso não responde ou o nível de ameaça parece alarmante, só o primeiro-ministro pode dar a ordem de abrir fogo.

Os aviões russos habitualmente não respondem, e criam um enigma a respeito dos seus objectivos, por certo não amigáveis.

Mas o Kremlin sabe que tem bons amigos ou opositores moles nos governos da União Europeia e que não tem a temer uma reacção firmes, até que um dia aconteça o irreparável.

Em terra, milhões de cidadãos cuidam das suas actividades ou entretenimentos talvez sem perceber que sobre as suas cabeças dá-se um duelo delicado que pode extinguir as suas vidas e bens sem aviso prévio.





domingo, 9 de outubro de 2016


Perseguição aos cristãos sírios

no Oriente e no Ocidente.


Crimes de guerra russos visam forçar migrações


Luis Dufaur

Há algo de profundamente enganoso e podre nos promotores dessas migrações, que ocupam as mais altas posições no Ocidente e fingem revestir-se de abundante palavreado humanista e cristão.

Os cristãos na Síria «estão dispostos a dar as suas vidas e a que as suas cabeças sejam cortadas para testemunhar Jesus Cristo», afirmou a religiosa missionária Maria de Guadalupe.

Ela está na cidade de Aleppo há cinco anos e vive o drama da perseguição cristã desencadeada pelo Estado Islâmico, informou ACI Digital.

Na Síria, os católicos voltam-se especialmente para Nossa Senhora de Lourdes.

A irmã, que é do Instituto do Verbo Encarnado (IVE), passou 18 anos na Terra Santa, no Egipto, e desde 2011 está na Síria. Teve a possibilidade de se ir embora deste país quando começou a guerra, mas decidiu ficar.

«Eu realmente acredito que Deus lhes dá, como retribuição pela sua generosidade, fortaleza para ir até as últimas consequências», sustentou a religiosa.

Trata-se dos «mártires dos nossos tempos», que «estão dispostos a entregar tudo, inclusive o bem mais precioso que é a própria vida». Eles também «confiam nas orações do resto do mundo cristão que os apoia».

A missionária explicou que, pela primeira vez em alguns anos, o Estado Islâmico está a retroceder e algumas cidades estão a ser recuperadas. Isto faz com que os rebeldes «queiram mais vingança e intensifiquem os ataques aos civis».

Do mesmo modo, denunciou que «o cristianismo ocidental tem pouco acesso às informações do que realmente está a acontecer, porque os meios de comunicação internacionais mais importantes não estão a divulgar as notícias e isto não é uma casualidade».

A religiosa insistiu que «os cristãos perseguidos na Síria e no Iraque confiam nas orações do resto do mundo». Portanto, concluiu a Irmã Maria de Guadalupe, «eu não considero uma ignorância culpável do mundo cristão ocidental», mas uma «anestesia provocada».

A religiosa dá exemplos disso.

«O lógico seria que os países islâmicos, por exemplo, os países do Golfo, que são muitos ricos, abrissem as suas fronteiras para receber os seus irmãos refugiados muçulmanos», explicou, segundo o site Actuall.

A irmã Maria de Guadalupe é missionária na Síria e no Próximo-Oriente há 18 anos.

Observamos que a afinidade religiosa, a proximidade geográfica, a riqueza dos países petrolíferos do Golfo e a sua necessidade de mão-de-obra fazem deles o destino natural dos asilados muçulmanos do Próximo-Oriente.

Mas há uma «anestesia provocada» dessa opção natural para aliviar os necessitados. Nos jornais ocidentais, nos órgãos internacionais e do Vaticano só se fala e só se exige da imigração islâmica que vá para Europa, cujas raízes são cristãs, que exigem uma viagem em que morrem milhares, onde não há trabalho e cujas línguas são outras.

Que estranho facto está acontecendo nas capitais ocidentais e na Santa Sé para não verem a contradição?

A irmã Maria de Guadalupe pergunta porque é que aqueles que gastam milhões de euros construindo mesquitas na Europa não acolhem os mais necessitados.

«Porque não fazem isso? Seria conatural e muito mais simples adaptarem-se na sua própria religião e nas suas próprias terras. Então a Europa poderia receber os seus irmãos cristãos. Isto não é discriminação, mas perceber simplesmente que a caridade não significa ‘bonismo tolo’».

Bombas russas miram a população civil e hospitais em Aleppo.
EUA, França e Grã-Bretanha falam em «crimes de guerra».
A Rússia quer as migrações que caotizam Europa, a sua maior vítima visada
.

Soror Maria de Guadalupe também denuncia as falsas propagandas de demagogos humanitários e de eclesiásticos sobre a origem dos refugiados que entraram na Europa no último ano.

Com toda a sua experiência, denúncia que os imigrantes não foram impulsionados pela guerra na Síria. «Há de tudo. Há na Alemanha famílias da nossa paróquia de Aleppo, que conseguiram chegar e estão aterrorizadas».

Entre os factos que os grandes meios de comunicação e os demagogos políticos e eclesiásticos não contam, está o caso de uma cristã que foi parar à Alemanha fugindo da perseguição religiosa e que está a ser maltratada pelos muçulmanos em território europeu.

«Após tudo o que sofreram para chegar, estão padecendo maus-tratos horrorosos da parte dos refugiados muçulmanos com os quais foram alojados.

«Eles obrigam os cristãos a rezar cinco vezes por dia com eles e as mulheres são obrigadas a cobrirem-se como muçulmanas.

«Estão fugindo da perseguição religiosa na Síria, chegam à Europa, terra cristã, e sofrem essa perseguição em pleno coração do continente», disse a religiosa.

Há algo de profundamente enganoso e podre nos promotores destas migrações, que ocupam as mais altas posições no Ocidente e fingem revestir-se de abundante palavreado humanista e cristão.





quarta-feira, 5 de outubro de 2016


Daniel Sampaio: o hipócrita e sonso

da corrupção da juventude


Heduíno Gomes

Circula pelo Facebook uma entrevista de Daniel Sampaio ao Jornal de Leiria (Os pais não são amigos dos filhos. São adultos e devem funcionar como tal, traçando limites, 26 de Maio de 2016) que pode levar as pessoas a pensar que o sujeito é defensor da autoridade dos pais.


Acreditem nas palavras «sensatas» deste hipócrita, acreditem...

Ele aqui diz isto, a armar em pessoa de bom senso. Mas na volta...

Eis o que ele diz ao vivo aos jovens.

Eu ouvi-o, com os meus ouvidos, no Fórum Picoas, num evento da revista do DN organizado pela «católica progressista» Isabel Stilwell — irmã do padre do mesmo nome igualmente «progressista» —, perante uma plateia de jovens, defender que estes deveriam comportar-se à revelia dos pais, classificados de «botas de elástico» por este «educador» «especialista de educação de jovens». Com o aplauso do agente de viagens, que patrocinava o evento, claro.

Então, afinal, os pais devem exercer autoridade ou serão «botas de elástico» quando tentam exercê-la?

Eis a hipocrisia deste figurão do regime.

O oportunista escreve livros soft e fala soft quando vai à televisão, que é para vender os livros à grande massa de pais e professores crédulos. Na realidade é um dos maiores venenos que por aí há a corromper a juventude.

Ele é um dos patronos da chamada «educação sexual» nas escolas, que na realidade significa a sexualização da escola. Eis com que princípios.

Ele é um dos apoiantes do lóbi dos invertidos, a que a chamada «educação sexual» nas escolas obedece.

Ele é um dos apoiantes da «teoria do género», a que a chamada «educação sexual» nas escolas obedece.

Ele é um confesso abortista (e um dos signatários de um manifesto abortista promovido pelo PCP), a que a chamada «educação sexual» nas escolas obedece.

Em psiquiatra, mais descarado do que ele só o Júlio Machado Vaz. Apenas no descaramento. Porque na essência são iguais.


Como eles gostam de ler o Sampaio...

(http://good-blog-bad-blog.blogspot.pt/2014/09/books-with-gays-in-it.html)





quarta-feira, 28 de setembro de 2016


Um «novo vocabulário»

para uma «pastoral revolucionária»


Revista Catolicismo, 26 de Setembro de 2016

A reviravolta dos dois Sínodos dos Bispos sobre a família e da Exortação Apostólica Amoris laetitia, do Papa Francisco. Mudanças na linguagem e o emprego de palavras-talismã numa nova pastoral relativista e permissiva incapaz de iluminar os que erram, converter os pecadores e solidificar os fundamentos da instituição familiar.

O debate que animou os dois últimos Sínodos dos Bispos sobre a família (2014 e 2015) tem suscitado reacções opostas, mas os documentos publicados não avançaram propostas concretas sobre como curar os males da vida matrimonial e doméstica. Alguns comentaristas concluíram que os Sínodos não mudaram nada de substancial. No entanto, a Exortação Apostólica pós-sinodal Amoris laetitia, recentemente publicada pelo Papa Francisco, propõe explicitamente uma nova abordagem global da pastoral familiar.

Para termos uma opinião abalizada que pudesse esclarecer a questão, entrevistamos o estudioso italiano Guido Vignelli [foto ao lado], residente em Roma, director durante 20 anos do Projecto SOS Jovens e ex-membro da Comissão sobre a Família junto à Presidência do Conselho de Ministros da Itália. Recentemente ele escreveu o livro intitulado Uma revolução pastoral – Seis palavras-talismã no debate sinodal sobre a família [foto no alto], precisamente sobre os problemas suscitados pelas palavras, ideias e tendências emergentes após os dois Sínodos. A obra está sendo divulgada em três línguas pela TFP italiana, e uma edição brasileira está a ser preparada.

Guido Vignelli visa sistematicamente a realidade. Vai buscá-la no fluxo das modas sempre em mudança, no curso das ideias em circulação, no estrépito dos acontecimentos actuais. A sua acuidade penetra a modernidade com os seus alegres enganos e manifestações optimistas. Visão da realidade é virtude cada vez mais rara, seja nos livros, seja no jornalismo. Prevalece de modo geral o «pensamento único», o famoso «politicamente correcto».

Mostra nas suas obras, subjacente à euforia moderna, a profunda insatisfação do homem contemporâneo, consequência do facto de se ter libertado de Deus e menosprezado a sua Lei. Também aborda o tema dos malefícios da televisão e a sua acção brutal, particularmente sobre a infância. Os seus escritos sobre técnicas modernas têm aceitação sobretudo nos meios católicos. Visam devolver à sociedade a felicidade perdida pelo afastamento da Igreja.

Os erros profundos na Igreja atingem hoje graus paroxísticos. Os fiéis são constrangidos em massa a adoptar uma «nova mentalidade» e a ter a salvação eterna como fruto apenas da «boa consciência», sem consideração pela lei moral. Uma alegada sinceridade de sentimento tem a primazia sobre a noção de pecado. Pecado? Este é tido como um conceito superado.

Nesta entrevista, Guido Vignelli, a propósito do seu livro Uma revolução pastoral, analisa um método insidioso de penetração de erros actuais na Igreja com o fim de destruir a moral básica da instituição familiar. Ferramenta essencial desse método são as «palavras-talismã», cuja magia mediática penetra os espíritos e até importantes documentos do magistério eclesiástico. Esta obra de Vignelli inspira-se na análise profunda da realidade efectivada por Plinio Corrêa de Oliveira na sua obra Baldeação Ideológica Inadvertida e Diálogo, obra básica do pensamento católico contra-revolucionário, da qual este autor italiano é o grande divulgador na Europa.

Catolicismo — Que tipo de mudanças são esperadas
na nova pastoral familiar?

Guido Vignelli — Alguns afirmam que essas mudanças vão modificar a pastoral familiar não na sua substância, mas apenas no seu «estilo» de expressar-se e de agir. Cumpre objectar-lhes que é precisamente este campo delicado e escorregadio que causará problemas. As mudanças na linguagem e na prática podem ser decisivas porque, quando se modifica a maneira de expressar e de agir, as coisas tendem a mudar.

Tanto os sínodos episcopais quanto a posterior a Exortação pontifícia Amoris laetitia propuseram «um novo léxico que revoluciona a pastoral», como advertiu «Avvenire» — jornal da Conferência Episcopal Italiana (24-4-16). Portanto, pode-se esperar que esse «léxico revolucionário» exercerá influência cada vez maior, não só na questão familiar, mas também em toda a vida eclesial.

A mensagem sinodal e a papal impõem-se não tanto pelo seu diagnóstico e a sua terapia, quanto pela sua intenção explícita de promover uma «conversão pastoral» da linguagem e da prática que favoreça uma «inversão de perspectiva» não só na vida familiar, mas também eclesial, como disseram os cardeais que apresentaram a Amoris laetitia à imprensa. A «conversão pastoral» consiste em adequar critérios, métodos e meios eclesiais à pretensão do homem moderno de agir seguindo apenas a própria consciência subjectiva e satisfazendo as exigências permissivas daí resultantes. A «inversão de perspectiva» consiste em nunca colocar os meios ao serviço do fim, mas o fim ao serviço dos meios, ou seja, em colocar a verdade e as leis evangélicas ao serviço da nova pastoral eclesial, o que vale também para o direito canónico e inclusive para os Sacramentos.

Para esse fim, surgiu a perigosa tendência de encarar a verdade evangélica sobre o casamento e a família como se fosse «um modelo ideal», ou seja, uma bela teoria, mas muito abstracta e difícil de alcançar, que depois vai adequar-se às exigências pastorais exigidas pelas situações concretas. Por isso se prevê avaliar e resolver essas situações recorrendo a atenuantes morais e excepções, derrogações e licenças jurídicas. Desta forma, contudo, o mencionado modelo evangélico perde o seu rigor ideal, e com ele também a sua força de sedução e atracção; além disso, a acumulação de excepções à regra acaba frustrando a própria regra, deslizando-se na insegurança jurídica.


Catolicismo — Qual é o papel dessa nova linguagem eclesial
nas mudanças previstas?

Guido Vignelli — A nova linguagem sinodal é dominada por certas palavras-chave que, mediante máximas correlativas, fórmulas e slogans, definem os problemas examinados e orientam as soluções propostas, de modo a sugerir uma mudança substancial de toda a prática eclesial. Em resumo, essas palavras-chave são neutras e de uso comum. Na prática, no entanto, elas estão inseridas num contexto que lhes confere um significado enganoso e as faz exercer uma perigosa influência sobre os que as usam, manipulando a sensibilidade e a mentalidade dos fiéis através de uma técnica de persuasão psicológica oculta, análoga àquela utilizada pelos sistemas de propaganda de massas, por exemplo, na publicidade.

É por isto que tais palavras nós as podemos definir como «palavras-talismã», comparando-as com as fórmulas mágicas. Ou seja, elas não se limitam a exprimir o que significam (uma ideia, um valor, um julgamento), mas tendem a realizar aquilo que significam, isto é, a produzir um efeito (uma escolha, uma posição, um comportamento) capaz de seduzir e atrair um ouvinte ingénuo, distraído ou conformista. Quem usa tais palavras-talismã é depois empurrado inconscientemente para uma determinada direcção, arriscando a ser «baldeado» de uma posição antiga e rigorosa para uma nova e permissiva.

Como se sabe, esse tipo de palavras e o mecanismo subtil desencadeado por elas foram analisados com acuidade pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira na sua obra intitulada Baldeação ideológica inadvertida e Diálogo (1965), um ensaio de importância histórica e profética, muitas vezes surrupiado por estudiosos e apologistas por acaso, mas quase nunca citado como fonte autorizada.

O Sacramento da Eucaristia, instituído por Nosso Senhor na Santa Ceia,
hoje é concedido a pessoas sem prévia conversão e reparação, ao pecador impenitente.

Catolicismo — Quais são as «palavras-talismã» que emergiram
dos dois Sínodos?

Guido Vignelli — De acordo com protagonistas e observadores oficiais, as palavras-talismã dominantes no debate sinodal e confirmadas por Amoris laetitia foram as seguintes: pastoral – misericórdia – escuta – discernimento – acompanhamento – integração. Essas seis palavras repetem-se com frequência nos actos oficiais dos dois Sínodos: pastoral (90 vezes), misericórdia (48), discernimento (45), acompanhamento (102); a palavra integração ocorre apenas 24 vezes, mas, se a unirmos à palavra que a pressupõe, ou seja, acolhida, repetida 74 vezes, juntas formam um total de 98. Houve outras palavras-chave recorrentes, como complexidade, aprofundamento, desafio, mas que não parecem ter a importância das precedentes.

Estas palavras-talismã estão relacionadas entre si. A nova pastoral exige tratar com misericórdia as situações conjugais e familiares imorais, que não devem por isso ser julgadas eticamente, mas através da escuta das suas experiências e necessidades, a fim de discernir em todas o que é «autêntico», a fim de  acompanhá-las em direcção a um processo de acolhimento, obtido com a plena integração na comunidade eclesial e na vida sacramental.

Catolicismo — Qual é a impostação da nova pastoral?

Guido Vignelli — A nova pastoral familiar é baseada no pressuposto de que os agentes pastorais devem limitar-se a utilizar apenas métodos e meios de «diálogo», da persuasão e do exemplo, renunciando à reprovação, à denúncia, para a condenação e punição do pecador. Acredita que métodos penais não são misericordiosos. Consequentemente, mesmo quando a culpa é obstinada, pública e escandalosa, nenhum pecador pode ser marginalizado ou expulso da comunidade da Igreja.

Em concreto, o pecador não é tanto perdoado quanto escusado, aduzindo-se atenuantes justificatórias, por exemplo, o facto de viver numa situação matrimonial ou familiar supostamente insanável. Então, tende-se ser misericordioso, não só com o pecador (que sempre pode converter-se), mas também com a sua situação pecaminosa (que nunca pode converter-se, mas deve simplesmente desaparecer); não se limita a «odiar o pecado e amar o pecador», como afirma Santo Agostinho, mas chega-se a justificar o pecado e a absolver o pecador impenitente, concedendo-lhe até o acesso à Sagrada Comunhão sem prévia conversão e reparação. Tal misericórdia é contrária ao ensinamento da Igreja, inclusive o da encíclica Dives in Misericordia de João Paulo II.

Este permissivismo, que ontem era concedido apenas aos que erravam, estende-se hoje aos pecadores públicos. Se esta abordagem liberal fosse aplicada com rigor, nenhuma sociedade poderia conservar-se por muito tempo, nem sequer a da Igreja, que é divina, porque os tribunais tornar-se-iam ilícitos e, portanto, seriam abolidos.

A abordagem metodológica está em suma na exigência pastoral e no primado da misericórdia. O problema é que essas duas palavras-chave foram falsificadas no seu significado e traídas na sua missão. Na ânsia de diagnosticar as situações pecaminosas absolvendo-as da devida condenação moral, a pastoral tende a eludir a verdade revelada; na ânsia de curar essas situações poupando-as dos inevitáveis sofrimentos, a misericórdia tende a escapar da justiça divina. O resultado é uma pastoral relativista, incapaz de iluminar os que erram e uma misericórdia permissiva incapaz de converter os pecadores.

Quanto mais um cristão se obstina em viver num estado público de pecado,
violando gravemente os mandamentos relativos à fidelidade e à castidade matrimonial,
pode lícita e canonicamente considerar-se «simul justus et pecador»
(«que é pecador justificado»), como pretendia o heresiarca Lutero.

Catolicismo — Qual é a teoria implícita nessa nova pastoral?

Guido Vignelli — Se consideradas nas suas relações, as mencionadas palavras-chave se explicam e se apoiam mutuamente, sugerindo uma nova metodologia que nos leva a passar de um conceito rigoroso a um permissivo, não só da pastoral doméstica, mas também da moral familiar. A avaliação moral é de facto posta na dependência dos tempos, lugares, pessoas e situações, com base, portanto, em critérios nunca absolutos (ou seja, universais e necessários), mas relativistas (ou seja, particulares e subjectivos); os próprios conceitos de «mal absoluto» e «estado de pecado» são implicitamente rejeitados como abstractos e rigoristas. O que leva ao seguinte paradoxo: quanto mais um cristão se obstina em viver num estado público de pecado, violando gravemente os mandamentos relativos à fidelidade e à castidade matrimonial, pode lícita e canonicamente considerar-se «simul justus et pecador» («que é pecador justificado»), como pretendia o heresiarca Lutero.

A nova pastoral pressupõe e insinua uma teoria moral relativista e permissiva, semelhante à «nova moral» denunciada no seu tempo por Pio XII: afirma-se que, «libertada das subtilezas sofísticas do método tradicional, a moral seja reconduzida à sua forma originária e remetida à inteligência e à determinação da consciência individual. […] A «nova moral» afirma que a Igreja, em vez de fomentar a lei da liberdade humana e do amor, pelo contrário leva, quase exclusivamente e com excessiva rigidez, à firmeza e intransigência das leis morais cristãs, recorrendo com frequência àqueles «sois obrigados» e «não é lícito» que têm muito sabor de um pedantismo desalentador. […] Com o resultado de que a acusação de dureza opressora, do movimento «nova moral» contra a Igreja, vai na verdade atingir em primeiro lugar a própria Pessoa adorável de Cristo» (Pio XII, Rádio Mensagem de 23 de Março de 1952, por ocasião do Dia da Família).

Prepara-se, portanto, uma revolução pastoral no sentido relativista e permissivo. É uma revolução no sentido relativista, porque o diagnóstico das situações familiares se baseia não na avaliação moral objectiva delas, mas em detectar a experiência psicológica subjectiva e prever as consequências práticas, com o perigo de fazer a consciência perder o sentido de pecado, já tão obnubilado. Com efeito, não se fala mais de «situações imorais» (como o concubinato), nem tampouco de «situações irregulares», mas apenas de «situações complexas» ou «difíceis». É também uma revolução no sentido permissivo, porque a terapia para tratar dessas situações se reduz ao uso de paliativos e anestésicos que, longe de eliminar as causas do mal, aliviam-lhe apenas os sintomas, ou seja, as consequências dolorosas, com o resultado de iludir o restabelecimento e tornar crónico o vício. Desta forma, a pastoral familiar é reduzida a uma psicologia ou sociologia da família semelhante à laicista.

Catolicismo — Há também motivos de uma esperança não sentimental, mas racional, quanto ao futuro da família?

Guido Vignelli — Não obstante a mesma análise sinodal admitir que a actual situação familiar global é totalmente desastrosa, pesquisas sociológicas e estatísticas também revelam alguns sinais de esperança quanto ao futuro. Na verdade, apesar de as autoridades tornarem cada vez mais difícil para os jovens constituir família, opondo obstáculos culturais, políticos e económicos inimigos da castidade, da estabilidade e da procriação, o desejo de família está crescendo precisamente entre as últimas gerações; isto também se aplica à nobre nação brasileira. Talvez seja até para perverter essa saudável tendência juvenil que a propaganda revolucionária tenta distorcer o conceito de família, tornando-a «pluralista», ou seja, introduzindo nela todas as formas possíveis de convivência (inclusive a homossexual). Mais uma razão para impelir os cristãos a defender a verdadeira identidade e definição de família. Trata-se da própria sobrevivência da humanidade, como também da Igreja.