terça-feira, 29 de novembro de 2016


Portugal na Ibéria




Repensar Portugal

A posição de Portugal na Ibéria deve ser vista à luz de vários factores.

Primeiro. Apenas uma forte identidade como a portu­guesa, fruto das parti­cularidades do seu povo e de novecen­tos anos de história rica de êxitos, poderia manter a sua indepen­dência face a um vizinho cobiçoso, militarmente mais po­deroso e ameaçador.

Segundo. O Estado espanhol, tutelado por Castela, per­manece um arqui-inimigo da independência portuguesa, ape­sar de hoje ser obrigado a agir de forma própria no quadro interna­cional actual, que já não lhe permite as veleidades militares de ou­trora, a que aliás assistimos até mesmo no século XX.

Terceiro. A luta dos movimentos independentistas das nações ibéricas hoje submetidas a Castela previsivelmente conduzirá, a prazo, ao desman­telamento do Estado espa­nhol, acontecimento apenas protelado pela ainda manuten­ção do regime monárquico, entretanto já posto em causa.

Quarto. A ultrapassagem económica de Portugal pela Espanha como consequência do acidente histórico do 25 de Abril de 1974 pode ser apenas um episódio conjuntural, dependendo a recolocação de Portugal na dianteira exclu­si­vamente das políticas portuguesas serem adequa­das, isto é, dependendo exclu­si­vamente dos Portugueses.

Quinto. O actual adiantamento conjuntural da Espanha se­duz alguns portugueses e é utilizado como isco por co­mer­­ciantes ávi­dos e sem valores patrióticos, tecnocratas apátridas e políticos e in­telec­tuais ven­didos a inte­resses castelhanos, que procuram camuflar os seus interesses materiais com variantes do velho ibe­rismo.

Sexto. A integração de Portugal e do Estado espanhol na União Europeia não significa de modo nenhum o desa­parecimento das fronteiras entre os dois estados, como pretendem falacio­samente os hiper-europeístas internos, com interesses co­merciais ou políticos, e os seus seguidores inconscientes.


Num momento em que se adivinha o desman­telamento do Estado espanhol, tornam-se visivelmente irrealistas as aspirações e a propaganda para realizar o sonho unifi­cador iberista de alguns. No entanto, o neo-iberismo, hoje mais de cariz mercanti­lista do que político, exerce sobre alguns responsáveis políticos portugueses, se não um certo fascínio, pelo menos uma influência inibidora dos seus deveres de Estado no relacionamento com o Estado espa­nhol, no­meadamente no cenário europeu.

Hoje, no cenário das instituições europeias, joga-se em grande parte não apenas o futuro de Portugal mas também as relações entre Portugal e o Estado espanhol. Aí, tal como ontem em Aljubarrota e Montes Claros, os representantes de Portugal devem demonstrar grande consciência e gran­de firmeza na defesa dos interesses portugue­ses.

O Estado espanhol ocupa ilegalmente as terras portu­guesas de Olivença e procura fazer cair no esquecimento o assunto. Portugal deve utilizar todas as tribunas interna­cionais à sua disposição, no­meadamente as insti­tuições europeias, a NATO e as Nações Unidas, para fazer valer os seus direitos e obter a reso­lução deste problema pendente.

Das previsíveis e inevitáveis mudanças profundas nas estruturas de Estado peninsulares resultará uma maior influência por­tuguesa no contexto ibérico. Com essa trans­formação política, também a língua castelhana per­derá influência na Europa e no mun­do e, consequente­mente, a língua portuguesa ganhará uma melhor posição relativa.






segunda-feira, 28 de novembro de 2016


A propósito de Olivença e da visita do novo Filipe


Declaração do Grupo dos Amigos de Olivença


Por ocasião da visita a Portugal do Chefe de Estado de Espanha, Sua Majestade o Rei Filipe VI, o Grupo dos Amigos de Olivença, torna público o seguinte:

A Questão de Olivença, inquestionavelmente presente na realidade política luso-espanhola, continua por resolver, uma vez que Portugal não reconhece a soberania de Espanha sobre o território e considera o mesmo, de jure, português. Aliás, o Governo português, conforme o comando constitucional, tem reafirmado publicamente que «mantém a posição conhecida quanto à delimitação das fronteiras do território nacional» e que «Olivença é território português».

O litígio à volta da soberania de Olivença, propiciando, pela sua natureza, desconfiança e reserva entre os dois Estados, tem efeitos reais e negativos no seu relacionamento. Se o confronto se evidencia em episódios «menores», também é certo que muitos dos atritos e dificuldades verificados em áreas relevantes da política bilateral terão causa na persistência da Questão de Olivença.

Porque uma política de boa vizinhança entre os dois Estados não pode ser construída sobre equívocos e ressentimentos, sendo escusada, inadmissível e insustentável a tentativa de esconder a existência política da Questão de Olivença e os prejuízos que ela traz ao relacionamento peninsular, impõe-se que a mesma seja inscrita — com natural frontalidade e sem subterfúgios — na agenda diplomática luso-espanhola.

Nas circunstâncias actuais, em que se procura aprofundar essa visão de amizade fraterna entre os dois povos, assente numa amizade antiga e por conseguinte experimentada, exigente e desafiadora, e integrando Portugal e Espanha os mesmos espaços políticos, económicos e militares, com salutar aproximação e colaboração em vastas áreas, são propícias a que ambos os Estados assumam que é chegado o momento de discutir, de forma adequada, a Questão de Olivença e de dar cumprimento à legalidade e ao Direito Internacional.

O Grupo dos Amigos de Olivença, com a legitimidade que lhe conferem 78 anos de esforços pela retrocessão do território, lança um desafio aos Governantes dos dois Estados para que, no respeito pela História, pela Cultura e pelo Direito, dêem início a conversações que conduzam à solução justa do litígio.

O Grupo dos Amigos de Olivença, na véspera do 1.º de Dezembro, dia em que se assinala a Restauração da Independência Nacional, obra do glorioso e unânime esforço colectivo do povo português, fazendo seus os anseios de tantos e tantos portugueses, apela ao Governo de Portugal para que, resolutamente, leve por diante a sustentação dos direitos de Portugal. 

O Grupo dos Amigos de Olivença, apela a todos os cidadãos para que, no pleno exercício dos seus direitos, manifestem o seu apoio à defesa de Olivença Portuguesa.


OLIVENÇA É TERRA PORTUGUESA!

VIVA OLIVENÇA PORTUGUESA!





«Eu matei Castro — assinado: Deus»


Daniel Martins, IPCO, 26 de Novembro de 2016

Morre em Havana, aos 90 anos, o ditador comunista Fidel Castro. Perto de um século de tirania, de chantagem ao mundo Ocidental, de perseguição e matança de tantos e tantos que pereceram no seu paredón bradando «Viva Cristo Rei».

A sua morte faz lembrar a frase do ímpio filósofo Nietsche, cujos seguidores inscreveram no seu túmulo, logo após a sua morte: «Eu matei Deus – ass. Nietsche». Dias depois, um católico, não sem uma saborosa pitada de ironia, escreveu ao lado um epitáfio irrefutável e muito mais apropriado: «Eu matei Nietsche – ass. Deus». Contra factos, não há argumentos… Naquele lugar, jazia o cadáver de alguém que julgava ter morto, na mente dos homens, a ideia de um Deus transcendente e todo-poderoso.

Desejamos de todo o coração que, vencidas as convulsões que nos ameaçam de todas as partes, a Revolução, na qual Castro teve um infame papel, morra de uma vez por todas. É o que desejamos, motivo pelo qual lutamos, tendo Deus do nosso lado.




quarta-feira, 23 de novembro de 2016


As sucessivas derrotas políticas

de Bergoglio exprimem claramente

a sua fraca influência moral no mundo




FratresInUnum

Bergoglio perdeu no plebiscito que excluiu da política da Colômbia os criminosos das FARC.

Bergoglio perdeu na Hungria, que continuou com a política restritiva aos imigrantes islâmicos, protegidos dele.

Bergoglio perdeu na Argentina, que derrotou Kirchner, beijada
e paparicada por ele.

Bergoglio perdeu no Brasil, com o impeachment da Dilma, momento triste para ele, que causou o tristíssimo cancelamento da viagem dele.

E Bergoglio perdeu nos Estados Unidos, onde acaba de ser eleito Trump, que ele, fora das suas atribuições e imprudentemente, atacou.

Na entrevista do vôo de regresso da América, Bergoglio declarou sobre Trump:

«Uma pessoa que pensa em construir muros, quem quer que seja, não é cristão. Este não é o Evangelho», disse Bergoglio aludindo às declarações do candidato à presidência dos EUA que planeia construir 2 500 km de muro ao longo da fronteira entre os EUA e o México e deportar 10 milhões de imigrantes ilegais.

Os católicos americanos devem votar nele? «Eu não me meto, apenas digo que este homem não é cristão, se ele diz essas coisas. É preciso ver se ele disse isso ou não. Sobre isso dou-lhe o benefício da dúvida.»

Por sua vez, Trump não o deixou sem resposta:

«O Papa é uma figura muito política. Para um líder religioso, pôr em dúvida a fé de uma pessoa é vergonhoso. Eu sou orgulhoso de ser cristão e como Presidente não vou permitir que a Cristandade continue a ser constantemente atacada e enfraquecida, como está acontecendo com o actual Presidente norte-americano».

E na sua página do Facebook, Donald Trump respondeu assim a Bergoglio:

«Se e quando o Vaticano for atacado pelo ISIS, que, como todos sabem, é o troféu mais cobiçado pelo ISIS, eu posso assegurar-lhes que o Papa teria desejado e rezado para que Donald Trump fosse o Presidente, porque comigo isso não teria acontecido. O ISIS já teria sido erradicado, ao contrário do que está a acontecer agora com os nossos políticos, que são tudo conversa e nada de acção».

Fazendo bem as contas...

Pois bem, vê-se que a influência de Bergoglio sobre o mundo é mínima, ao contrário do que pretendem os progressistas, cuja insistência em propagandeá-la apenas revela a sua real irrelevância moral. Um verdadeiro Papa, com autoridade moral, fala por si mesmo, não precisa dessa corte de propagandistas maçónicos. A simpatia que o povo tem por Bergoglio é apenas pela sua figura, pelo personagem apresentado como humilde e simpático. No entanto, sobre o que vai pelo mundo Bergoglio diz o contrário do que dele se esperaria.

Bergoglio anda ao contrário do povo, ao contrário da realidade. Que os bispos acordem. Se eles continuarem pelo mesmo caminho, deixarão a Igreja como apêndice da história, e eles mesmos se tornarão cada dia mais inócuos, distantes dos fiéis e emudecidos pela vida.





terça-feira, 22 de novembro de 2016


«Lutero representa a alma da modernidade

na sua luta frontal contra a Igreja católica»


En un texto claro y contundente, la historiadora Angela Pellicciari
presenta al Lutero real, sin edulcoraciones impuestas por la conveniencia.


Carmelo López-Arias, ReligiõnenLibertad, 21 de Novembro de 2016

La conmemoración del quinto centenario de la Reforma protestante ha reabierto el interés por la personalidad histórica de Martín Lutero (1483-1546). El 31 de octubre de 1517, el entonces monje agustino clavó en la puerta de la iglesia del palacio de Wittenberg sus célebres 95 tesis, dando origen a una revolución que cambió la faz de Europa.

Angela Pellicciari, doctora en Historia Eclesiástica y profesora de Historia de la Iglesia en los seminarios Redemptoris Mater, acaba de publicar en España su libro La verdad sobre Lutero (Voz de Papel), donde examina la vida y obra del reformador.

Curiosamente, su interés por la figura de Lutero surgió a raíz de sus estudios sobre otro fenómeno histórico de gran relevancia para la Iglesia, el Risorgimento, que dio origen a la unidad de Italia y acabó con los Estados Pontificios, un periodo histórico al que ha dedicado ya varios libros.

Antes de explicarnos por qué esa línea de trabajo le llevó a Lutero, ¿puede sintetizarnos qué fue el Risorgimento?

Es el periodo a mediados del siglo XIX en el que la península italiana, hasta entonces dividida en muchos estados pero perfectamente unida desde un punto de vista cultural y religioso, se unificó políticamente bajo los Saboya. El Risorgimento se realizó oficialmente en nombre de la moral, del progreso, de la constitución y de la libertad.

¿Por qué dice «oficialmente»? ¿No fue así?

En realidad, por primera vez en su historia milenaria la Iglesia fue reducida a una colonia. Colonia de las potencias liberales anticatólicas. Las cosas sucedieron exactamente al revés de como se contaron y siguen contándose.

¿Y cómo sucedieron?

En vez de la libertad, triunfó la «tiranía liberal». En nombre de la constitución, la sistemática violación de todos los artículos de la constitución, comenzando por el primero, que definía la religión católica como única religión del Estado. En nombre del progreso, de la libertad y de la civilización, se desató una guerra frontal contra la identidad italiana, basada desde hace casi dos milenios en la difusión capilar de la fe católica. Se suprimieron todas las órdenes religiosas de la «Iglesia de Estado» (57.493 personas fueron privadas de todo lo que poseían y literalmente arrojadas a la calle) y enormes riquezas culturales, artísticas y económicas terminaron en manos del 1% de la población de fe liberal. La ocupación liberal del Estado provocó una emigración masiva porque la población italiana, por primera vez en su historia, fue reducida a la miseria.

Al Sud, del cantautor italiano Povia, sintetiza en un bello tema
el efecto del
 Risorgimento 
en el antiguo Reino de Nápoles (Dos Sicilias).
Pincha aquí para saber más sobre Povia.

En toda esa historia, ¿cuál fue el proceso que le llevó hasta Lutero?

Del análisis de las mentiras liberales pasé inevitablemente al análisis del fenómeno masónico y de la relación entre el Papado y la masonería. De ahí me elevé hacia atrás hasta el alma de la modernidad con su lucha frontal contra la Iglesia católica, representada por Lutero y por el protestantismo.

Pero ¿no hay una cierta leyenda negra contra Lutero fabricada en la Contrarreforma católica?

No lo creo. Para quien conozca a Lutero, hay poco que inventar para fabricar una leyenda negra: una oposición total entre sus palabras de orden y su concreta acción política; la propaganda del odio anticatólico llevada a cabo con todos los medios, incluidos la calumnia y la mentira; una ferviente defensa de la libertad que, unida a la negación del libre albedrío, conduce a una libertad solo respecto a los principios.

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¿A qué se refiere?

A la negación radical de la afirmación de Jesús: «Dad a Dios lo que es de Dios y al César lo que es del César». Lutero da al César también lo que es de Dios, ¡y lo hace en nombre de Dios! En nombre de la libertad impone el final de los votos religiosos y del matrimonio como sacramento.

¿Hubo un Lutero sinceramente reformador antes del Lutero revolucionario?

Toda la vida pública de Lutero es revolucionaria. Desde el inicio.

¿Desde la escena de Wittenberg en 1517?

De 1517 a 1520 ya está perfectamente delineado el plan revolucionario luterano. Revolucionario, porque no hay nada de reformista en el monje agustino que pretende fundar la identidad alemana sobre el «verdadero Evangelio» predicado por él, fundado sobre el odio al Papa-anticristo y sobre el odio a Roma-Babilonia.

Pero una Reforma de la Iglesia sí era necesaria...

Tras el periodo de la iglesia en Aviñón (1305-1377), con la plaga del nacionalismo, del fiscalismo y de la commenda, y tras el cisma de Occidente (1378-1417), cisma político con el que Francia intenta llevarse la Iglesia a Aviñón, la Iglesia necesita absolutamente una reforma: deben desaparecer el nacionalismo, el fiscalismo y la commenda, que devastan la vida eclesial y de hecho impiden la pastoral.

¿Cómo combatirlos?

Las órdenes religiosas deben volver a la observancia de sus reglas, los obispos deben ocupase de sus diócesis y de la predicación, no deben tener más de un cargo pastoral (basta pensar que en algunos casos los obispos tenían más de doscientas diócesis, y también los párrocos, con el necesario corolario del nombramiento de vicarios y de vicarios de vicarios), deben residir en sus diócesis, deben ser moralmente irreprensibles y cultos... Lo contrario de lo que sucedía en la mayoría de los casos.

¿Y tuvo lugar esa reforma antes de Lutero?

Sí, la Iglesia se reforma.

Pero no en todas partes...

Comienza en Italia por el monasterio de Santa Justina en Padua, donde en 1419 un grupo de monjes venecianos inicia una profunda reforma de la vida religiosa. La reforma tuvo lugar con el apoyo del Papa y se difundió como una mancha de aceite por toda la península. En España la reforma, que precedió en cien años a las decisiones tomadas por el Concilio de Trento, actuó con gran celo y determinación, con gran fe, impulsada por los reyes católicos Fernando de Aragón e Isabel de Castilla, que se casan en 1469 y actúan en estrecha comunión con Roma.

¿Y en Alemania?

También en Alemania, como en todas partes, grandes personalidades, grandes santos, promueven una vida religiosa reformada. Sin embargo, allí la reforma sólo sucedió en forma de manchas de leopardo, en algunas zonas.

¿Por qué?

En Alemania hay una Iglesia imperial, una Iglesia de enorme poder y grandísima riqueza (se considera que poseía una tercera parte de todo el patrimonio nacional), que desde hace más de quinientos años comparte con el emperador el cuidado de la administración de las grandes ciudades y feudos. Los obispos tienen memoria del emperador Otón. En Alemania todos los obispos son nobles, todos provienen de grandes familias, y en consecuencia, el ansia de poder, prestigio y riqueza ocupa un puesto importante en la vida eclesial.

La verdad sobre Lutero se publica en español tras obtener
un gran éxito de ventas y resonancia pública en Italia.

De todos los errores de Lutero, ¿cuáles podrían abandonar más fácilmente los protestantes de hoy?

La violencia de su desprecio antijudío, cuyas horrorosas consecuencias hemos visto. O el retorno a la verdad histórica, apreciando la cultura y la civilización romana... Pero es un proceso difícil, porque la identidad de las naciones protestantes se basa precisamente en el odio antirromano y en un nacionalismo descarnado que ha arruinado la universalidad romana.

Y volviendo al hilo que a usted le llevó a Lutero: ¿qué relación hay entre la Reforma y la Masonería?

Con el «libre examen», esto es, con la libre interpretación de la Biblia por parte de cada fiel, a quien se considera directamente asistido por el Espíritu Santo, Lutero hace imposible el discurso de la verdad teológica: la verdad teológica explota en miles de interpretaciones contradictorias entre sí. El resultado es que la teología ya no es el vértice del saber humano y se considera que sólo los filósofos tienden a la verdad. Unos filósofos que, por primera vez después de muchos siglos, razonan prescindiendo de la Revelación para luego, rápidamente, empezar a filosofar contra la Revelación. Ese saber gnóstico, un saber elitista fabricado por unos pocos desde finales del siglo XVI y durante todo el siglo XVII, aporta al pastor presbiteriano James Anderson las bases filosóficas con las que trazará, en sus Constituciones, las coordinadas esenciales del mundo de las logias.

¿Participaron los protestantes en el Risorgimento?

En Italia los protestantes siempre fueron pocos. Sin embargo, la élite que impone el Risorgimento es una élite gnóstica, liberal-masónica, que para arrancar el catolicismo en Italia intenta (sin conseguirlo) la difusión del protestantismo. Por otro lado, las políticas religiosas, económicas y sociales de los gobiernos liberales son las mismas adoptadas tres siglos antes por los gobiernos protestantes: fin de la libertas Ecclesiae, disolución de las órdenes religiosas, privatización del inmenso patrimonio religioso, cultural, artístico y económico de la nación... La única diferencia entre la revolución italiana y la realizada en el resto de la Europa protestante es que en Italia los Saboya combatieron a la Iglesia en nombre de la Iglesia. Proclamaban ser mejores que los demás por respetar la constitución, cuyo primer artículo [el catolicismo como religión de Estado] no podían contradecir abiertamente.





sexta-feira, 18 de novembro de 2016


O cardeal Burke adverte

que se Bergoglio não clarifica a confusão

vários cardeais farão «uma declaração formal

de correcção de um erro grave»




Edward Pentin, National Catholic Register, 16 de Novembre de 2016

Cardeal Burke sobre Dubia acerca de Amoris Laetitia: «Tremenda divisão» justifica acção. Numa entrevista exclusiva ao Register, ele discorre sobre porque quatro cardeais foram impelidos a procurar clareza acerca dos elementos controversos da exortação papal.

Quatro cardeais fizeram ao Papa Francisco cinco dubia, ou «dúvidas», quanto à exortação apostólica Amoris Laetitia (A Alegria do Amor), numa tentativa de esclarecer ambiguidades e confusão em torno do texto. Em 14 de Novembro, eles vieram a público com o seu pedido, após tomarem ciência de que o Santo Padre decidiu não responder às suas questões.

Nesta entrevista exclusiva ao Register, o cardeal Raymond Burke, patrono da Soberana Ordem Militar de Matal, explica detalhadamente os objectivos dos cardeais; porque a publicação da sua carta deve ser vista como um acto de caridade, unidade e preocupação pastoral, ao invés de uma acção política; e quais serão os próximos passos se o Santo Padre continuar a negar-se a responder.

Eminência, o que os senhores pretendem com essa iniciativa?

A iniciativa tem um único objectivo, a saber, o bem da Igreja, que, neste exacto momento, passa por uma enorme confusão ao menos quanto a esses cinco pontos. Há, também, diversas outras questões, mas esses cinco pontos críticos estão relacionados com princípios morais irreformáveis. Então, nós, como cardeais, julgamos ser nossa responsabilidade pedir um esclarecimento a respeito dessas questões, com o objectivo de colocar fim à propagação da confusão que, de facto, está a levar o povo ao erro.

O senhor tem ouvido muito essa preocupação com a confusão?

Por toda a parte onde passo. Os padres estão divididos, os padres separados dos bispos, e os próprios bispos entre si. Há uma tremenda divisão que se estabeleceu na Igreja, e essa não é a maneira da Igreja. É por isso que chegámos a um acordo sobre essas questões morais fundamentais que nos une.

Porque é que o capítulo 8 de Amoris Laetitia é de especial preocupação?

Porque tem sido a fonte de todas essas discussões confusas. Mesmo as directrizes diocesanas estão confusas e em erro. Temos uma espécie de directriz numa diocese; por exemplo, afirmando que os padres são livres no confessionário, se julgarem necessário, para permitir a uma pessoa que vive numa união adúltera, e permanece nessa condição, ter acesso aos sacramentos — enquanto noutra diocese, de acordo com o que sempre foi a prática da Igreja, o padre pode conceder tal permissão àqueles que fazem um firme propósito de emenda, para viver castamente dentro do matrimónio, isto é, como irmão e irmã, e para apenas receber os sacramentos num local onde não haja risco de escândalo. Isso realmente tem que ser tratado. Mas, depois, há outras questões no dubia além desse ponto particular dos divorciados recasados, que diz respeito ao termo «intrinsecamente mau», com o estado de pecado e com a correcta noção de consciência.

Sem o esclarecimento que estão a procurar, os senhores estão a dizer, portanto, que um ou outro ensinamento em Amoris Laetitia vai contra o princípio da não-contradição (que afirma que algo não pode ser verdadeiro e falso ao mesmo tempo quanto se trata do mesmo contexto)?

É claro, porque, por exemplo, se tomarmos a questão do matrimónio, a Igreja ensina que o matrimónio é indissolúvel, segundo a palavra de Cristo, «Aquele que se divorciar da sua mulher e se casar novamente comete adultério». Portanto, se você é divorciado, não pode entrar numa relação marital com outra pessoa a menos que o vínculo indissolúvel ao qual está ligado seja declarado nulo, isto é, não existente. Porém, se você diz, bem, em certos casos, uma pessoa vivendo numa união matrimonial irregular pode receber a Sagrada Comunhão, então, só pode restar das duas uma: ou o matrimónio realmente não é indissolúvel — como, por exemplo, na espécie da «teoria da iluminação» do cardeal [Walter] Kasper, que sustenta que o matrimónio é um ideal ao qual não podemos, realisticamente, manter as pessoas. Nesse caso, perdemos o senso da graça do sacramento, que permite aos casados viverem a verdade da sua aliança matrimonial — ou a Sagrada Comunhão não é a comunhão com o Corpo e Sangue de Cristo. É claro, nenhuma das duas é possível. Elas contradizem o ensino constante da Igreja desde o início e, logo, não podem ser verdadeiras.

Alguns verão essa iniciativa pelas lentes da política e a criticarão como um movimento «conservadores vs. liberais», algo que o senhor e os outros signatários rejeitam. Qual é a sua resposta a esse tipo de acusação?

A nossa resposta é simplesmente esta: não estamos a tomar qualquer espécie de posição dentro da Igreja, como uma decisão política, por exemplo. Os fariseus acusavam Jesus de tomar posição num dos lados do debate entre os especialistas na lei judaica, mas Jesus absolutamente não fez isso. Ele apelou à ordem que Deus colocou na natureza desde o momento da criação. Ele afirmou que Moisés permitiu o divórcio por causa da dureza de coração, mas não era assim desde o início. Então, estamos apenas apresentando o que a Igreja sempre ensinou e praticou ao fazer essas cinco questões, que abordam o ensino e prática constantes da Igreja. As respostas a essas perguntas fornecem uma ferramenta interpretativa essencial à Amoris Laetitia. Elas devem ser expostas publicamente, pois muitas pessoas dizem: «Estamos confusos, e não compreendemos porque os cardeais ou alguém com autoridade não falam e nos ajudam».

É um dever pastoral?

É isso, e posso assegurar que conheço todos os cardeais envolvidos, e trata-se de algo que empreendemos com o maior sentido de resposabilidade enquanto bispos e cardeais. Porém, empreendemos também com o maior respeito pelo Múnus Petrino, porque se ele não defende esses princípios fundamentais da doutrina e disciplina, então, praticamente falando, a divisão entrou na Igreja, o que é contrário à sua própria natureza.

E também o Múnus Petrino, cujo propósito primeiro é a unidade?

Sim, como diz o Concílio Vaticano II, o Papa é o fundamento da unidade dos bispos e de todos os fiéis. Essa ideia, por exemplo, de que o Papa deva ser algum tipo de inovador, que está conduzindo uma revolução na Igreja ou algo do tipo, é completamente alheia ao Múnus Petrino. O Papa é um grande servo das Verdades da Fé, como elas foram transmitidas de modo ininterrupto desde o tempo dos apóstolos.

É por isso que o senhor enfatiza que se trata de um acto de caridade e justiça?

Absolutamente. Temos essa responsabilidade perante o povo para quem somos bispos, e uma responsabilidade ainda maior como cardeais, que são os principais conselheiros do Papa. Para nós, permanecer em silêncio sobre essas dúvidas fundamentais, que surgiram como resultado do texto de Amoris Laetitia, seria, da nossa parte, uma grave falta de caridade para com o Papa e uma grande falta no cumprimento dos nossos deveres do nosso próprio ofício na Igreja.

Alguns podem argumentar que os senhores são apenas 4 cardeais, dentre os quais o senhor é o único que não está aposentado, e que isso não é muito representativo em relação a toda a Igreja. Neste caso, poderiam perguntar: porque é que o Papa deveria ouvir e responder aos senhores?

Bem, a questão não são os números. A questão é a Verdade. No julgamento de Santo Tomás More, alguém lhe disse que a maioria dos bispos da Inglaterra aceitaram a ordem do rei, mas ele disse que isso poderia ser verdade, mas que os santos no céu não a aceitaram. Esse é o ponto. Creio que, mesmo que outros cardeais não tenham assinado, eles compartilham a mesma preocupação. Mas isso não me incomoda. Mesmo que fôssemos apenas um, dois ou três, se se trata de algo que é verdadeiro e é essencial à salvação das almas, então, deve ser abordado.

O que acontecerá se o Santo Padre não responder ao seu acto de justiça e caridade e deixar de dar o esclarecimento quanto ao ensinamento da Igreja que os senhores esperam?

Então, teríamos que tratar dessa situação. Há, na Tradição da Igreja, a prática da correcção ao Sumo Pontífice. Obviamente, é algo muito raro. Porém, se não houver resposta a essas questões, então, diria que seria o caso de realizar um acto formal de correcção de um grave erro.

Num conflito entre a autoridade eclesial e a Sagrada Tradição da Igreja, qual delas é vinculante ao fiel e quem tem autoridade para determinar a respeito?

O que é vinculante é a Tradição. A autoridade eclesial existe apenas a serviço da Tradição. Penso na passagem de São Paulo na carta aos Gálatas (1:8): «Mesmo se um anjo vos pregar qualquer Evangelho diferente do qual eu vos preguei, seja ele anátema».

Se o Papa ensinar um grave erro ou uma heresia, qual é a autoridade legítima que pode declará-lo e quais seriam as consequências?

É dever, em tais casos, e historicamente já aconteceu, que cardeais e bispos deixem claro que o Papa está ensinando o erro e peçam a ele que o corrija.


Tradução: FratresInUnum.com





quinta-feira, 17 de novembro de 2016


Issam, o acólito muçulmano

que ajuda à missa de Bergoglio


Francesca de Villasmundo, Religion Catholique, 16 de Novembro de 2016

Après l’embrassade à Luther dans les Palais apostoliques, voici le croissant au Vatican. Non pas la délicieuse viennoiserie réalisée pour commémorer la victoire autrichienne de 1683 sur les Turcs musulmans qui assiégeaient Vienne mais celui, symbole de l’islam, que les mahométans portent dans leur cœur.

Lors du Jubilé des prisonniers de dimanche 6 novembre dernier, le pape François a promu au rang d’enfant de chœur lors de sa messe dans la basilique Saint-Pierre, un détenu musulman de 34 ans condamné entre autres délits pour agression sexuelle. Après les filles autour de l’autel pour favoriser cette notion féministe de «parité entre les sexes» (mais pas cette fois-ci, présence musulmane oblige), c’est la nouvelle lubie liturgique conciliaire pour seconder le dialogue inter-religieux. Avec François le syncrétisme religieux avance à pas de géant!

Le quotidien italien La Repubblica, tendance gauche-caviar et bobo radical-chic, affichant dédain et mépris pour tout ce qui est traditionnel, grand fan du pape François et de sa révolution progressiste, rapporte ainsi cet énième scandale bergoglien:

«Il n’a pas peur que son geste soit mal interprété. «Non, qu’y a-t-il de difficile à comprendre?» Issam a été le premier musulman à revêtir l’aube des ministres à côté du pape lors d’une fonction solennelle dans la basilique Saint-Pierre. Et il l’a fait avec beaucoup de naturel: «Si les pontifes viennent prier dans les mosquées pourquoi je ne devrais pas le faire au Vatican? Je reste musulman mais ensemble nous pouvons prier les uns pour les autres, pour la paix, pour le monde. Dimanche c’est ce que j’ai fait.»

Dimanche c’était le jour du Jubilé des prisonniers. Et Issam est détenu dans la maison pénale de Busto Arsizio. Huit d’entre eux ont été choisis pour remplir la fonction de servants de messe. (…) «Quand du Vatican il m’ont demandé de choisir des détenus pour ce service, raconte don Silvano, le chapelain de Busto Arsizio, j’ai signalé qu’il y avait un garçon musulman qui s’était proposé et ils m’ont répondu qu’ils lui confieraient un geste important.» Il a donc été chargé de laver les mains de Bergoglio à la sacristie et il a été le seul à rester avec lui avant la messe. «Pourquoi j’ai voulu le faire? Pour faire comprendre que nous, musulmans, sommes différents de ce que certains voudraient faire croire: nous sommes pour la paix.»

La seule chose que Issam a demandé a été de pouvoir porter avec lui, au cours du voyage, son propre tapis pour la prière. Il l’a utilisé avant de rejoindre Saint-Pierre et de nouveau l’après-midi: «Je reste musulman, revendique-t-il, mais je crois dans le dialogue et le respect.» Quand il l’a dit au pape, ce dernier l’a embrassé et lui a donné un baiser. «Je lui ai demandé de prier pour moi, pour ma famille, pour nous les détenus. François m’a dit d’en faire autant pour lui.»

Comme cadeau, au nom des prisonniers de Busto Arsizio, il a porté la clé de Saint Pierre en chocolat réalisée par la boulangerie de la prison. Il aurait voulu lui raconter son histoire mais il n’y avait pas assez de temps. (…)

L’enfant, arrivé du Maroc pour rejoindre ses frères qui s’étaient diplômés et qui en Italie avaient trouvé du travail, s’est perdu dans la drogue, dans l’alcool. «C’est étrange à dire mais la prison m’a sauvé la vie, raconte-t-il. J’ai été arrêté il y a 6 ans pour plusieurs délits et il m’en reste 4 à purger. Derrière les barreaux, j’ai renforcé la foi musulmane que j’avais quand j’étais petit et cela m’a changé: maintenant j’étudie, je ne me drogue plus, je ne bois pas et j’ai trouvé la paix intérieure.»

Et penser qu’il avait été catalogué comme un terroriste: «C’est arrivé il y a deux ans: ma mère était morte et en prison ils m’ont demandé de réciter une prière durant la cérémonie pour la fin du Ramadan. Quand j’ai eu fini, ils ont tous levé les mains au ciel. Qui nous observait a pensé que je voulais retourner les gens. Bien sûr ce n’était pas ça.» Si bien que dimanche Issam était à côté du pape: «Ses paroles m’ont coupé le souffle. Il a prié pour nous les détenus. Nous avons ressenti que nous n’étions plus les derniers, les exclus.»

Indépendamment du caractère politique, à la portée médiatique considérable, de cette présence musulmane dans la basilique Saint-Pierre pour convaincre le monde entier de pratiquer le Pas d’Amalgame, mais préfiguration peut-être de la victoire du croissant sur la Croix en nos pays européens déchristianisés et de la transformation en future mosquée de l’église la plus symbolique de la chrétienté, le rôle d’enfant de chœur confié à ce mahométan délinquant, venu en Europe semé désordre et vilénie, est un scandale religieux aussi énorme que la réunion œcuménique d’Assise!

La vraie doctrine catholique, bafouée et méprisée par ces ecclésiastiques progressistes en recherche d’innovations permanentes pour complaire au monde, est pourtant ferme sur l’impossibilité d’une quelconque participation de non-catholiques aux offices catholiques. Il suffit de se reporter aux études de canonistes réputés du XXe siècle parues dans l'article de MPI ci-dessous.

Malheureusement avec François, dans la droite ligne de ces prédécesseurs, les dernières digues du catholicisme au sein de l’Église officielle, existantes et résistantes, encore, malgré 50 ans d’anéantissement sous le rouleau-compresseur conciliaire, sont en train de sauter les unes après les autres. Bientôt plus rien, au sein de cette nouvelle Église conciliaire, secte qui a pris en main la destinée des catholiques, ne s’opposera plus à la concrétisation du rêve messianique des officines maçonniques, une religion mondiale, mixture de toutes les religions, avec à sa tête, pourquoi pas, un homme en blanc…





quarta-feira, 16 de novembro de 2016


Amoris laetitia, demasiada confusão.

Quatro cardeais escrevem ao papa

pedindo clarificação




Walter Brandmuller, Raymond Burke, Carlo Caffarra, Joachim Meisner

1. Uma premissa necessária

O envio desta carta ao Papa Francisco por parte de quatro cardeais nasce de uma profunda preocupação pastoral.

Temos observado a desorientação de muitos fiéis, e a confusão em que se encontram, relativamente a questões de grande importância para a vida da Igreja. Temos notado também que inclusive no seio do colégio episcopal se fazem interpretações contrastantes do capítulo oitavo de «Amoris laetitia».

A grande Tradição da Igreja ensina-nos que o caminho para sair de situações como esta passa pelo recurso ao Santo Padre, pedindo à Sé Apostólica que resolva as dúvidas que são causa de desorientação e de confusão.

O nosso é, pois, um acto de justiça e de caridade.

De justiça: ao tomar esta iniciativa estamos a professar que o ministério petrino é o ministério da unidade, e que a Pedro, ao Papa, cabe o serviço de confirmar na fé.

De caridade: é nossa intenção ajudar o Papa a prevenir divisões e contraposições na Igreja, pedindo-lhe que dissipe todas as ambiguidades.

Fazendo-o, cumprimos também um estrito dever que nos incumbe. Segundo o Código de Direito Canónico (câns. 349, 358 e 360), aos cardeais está confiada a missão de ajudar o Papa na solicitude pela Igreja universal.

O Santo Padre decidiu não responder. Interpretamos esta sua soberana decisão como um convite para continuar a reflexão e a discussão, de modo sereno e respeitoso.

Por essa razão, damos agora a conhecer a nossa iniciativa a todo o povo de Deus, fornecendo para isso toda a documentação pertinente.

Esperamos que ninguém interprete este facto nos termos do esquema «progressistas-conservadores»; seria um engano. Estamos profundamente preocupados com o verdadeiro bem das almas, que é a suprema lei da Igreja, e não em fazer avançar dentro da Igreja um qualquer tipo de política.

Esperamos também que ninguém, julgando injustamente, nos tenha na conta de adversários do Santo Padre e de pessoas privadas de misericórdia. O que fizemos e o que estamos a fazer nasce do profundo afecto colegial que nos une ao Papa, e da preocupação apaixonada pelo bem dos fiéis.

Card. Walter Brandmüller
Card. Raymond L. Burke
Card. Carlo Caffarra
Card. Joachim Meisner 

*

2. A carta dos quatro cardeais ao Papa

Ao Santo Padre Francisco

e com conhecimento a Sua Em. Rev. Senhor Cardeal Gerhard L. Müller

Beatíssimo Padre,

No seguimento da publicação da Vossa Exortação Apostólica «Amoris laetitia», foram propostas, por parte de teólogos e estudiosos, interpretações não só divergentes, mas também contrastantes, sobretudo no que respeita ao cap. VIII. Além do mais, os meios de comunicação têm vindo a pôr em realce esta diatribe, provocando, desse modo, incerteza, confusão e desorientação por entre muitos dos fiéis.

Por essa razão, chegaram-nos, a nós que nos subscrevemos, como também a muitos bispos e presbíteros, numerosos pedidos da parte de fiés pertencentes a diversas condições sociais, a respeito da correcta interpretação a dar ao cap. VIII da exortação.

Assim, movidos em consciência pela nossa responsabilidade pastoral, e desejando praticar sempre melhor aquela mesma sinoladidade a que Vossa Santidade nos exorta, permitimo-nos, com profundo respeito, vir pedir-Vos, Santo Padre, que, como Mestre supremo da fé, chamado pelo Ressuscitado a confirmar os irmãos na fé, dirimais as incertezas e crieis clareza, dando benevolamente resposta aos «dubia» que nos consentimos juntar à presente.

Apraza a Vossa Santidade abençoar-nos, deixando-Vos a nossa promessa de uma constante presença na nossa oração.

Card. Walter Brandmüller
Card. Raymond L. Burke
Card. Carlo Caffarra
Card. Joachim Meisner

Roma, 19 de Setembro de 2016.

*

3. Os «dubia»

1. Pergunta-se se, de acordo com quanto se afirma em «Amoris laetitia», n.º 300-305, se tornou agora possível conceder a absolvição no sacramento da Penitência, e, portanto, admitir à Sagrada Eucaristia, uma pessoa que, estando ligada por vínculo matrimonial válido, convive «more uxorio» com outra, sem que estejam cumpridas as condições previstas por «Familiaris consortio», n.º 84, e entretanto confirmadas por Reconciliatio et paenitentia, n.º 34, e por «Sacramentum caritatis», n.º 29. Pode a expressão «[e]m certos casos», da nota 351 (n.º 305) da exortação «Amoris laetitia», ser aplicada a divorciados com uma nova união que continuem a viver «more uxorio»?

2. Continua a ser válido, após a exortação pós-sinodal «Amoris laetitia» (cf. n.º 304), o ensinamento da encíclica de São João Paulo II «Veritatis splendor», n.º 79, assente na Sagrada Escritura e na Tradição da Igreja, acerca da existência de normas morais absolutas, válidas sem qualquer excepção, que proíbem actos intrinsecamente maus?

3. Depois de «Amoris laetitia» n.º 301, pode ainda afirmar-se que uma pessoa que viva habitualmente em contradição com um mandamento da lei de Deus, como, por exemplo, aquele que proíbe o adultério (cf. Mt 19, 3-9), se encontra em situação objectiva de pecado grave habitual (cf. Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, Declaração de 24 de Junho de 2000)?

4. Após as afirmações de «Amoris laetitia», n.º 302, relativas às «circunstâncias atenuantes da responsabilidade moral», ainda se deve ter como válido o ensinamento da encíclica de São João Paulo II «Veritatis splendor», n.º 81, assente sobre a Sagrada Escritura e sobre a Tradição da Igreja, segundo o qual: «as circunstâncias ou as intenções nunca poderão transformar um acto intrinsecamente desonesto pelo seu objecto, num acto 'subjectivamente' honesto ou defensível como opção»?

5. Depois de «Amoris laetitia», n.º 303, ainda se deve ter como válido o ensinamento da encíclica de São João Paulo II «Veritatis splendor», n.º 56, assente sobre a Sagrada Escritura e sobre a Tradição da Igreja, que exclui uma interpretação criativa do papel da consciência, e afirma que a consciência jamais está autorizada a legitimar excepções às normas morais absolutas que proíbem acções intrinsecamente más pelo próprio objecto?

*

4. Nota explicativa dos quatro cardeais

O CONTEXTO

Os «dubia» (do latim, «dúvidas») são questões formais dirigidas ao Papa e à Congregação para a Doutrina da Fé, pedindo uma clarificação acerca de temas particulares relativos à doutrina ou à prática.

O que estes pedidos têm de particular é o facto de serem formulados de modo a pedirem como resposta um «sim» ou um «não», sem argumentações teológicas. Não fomos nós a inventar esta modalidade da forma de se dirigir à Sé Apostólica; é uma prática secular.

Tratemos agora do que está em jogo.

Depois da publicação da exortação apostólica pós-sinodal «Amoris laetitia», sobre o amor na família, levantou-se um amplo debate, em especial a respeito do capítulo oitavo. Mais especificamente ainda, os parágrafos 300-305 têm sido objecto de interpretações divergentes.

Para muitos – bispos, párocos, fiéis –, estes parágrafos fazem alusão, ou ensinam explicitamente, uma mudança da disciplina da Igreja a respeito dos divorciados que vivem numa nova união, ao passo que outros, admitindo embora a falta de clareza, ou mesmo a ambiguidade das passagens em questão, argumentam que estas mesmas páginas podem ser lidas em continuidade com o magistério precedente e não contêm uma modificação quanto à prática e aos ensinamentos da Igreja.

Animados por uma preocupação pastoral para com os fiéis, quatro cardeais enviaram uma carta ao Santo Padre sob a forma de «dubia», esperando assim obter clareza, dado que a dúvida e a incerteza são sempre em grandíssimo detrimento do cuidado pastoral.

O facto de que os intérpretes cheguem a diferentes conclusões deve-se também à existência de vias divergentes a propósito da compreensão da vida cristã. Nesse sentido, o que está em jogo em «Amoris laetitia» não é somente a questão de se saber se os divorciados que iniciaram uma nova união – sob certas circunstâncias – podem ser readmitidos ou não aos sacramentos.

É mais do que isso, já que a interpretação do documento implica maneiras diferentes e contrastantes de encarar o estilo de vida cristão.

Assim, enquanto a primeira questão dos «dubia» diz respeito a um tema prático relativo aos divorciados recasados civilmente, as restantes quatro questões são relativas a temas fundamentais da vida cristã.

AS PERGUNTAS

Dúvida número 1:

Pergunta-se se, de acordo com quanto se afirma em «Amoris laetitia», n.º 300-305, se tornou agora possível conceder a absolvição no sacramento da Penitência, e, portanto, admitir à Sagrada Eucaristia, uma pessoa que, estando ligada por vínculo matrimonial válido, convive «more uxorio» com outra, sem que estejam cumpridas as condições previstas por «Familiaris consortio», n.º 84, e entretanto confirmadas por Reconciliatio et paenitentia, n.º 34, e por «Sacramentum caritatis», n.º 29. Pode a expressão «[e]m certos casos», da nota 351 (n.º 305) da exortação «Amoris laetitia», ser aplicada a divorciados com uma nova união que continuem a viver «more uxorio»?

A primeira pergunta refere-se, em particular, ao n.º 305 de «Amoris laetitia» e à nota de pé de página 351. A nota 351, pese embora falar especificamente dos sacramentos da penitência e da comunhão, não menciona, nesse contexto, os divorciados recasados civilmente, como também não o faz o texto principal.

O n.º 84 da exortação apostólica «Familiaris consortio», do Papa João Paulo II, já contemplava a possibilidade de admitir os divorciados recasados civilmente aos sacramentos. Mencionavam-se aí três condições:

– as pessoas interessadas não podem separar-se sem cometer uma nova injustiça (poderia acontecer, por exemplo, que fossem responsáveis pela educação dos próprios filhos);

– os interessados assumem o compromisso de viver de acordo com a verdade da própria situação, cessando de viver juntos como se fossem marido e mulher («more uxorio»), e abstendo-se dos actos próprios dos esposos;

– os interessados evitam dar escândalo (isto é, evitam a aparência do pecado para evitar o risco de levar os outros a pecar).

As condições indicadas em «Familiaris consortio», n.º 84, e nos sucessivos documentos acima mencionados mostram-se imediatamente razoáveis, assim que se recorda que a união conjugal não se baseia apenas na mútua afeição, e que os actos sexuais não são apenas uma actividade mais entre outras que o casal possa praticar.

As relações sexuais são para o amor conjugal. São algo de tão importante, de tão grande bondade e de tão precioso, que requerem um contexto particular: o contexto do amor conjugal. Por conseguinte, não só os divorciados que vivem numa nova união se devem abster, mas também qualquer pessoa que não esteja casada. Para a Igreja, o sexto mandamento, «não cometer adultério», sempre abrangeu qualquer exercício da sexualidade que não fosse conjugal, ou seja, qualquer tipo de acto sexual além do que se tem com o próprio esposo.

Parece que, se fossem admitidos à comunhão os fiéis que iniciaram uma nova união no âmbito da qual vivem como se fossem marido e mulher, a Igreja estaria a ensinar, através de tal prática de admissão, uma das seguintes afirmações a propósito do matrimónio, da sexualidade humana e da natureza dos sacramentos:

– O divórcio não dissolve o vínculo matrimonial, e os parceiros da nova união não estão casados. Apesar disso, as pessoas que não estão casadas podem, em certas condições, realizar legitimamente actos de intimidade sexual.

– O divórcio dissolve o vínculo matrimonial. As pessoas que não estão casadas não podem realizar legitimamente actos sexuais. Os divorciados recasados são esposos legitimamente, e os seus actos sexuais são actos conjugais licitamente.

– O divórcio não dissolve o vínculo matrimonial, e os parceiros da nova união não estão casados. As pessoas que não estão casadas não podem praticar actos sexuais. Por isso, os divorciados recasados civilmente vivem numa situação de pecado habitual, público, objectivo e grave. Todavia, admitir uma pessoa à Eucaristia não significa para a Igreja aprovar o seu estado de vida público; o fiel pode abeirar-se da mesa eucarística, mesmo com a consciência de pecado grave. Para se receber a absolvição no sacramento da penitência não é sempre necessário o propósito de mudar a própria vida. Por conseguinte, os sacramentos estão desligados da vida: os ritos cristãos e o culto estão numa esfera diferente relativamente à da vida moral cristã.

*

Dúvida número 2:

Continua a ser válido, após a exortação pós-sinodal «Amoris laetitia» (cf. n.º 304), o ensinamento da encíclica de São João Paulo II «Veritatis splendor», n.º 79, assente na Sagrada Escritura e na Tradição da Igreja, acerca da existência de normas morais absolutas, válidas sem qualquer excepção, que proíbem actos intrinsecamente maus?

A segunda pergunta diz respeito à existência dos assim chamados actos intrinsecamente maus. O n.º 79 da encíclica «Veritatis splendor», de João Paulo II, assevera que é possível «qualificar como moralmente má segundo a sua espécie […] a escolha deliberada de alguns comportamentos ou actos determinados, prescindindo da intenção com que a escolha é feita ou da totalidade das consequências previsíveis daquele acto para todas as pessoas interessadas».

Ensina, pois, a encíclica que há actos que são sempre maus, proibidos por aquelas normas morais que obrigam sem admitir qualquer excepção («absolutos morais»). Estes absolutos morais são sempre negativos, isto é, dizem-nos o que não deveríamos fazer. «Não matar». «Não cometer adultério». Somente as normas negativas podem obrigar sem qualquer excepção.

De acordo com «Veritatis splendor», no caso dos actos intrinsecamente maus, não é necessário qualquer discernimento das circunstâncias ou das intenções. Ainda que um agente secreto pudesse arrancar informações valiosas à mulher de um terrorista cometendo adultério com ela, tanto que pudesse até salvar a própria Pátria (isto, que soará a um exemplo saído de um filme de James Bond, fora já contemplado por São Tomás de Aquino em De Malo, q. 15, a. 1). João Paulo II afirma que a intenção (neste caso, «salvar a Pátria») não muda a espécie do acto («cometer adultério»), e que é suficiente saber a espécie do acto («adultério») para se saber que não se deve praticá-lo.

*

Dúvida número 3:

Depois de «Amoris laetitia» n.º 301, pode ainda afirmar-se que uma pessoa que viva habitualmente em contradição com um mandamento da lei de Deus, como, por exemplo, aquele que proíbe o adultério (cf. Mt 19, 3-9), se encontra em situação objectiva de pecado grave habitual (cf. Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, Declaração de 24 de Junho de 2000)?

No parágrafo 301, «Amoris laetitia» recorda que a «Igreja possui uma sólida reflexão sobre os condicionamentos e as circunstâncias atenuantes», e conclui que «por isso, já não é possível dizer que todos os que estão numa situação chamada ‘irregular’ vivem em estado de pecado mortal, privados da graça santificante».

Com a Declaração de 24 de Junho de 2000, o Pontifício Conselho para os Textos Legislativos pretendeu clarificar o cânone 915 do Código de Direito Canónico, que determina que «não sejam admitidos à Sagrada Comunhão» aqueles que «obstinadamente perseverem em pecado grave manifesto». A Declaração do Pontifício Conselho afirma que este cânone é aplicável também aos fiéis divorciados e recasados civilmente. Esclarece ainda que o «pecado grave» deve ser entendido objectivamente, dado que o ministro da Eucaristia não tem meios para julgar da imputabilidade subjectiva da pessoa.

Vemos assim que, para a Declaração, a questão da admissão aos sacramentos tem que ver com o juízo da situação de vida objectiva da pessoa, e não com o juízo de que tal pessoa se encontra em estado de pecado mortal. De facto, subjectivamente poderia não ser plenamente imputável, ou até nem sê-lo de todo.

Na mesma linha, na sua encíclica «Ecclesia de Eucharistia», n.º 37, São João Paulo II recorda que, «[t]ratando-se de uma avaliação de consciência, obviamente o juízo sobre o estado de graça compete apenas ao interessado». Por conseguinte, a distinção mencionada em «Amoris laetitia», entre a situação subjectiva de pecado mortal e a situação objectiva de pecado grave, já se encontrava bem estabelecida no ensinamento da Igreja.

Contudo, João Paulo II continuava, insistindo em que, «em casos de comportamento externo de forma grave, ostensiva e duradoura contrário à norma moral, a Igreja, na sua solicitude pastoral pela boa ordem comunitária e pelo respeito do sacramento, não pode deixar de sentir-se chamada em causa». Fazendo-o, reafirmava ainda o ensinamento colhido no cânone 915, já mencionado.

Vê-se assim que a questão 3 dos «dubia» pretende que se esclareça se, mesmo depois de «Amoris laetitia», é ainda possível dizer que as pessoas que habitualmente vivem em contradição com o mandamento da lei de Deus, vivem em situação objectiva de grave pecado habitual, mesmo quando, por qualquer razão, não for certo que elas sejam subjectivamente imputáveis quanto à sua transgressão habitual.

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Dúvida número 4:

Após as afirmações de «Amoris laetitia», n.º 302, relativas às «circunstâncias atenuantes da responsabilidade moral», ainda se deve ter como válido o ensinamento da encíclica de São João Paulo II «Veritatis splendor», n.º 81, assente sobre a Sagrada Escritura e sobre a Tradição da Igreja, segundo o qual: «as circunstâncias ou as intenções nunca poderão transformar um acto intrinsecamente desonesto pelo seu objecto, num acto 'subjectivamente' honesto ou defensível como opção»?

No parágrafo 302, «Amoris laetitia» sublinha que «um juízo negativo sobre uma situação objectiva não implica um juízo sobre a imputabilidade ou a culpabilidade da pessoa envolvida». Os «dubia» fazem menção do ensinamento – tal como foi expresso por João Paulo II em «Veritatis splendor» –, segundo o qual as circunstâncias e as boas intenções jamais podem fazer com que um acto intrinsecamente mau passe a ser um acto bom ou sequer desculpável.

A questão está em saber se «Amoris laetitia» concorda em dizer que qualquer acto que transgrida os mandamentos de Deus, como o adultério, o furto, o perjúrio, consideradas as circunstâncias que mitigam a responsabilidade pessoal, jamais se pode tornar num acto bom ou sequer desculpável.

Continuam estes actos, a que a Tradição da Igreja chamou de pecados graves e maus em si, a ser destrutivos e danosos para quem quer que os cometa, qualquer que seja o estado de responsabilidade moral em que se encontre?

Ou podem estes actos, dependendo do estado subjectivo da pessoa, das circunstâncias e das intenções, deixar de ser danosos e tornar-se louváveis ou, pelo menos, desculpáveis?

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Dúvida número 5:

Depois de «Amoris laetitia», n.º 303, ainda se deve ter como válido o ensinamento da encíclica de São João Paulo II «Veritatis splendor», n.º 56, assente sobre a Sagrada Escritura e sobre a Tradição da Igreja, que exclui uma interpretação criativa do papel da consciência, e afirma que a consciência jamais está autorizada a legitimar excepções às normas morais absolutas que proíbem acções intrinsecamente más pelo próprio objecto?

Em «Amoris laetitia», n.º 303, afirma-se que a «consciência pode reconhecer não só que uma situação não corresponde objectivamente à proposta geral do Evangelho, mas reconhecer também, com sinceridade e honestidade, aquilo que, por agora, é a resposta generosa que se pode oferecer a Deus». Os «dubia» pedem uma clarificação destas afirmações, por isso que as mesmas são susceptíveis de interpretações divergentes.

Para os que propõem a ideia de uma consciência criativa, os preceitos da lei de Deus e a norma da consciência individual podem estar em tensão, ou até em oposição, ao mesmo tempo que a palavra final sempre deveria caber à consciência, que decide em última instância acerca do bem e do mal. De acordo com «Veritatis splendor», n.º 56, «sobre esta base, pretende-se estabelecer a legitimidade de soluções chamadas ‘pastorais’, contrárias aos ensinamentos do Magistério, e justificar uma hermenêutica ‘criadora’, segundo a qual a consciência moral não estaria de modo algum obrigada, em todos os casos, por um preceito negativo particular».

Segundo esta perspectiva, para a consciência moral, jamais será suficiente saber que «isto é adultério», «isto é homicídio», para saber se se trata de algo que não pode e não deve fazer-se.

Em lugar disso, dever-se-ia ainda olhar para as circunstâncias e para as intenções, a fim de se saber se um tal acto poderia, apesar de tudo, ser desculpável ou mesmo obrigatório (cf. pergunta 4 dos «dubia»). Para estas teorias, de facto, a consciência poderia decidir legitimamente que, num certo caso, a vontade de Deus para mim consiste num acto mediante o qual eu transgrido um dos seus mandamentos. «Não cometer adultério» passaria a ser visto como uma norma geral, quando muito. Aqui e agora, vistas as minhas boas intenções, cometer adultério seria, afinal, o que Deus realmente me está a pedir. Nesses termos, seria possível pôr-se a hipótese – no mínimo – de casos de adultério virtuoso, de homicídio legal e de perjúrio obrigatório.

Isto significaria conceber a consciência como uma faculdade para decidir autonomamente acerca do bem e do mal, e a lei de Deus como um fardo que é arbitrariamente imposto e que, a dada altura, poderia opor-se à nossa felicidade.

Sucede, porém, que a consciência não decide do bem e do mal. A ideia de «decisão em consciência» é enganadora. O acto próprio da consciência é o de julgar e não o de decidir. Ela diz tão-só «isto é bom», «isto é mau». Essa bondade ou maldade não dependem dela. O que ela faz é aceitar e reconhecer a bondade ou a maldade de uma acção, e para isso, ou seja, para julgar, a consciência necessita de critérios; ela é inteiramente dependente da verdade.

Os mandamentos de Deus são uma ajuda bem-vinda oferecida à consciência para que colha a verdade e para que, assim, possa julgar segundo a verdade. Os mandamentos de Deus são uma expressão da verdade sobre o bem, sobre o nosso ser mais profundo, mostrando algo de crucial acerca de como viver bem.

Também o Papa Francisco se exprime nestes mesmos termos em «Amoris laetitia», n.º 295: «também a lei é dom de Deus, que indica o caminho; um dom para todos sem excepção».