terça-feira, 20 de setembro de 2016


A verdadeira origem das divisões na Igreja


Roberto De Mattei

Na estratégia de comunicação da Santa Sé, fica-se com a impressão de que se misturam informações, desinformações, verdades, meias verdades e até mentiras. A história da Igreja é escrita por entrevistas, discursos improvisados, artigos em blogs para-oficiais, indiscrições mediáticas, deixando o campo aberto a todas as interpretações possíveis e dando origem à suspeitade que a confusão é planejada.

Ettore Gotti Tedeschi
Dois exemplos recentes. O primeiro diz respeito à destituição, em 2012, do presidente do Istituto per le Opere di Religione-IOR [o «Banco do Vaticano»], Ettore Gotti Tedeschi (foto). No derradeiro livro de Bento XVI, as Últimas conversas com Peter Seewald, o «Papa emérito» assume a responsabilidade pela remoção de Gotti Tedeschi, devido, segundo ele, à necessidade de «renovar os líderes» do Banco Vaticano. Mas o secretário  do Papa demissionário, Mons. Georg Gänswein, havia declarado anteriormente que o mesmo Bento XVI não havia tido conhecimento dessa destituição e «ficou surpreso, muito surpreso pelo acto de retirada da confiança ao professor». Andrea Tornielli referiu-se a isso num artigo de 22 de Outubro de 2013, intitulado Bento XVI ficou muito surpreso com a demissão de Gotti Tedeschi. Em 9 de Setembro de 2016, o mesmo vaticanista, sem reparar a contradição, apresenta a nova versão, com o título Ratzinger: foi minha a ideia de mudar os dirigentes do IOR em 2012. Qual é a verdade? Por certo alguém está mentindo e a confusão permanece.

Mais grave é o segundo caso. Em 5 de Setembro, o site Infocatolica publicou uma carta enviada pelo Papa Francisco aos bispos da região pastoral de Buenos Aires, em resposta ao documento Criterios básicos para la aplicación del capítulo VIII de Amoris laetitia. Neste documento, que visa proporcionar ao clero portenho alguns critérios relativos ao oitavo capítulo da exortação, os bispos argentinos afirmam que, com base na Amoris laetitia, os divorciados recasados podem ter acesso à comunhão sacramental, mesmo quando convivem more uxorio, sem a intenção de praticar a castidade. O Papa Francisco manifestou o seu apreço por essa directiva, escrevendo aos prelados que «o texto é muito bom e explica de modo excelente o capítulo VIII da Amoris laetitia. Não há outra interpretação. E estou certo de que fará muito bem». Abriram-se de imediato as polémicas e a carta pontifícia desapareceu misteriosamente do site. Tanto é assim que muitos duvidaram da sua existência, até que o L’Osservatore Romano confirmou a sua autenticidade.

«Não há outra interpretação». A posição do Papa Francisco sobre os divorciados recasados, já expressa no voo de regresso da ilha de Lesbos, neste ponto parece definitivamente clara. Mas se esta é a sua opinião, porque não exprimi-la de forma clara e explícita, em vez de confiá-la a uma nota de rodapé na Amoris laetitia e a uma carta privada que não vai ser publicada? Será talvez porque da primeira forma a contradição com o Magistério perene da Igreja seria pública e formal, enquanto se quer chegar a mudar a doutrina da Igreja de modo ambíguo e sub-reptício?

A impressão é de que estamos diante de uma manipulação das informações, o que  produz no seio da Igreja precisamente aquelas tensões e divisões que o Papa lamentou no seu discurso em Santa Marta no  dia 12 de Setembro: «Divisões ideológicas, teológicas, que laceram a Igreja. O diabo semeia ciúmes, ambições, ideias, mas para dividir (…). As divisões fazem com que se veja esta parte, essa outra parte contra esta e… Sempre contra! Não é o óleo da unidade, o bálsamo unidade».

As divisões, no entanto, nascem da linguagem ambígua do demónio e são vencidas principalmente pela verdade, a verdade da fé e da moral, mas também pela rectidão da linguagem e do comportamento, o que significa renúncia a toda mentira, falsificação ou reticência, seguindo o ensinamento do Evangelho: «Seja a vossa palavra sim, sim; não, não; o que não for isso vem do Maligno» (Mt 5, 37).






Uma semana em Portugal


Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 18 de Setembro de 2016

Uma das gémeas Mortágua, família cuja notoriedade define o país, mostrou quem realmente governa isto e anunciou um novo imposto sobre o património imobiliário («para apanhar quem escapa ao IRS»).

O PCP, que em matéria de assaltos não gosta de ficar à porta e invade furioso a horta, quer alargar o imposto ao património mobiliário, ou seja colocar a mão literalmente na massa.

A CGTP, que lutou pela «escola pública» (?), luta agora pelos trabalhadores despedidos dos colégios privados que se empenhou em fechar.

O secretário de Estado que viajou à conta da GALP não se demite do cargo mas demite-se de tutelar a GALP.

O Presidente dos «afectos» ouviu um par de «homólogos» estrangeiros jurarem-lhe pela pujança da economia indígena e não percebeu o sarcasmo.

O — passe a expressão — primeiro-ministro exibiu o imaginário que lhe habita a cabecinha e, em momento de típica erudição, sugeriu a Pedro Passos Coelho que vá caçar Pokémons.

O — desculpem o termo — ministro das Finanças, que cá dentro compete em boa disposição com o dr. Costa, andou lá fora a jurar que trabalha imenso para evitar um segundo «resgate», que na verdade seria o quarto.

Os portugueses que ainda não enlouqueceram já nem duvidam da necessidade do resgate, mas duvidam que o tenhamos quando precisarmos dele. O problema é que os portugueses que ainda não enlouqueceram são uma minoria de resistentes. E um problema maior é que, aos poucos, a resistência perde razão de ser: a cada semana, o ambiente em curso convida à resignação e ao abandono. De acordo com as sondagens, cinquenta e tal por cento dos cidadãos registam os sinais e acham que a coisa vai no bom caminho.

No meio da desagregação geral, a opinião publicada aflige-se com a entrevista de um juiz (pretexto para exaltar o eng. Sócrates), as memórias de um antigo assessor (pretexto para criticar Cavaco) e os mexericos do arq. Saraiva (pretexto para demolir Passos Coelho). Portugal é uma casa em chamas onde os moradores só se preocupam com a fechadura que range. Não tarda, estamos a olear a porta reduzida a cinzas. E a culpar a «direita», a «Europa» e a Via Láctea pelos estragos. A Via Láctea não é nossa amiga.





segunda-feira, 19 de setembro de 2016


As perseguições mafiosas

ao juiz Carlos Alexandre


António José Vilela e Fernando Esteves, Sábado, 26 de Março de 2015


O juiz de instrução Carlos Alexandre não tem tido uma vida fácil. Nos últimos 10 anos, já o ameaçaram, invadiram-lhe a casa, tentaram atropelar-lhe a mulher e agora envenenaram-lhe o cão.

O animal de nome Bart, que lhe tinha sido oferecido pelo procurador João de Melo, morreu envenenado com remédio dos ratos. Durante semanas, o cão agonizou e acabou por morrer na semana passada. Suspeita-se que alguém tenha atirado para o quintal da casa do juiz um alimento misturado com veneno para ratos.

Estes casos já não são estranhos para o magistrado judicial que há mais de 10 anos lida com os processos mais complexos relacionados com criminalidade violenta e económico financeira. Quando estava colocado na Polícia Judiciária Militar, Carlos Alexandre chegou a ser ameaçado e temeu até ser agredido dentro das instalações daquela força policial que dependia hierarquicamente do ministro da Defesa Nacional. Na altura, Paulo Portas era o titular do cargo e o juiz tinha ordenado que o seu chefe de gabinete fosse colocado sob escuta por causa de um alegado negócio de compra de material militar.

Mais tarde, já colocado no Tribunal Central de Instrução Criminal,  invadiram-lhe a residência e deixaram-lhe uma velha pistola à vista que estava guardada numa gaveta. O juiz achou que se tratava de um aviso. Apesar de ter segurança 24 horas por dia, outros dois acontecimentos viriam a deixá-lo bastante preocupado, sobretudo porque em causa esteve a mulher Felisbela, que terá sido objecto de duas tentativas de atropelamento quando passava numa passadeira para peões.

Agora foi a vez do cão da família.






PETIÇÃO



Rogério de Moura enviou-lhe a seguinte Petição.

Caros Amigos,

Acabei de ler e assinar a petição: «APOIO AO JUIZ CARLOS ALEXANDRE » no endereço http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT82973

Pessoalmente concordo com esta petição e cumpro com o dever de a fazer chegar ao maior número de pessoas, que certamente saberão avaliar da sua pertinência e actualidade.

Agradeço que subscrevam a petição e que ajudem na sua divulgação através de um email para os vossos contactos.

Obrigado.

Rogério de Moura

Esta mensagem foi-lhe enviada por Rogério de Moura (rdemoura007@gmail.com), através do serviço http://peticaopublica.com em relação à Petição http://peticaopublica.com/?pi=PT82973






Carlos Alexandre incomoda


A folha de serviço


Eduardo Dâmaso, Sábado, 15 de Setembro de 2016

O juiz Carlos Alexandre já foi alvo de denúncias anónimas sobre contactos com jornalistas que nunca teve. Foi obrigado a um striptease salarial e a relatar a inspectores judiciais todos os rendimentos da família. Foi vasculhado por causa de um empréstimo de 4 mil euros num programa de TV dirigido por Sandra Felgueiras, filha da famosa arguida Fátima Felgueiras, que fez outro programa onde explorava alegadas «coincidências» entre as decisões do juiz e as notícias de um jornalista.

Foi «aconselhado», por superiores, a suavizar decisões sobre o crime de branqueamento em processos relacionados com Angola. Viu processos de obras em casa espiolhados e decisões suas achincalhadas por desembargadores da Relação de Lisboa que passaram mais de uma década em comissões de serviço nomeados pelos amigos políticos, com base em opiniões e não em argumentação jurídica. Viu os filhos ameaçados com pistolas deixadas em cima das respectivas fotografias.

Nunca teve uma repreensão do Conselho Superior de Magistratura. Tem quase trinta anos de serviço público, centenas de decisões acolhidas pelo direito e uma folha de serviço impecável. Tudo isso é indiferente aos pregadores evangélicos como Louçã e a outros que o macaqueiam, que reduzem tudo ao interesse indisfarçável que prosseguem e que não é outro senão safar Sócrates, mesmo que isso leve Ricardo Salgado, Oliveira e Costa e Duarte Lima na mesma água do mesmo banho a deitar fora. Todos vítimas do malandro Carlos Alexandre e do iníquo Estado de direito em que vivemos… Grandes democratas!






O «caso» Carlos Alexandre


Elogio dos vermes


José Mendonça da CruzCorta-Fitas, 14 de Setembro de 2016


O juiz Carlos Alexandre deu uma entrevista em que explicou quem era, e tudo o que disse de si está solidamente comprovado pela sua vida, a sua carreira, e o testemunho de quem o conhece ou com ele trabalhou. Mas o juiz Carlos Alexandre cometeu um erro grosseiro de avaliação: avaliou mal o país e o tempo em que vive, incomensuravelmente mais rascas do que julga ou desejaria. Compreende-se, pois, que logo lhe tenham caído em cima os barões do país pardo e da corrupção, obviamente acolhidos e aclamados na comunicação social avençada, e inevitavelmente acompanhados daqueles idiotas úteis que seguem qualquer carroça de pruridos politicamente correctos, na ilusão de mostrar equilíbrio e equidistância.

O juiz Carlos Alexandre avaliou mal.

Declarou-se católico praticante, e disse que a fé o estrutura e fortalece. Ofendeu o credo «laico» da redutora acepção socialista, menosprezou jacobinos e maçons.

Contou com alegria que tem uma família sólida e tradicional, com a qual se sente feliz. Desconsiderou, pois, as virtudes fracturantes.

Revelou serenamente que trabalha muito, ganha pouco, e vive uma vida de austeridade e contenção. Mostrou-se, portanto, displicente com uma governação que virou a página da austeridade, que defende a redução do horário de expediente para os trabalhadores (desde que do sector público), e celebra o fausto, (desde que reservado a quem tem políticas para as pessoas). E, pior, desprezou as nobres carreiras daqueles defensores da coisa pública que, à força do seu dinâmico optimismo, saltaram do Clio para o Mercedes S, do apartamento para o palacete e a casa de férias, da mediania para o enriquecimento sem causa ou explicação, do anonimato para a gloriosa inutilidade de algum observatório ou fundação.

O juiz Carlos Alexandre apresentou-se, em resumo, (e a sua vida e carreira, repete-se, parecem confirmar que é assim) como um homem sério e bom, incorruptível, estranho ao deslumbramento das mordomias, do dinheiro a rodos, dos pied à terre em Paris. Mais grave ainda: o juiz pareceu manifestar uma inabalável fé na Justiça, mesmo naqueles casos a que o programa do PS chama perseguição a políticos (seus).

Eis, pois, em pormenor e por extenso, o mais álacre manifesto contra o tempo novo português.

Que juiz deve servir, então, se Carlos Alexandre, que vai tão ao arrepio do miasma, não serve?

É fácil. Algum magistrado fiel como Santos Silva ou Silva Pereira; impoluto como Rocha Andrade; sensato, contido e escrupuloso como Costa; intocável como Ferro Rodrigues; polido como Galamba; sério como César; equidistante como Rangel; insuspeito como Nascimento; trabalhador como Nogueira; crível como Centeno; e que, no entanto, fosse frugal... como Sócrates.





sábado, 17 de setembro de 2016


E para já!…








«O Papa contra Hitler»:

Uma recensão e um pedido


Brad Miner

O que é que Pio XII sabia sobre o regime nazi na Alemanha, e será que fez o suficiente para o combater? Terá feito o suficiente para salvar os judeus de serem massacrados pelos nazis, tanto em Roma e no resto da Europa? Estas e outras questões continuam em aberto, mas podem ser esclarecidas se o Papa Francisco quiser.

O canal National Geographic (NatGeoTV, para os amigos) está a transmitir um novo «ecodrama» chamado «O Papa vs. Hitler», sobre o braço de ferro entre Pio XII e Adolfo Hitler. O filme recorre a uma dúzia de bons historiadores, o principal dos quais é Mark Riebling, autor de «Church of Spies». Outros peritos consultados incluem o padre George W. Rutler, Eric Metaxas e Nigel Jones. Poderia nomeá-los a todos, mas mais vale avançar com a recensão.

Respondendo à primeira questão apresentada em cima: O Papa sabia muito. «O Papa vs. Hitler» demonstra que Pio XII se esforçou por boicotar o regime nazi logo desde o início. E mesmo antes disso, uma vez que, enquanto secretário de estado do Vaticano, foi ele o principal autor de «Mit brennender Sorge» (Com Ardente Preocupação 1937), a única das encíclicas de Pio XI que não foi originalmente publicada em latim. Trata-se de uma forte condenação dos ataques dos nazis à Igreja e aos judeus alemães convertidos ao catolicismo. Mas não diz nada sobre a desapropriação, deportação e detenção de judeus por parte do regime. (O primeiro dos campos de morte começou a operar em 1939).

Houve uma primeira tentativa de assassinato de Hitler, levada a cabo por membros da Abwehr, a divisão de informação do exército alemão. O Papa Pio XII deu-lhe o seu apoio. Mas o plano acabou por não ser bem-sucedido e depois disso as acções do Papa a este respeito tornaram-se mais circunspectas. Na verdade, todas as nobres conspirações contra Hitler falharam.

Nas palavras de Nigel Jones: «É quase como se o Diabo estivesse do seu lado».

Pois… Sim.

Antes, durante e depois da guerra, o Papa Pacelli foi avisado de que quaisquer intervenções mais fortes da sua parte levariam a um aumento das já pesadas restrições contra a Igreja e os católicos nos países ocupados pelos alemães.

Este estilo de programa, claro, mistura imagens de arquivo, especialistas e encenações de eventos históricos. E nesse sentido é um exemplo bem conseguido. A meu ver, é também uma avaliação globalmente positiva de Pio XII. Mas não totalmente. O rabino Shmuley Boteach diz que entre os historiadores existe um «consenso» de que a Shoah (o holocausto) «não poderia ter tido a magnitude» que teve se o Papa tivesse condenado mais firmemente a solução final nazi. O historiador britânico Geoffrey Robertson concorda: «A condenação do Papa teria tido repercussões em todo o mundo».

Não duvido que isso seja verdade, mas uma visita ao Museu Americano do Holocausto em Washington D.C., mostra que os relatos sobre os crimes dos nazis eram frequentemente ignorados ou desvalorizados, tanto pelo New York Times como pela Administração Roosevelt.

Uma boa parte de «O Papa vs. Hitler» lida com as conspirações falhadas contra o Führer, o que é interessante do ponto de vista histórico, embora bastante conhecido, sobretudo no que diz respeito à tentativa mais famosa, com nome de código Valquíria, levada a cabo pelo coronel Claus von Stauffenberg no dia 20 de Julho de 1944. Quase que foi bem-sucedida. Stauffenberg devia ser um católico devoto (os historiadores divergem neste ponto), mas neste caso não recebeu qualquer apoio ou encorajamento do Vaticano. Então porque é que aparece no filme?

Talvez porque na véspera de colocar a mala-bomba perto de Hitler, Stauffenberg foi-se confessar e, segundo Riebling, pediu e recebeu a «Absolvição de São Leão». É a primeira vez que ouço falar de tal coisa: perdão dos pecados antes de uma batalha, dada por vezes a soldados.

Resumindo, parece claro que Pio XII não era «o Papa de Hitler», como tem sido apelidado por alguns.

Mas isso leva-nos à segunda questão: Será que o Papa fez o suficiente para livrar os judeus do genocídio? O rabino Boteach reconhece que o Papa escondeu judeus sempre que possível – em mosteiros e em catacumbas – mas quando centenas de judeus de Roma foram detidos e colocados em comboios para seguir para os campos de morte (de entre os quais apenas uma mão cheia sobreviveu), o Papa não reagiu. Se o Papa tivesse ido à estação e dito aos soldados alemães – entre os quais certamente havia alguns católicos – que estavam a colaborar com um pecado mortal, quais teriam sido as consequências?

Bom, esse é o problema, não é? Na história as coisas ou se fizeram ou não se fizeram e apenas podemos julgar o que aconteceu, não o que poderá ter acontecido.

E isso leva-me ao pedido: Papa Francisco, revele por favor o material de arquivo do pontificado do seu venerável antecessor Eugenio Pacelli relativo aos anos da guerra.

Passei vários anos a fazer investigação para um livro (sobre o qual escreverei mais tarde) nos arquivos da diocese de Nova Iorque e compreendo porque é que o material de arquivo deve ser selado durante um certo período. O fundador do WikiLeaks, Julian Assange, não concorda, porque tem uma visão absolutista de que a verdade nunca deve ser escondida. Isso é um disparate, e não apenas no que diz respeito a dados secretos.

Tanto eu como o meu co-autor (o Sr. Marlin) não pudemos ver vários ficheiros sobre o cardeal John O’Connor, que morreu no ano 2000. Isso pode dever-se ao facto de haver, nesses documentos, afirmações sobre pessoas que ainda estão vivas e que são difamatórias, ou que não são verdade, ou ambos. A regra é esperar 25 anos. Tanto quanto sei, o Vaticano espera 75.

Isso implica reter os arquivos de Pio XII, que morreu em 1958, até 2033. Mas porque não libertar alguns documentos agora? Pelo menos até 1940, com os restantes anos da guerra a serem tornados públicos até 2020? Ajudaria certamente a responder a várias questões e isso é algo que a Igreja deveria querer fazer o mais rapidamente possível.


(Publicado em The Catholic Thing)





quinta-feira, 15 de setembro de 2016

A preguiça mental contra a acção



Cid Alencastro

Pode parecer surpreendente, mas talvez a preguiça, sobretudo a mental, seja a paixão mais frequente em produzir mentecaptos. Habituando-se a não fazer esforço, a não querer enfrentar o ambiente hostil que o rodeia, a nunca lutar — «dá trabalho»… «dá preocupação»… «exige empenho»… «não é comigo»… — a pessoa acaba por ficar meio aparvalhada e deixa-se levar pela televisão, pela moda, pela opinião dos outros, como uma folha seca que o vento carrega para qualquer lado e acaba por ser pisada como inútil e desprezível. É um néscio, um idiota, um imbecil com o qual não se pode contar para nada de sério ou racional.

A preguiça mental costuma exercer forte tirania em relação aos seus escravos, a ponto de estes preferirem qualquer coisa a terem que lutar ou fazer algum esforço. Disseram-me que o colesterol é produzido por gorduras que aderem às faces internas das veias e impedem o sangue de circular normalmente. A imagem é-me muito cómoda para exprimir esse «engorduramento» das veias do pensamento, que impede a irrigação do cérebro pelo sangue vivo e borbulhante da reflexão bem feita, da observação precisa, da análise objectiva da realidade. E, tudo isso, porque pensar pode levar a conclusões desagradáveis, pode ser um convite à luta, ao esforço, em suma, obriga a sair de entre os lençóis mentalmente «engordurados» da preguiça para o campo de batalha. Se as evidências furam os olhos, o melhor é fechá-los para não ver e não ter que sair das prazerosas comodidades interiores da moleza.

Esse gosto mórbido da inacção mental explica que tenha sido possível aos arautos da esquerda ir introduzindo no convívio social das nações, sem oposição proporcionada, as maiores aberrações intelectuais, como a Ideologia de Género, a generalização da matança de inocentes no ventre materno, os horrores da arte moderna; e, na Igreja, a contestação de doutrinas evidentes, a demolição de cerimónias ancestrais belíssimas, de costumes tocantes. São máquinas de opinião pública que vêm despejando sobre as pessoas esses e outros horrores, como certos tubos enormes despejam asfalto numa via de terra para se constituir ali uma estrada, enquanto o «louco» olha para isso com olhar desagradado, mas aparvalhado.

Alguém dirá: mas muitas pessoas não estiveram de acordo com essas novidades malsãs!

O problema é exactamente esse! A grande maioria dos que não estavam de acordo não quis lutar, limitou-se a um choramingo, a exprimir um desagrado. Preferia que não houvesse essas mudanças, mas deixar as suas comodidades interiores para entrar no campo de batalha ideológico, muitas vezes psicológico, isso não! Ante tal omissão, as muralhas da civilização cristã foram sendo derrubadas uma a uma, sem que os habitantes da cidade de Deus se levantassem corajosamente para impedir a entrada dos inimigos. Hoje estes dominam.

Tudo isso é verdade, pode-se ponderar, mas agora já é tarde, o mundo está entregue e muitos pastores transformaram-se em lobos.





sábado, 10 de setembro de 2016


Seminários tradicionais enchem em França:

mas por cada padre ordenado

morrem oito «modernizados»!


Num ambiente de «Igreja jovem» sacerdotes idosos
se vêem extinguir o sonho de uma Igreja dessacralizada e igualitária.

Luis Dufaur

O clero católico «modernizado» está em crise no preciso momento em que o número dos fiéis no mundo aumentou 1,5% no último ano.

Cresce assustadoramente na Europa o número das igrejas que são dessacralizadas e transformadas em hotéis, bares, mesquitas ou museus. Paróquias e até dioceses são fusionadas por falta de clero.

Dom Bernard Podvin, ex-porta-voz da Conferência Episcopal de França, declarou à TV católica KTO, no final de 2014: «Carecemos de vocações… Quando em solo francês são ordenados cem sacerdotes por ano e morrem 800 no mesmo período, a conclusão é evidente. O déficit esta aí, exclamando».

De facto, o desequilíbrio é evidente – comentou o site boulevard Voltaire –, e atinge em cheio a chamada «Igreja conciliar». Mas não é tanto assim para o sector do clero apelidado de «Igreja tradicionalista.

Com efeito, os números dos «tradicionalistas» projectam conclusões também evidentes, porém esperançosas, que sobressaem no meio de um horizonte de devastação.

Continuando com a tendência inaugurada nos tempos do Concílio Vaticano II, acrescenta o site, a França ficará logo sem padres e terá de mandá-los vir de África ou da Ásia.

Já são muitas as paróquias, inclusive em Paris, administradas por um sacerdote de outro continente.

Infografia do jornal «Le Figaro» de Paris
sobre as ordenações em França
Nos últimos 20 anos, o número de sacerdotes diocesanos e religiosos em França caiu
de 29 000 em 1995 para 13 000 hoje, quando em 1970 eram quase 50 000!

A Revolução Francesa inaugurou esse sinistro processo, tendo a sua continuação na crise aberta pelo pós-Concílio Vaticano II.

Em 1789, a França contava com 110 000 sacerdotes para uma população de menos de 12 milhões de habitantes. Hoje tem 13 000 para uma população de quase 67 milhões.

O site fornece dois exemplos. A região de Lozère só tem 35 padres no activo, e apenas cinco deles têm menos de 60 anos. Na região de Creuse, na diocese de Limoges, só restam em actividade sete padres para seis paróquias. Em 2020, essas regiões provavelmente serão desertos religiosos.

A «Igreja Nova» comemora alguns resultados, decepcionantes no todo, mas que inserido no desastre significam algo.

Em 2015, os bispos franceses ordenaram uma centena de seminaristas que estudaram em seminário vazios. A diocese de Vannes ordenou sete sacerdotes em 2016, o seu recorde desde 1968!

Segundo o jornal «Le Figaro» foram 140 ordenações em 2014; 120 (68 diocesanos e 52 de ordens religiosas) em 2015; e perspectiva de 87 para 2016.

O facto notável é que os institutos que proporcionam uma formação inteiramente tradicional não param de crescer. A liturgia dita de São Pio V, em latim, a batina, o rigor da austeridade eclesiástica e o ensino da Igreja de sempre atrai vocações, recruta sacerdotes e congrega fiéis.

Seminário da Fraternidade Sacerdotal São Pedro, em Wigratzbad, 2016,
um dos que forma segundo os estilos tradicionais e enche de candidatos.

Esses sacerdotes segundo o modelo tradicional na sua grandíssima maioria foram ordenados nos últimos anos e constituem 15% do clero francês. E os seminários dos institutos tradicionalistas estão repletos.

Na linha restauradora, estão em formação 140 seminaristas, algo mais de 16% do total dos 840 seminaristas franceses.





segunda-feira, 29 de agosto de 2016


Livro denuncia montagem verde

contra agricultores e pecuaristas


Luis Dufaur

A «Inquisição verde» está activa. Os cientistas honestos e objectivos são as suas vítimas previamente apontadas, julgadas e condenadas sem direito de defesa.

«As questões ambientais não são de causa antropogénica, ou seja, não foram causadas pela acção humana»
: é o que concluiu o jornalista Richard Jakubaszko após longos anos de estudo e análise.

Expôs as suas conclusões num substancioso livro: «CO2, aquecimento e mudanças climáticas: estão nos enganando?»

(DBO Editores Associados, São Paulo, 2015, 287 páginas).

Richard Jakubaszko

O autor explica que «depois de mais de 8 anos estudando a fundo quase todas as ‘acusações’ e ‘ameaças’ dos ambientalistas, em que um mosaico multifacetado de problemas devastadores são divulgados no dia a dia, especialmente através dos media, acabei por me deparar diversas vezes com a aversão humana ao debate de ideias, manifestada por contestações».

Jakubaszko não é o primeiro a fazer esta dolorosa constatação. Já há muitos anos distintos cientistas brasileiros e estrangeiros vêm sofrendo esta «aversão à razão» na própria pele. Até com injusta marginalização pessoal pelos media e órgãos científicos dependentes dos recursos de governos e organismos internacionais.

Este ambientalismo não é outra coisa senão aquilo que nós denunciamos continuadamente no nosso blog: uma metamorfose do velho comunismo falido com a URSS.

Esta metamorfose infiltrou, deturpou e gerou um movimento tingido de «verde» que surpreendeu muitas pessoas que não imaginariam essa ousadia.

A transformação foi levada adiante por velhos militantes vermelhos – marxistas ou análogos – e  «companheiros de estrada» que ficaram desempregados.

Eles souberam adaptar a filosofia socialista-comunista e mascarar o seu linguajar visando sempre a meta utópica de um comunismo anarco-tribal que Marx e os seus seguidores sonharam num auge de intoxicação ideológica.

O substancioso livro do jornalista Richard Jakubaszko
Para tal era preciso que ninguém percebesse a manobra e ninguém bradasse «o rei está nu». Porém, houve quem viu, as denúncias multiplicaram-se e os livros sobre o caso apareceram. O do jornalista Jakubaszko é um dos mais recentes e mais interessantes.

O ambientalismo genuinamente vermelho, mas camuflado de falso verde, escolheu a estrada da «aversão à razão» e do patrulhamento ideológico como é da praxe nos regimes totalitários ou socialistas-comunistas.

«Os grupos ambientalistas exercem patrulhamento e pressão sobre os cépticos, de natureza política e económica impensáveis, dignas dos tempos de difícil convívio humano», escreve Jakubaszko.

A «Inquisição verde» está activa. Os cientistas honestos e objectivos são as suas vítimas previamente apontadas, julgadas e condenadas sem direito de defesa.

Nesse ambiente, a ciência é manipulada e desvirtuada com intuitos ideológicos pela utopia marxista e por os seus postuladores habilmente infiltrados em órgãos públicos e internacionais, além de ONGs militantes e nos media.

Este activismo não fica por aí.

«Todavia, ignorando dificuldades e realidades que trazem à sociedade em geral, diante das suas acções, explica o autor do livro que comentamos, as entidades ambientalistas e ONGs estão sempre preparando um novo tratado que se anuncia cada vez mais radical com base no propalado aquecimento global».

E Jakubaszko testemunha: «uma das principais acusações que provocaram contrariedades na minha óptica de perceber e avaliar a questão ambiental está no comportamento das ONGs e de alguns dos meus colegas jornalistas que, de forma insistente e até mesmo radical, continuam a culpar os produtores rurais como os principais criminosos ambientais do planeta. (…)

«Mas além dessa falsa acusação contra agricultores e pecuaristas somam-se outras, como a prática de trabalho escravo, trabalho infantil, contaminação do solo, dos rios e dos alimentos por uso de agro-tóxicos e fertilizantes, além do derrube de árvores».

Vermelhos e verdes visam mesmo objectivo.
Ambientalistas e «movimentos sociais» contra
o progresso da agro-pecuária.
 
Em termos nossos, é a velha pregação da luta de classes contra os patrões feita outrora pela «vanguarda do proletariado» e hoje por certas ONGs militantes que se arrogam a representação dos estratos inferiores da organização material para condenar os superiores.

«No transcorrer das páginas deste livro procuro dar respostas a essas acusações, algumas procedentes, apesar de serem excepções, mas a maioria delas levianas e infundadas, pois mostram visões urbanas daquilo que seja o produtor rural brasileiro, considerado uma espécie de Jeca Tatu moderno, ainda inculto, mas que enriqueceu às burras e que continuaria ganancioso».

O livro do jornalista Richard Jakubaszko apresenta uma densa e qualificada documentação das melhores fontes brasileiras, entre os quais se destacam os professores Luiz Carlos Baldicero Molion e José Carlos Parente de Oliveira.

É uma obra indispensável para quem queira manter uma visão da realidade verdadeiramente despoluída de slogans e distorções eco-radicais e sustentar o seu pensamento com informações verdadeiramente científicas, objectivamente apresentadas e raciocinadas.

«CO2, aquecimento e mudanças climáticas: estão nos enganando?» (DBO Editores Associados, São Paulo, 2015, 287 páginas) está à venda apenas pela internet ou por telefone (11 3879.7099) e retirado pessoalmente na DBO Editores, ou pelo e-mail co2clima@gmail.com. Preço: R$ 30,00 mais despesas postais (em média de 8,00 para qualquer ponto do Brasil).


Veja mais: https://www.youtube.com/watch?v=S4rW5d9UlI0





segunda-feira, 22 de agosto de 2016


Salazar, 48 anos depois


Helena Matos, Observador, 3 de Agosto de 2016

Os nossos líderes quiseram acreditar que bastava dizerem-se anti-salazarista para serem melhores portugueses e saberem o que era melhor para Portugal. Não bastava, como se viu e como se vê.

Quarenta e oito anos depois de Salazar ter saído de cena onde estamos? A quem viveu o PREC basta fazer as contas e perceber que levamos sem Salazar aquele número mágico dos 48 anos que, em 1974, tudo explicavam: era a longa noite dos 48 anos do fascismo, os 48 anos de opressão, os 48 anos de miséria… num crescendo em que os 48 anos pareciam um século.

Salazar morreu oficialmente há 46 anos, a 27 de Julho de 1970. Mas a sua morte política teve lugar dois anos antes quando, no dia 3 de Agosto de 1968, caiu no Forte de Santo António. As histórias da História registam uma queda acidental numa cadeira de lona como a causa do processo que levaria, em Setembro desse mesmo ano de 1968, ao seu afastamento do cargo de Presidente do Conselho.

Para a oposição, cujos líderes eram então jovens, a imagem de Salazar a estatelar-se de costas, era mais um episódio da decrepitude que eles achavam que nunca iriam sofrer. Para o regime a queda da cadeira foi também uma história conveniente pois, caso a queda não tivesse sido acidental, haveria que reconhecer que ela era apenas o culminar de uma doença de que Salazar já dera sinais no Conselho de Ministros que tivera lugar a 12 de Junho de 1968. Nesse Conselho de Ministros, segundo recorda Franco Nogueira, um Presidente do Conselho fisicamente debilitado repetiu, sem aparentar qualquer consciência disso, parte da intervenção que fizera no dia anterior.

Reconhecer que Salazar estivera quase três meses (de 12 Junho – quando ocorre o conselho de ministros em que Salazar manifestamente mostra um quadro de alguma confusão – a 6 de Setembro, quando é hospitalizado) já intelectualmente diminuído em funções era per si embaraçoso mas para cúmulo nesse período, ou mais precisamente a 19 de Agosto, Salazar remodelara o Governo, mexendo em pastas tão importantes quanto o Exército, Marinha, Educação e Finanças. Assim a queda acidental na cadeira tornou-se a versão conveniente para todas as partes.

Mas tenha sido acidente ou sinal de doença, a queda da cadeira nesse Agosto de 1968 é o princípio da morte de Salazar. Rapidamente o salazarismo, que nunca foi uma ideologia, arreigou-se como uma espécie de nostalgia tão mais tranquila quanto garantidamente a tal tempo e modo de viver não se pode regressar e presumo que ninguém verdadeiramente o queira, a começar pelos próprios salazaristas.

Ao lado deste «salazarismo-produto da nostalgia» emprateleirado entre artigos tradicionais que tal como o salazarismo ninguém usa, impôs-se vigorosamente o anti-salazarismo. Durante décadas da nossa democracia, tudo em Portugal foi bom ou mau consoante fosse, ou não, apresentado como salazarista ou «do tempo de Salazar». As mais prosaicas leis ou até simples regulamentos de cargas e descargas ganhavam estatuto de mudança urgente caso alguém descobrisse que tinham sido rubricados por Salazar.

(Quando os tempos impuseram que se gostasse do que, por sinal muito erradamente, fora sendo associado a Salazar – casos do fado, do futebol e também de Fátima – rapidamente se conferiu a esses até aí pilares do salazarismo a aura da expressão popular e da resistência ao Portugal de Salazar. Dada a rapidez das mudanças do campo «do pilar do salazarismo» para o «da resistência ao Portugal de Salazar», espero pelo Verão, certamente próximo, em que veremos a «Cantiga da boa gente» a ser estudada nos acampamentos do BE como «manifesto alternativo feminino qualquer coisa».)


O estatuto de anti-salazarista tornou-se num dos maiores paradoxos da democracia portuguesa: o facto de se ter feito equivaler anti-salazarismo a combate pela liberdade levou a que terroristas, ladrões, violadores e orgulhosos servidores de regimes totalitários estrangeiros (a que alguns até transmitiram informações militares) acabassem a ser apresentados como defensores da democracia, regime que alguns dos anti-salazaristas abominavam ainda mais que Salazar.

Se esta identificação entre anti-salazarismo e liberdade gera equívocos quando falamos do período em que Salazar esteve no governo (1928-1968), para o período da I República o resultado é anedótico pois pretende-se que os líderes da I República não só estavam imbuídos de um presciente anti-salazarismo como que o próprio regime republicano se regia pelas regras institucionais nossas contemporâneas. Resultado: assuntos como a repressão das greves na I República – que nesta versão dos factos não é suposto ter acontecido – e o voto das mulheres no Estado Novo – sim, no Estado Novo, para grande irritação da oposição, as mulheres passaram, embora com limitações, a poder votar e ser eleitas – acabam a causar a maior estranheza e incompreensão. A guerra que Portugal travou entre 1961 e 1974 em África é adjectivada como colonial porque decidida por Salazar. Já o esforço militar que Portugal travou em África durante a I Guerra é apresentado como defesa patriótica dos territórios ultramarinos.

Avaliar o passado em função da posição tomada por Salazar em cada contexto leva-nos a paradoxos como os atrás enumerados e, ironicamente, exime Salazar daquelas que são as suas óbvias responsabilidades políticas. Afinal Salazar, como muitos dos líderes não democráticos que se acreditam intelectual e moralmente muito acima dos seus contemporâneos, sejam eles seus apoiantes ou opositores, conduziu o regime que edificara para um beco sem saída ou de que a única saída seria um golpe.

Daqui resultou o inevitável: a natureza autoritária do regime condenava Portugal a ficar, mais cedo ou mais tarde, politicamente nas mãos dos militares o que no caso do então Ultramar seria trágico pois ao reprimir a formação de líderes políticos no âmbito partidário, o regime deixou o lugar de representantes daqueles territórios para os líderes dos auto-denominados movimentos de libertação que de libertação nada tinham e a quem, sobretudo no caso de Angola e São Tomé, faltava muito para serem movimentos fosse do que fosse.

Os moldes em que decorreu aquilo a que se chama descolonização resultam assim não de uma derrota militar mas sim da natureza ditatorial do Estado Novo – sem líderes políticos fortes no então Ultramar (não os havia nem os podia haver porque o regime não o permitia) o destino daqueles territórios e de quem neles habitava acabou como tinha acabar: a ser decidido, em 1974, em reuniões e plenários de oficiais, sargentos e praças. Naquilo a que então se chamava metrópole o desfecho foi outro porque nestas coisas a Geografia conta e os EUA (nessa época) também.

A democracia recuperou Salazar. O homem que o marcelismo progressivamente afastara de cena em 1968 e enterrara em 1970, que pouco a pouco fora ficando reduzido a umas breves notícias sobre a fundação que levava o seu nome e a missas por sua intenção voltou ao centro da retórica política. Afinal, descobria a nomenclatura do novo regime, era difícil viver retoricamente sem Salazar. Sem o poder culpar. Sem o poder julgar. Sem o poder invocar… E assim ao longo destes 48 anos tivemos o salazarista, o anti-salazarista e por fim o salazarento que até rima com bafiento.

Mas agora que a máquina fiscal detém mais informação sobre as nossas vidas do que a PIDE alguma vez conseguiu sobre os cidadãos, mesmo os que caíam na sua alçada, agora que já vimos como a decrepitude física e intelectual chega a todos, agora que estamos a caminho de mais uma falência, agora que os populismos tomaram conta da agenda, é mais que chegado o tempo de nos confrontarmos com o óbvio: boa parte da mediocridade do nosso presente e muitos dos nossos actuais bloqueios nascem do facto de boa parte dos líderes da nossa democracia e das nossas elites terem acreditado e feito acreditar que bastava declararem-se anti-salazarista para serem melhores portugueses e saberem o que era melhor para Portugal. Não bastava, como se viu e como se vê.





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