domingo, 26 de junho de 2011

As estrelas de Passos Coelho
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É um bronco, o Álvaro da economia. E já começou!

José Cruz

Aquele ministro que gosta mais de que lhe chamem Álvaro do que ministro já começou a revelar as suas reais capacidades.

De visita à Feira do Artesanato (25.6.2011), Álvaro Santos Pereira, Ministro da Economia, olhando para uma peça de artesanato português, tem esta saída airosa: «É tão bonito e tão bom que parece que não é português.»

Por aqui se pode ver o que podemos esperar daquela cabecinha académica com sorriso de deslumbrado. Quem quiser conhecer melhor as suas virtudes intelectuais, pode dar uma vista de olhos pelo seu livro Portugal, na Hora da Verdade (Gradiva, 2011). Aí terá oportunidade de se aperceber do liberalismo descabelado do sujeito em todas as áreas, desde a economia à educação, da deliberada manipulação de estatísticas e de falsificações na história contemporânea de Portugal.

terça-feira, 21 de junho de 2011

O elogio fúnebre

Gonçalo Portocarrero de Almada*, Público

Foi apenas quem conduziu o país à bancarrota
e ao maior desprestígio internacional,
que é "o que fica" para a História
No tom laudatório que é da praxe nos elogios fúnebres, o ideólogo de serviço do defunto Governo e do seu primeiro, veio à praça pública defender os méritos daquela governação, agora valentemente repudiada pelo povo, em expressivas eleições legislativas.
Embora mereçam a minha simpatia os que defendem, ao jeito do Robin dos Bosques, os desgraçados, e reconheça que é de uma rara nobreza elogiar os vencidos, confesso que não pude deixar de sorrir ao ler o obituário, não obstante o seu tom pesaroso. Aliás, já me divertira com o encenado drama da comunicação pós-eleitoral do derrotado chefe do Governo, que mais me pareceu uma medíocre comédia. A grandiloquente peça de oratória do demissionário primeiro-ministro, decerto mais preocupado com a sua própria imagem pessoal do que com o interesse da população, que certamente dispensava uma tão extensa alegação de auto-exaltação, era caricata, se não fosse tão verdadeiramente expressiva do que foi o seu desgoverno.
Embora respeitável a opinião do cronista, parece que o seu panegírico do infeliz político agora apeado é, na realidade, uma crítica à vontade soberana do povo, cujo veredicto é tanto mais censurável quanto louvável era o agora deposto governante. Na sua óptica, se o povo não peca por ignorante e injusto, peca pelo menos por ingénuo, por ter acreditado naqueles que triunfaram nas eleições e que, segundo o articulista, tinham ao seu dispor a comunicação social. São desculpas de mau perdedor que, talvez, relevem alguma saudade do "centralismo democrático" de outras eras. Mudam-se os tempos e mudam-se as vontades, mas nem sempre as mentalidades acompanham essas mudanças...
Tem de facto graça o estilo barroco do bacoco texto encomiástico, palpável na adjectivação magnânima do cadáver político do querido líder: a convicção reformista deste é "notável"; o progresso que introduziu na modernização e na simplificação administrativa é "impressionante"; as suas reformas foram "profundas", como "profundo" é o seu espírito de modernização (outra vez, à falta de melhor...). Quem, sem o conhecer, lesse a citada nota necrológica poderia pensar que o país lhe deve o caminho marítimo para a Índia, a descoberta do Brasil, o Mosteiro da Batalha, Os Lusíadas, as pontes sobre o Tejo e o Douro ou qualquer outro feito histórico. Na realidade, foi apenas quem conduziu o país à bancarrota e ao maior desprestígio internacional, que é "o que fica" para a História de Portugal, já que na mundial não terá qualquer cabimento. Não é fácil ganhar eleições, mas é muito mais difícil saber perdê-las com a dignidade que só a humildade e a veracidade conferem.
Mas é certeiro o articulista, quando afirma que "a despenalização do aborto, a agilização do divórcio e a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo ficarão a marcar" o consulado agora findo. De facto, foi contra a vida e a família que mais se destacou o Governo demissionário, que em poucos anos conseguiu a proeza de lograr um extraordinário retrocesso civilizacional, tanto mais questionável quanto realizado por pressão de grupelhos sem representatividade nacional e à revelia da vontade popular, porque até mesmo o resultado do referendo sobre o aborto não foi vinculativo, nem expressivo de uma inequívoca determinação nesse sentido.
Se foram de facto, como o dito jurista pretende, reformas de carácter civilizacional, que legitimidade tinha o anterior poder para as realizar, sem um mandato explícito dos eleitores?! Não é verdade que, para uma reforma constitucional, que é de menor importância do que uma mudança civilizacional, se exige uma maioria qualificada? Será portanto necessário que a nova maioria reveja essas reformas que, ao contrário do que se pretende, não são indeléveis - alguns estados dos EUA revogaram, depois de consulta popular, a autorização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo - e oportunamente as corrija, para que a sociedade portuguesa recupere alguma da liberdade e da decência perdidas.
"Em Portugal, onde por via de regra as modas chegam quando lá fora já deixaram de o ser, ainda não veio ninguém a público - que eu saiba - defender a impunidade absoluta ou relativa do aborto [...] e nisso tem a intelectualidade portuguesa dado uma prova exuberante do seu fino quilate", escreveu, em 1935, o dr. Alfredo Ary dos Santos, em O Crime de Aborto. Hoje, a ufania desse advogado e publicista já não tem cabimento, porque o provincianismo de alguns levou a trazer cá para dentro tudo o que de pior se faz lá fora. Mas, como então escreveu aquele precursor da defesa do direito à vida no nosso país, "temos pois - sincera e gostosamente o dizemos - que seguir na retaguarda desse movimento e assim estar na vanguarda do progresso, visto que o progresso, em ciência moral e política, não é necessariamente tudo quanto seja novo, senão tudo quanto seja verdadeiro".
* Licenciado em Direito e doutorado em Filosofia; Vice-Presidente da Confederação Nacional das Associações de Família (CNAF)

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O Exército dos generais sentados

Vídeo à atenção do Comandante da GNR (aquela corporação militar das duas
fufas que «casaram») e seus responsavelmente semelhantes em qualquer dos
ramos de terra, mar e ar.
Não percam.

domingo, 19 de junho de 2011

Com a Paulinha abortista em Ministro da Justiça...

Heduíno Gomes
Com a Paulinha abortista em Ministro da Justiça, o aborto vai deixar de ser livre e gratuito para ser obrigatório e remunerado.

«A solução para a guerra era política e não militar»...

João José Brandão Ferreira










«Se não ganhássemos o de além, poderíamos perder o de aquém”.
          Gomes Eanes de Zurara

          (Crónica da Conquista da Guiné)

À semelhança de muitas outras atitudes, discussões e comportamentos, também passou a ser “normalmente” aceite ou, se quiserem, politicamente correcto e tranquilizador do espírito, afirmar que a solução da guerra contra subversiva, que travávamos em África (1961-1974), era «política» e não «militar», e que as Forças Armadas (FAs), pela sua acção, garantiram o tempo suficiente para que essa solução fosse encontrada.
A frase foi primeiramente proferida em Lisboa, durante a leitura do primeiro comunicado ao país da Junta de Salvação Nacional, em 26 de Abril de 1974. A partir daqui, a confusão de conceitos e de ideias instalou-se, porém, nada de substantivo veio a público. A questão já tinha sido abordada no livro "Portugal e o Futuro", escrito pelo então General Spínola (ou por quem o ajudou nesse intento), mas sem especificar o que queria dizer exactamente com isso.
Todavia, não deixa de ser curioso (apesar de se ter revelado dramático), que o então famoso general se tenha esquecido do antigo princípio clausewitiano de que a «guerra é a continuação da política por outros meios», querendo passar a fazer da política a continuação da guerra. Ignoramos se alguém que o rodeava lhe terá chamado alguma vez a atenção para isto.
Além de mito a frase, como tem sido usada, é uma falácia. Vejamos porquê. A decisão para acabar com uma guerra - mesmo em caso de desaire militar - é política, assim como também a decisão de a travar é, acima de tudo, política. Se dúvidas houver, lembra-se que as decisões políticas devem reflectir os interesses nacionais, neste caso dos portugueses, e não dos seus inimigos. Ora, tendo o governo português e os portugueses, reagido em legítima defesa contra agressões violentas, vindas do exterior e apoiadas por potências estrangeiras, a territórios e populações que eram legitimamente nossas, por direito e por devoção, e como essa defesa obrigava a desencadear e manter operações militares, caberia naturalmente às FAs ocuparem-se dessa missão. É essa a razão da sua existência.
Iniciadas as hostilidades, estudado o inimigo e apreciadas as ameaças, ficou estabelecido como objectivo político, a defesa intransigente da soberania portuguesa em todos os seus territórios, a defesa do território e a protecção das suas populações, bem como a salvaguarda do património cultural e espiritual da nação. Além disso, instituiu-se um conceito estratégico que nas palavras do Ministro da Marinha, o Almirante Pereira Crespo, se pode enunciar da seguinte maneira:
-- Mostrar uma vontade firme de resistir e de vencer (o inimigo teria de acreditar que a luta em que estávamos empenhados era para nós vital e de que nunca desistiríamos, fosse por fadiga, fosse por traição);
-- Acelerar o desenvolvimento económico e social dos territórios ultramarinos, aumentando a participação dos portugueses de raça negra na administração dos negócios públicos. (O inimigo teria de optar entre os sacrifícios de uma luta de guerrilha e a sua integração numa sociedade em pleno desenvolvimento, na qual poderia participar);
-- Receber, como irmãos e sem qualquer preconceito, aqueles que, tendo lutado contra nós, desistissem de tal luta.
Esta estratégia obrigava a uma guerra de desgaste, cuja duração dependia, essencialmente, da resistência do inimigo. Parece-nos evidente que a estratégia dos inimigos, neste ponto, era idêntica à nossa, embora de sinal contrário, isto é, pretendia impor-nos uma guerra de longa duração, que se arrastaria o tempo que fosse necessário, até nos levar ao cansaço e ao desgaste, o que por sua vez criaria tensões internas que enfraqueceriam a nossa vontade de lutar e obrigariam eventualmente o governo português a mudar de política.
Todavia, ao contrário de Portugal (que ainda assim tentou substituir a liderança política na Guiné - Conacri por uma que lhe fosse favorável, através da operação «Mar Verde»), os movimentos subversivos dispunham do apoio de vários países e de «quintas colunas» portuguesas, para, por meio de um golpe de Estado, substituir o governo de Lisboa por outro ideologicamente mais próximo das teses independentistas (ou por compromissos assumidos) e negociar, assim, a capitulação.
Os defensores da «solução política» versus «solução militar» costumam cair ainda noutro paradoxo: esquecem-se que uma solução política, num contexto complexo de relações internacionais e de guerra total, apoia-se não só na força militar, mas também no âmbito estratégico, económico, financeiro, social, diplomático e psicológico. Em todos eles estavam a ser desenvolvidos vários esforços e era necessário, para tal, de mais tempo. E assim sendo, as Forças Armadas não seriam as únicas a determinar as condições que deveriam estar na base das decisões políticas, nem o "timing" em que estas deveriam acontecer. Quando se diz que a guerra durava há demasiado tempo, o que é que isso quer dizer concretamente? Alguém se pode atrever a definir um prazo para o tempo que uma guerra deve durar?
No plano das contendas internacionais, é possível isolar quatro grandes formas de coação: políticas, económicas, diplomáticas e militares.
O conflito que estamos a analisar, não fugiu à regra. Em termos militares, costuma-se ouvir dizer que uma guerra de guerrilha é impossível de vencer militarmente. Não é verdade, como o provam as vitórias inglesas na guerra da Malásia (1946-1957), e no Quénia (1952-1960), bem como as várias tentativas de subversão falhadas que os cubamos, após a vitória de Fidel Castro, tentaram fazer em vários países da América do Sul (por exemplo, na Venezuela, na Guatemala, no Peru, na Colômbia e na Bolívia).
No entanto, uma vitória militar como essas, aparentemente, não era aplicável ao nosso caso, mesmo quando se sabia que em 1973, o inimigo tinha praticamente desistido de lutar em Angola. As tácticas utilizadas pela guerrilha permitiam atacar em pequenos grupos e escolher a altura e o local para o fazer, já que podiam atravessar as fronteiras quando lhes aprouvesse (relembre-se que nas ilhas africanas que pertenciam ao território português nunca se verificou qualquer tipo de subversão). Podiam, portanto, prolongar a luta indefinidamente.
Para os aniquilarmos teríamos de os perseguir sistematicamente nos territórios onde se refugiavam, porém, uma decisão dessas conduziria, quase de certeza, a uma guerra clássica ou, então, criaria problemas militares e diplomáticos de muito difícil previsão.
Por outro lado, a guerrilha não tinha qualquer hipótese de bater as Forças Armadas Portuguesas, que estavam muito bem estruturadas, eram numerosas (em termos relativos) e actuavam no seu próprio território. O inimigo teria de subir a parada e constituir forças de exército regular que conseguissem suplantar o nosso potencial, como aconteceu, por exemplo, na Indochina contra os franceses e americanos. Ora, na altura não se conseguia vislumbrar qualquer hipótese do inimigo, mesmo contando com o apoio dos exércitos regulares de alguns países limítrofes, conseguir atingir esse objectivo.
Além disso, tanto a Rússia como a China mostravam muita relutância em fornecer tanto meios militares mais sofisticados como pessoal para realizar operações desse género. Assim, tudo indicava que a solução para a guerra não passava pelo campo militar.
No âmbito diplomático, o impasse era idêntico, não havendo perspectivas de que fosse possível encontrar uma solução para qualquer dos lados. Os sucessivos ataques desferidos pelos inimigos de Portugal, na ONU, OUA, etc., nunca tiveram quaisquer resultados práticos e a sua repetição e ineficácia acabou por cair numa indiferença generalizada. Por outras palavras, tornaram-se irrelevantes.
Do nosso lado, era inviável «obrigar» a URSS e seus satélites ou aliados a mudar a sua política de apoio à guerrilha, afinal, estavam a defender os seus interesses. De igual modo, estava fora de questão conseguir convencer os dirigentes dos países que tinham fronteiras com as nossas províncias ultramarinas a desistir de conceder apoio ao inimigo. Mesmo que o quisessem (e alguns, como o Senegal e o Malawi, até queriam), não o poderiam dizer publicamente, tendo em conta a política seguida por praticamente todos os países de maioria negra e árabe do continente africano.
No âmbito económico, era igualmente impossível obter uma solução para o conflito. Uma acção da nossa parte teria de ser feita, não contra o PAIGC, a Frelimo, a FNLA ou o MPLA, mas sim contra as potências que os apoiavam, pois eram estas que forneciam toda a logística que permitia à guerrilha sobreviver. Ora, tal estava completamente fora das nossas possibilidades. A pressão que eventualmente poderíamos exercer sobre o Zaire e a Zâmbia, no que tocava à importação e exportação de mercadorias através dos nossos portos e caminhos-de-ferro, estava reservada para situações críticas, sendo preferível, por enquanto, mostrar boa vontade e garantir uma boa vizinhança.
O inimigo também não tinha força para prejudicar a economia de Angola e Moçambique e só muito dificilmente o fazia na Guiné o que, no contexto geral, era irrelevante. E se no campo internacional era possível que nos conseguissem causar sérios problemas económicos ou até impedir de realizar trocas comerciais no nosso espaço ultramarino, através da interdição das linhas de comunicação marítima, por exemplo, isso iria levantar problemas geopolíticos delicados no equilíbrio mundial, pelo que nunca foram tentados.
A única solução para ambos os lados da contenda era, pois, obter a vitória pela via política. Ora o objectivo do inimigo passava por fazer com que Portugal entregasse os territórios ultramarinos. De que forma? Esse “pormenor”parecia irrelevante. Para as potências comunistas, nomeadamente a URSS, o mais importante era conseguir que o poder fosse entregue a movimentos marxistas e não a outros, que teriam de ser excluídos ou eliminados. O resultado final da estratégia era a substituição de soberanias, não a autodeterminação dos povos.
Após a independência, os movimentos, reféns da ajuda recebida, teriam o apoio dos países que a forneceram e poderiam quebrar quaisquer compromissos que tivessem feito. A potência «colonizadora», neste caso Portugal, ficaria de pés e mãos atados e a mais pequena objecção seria imediatamente qualificada de «tentativa de ingerência» ou tique neocolonialista.
Já vimos que a estratégia para se alcançar esse objectivo político implicava o desgaste do nosso exército através de operações de guerrilha ou então precipitar a substituição do governo de Lisboa por outro favorável à retirada portuguesa dos territórios africanos. Note-se que a primeira via ajudava e conduzia à segunda. E se as actividades de guerrilha podiam ser deixadas aos movimentos que lutavam contra nós, já para subverter a Metrópole era preciso contar com o apoio tanto de algumas grandes potências, como de alguns portugueses pouco dignos desse nome e que se prestassem à infâmia. E foi isso precisamente que aconteceu.
A subversão foi dirigida preferencialmente aos meios estudantis, donde sairiam os oficiais e os sargentos milicianos que iriam dirigir as tropas portuguesas, ao mesmo tempo que procurava explorar todos os sinais de descontentamento que pudessem existir entre os militares do quadro permanente.
A primeira movimentação deu-se logo em princípios de 1969, quando os sargentos fizeram saber do seu descontentamento (e com razão) relativamente a uma actualização geral de vencimentos, que vinha piorar a sua já difícil situação económica. O problema foi corrigido, não se tendo verificado uma politização desse movimento, como chegou a ser tentado. Em simultâneo, algumas organizações clandestinas levaram a cabo actos de sabotagem na Metrópole.
No entanto, o inimigo insistiu principalmente na solução política, não descurando, porém, a acção militar e diplomática. Foi para fazer face a esta estratégia do inimigo que também o governo português se viu obrigado a definir uma solução política, nomeadamente através de acções de contra-guerrilha, durante o tempo que fosse necessário, de modo a causar desgaste no inimigo que, inevitavelmente, dariam origem a divisões internas e criariam um ambiente de desmoralização generalizada, ao ponto de fazer com que deixassem de acreditar na vitória e perdessem assim a vontade de lutar. No fundo, pretendia-se que os guerrilheiros chegassem à conclusão que era mais vantajoso permanecerem portugueses, ou seja, plenamente integrados no todo nacional. Para tal, era importante não descurar nenhum âmbito de actuação.
Por isso é que não cabia aos militares dar tempo aos políticos para eles encontrarem uma solução política; cabia sim aos políticos dar aos militares (e aos diplomatas, empresários, investidores, etc.), as condições necessárias para que eles pudessem cumprir a sua parte no esforço comum, a fim de que fossem atingidos os objectivos políticos definidos! O que, à excepção do caso da Índia, não se pode dizer que não tivesse sido feito.
Resta agora especular sobre outras possíveis soluções políticas que Portugal poderia ter aplicado. A primeira, defendida por alguns, mesmo dentro do regime, era mudar a estrutura política nacional, quer através de outras alternativas de autonomia ultramarina, confederação ou federação (tese defendida pelo general Spínola no livro Portugal e o Futuro), quer transformando o regime numa democracia do tipo ocidental, como pretendia a oposição «democrática» e «liberal». Do nosso ponto de vista, esta discussão não fazia qualquer sentido tendo em conta o problema que se tinha entre mãos, já que as forças inimigas não iriam mudar a sua política ou as suas exigências, qualquer que fosse o tipo de regime ou de organização político/administrativa que os portugueses decidissem adoptar.
Por outro lado, a forma como nós estávamos a conduzir a guerra não tinha de ser alterada, fosse qual fosse a natureza das instituições a estabelecer. Além disso, a organização política do Estado Português era um assunto interno nacional e o que se viesse a decidir em Lisboa não poderia ir à revelia do sentimento dominante em cada um dos territórios, sobretudo em Angola e Moçambique, pois eram aqueles que maior peso relativo viriam a deter.
Outra hipótese que chegou a ser equacionada passava por fazer um referendo ou um plebiscito, perguntando às populações ultramarinas qual o destino que pretendiam para as suas terras. A vivência, os testemunhos e a informação existentes na altura, não admitem qualquer dúvida: os resultados seriam esmagadoramente favoráveis à manutenção de uma pátria portuguesa pluricontinental e multirracial. Dito de outro modo, se tivesse sido essa a solução escolhida, os interesses portugueses não seriam afectados.
Ainda assim, e deixando de parte a discussão sobre a legitimidade de se referendar a soberania, seria uma ingenuidade acreditar que o inimigo aceitaria um resultado que lhe fosse desfavorável; ou que quisesse até sujeitar-se a esta prova, dadas as suas conhecidas debilidades e faltas de apoio interno. Além disso, e na hipótese de concordar com essa solução, faltava saber se ele estaria disposto a colaborar honestamente na sua realização e a acatar as decisões maioritárias. De outro modo, os resultados jamais seriam aceites pela comunidade internacional.
Mesmo que um ou outro grupo de guerrilha aceitasse participar, provavelmente com o objectivo de colher alguns dividendos, era pouco provável que desmantelassem as suas organizações clandestinas ou que depusessem incondicionalmente as armas, para assim poderem reiniciar a luta quando lhes aprouvesse. Acreditar que os países comunistas, que apoiavam a subversão à distância e ansiavam por se instalar nos nossos territórios, iriam desistir dos seus intentos por causa de um referendo, usando métodos tidos como democráticos, seria uma ingenuidade ainda maior.
Políticos e simples cidadãos, nacionais e estrangeiros, e até diferentes comentadores e "adivinhos", tanto na década de 60 do século XX, como já no período pós revolucionário, relativamente às desgraças ocorridas na fase das independências (a que, por decoro, não chamamos pelo nome de descolonização), defenderam que se deveria já ter concedido a independência aos territórios de além-mar, nomeadamente a Angola e Moçambique , de modo a que se pudessem criar "novos Brasis" e constituir, dessa forma, uma comunidade de países de expressão lusíada, ou seja, com uma matriz portuguesa a uni-los. Todavia, esta solução seria outra ingenuidade, impossível de realizar, que além disso traria graves consequências.
Com efeito, dificilmente essa solução seria realizável enquanto esses movimentos inimigos não fossem vencidos. Mas se isso acontecesse, os grupos armados da guerrilha não teriam qualquer hipótese de vir a participar no poder, já que não possuíam apoio nem estrutura para tal. Depois, uma comunidade de países de inspiração portuguesa iria impossibilitar que esses países caíssem na órbita comunista. Além disso, a permanência de uma larga comunidade branca seria igualmente um entrave a esses desígnios e, por isso, seria duramente combatida.
Ficar ligado a Portugal significava continuar na área de influência ocidental, exactamente o contrário daquilo que o bloco marxista pretendia. É importante não esquecer que estávamos no «último pico» da Guerra Fria. Ou seja, caso Angola e Moçambique se tornassem independentes em circunstâncias que fossem favoráveis tanto para os portugueses como para esses novos países, o mais certo era que a guerra de guerrilha continuasse, apoiada nas organizações já existentes, que não seriam desmanteladas. Ora, sem a presença dos meios metropolitanos, Angola e Moçambique não teriam qualquer capacidade para se defender, além de que a vulnerabilidade das suas fronteiras (incluindo a aérea e marítima) aumentaria desmesuradamente. E, nessa altura, Portugal não poderia ajudar militarmente os novos Estados. Infelizmente, muitos dos pseudo - eruditos que viviam naqueles territórios não foram capazes de perceber estas evidências.
Finalmente - a não ser que alguém consiga apontar mais alguma - restava como solução política a tão apregoada via das negociações com o inimigo. Deve começar por dizer-se que as negociações em tempo de guerra não são um fim, mas um meio. Um meio para um dos contendores alcançar a vitória ou então tentar evitar a derrota. Ora, como Portugal não estava a perder a guerra, não fazia qualquer sentido entabular negociações com o objectivo de evitar uma catástrofe maior. E, no primeiro caso, só fazia sentido negociar partindo de uma posição de força e com objectivos claros que pudessem fazer balancear decisivamente a contenda em favor dos nossos interesses.
Em casos mais raros, um dos contendores, pelas posições que conseguiu conquistar, pode julgar-se vencedor à partida e, como tal, tentar impor uma solução ao inimigo, fazendo com que este capitule sem mais luta - caso, por exemplo, de Hitler em relação à Inglaterra, após ter conquistado a França. De qualquer forma, uma negociação faz-se sempre Estado a Estado, o que não era, manifestamente, o caso.
No contexto do conflito que travávamos, seria muito difícil, diríamos mesmo impossível, negociar qualquer solução de compromisso, pois tal implicava que não houvesse um vencedor declarado; além disso, era preciso ter em conta que não estaríamos a negociar apenas com os grupos guerrilheiros, mas também com as potências, sobretudo as comunistas, que os apoiavam (a UNITA ilustra bem o que acabámos de afirmar, já que foi possível chegar a um entendimento com esse movimento - não marxista - que não só o neutralizou face aos nossos interesses como ainda por cima começou a combater os movimentos rivais). De facto, tanto o MPLA em Angola, como a Frelimo em Moçambique, nunca aceitaram negociar coisa alguma a não ser a independência, quaisquer que fossem as circunstâncias em que esta viesse a ser obtida. Perante isso, o governo português ia negociar o quê?
A excepção a estes casos foi a Guiné e teve como intermediário o Presidente Senghor, do Senegal, a quem repugnava a influência que a Guiné - Conacri poderia vir a ter sobre a Guiné portuguesa. Os contactos começaram em 1971, através dos bons ofícios de um terceiro governo. Senghor defendia que a Guiné deveria ser independente no âmbito de uma comunidade luso- afro- brasileira extensiva, naturalmente, às restantes províncias e estava disposto a discutir essa questão com o governo português . Lisboa reagiu bem a esta iniciativa e enviou um alto representante a Dacar propor diligências preparatórias . Por razões que só o então presidente senegalês saberia explicar, esta iniciativa não teve continuação. Em meados de 1972, Senghor fez saber ao Governador da Guiné, que gostaria de falar com ele. Autorizado pelo governo, Spínola encontrou-se com Senghor em Cap Skiring, na fronteira norte da Guiné, mas em território senegalês. Dessa conversa resultou uma proposta de encontro entre Spínola e Amílcar Cabral, onde seria negociado um cessar-fogo, após o que se acordaria que o PAIGC seria integrado nas estruturas portuguesas e passaria a colaborar no governo do território. Daí se evoluiria para uma consulta às populações sobre o seu destino futuro.
As propostas foram analisadas em Lisboa com profundidade, tanto a nível do governo, como a nível do Conselho Superior de Defesa Nacional, e ainda por diversas personalidades. Ficou decidido - e bem - não prosseguir as negociações. Em primeiro lugar, porque ao sentar Spínola e Amílcar Cabral à mesma mesa, o governo de Lisboa estava a reconhecer, implicitamente, que o PAIGC era uma força beligerante respeitável, algo que seria aproveitado, como é lógico, pelos outros movimentos. Tal facto teria amplas repercussões (como tudo o resto) na imprensa internacional. O PAIGC não se limitaria, naturalmente a fazer reivindicações apenas sobre a Guiné, procuraria englobar Cabo Verde, onde nunca se tinha disparado um tiro; a partir do momento em que aceitássemos um cessar-fogo, ficaríamos com as mãos amarradas para fazer fosse o que fosse, ao passo que o PAIGC conservaria toda a liberdade para fazer o que bem entendesse. E havia a hipótese de nos serem preparadas várias armadilhas.
De resto, não se percebia ainda muito bem como seriam as relações entre a tropa portuguesa e os guerrilheiros. Independentemente do que acontecesse, o início das negociações seria sempre visto como uma vitória para o inimigo e teria uma acção moralizadora nas suas hostes. Mesmo na suposição de que tudo corresse bem, seria impensável que Sekou Touré e a URSS aceitassem tal acordo. Amílcar Cabral seria facilmente denunciado como revisionista, ou como traidor e a luta prosseguiria apoiada em grupos ainda mais pequenos. Ora o efeito de tudo isto sobre o moral das tropas portuguesas poderia ser catastrófico, a confusão ficaria rapidamente instalada e sobreviria depois uma desmobilização psicológica, pois a mensagem que se estaria a transmitir era que a guerra tinha chegado ao fim e que, portanto, o regresso a casa estava próximo. Para além de tudo isso, nenhuma decisão deveria ser tomada em relação à Guiné que não tivesse em conta o seu impacto nas restantes parcelas de Portugal, nomeadamente Angola e Moçambique.
Spínola foi informado de que as soluções tinham de ser pensadas tendo em conta o contexto global do conflito, ou seja, não podiam ser vistas apenas pela fresta de Bissau. Nesse sentido, o general foi convidado a ir conhecer a realidade dos outros teatros de operações o que aceitou. Foi nesta entrevista com o chefe do governo que este último proferiu a célebre frase que apontava para a possibilidade de uma derrota militar na Guiné, o que muito escandalizou o general, que pelos vistos nunca aceitou nem digeriu a argumentação apresentada, tendo regressado a Bissau visivelmente transtornado. A partir de então, espalhou-se a ideia de que a solução era «política» e não militar; que os militares deram tempo e até encontraram soluções para a guerra, que os políticos em Lisboa é que não queriam, ainda por cima não se importando com uma derrota militar (o que trouxe ao de cima o espectro da Índia). Daí para a frente, as coisas só pioraram. O «acto» seguinte foi a elaboração do livro "Portugal e o Futuro".
*****
Eis pois o que entendemos equacionar sobre a tão propalada "teoria" de que a solução para as últimas campanhas ultramarinas - apelidadas em certos meios como "guerra colonial" -era política e não militar. Expressão que tem sido proferida por respeitáveis figuras do mundo civil e militar, com ar sério e cândido, porém sem lhes acrescentar qualquer substância ou enquadramento especifico.
Politica e socialmente tem sido correcto q.b.
Na realidade, porém, não passa de uma frase oca que apenas serve para tranquilizar (más) consciências – ou pior ainda, servia objectivamente, os intentos do inimigo.
Em qualquer caso longe de um nexo politico/estratégico que fosse ao encontro da matriz dos interesses portugueses e do futuro dos territórios em causa.
Parece que, passados 37 anos, só não vê quem não quer.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Colóquio na SEDES
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Tema: o ensino

Heduíno Gomes
No dia 2 de Junho, teve lugar na SEDES um colóquio sobre o ensino. O moderador foi Fernando Adão da Fonseca (Presidente do Fórum para a Liberdade de Educação), tendo participado Marçal Grilo e Mário Pinto.
Adão da Fonseca 
Marçal Grilo, Ministro da Educação de Guterres, num tom sussurrento que mal se percebia, e estilo sábio pleno de anglicismos do thesaurus de eduquês, deu o mote. Mário Pinto concordou e desenvolveu. E Adão da Fonseca abençoou.

Conceitos fundamentais
Marçal Grilo
Perguntando que educação e qual a mais adequada, responde Marçal Grilo que «Há ideologia a mais e pragmatismo a menos» no ensino. Este suposto teórico de educação, autor de «tratados» sobre a coisa, dá assim nota da superficialidade tecnocratista com que aborda o tema: ignora que existe uma disciplina que se chama filosofia da educação, donde derivam vários pontos de vista… vários conceitos… várias ideologias pedagógicas…

Mário Pinto
Para Marçal Grilo e Mário Pinto não se trata de distinguir conceitos diferentes na abordagem da educação mas… de ser «pragmático»... Isto é, como se na base da praxis não estivessem os conceitos. Para «teórico» de educação e ex-ministro da pasta da educação não está mal, não senhor. O mesmo temos a dizer sobre Mário Pinto, que celebra assim o casamento entre o pragmatismo e o cristianismo!

Sistema nacional de ensino
Marçal Grilo opõe-se à existência de um sistema nacional de ensino, no que foi acompanhado por Mário Pinto e Adão da Fonseca, o Presidente do Fórum para a Liberdade de Educação, cuja guerra é precisamente a mesma.
Mário Pinto acha que a responsabilidade da educação não é também da competência do Estado mas apenas «dos pais e da sociedade». Dos pais entendemos. Mas o que quererá dizer «da sociedade»? O que será para ele «a sociedade»? Quem a representa? Algum grupo ou seita a que pertença? Mário Pinto escuda-se atrás de uma retórica liberal e pseudo-cristã de ataque ao «monopolismo do Estado» e de defesa da «liberdade de escolha da família» para pôr em causa precisamente a organização das famílias no seio da Nação tendo em vista alcançarem em conjunto um bom sistema de ensino para todos.
A anarquia proposta por Mário Pinto vai ao ponto de ouvirmos frases impensáveis como estas: «O aluno faz propostas e a escola escolhe.» ou «A escola está sensível à escolha do aluno.». Acha também que as escolas, presume-se que primárias e secundárias, devem possuir «currículos alternativos como as universidades». É este o seu «modelo de liberdade».
Na perspectiva de todos estes senhores, Portugal não necessitaria de um sistema nacional de ensino, não o reconhecem como peça fundamental a médio e longo prazo de um plano estratégico nacional. Para estes senhores, o que é bom não é um bom plano mas a «diversidade», isto é, a espontaneidade. «Não precisamos de um estado central educador e tutelar» mas de «projectos próprios».
De salientar que a grande batalha de Adão da Fonseca e do seu Fórum para a Liberdade de Educação, para além de comungar das aberrações das «novas pedagogias», é precisamente a tal autonomia das escolas, ao ponto de cada uma dever ter os seus próprios programas. Traduzindo isto por miúdos, o que estes «generosos» e «patriotas» pretendem é deixar o ensino nacional afundar-se no caos e criar colégios privados com ensino de qualidade para os seus rebentos, isto é, a mediocridade de ensino para o povão e o bom ensino para os ricos.
E Marçal Grilo, co-responsável da mediocridade actual, vem lamentar a falta de exigência no (seu) ensino endossando a responsabilidade aos pais! (Terei ouvido bem ou o homem descarrilou?)

Ensino secundário técnico
Marçal Grilo, numa atitude verdadeiramente delirante de traumatizado com algum episódio ocorrido durante o Estado Novo ou a autojustificar-se por ter sido, com Veiga Simão, um dos coveiros do ensino técnico, ataca-o. Ora, coisa que qualquer pessoa de bom senso faz é lamentar a destruição deste ramo de ensino. Mas Marçal Grilo, hábil na demagogia, faz dele uma caricatura destrutiva e fora do tempo e fica todo ufano.

História do ensino em Portugal
Mais uma vez Marçal Grilo prefere a falsificação à verdade, agora no que toca ao esforço do Estado Novo para fazer sair Portugal do atraso com que o herdou. Fazendo tais caricaturas, Marçal Grilo revela ou uma total ignorância da história do ensino em Portugal (então cale-se!), ou uma grande desonestidade, ou ambas.
Perante a notável obra do Estado Novo em matéria de extensão do ensino, traduzida em números concludentes no aumento de escolaridade e na construção de infra-estruturas, e ainda na alta qualidade dos seus programas e manuais, vir tratá-lo de obscurantista, como ele veio, não é de gente conhecedora ou séria.
Também desdenhar da utilização de regentes escolares e imputar a criação «dessa figura» ao Estado Novo é dupla ignorância ou desonestidade: primeiro, «essa figura», no seu entender obscurantista e medíocre, não foi criada por capricho de ninguém mas como solução de emergência para lutar contra o analfabetismo, tendo as regentes escolares cumprido a sua missão enquanto eram produzidos professores primários em quantidade suficiente; segundo, esse real mérito não pertence de facto ao Estado Novo, que apenas continuou a sua utilização, mas à I República. Dupla asneira.

Três conclusões
De todas estes doutorados disparates, ressaltam três conclusões.
Primeira, tais candidatos a especialistas em educação revelam grave défice em várias matérias essenciais à pedagogia. Como podem entender a pedagogia se não entendem a natureza humana nem a sociedade, por exemplo pretendendo colocar os próprios educandos a escolher os programas, ou seja, em auto-educadores?
Segunda, do ponto de vista nacional, tais políticos revelam uma completa irresponsabilidade. Na competição internacional, que será duma nação que não organize para a excelência o seu sistema de ensino de maneira a levar mais longe as suas crianças e jovens?
Terceira, do ponto de vista humanista, tais pessoas revelam pouca sensibilidade. Onde pararão os sentimentos cristãos daqueles que se estão nas tintas para o bem comum e apenas procuram o negócio no complexo pedagogico-industrial ou o ensino de qualidade (pensam eles...) para os seus?













Ainda as comemorações do 10 de Junho

Heduíno Gomes
Como complemento ao artigo de João J. Brandão Ferreira «O 10 de Junho e os combatentes», há a acrescentar alguns pormenores significativos.
Um dos oradores na Conferência que teve lugar na Gulbenkian foi António Telo, professor na Academia Militar. Começando por declarar que se limitaria a citar factos e não tomaria posição, como se fosse historiador isento, a verdade é que escolheu os factos à sua maneira e acabou mesmo por… tomar partido.
António Telo foi um dos tais que pôs em causa a justeza de Portugal responder à guerra com a guerra.
António Telo defendeu as teses capitulacionistas e a jeito dos americanos sobre o Ultramar de Botelho Moniz, criticando-o apenas por ter sido ingénuo na sua luta com Salazar.
António Telo foi um dos que entendeu a «solução» 25A.
E é António Telo é formador dos jovens oficiais, que por ele ouvem contar umas histórias e moldam a sua perspectiva de vida, patriotismo e dever militar a partir de tais balelas! Formador ou intoxicador?
Puseram os pontos nos ii João J. Brandão Ferreira e Jaime Nogueira Pinto.
No dia 10 de Junho, junto ao Monumento aos Combatentes, houve vários discursos normais na circunstância. Contudo, um houve que destoa pela circunstância e pela falta de verdade: o de Jorge Cabrita, um chefe da PSP, que, apesar do verniz que lhe aplicou, deixou transparecer o alinhamento com a esquerdalha, na linguagem e nas ideias.
Ah, importantíssimo, ainda foi lida uma mensagem igualmente ambígua de Cavaco, o rolha N.º 3 (sendo que o n.º 1 era o Costa Gomes e o n.º 2 o Eanes).



segunda-feira, 13 de junho de 2011

O 10 de Junho e os combatentes

João J. Brandão Ferreira
(síntese)
A Comissão Promotora do Encontro Nacional dos Combatentes, organiza uma romagem anual de homenagem aos Combatentes do Ultramar, junto ao respectivo monumento, em Belém, no dia de Portugal. Este ano promoveu, também, uma conferência sob o tema “A Presença de Portugal em África”, ao longo dos séculos, que teve lugar na véspera, na Fundação Gulbenkian.

A conferência foi presidida por Adriano Moreira. Sobre a subversão e a guerrilha com que nos defrontámos em África, entre 1961 e 1974-1975, lá se ouviram as mesmas frases recorrentes. Estas ideias, além de constituírem mitos, funcionam como uma espécie de autojustificação psicológica e tranquilizadora de consciências, para quem contribuiu, não se opôs ou se acomodou à vergonhosa retirada de “pé descalço”, com que terminou a nossa centenária permanência naquele continente (e em Timor). Vamos analisar quatro frases feitas.

“Uma guerra subversiva não pode ser ganha”.
Mentira, os ingleses ganharam na Malásia e no Quénia; as guerrilhas lançadas por Castro e Guevara, nas Américas Central e Sul, foram quase todas derrotadas; até os EUA teriam ganho a guerra do Vietname se tivessem tido a coragem e o discernimento de impor a censura nos media. Nós já tínhamos subjugado a guerrilha em Angola e estávamos muito longe de a perder na Guiné e Moçambique.

Não entendemos ou reagimos aos “ventos da História”.
Os ditos ventos são sempre soprados por quem tem poder em cada época e fartaram-se de soprar contra nós, durante séculos. O ataque, em 1961, foi apenas mais um. Temos, de facto, que estar sempre atentos a tais ventos e responder em função dos nossos interesses, não dos outros. E isso quer dizer agir e lutar dentro das nossas possibilidades e em todos os tabuleiros. Para isso necessitamos de ter Poder. A alternativa a isto é sermos escravos e bananas.

“Os militares garantiram ao poder político o tempo necessário para estes encontrarem uma solução para o conflito”.
Este argumento afigura-se-me tosco e tem uma lógica invertida. Juro que não entendo como isto se faz. Os chefes militares (quando? todos ou alguns?) vão ter com o Governo e dão-lhe um prazo? E como se calcula o tempo considerado suficiente? Dois anos? Cinco anos? Treze anos de guerra em África é muito mas os 80 anos que durou a guerra com os holandeses são aceitáveis? A Guerra da Restauração durou 28 anos: o que teria acontecido se nos tivéssemos cansado ao fim de treze? Isto tem alguma lógica ou aceitabilidade? Quando vão tropas, hoje, para o Afeganistão, ou outro lugar qualquer, o CEMGFA tem uma conversa prévia com o MDN e dá-lhe um prazo?
A um oficial ou sargento do quadro permanente não ficará muito mal estar a “queixar-se” do tempo que dura um conflito? Ele escolheu a profissão e pode ter que combater desde que se forma até que se reforma!

Finalmente, a cereja em cima do bolo: “a solução para a guerra era política e não militar”.
Confesso que entendo este argumento como o mais mirabolante de todos. Sendo a guerra, na máxima clausewitiana, a continuação da política por outros meios, pretenderiam os autores da frase a continuação da guerra através da política? O mais curioso de tudo é que a maioria dos autores deste portento, di-lo com o ar mais sério do mundo e, a seguir, cala-se, como que aliviado depois de ter proferido uma sentença absoluta! Mas, no fundo, o que querem dizer? Que propostas apresentam?
Pois é, afirmar que a solução é política e não militar que dizer tudo e não quer dizer nada… Por definição entrar-se numa guerra ou colocar-lhe um fim, é essencialmente uma decisão política – e, neste particular, anunciar que a decisão da guerra é política e não militar, transforma-se num pleonasmo…
A decisão política sobre um conflito deve ser feita tendo em conta os nossos interesses, não os do inimigo. E sendo comum aceitar-se ser a guerra uma coisa má, existe uma pior, que é justamente perdê-la.
Disse ainda o Prof. A. Moreira (e tem-no repetido amiúde), que os portugueses, desde Afonso Henriques, funcionaram sempre “em cadeia de comando” e isso explica que o povo fosse sempre cumprindo os desígnios nacionais. Eu julgo entender o que o ilustre professor quer dizer (embora nunca o explicite), mas penso que não é a verdade toda. A verdade toda é que essa cadeia de comando foi interrompida, em 1820, para só voltar a ser reposta em 1926 (melhor dizendo, em 1932), tendo-se perdido, novamente, em 1974.
E agora, volta-se à cadeia de comando ou…. a quê?

domingo, 12 de junho de 2011

Cavaco, o Repovoador

Heduíno Gomes
Depois de ter encerrado tudo quanto era maternidade no interior do País, de ter estoirado com a agricultura a troco alcatrão e jeeps e de ter dificultado a vida às pessoas com umas direcções regionais longínquas e sem acessos (distribuídas a uns boys), Cavaco, com a lata do costume, vem falar de repovoar o interior.
(Discurso do dia 10 de Junho de 2011)

«Apuramento das responsabilidades»
-- diz Barreto

Heduíno Gomes
«Apuramento das responsabilidades» [ de quem conduziu Portugal à calamitosa situação e de quem promoveu a corrupção e incompetência da classe política ], diz Barreto, o convidado de Cavaco para botar faladura.
Sabendo nós das culpas que tem no cartório quem o convida para palrar, das duas, três.

Ou o Cavaco está a fazer uma autocrítica por interposta pessoa – o que não está de acordo com o facto de nunca se enganar;
ou o orador está a trair quem o convidou – o que parece pouco curial, ainda por cima da parte de quem não apresenta grande coragem para enfrentar o mal, quanto mais para ser ingrato com o protector;

ou são dois grandessíssimos hipócritas combinados nos discursos – o que destoa destas duas pessoas tão santinhas.

Mistério.


O dia de Santo António Barreto

Heduíno Gomes
Começa a ser fatídico, enjoativo e sonolento ouvir em cada 10 de Junho a conversa do santinho António Barreto: conversa moralista e aparentemente crítica sobre a política e os políticos vinda de alguém que dá provas de ser tão mau como os que critica.

Merecerá alguma confiança um sujeito que edita livros na linha da decadente III República, nomeadamente a promover as tais «liberdades» dos invertidos?

Merecerá alguma confiança um sujeito que pensa nos moldes dos mitos ideológicos e antivalores morais que imperam, como ficou patente na série televisiva que produziu, na qual mentiu descaradamente sobre a vida social e política antes de 1974 e promoveu a decadência moral? (Ele deixou o PCP em 1968 apenas porque a União Soviética invadiu a Tchecoslováquia mas a mentalidade continuou a mesma do Rumo à Vitória de Cunhal, que ainda perdura na sua actual visão sobre Portugal de antes de 1974.)

Merecerá alguma confiança um sujeito que sistematicamente se opõe à clarificação política e moral (a que chama «crispação»), comportando-se como um oportunista politicamente correcto e um vulgar relativista?

Porque o tipo faz uma conversa de santinho para agradar,  politicamente correcta, agora até já há para aí uns patós que começam a falar dele como candidato às próximas eleições presidenciais. Para que tudo fique na mesma.

Depois de Eanes, Sampaios e Cavacos, tudo é possível e louvado nesta III República.



A cereja no bolo-rei

Heduíno Gomes
Já nos vamos habituando às anedotas de Cavaco. Depois de um discurso a assobiar para o lado sobre a crise de que é co-responsável, sua excelência foi comer cerejas, isto é, pôr a cereja no bolo-rei: mais umas tentativas de fazer humor... seco.
O que vale é que o Presidente de 23% dos Portugueses já só engana no máximo… 23% dos Portugueses!

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A moral viscosa de Passos Coelho

Bernardo Motta, Espectadores
É de se pasmar...
Passos Coelho, aquando da promulgação da Lei do Aborto, manifestou publicamente o seu apoio à dita. Agora, em entrevista dada recentemente à Rádio Renascença, mostra uma posição mais ambígua...
«O presidente do PSD recorda que esteve “há muitos anos do lado daqueles que achavam que era preciso legalizar o aborto - não era liberalizar o aborto, era legalizar a interrupção voluntária da gravidez -, porque há condições excepcionais que devem ser tidas em conta” e não se deve “empurrar as pessoas que são vítimas dessas circunstâncias para o aborto clandestino”.»
Está à vista a estratégia: Passos Coelho quer puxar para o PSD alguns votos do CDS. Mas os eleitores dotados de valores morais que estejam indecisos entre PSD e CDS não se podem deixar enganar. Passos Coelho, procurando passar a imagem de preocupação pela manifesta generalização ("liberalização") do aborto, pelos vistos insiste na sua legalização. Ou seja, insiste na ideia insana de quem um crime pode ser legal. Já para não falar nas famigeradas "condições excepcionais", pois se matar um ser humano inocente é um acto claramente imoral, não se vê onde estão as ditas condições de excepção, ou seja, não se entende quais são as circunstâncias que tornam legítimo matar um ser humano inocente.
Os eleitores não se podem deixar enganar. A moral de Passos Coelho é a mesma de José Sócrates. São políticos profissionais, relativistas, que consideram que a moral se define por consensos alargados e por referendos. Refugiam-se em chavões ambíguos, procuram ao mesmo tempo parecer modernos e responsáveis, e acabam por não ser nem uma coisa nem outra.
E, finalmente, fazem-nos de parvos. Ao que parece, segundo Passos Coelho, algumas mulheres, antes da famigerada lei de 11 de Fevereiro de 2007, eram "empurradas" para o aborto clandestino. Ou seja, não viam outra alternativa para as suas gravidezes senão a de as destruir, matando os seus filhos. E o Estado, que deve fazer, segundo Passos Coelho? Ora é claro: ajudá-las a matar os seus filhos. Isso sim, é serviço público. Não um aborto clandestino, um aborto sem o preenchimento do formulário DS-1845, um aborto sem a assinatura de uma junta médica, sem o carimbo da clínica da Yolanda. Um aborto decente tem todas essas formalidades e mais algumas. Isso é que é um aborto decente.
Assim, que deve o Estado fazer às mulheres que se sentem "empurradas" para o aborto? Ora, deve "empurrá-las" para o aborto legal! Está fora de questão prestar apoio à gravidez e à maternidade! Está fora de questão ajudá-las em questões jurídicas (quando são ameçadas por namorados, familiares ou patrões), ou dar-lhes fraldas e papa para o bebé. Isso não é moderno. Essas tarefas de apoio à maternidade ficam para aqueles grupos de extremistas católicos, para os "talibans da vida".
O Estado presta um nobre serviço: o aborto legal! A destruição legal de seres humanos inocentes, em ambiente hospitalar controlado, e tudo pago pelos contribuintes. Isso é que é modernidade! Mas Passos Coelho, o pós-moderno, para além de querer esse aborto moderno, quer regulamentá-lo mais um bocadinho. Torná-lo um bocadinho menos chocante para os eleitores mais sensíveis, talvez trocando alguns abortos à oitava semana com Mifepristone (RU-485) por abortos à primeira ou segunda semana com Levonorgestrel (vulgo, "pílula do dia seguinte")... Mas sobretudo, o que Passos Coelho quis, com esta entrevista calculista na Rádio Renascença, foi enganar uns quantos potenciais eleitores do CDS, levando-os a votar, de forma incauta, no PSD. Apesar de as sondagens o sugerirem, nem todos os eleitores são parvos.



segunda-feira, 30 de maio de 2011

A História de Portugal que não foi
porque o Homem morreu

Heduíno Gomes
Como está o PPD-PSD, todos sabemos.
Como seria com Carlos Mota Pinto, podemos ter uma ideia a partir do documento de 1985, abaixo apresentado, que fazia parte do plano de trabalho para dotar o PPD-PSD da orientação e instrumentos necessários a Portugal.
O Homem morreu e sucederam-lhe os pigmeus: Cavaco e seus clones. 
Passaram 26 anos.
Os problemas do PPD-PSD são os mesmos.
Os problemas de Portugal também.
E a solução também.


(Projecto)
O PAÍS, O PARTIDO, A MUDANÇA

Editorial do Presidente para o Povo Livre e a ser reeditado como manifesto para a mobilização da base.

O PAÍS

A situação do País é grave.
As empresas sentem dificuldades. O desemprego. A pobreza. A habitação. A assistência. A droga. O ensino. A identidade nacional.

As causas.
As utopias. O esbanjamento. A incompetência. O academismo. Os interesses egoistas dos grupos e a manipulação da sociedade.
As consequências previsíveis.
A bancarrota. A dependência económica e polltica em relação ao estrangeiro. A derrocada da democracia.

Mudar o rumo dos acontecimentos.
O povo português quer a mudança. Encontrar a perspectiva certa. Unir as forças construtivas. Abrir um novo capítulo na história de Portugal.

O PARTIDO

Para realizar a mudança é fundamental que o próprio Partido seja o motor.
Pela implantação popular de que desfruta e consequente expressão eleitoral de que dispõe. Por ser a expressão genuinamente popular e democrática da Nação. Por consubstanciar os interesses profundos de justiça e de progresso dos portugueses. Por possuir as forças internas necessárias à construção e à mudança.

O Partido não está, infelizmente, preparado para a mudança.
O Partido não tem um programa claro (tem um programa inútil, carregado de preconceitos ideológicos, irrealista, esquerdizante, socializante).
O Partido não possui uma organização sólida. O Partido não possui organismos sectoriais dinâmicos que apliquem a sua política.
O Partido não segue uma directriz clara. O Partido está dividido pela influência de interesses meramente pessoais e de grupos que o dilaceram no topo e se servem da base, que pacientemente tem assistido à sua utilização abusiva, a uma delapidação de energias do Partido e do País.

Vamos preparar o Partido para a mudança.
Vamos elaborar um programa claro, realista, que exprima as necessidades da Nação, do povo português.
Vamos dotar o Partido de uma sólida organização e de organismos que apliquem esse programa quer a nível nacional quer pontualmente.
Vamos clarificar o Partido. Que os interesses pessoais e de grupos fiquem à porta e que os militantes destacados para funções no Estado ou no Partido apliquem escrupulosamente a política do Partido, que queremos e procuramos que seja a política útil aos portugueses como pessoas, como famílias e como nação.
Quem assim não entende o Partido não entende a voz da sua base nem a voz dos portugueses. Essas pessoas devem tomar a iniciativa de ressituar-se a si próprios no quadro do Partido e mesmo em relação ao eleitorado junto do qual têm beneficiado da caução do Partido.
Queremos um partido com um programa claro. um partido construtivo. dinâmico. unido e forte para mudar Portugal [frase do Presidente para o poster previsto no Plano de Actividades no ponto 2.3 v)].
Desejo a unidade do Partido, mas a unidade assente no seu fortalecimento e clarificação. Apelo ao bom senso de todos. Mas lanço um apelo muito especial à base e aos quadros para que me ajudem nesta necessária e urgente tarefa.

(Clicar sobre as imagens para ver o original fac simile deste documento de 1985)