sexta-feira, 29 de julho de 2011

Afinal só as moscas é que mudaram...

Com este monopólio açambarcador tem forçosamente de haver desemprego para os que não são «génios», isto é, não são amigos dos poderosos.
O «amiguismo» impera, e não se notam diferenças entre este e os Governos de Sócrates…
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terça-feira, 26 de julho de 2011

As estrelas cadentes e decadentes

João J. Brandão Ferreira
A actriz Amy Winehouse morreu.
Numa sociedade “equilibrada” ler-se-ia no seu epitáfio o cristianíssimo “paz à sua alma”. Epitáfio cristão, simples e … pudico.
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Motivações do terrorista de Oslo são anticristãs

As motivações do homem que assumiu a autoria dos atentados de Oslo, Anders Behring Breivik, não têm nada a ver com o cristianismo, nem sequer com ramos do cristianismo fundamentalista, explica o sociólogo da religião Massimo Introvigne, representante da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE) para a luta contra o racismo e as discriminações contra os cristãos.
Behring, segundo informa Introvigne, expôs as suas reivindicações e ideologia no livro 2083 – Uma Declaração de Independência Europeia, assinado com o pseudónimo de Andrew Berwick, e difundido num site codificado na internet em 22 de Julho, poucas horas antes dos atentados.
“A autenticidade do texto – explica Introvigne – parece confirmada pelo facto de incluir detalhes sobre a vida privada e familiar de Breivik e sobre a preparação do atentado, cujo objectivo, entre outras coisas, nunca é mencionado, que só o terrorista podia conhecer e é coerente com outros escritos de Breivik.”
“Este texto, de 1500 páginas, é, numa terceira parte, uma antologia de escritos de outros autores contra o Islão e a imigração, entre os quais se encontra o blogger norueguês Fjordman, verdadeiro pai intelectual do terrorista, de quem cita um escrito, segundo o qual depois da Idade Média o cristianismo – cujos únicos aspectos eram de origem pagã – converteu-se para a Europa n‘uma ameaça pior que o marxismo’”.
Outra terceira parte dos escritos do volume oferece material autobiográfico de Breivik, detalhes sumamente minuciosos sobre as armas, as tácticas militares e explosivos, e um alucinante diário sobre a preparação do atentando.
“A parte mais interessante – afirma Introvigne – é a ideológica, que explica as motivações do atentado e as ideias de Breivik.”
O terrorista teria fundado, em 2002, em Londres, com outros activistas, a Ordem dos Pobres Companheiros de Cristo do Templo de Salomão, inspirado nos graus Templários da Maçonaria.
Esta suposta Ordem estaria aberta “aos cristãos, cristãos-agnósticos e ateus-cristãos”, quer dizer, a todos que reconhecem a importância das raízes culturais cristãs, “mas também “das judaicas e iluministas”, assim como “das pagãs e nórdicas”, por se oporem aos verdadeiros inimigos, o Islã e a imigração.
“Longe de ser um fundamentalista cristão – esclarece Introvigne – Breivik, baptizado na Igreja Luterana da Noruega, define-se um ‘cristão cultural’, cujo apelo à herança cristã tem uma função instrumental anti-islâmica.”
As igrejas, segundo o terrorista, não estão dispostas a lutar contra o Islão. Por isso, ele propõe um Grande Congresso Cristão Europeu, do qual nasça uma nova Igreja Europeia e anti-islâmica. E ameaça directamente o Papa Bento XVI, pois “abandonou o cristianismo e os cristãos na Europa e deve ser considerado um Papa covarde, incompetente, corrupto e ilegítimo”.
Os “justiceiros templários” de Breivik deveriam promover três fases da “guerra civil europeia”, explica o sociólogo.
“Na primeira (1999-2030), deveriam despertar a consciência adormecida dos europeus através de ‘ataques das células clandestinas’, desencadeando a acção de grupos que utilizam o terror: grupos pequenos, inclusive de uma ou duas pessoas”.
Na segunda fase (2030-2070), deve-se passar à insurreição armada e aos golpes de Estado. Na terceira (2070-2083), à verdadeira guerra contra os imigrantes muçulmanos.
Breivik está consciente de que os ataques da primeira fase transformarão os conspiradores em terroristas odiados por todos, mas esta é a forma do “martírio templário” que ele busca. Os objectivos dos ataques iniciais são os partidos políticos: o Partido Trabalhista Norueguês, em primeiro lugar, mas também aponta contra os partidos europeus que boicotariam de diferentes maneiras a guerra contra o Islão. Ele aponta ameaças contra partidos políticos italianos cúmplices desta acusação e contra Bento XVI.
Breivik reitera que não é um nazi (“se há uma figura que odeio é Adolf Hitler”), devido à ideologia politico-religiosa pró-semita e pró-israelita do terrorista. Ele sonha com uma grande aliança dos povos nórdicos e dos judeus para lutar contra o inimigo pelo qual é obcecado: o Islão.
“Fica por ver se é verdade ou puro delírio – conclui Introvigne – a afirmação de que os neo-templários de Breivik não se reduzem apenas a ele, mas que abarcam outras pessoas que, segundo o texto, estariam a ser treinadas na África e noutros lugares pelos criminosos de guerra sérvios, a quem o terrorista considera heróis. Se fosse verdade, a ameaça contra a Itália e o Papa deveria ser levada a sério.”

Obrigado, GR

Corrigido.
H.G.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Acordo ortográfic​o

Eduardo Lucas Coelho
Prezada Lusitânia: Embora não sendo especialista de ortografia, também sou contra o denominado «acordo ortográfico», pelas razões substanciais que têm sido invocadas, entre outras. O «acordo ortográfico» é numa palavra indesejável do ponto de vista de Portugal. E creio que também o é do ponto de vista dos denominados Países de língua portuguesa.Posto isto, um aspecto que tem sido descurado é o da roupagem jurídica do «acordo», o tratado respectivo e seu valor. Com efeito, o acordo tem a forma de um tratado internacional. Será o tratado válido? Terá o tratado entrado em vigor? Se qualquer destas perguntas tiver resposta negativa, estamos bem. Se não, não estamos tão bem. Agora, as estratégias contra o «acordo ortográfico» - contra, evidentemente, porque o «acordo ortográfico» é indesejável - têm de ser concebidas em sintonia com as duas hipóteses. Não se ganha nada em andar a misturá-las, como tem sido feito.Escusado será dizer que a questão é muitíssimo urgente, pois o governo ora deposto - mas não em boa hora, porque a hora tardou demais - já deu passos importantes no sentido da aplicação do acordo. Com os mais cordiais cumprimentos.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Camarada Januário

«Os pobres fizeram revoluções e fizeram muito bem.»
(Entrevista à RTPN, 20.7.2011)

Vindo de quem vem, já nada nos espanta!
José Cruz

terça-feira, 12 de julho de 2011

«Acordo ortográfico»
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Omens sem H

Nuno Pacheco, Público
Espantam-se? Não se espantem. Lá chegaremos. No Brasil, pelo menos, já se escreve "umidade". Para facilitar? Não parece. A Bahia, felizmente, mantém orgulhosa o seu H (sem o qual seria uma baía qualquer), Itamar Assumpção ainda não perdeu o P e até Adriana Calcanhotto duplicou o T do nome porque fica bonito e porque sim.
Isto de tirar e pôr letras não é bem como fazer lego, embora pareça. Há uma poética na grafia que pode estragar-se com demasiadas lavagens a seco. Por exemplo: no Brasil há dois diários que ostentam no título esta antiguidade: Jornal do Commercio. Com duplo M, como o genial Drummond. Datam ambos dos anos 1820 e não actualizaram o nome até hoje. Comércio vem do latim commercium e na primeira vaga simplificadora perdeu, como se sabe, um M. Nivelando por baixo, temendo talvez que o povo ignaro não conseguisse nunca escrever como a minoria culta, a língua portuguesa foi perdendo parte das suas raízes latinas. Outras línguas, obviamente atrasadas, viraram a cara à modernização. É por isso que, hoje em dia, idiomas tão medievais quanto o inglês ou o francês consagram pharmacy e pharmacie (do grego pharmakeia e do latim pharmacïa) em lugar de farmácia; ou commerce em vez de comércio. O português tem andado, assim, satisfeito, a "limpar" acentos e consoantes espúrias. Até à lavagem de 1990, a mais recente, que permite até ao mais analfabeto dos analfabetos escrever sem nenhum medo de errar. Até porque, felicidade suprema, pode errar que ninguém nota. "É positivo para as crianças", diz o iluminado Bechara, uma das inteligências que empunha, feliz, o facho do Acordo Ortográfico.
É verdade, as crianças, como ninguém se lembrou delas? O que passarão as pobres crianças inglesas, francesas, holandesas, alemãs, italianas, espanholas, em países onde há tantas consoantes duplas, tremas e hífens? A escrever summer, bibliographie,tappezzería, damnificar, mitteleuropäischen? Já viram o que é ter de escrever Abschnitt für sonnenschirme nas praias em vez de "zona de chapéus de sol"? Por isso é que nesses países com línguas tão complicadas (já para não falar na China, no Japão ou nas Arábias, valha-nos Deus) as crianças sofrem tanto para escrever nas línguas maternas. Portugal, lavador-mor de grafias antigas, dá agora primazia à fonética, pois, disse-o um dia outra das inteligências pró-Acordo, "a oralidade precede a escrita". Se é assim, tirem o H a homem ou a humanidade que não faz falta nenhuma. E escrevam Oliúde quando falarem de cinema. A etimologia foi uma invenção de loucos, tornemo-nos compulsivamente fonéticos.
Mas há mais: sabem que acabou o café-da-manhã? Agora é café da manhã. Pois é, as palavras compostas por justaposição (com hífens) são outro estorvo. Por isso os "acordistas" advogam cor de rosa (sem hífens) em vez de cor-de-rosa. Mas não pensaram, ó míseros, que há rosas de várias cores? Vermelhas? Amarelas? Brancas? Até cu-de-judas deixou, para eles, de ser lugar remoto para ser o cu do próprio Judas, com caixa alta, assim mesmo. Só omens sem H podem ter inventado isto, é garantido.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

O extermínio dos Ucranianos no inverno de 1932-1933

O extermínio dos Ucranianos pelos comunistas no inverno de 1932-1933, o «Holodomor».
Sete milhões foram mortos pela fome. A humanidade nunca tinha visto um programa de extermínio tão eficiente como o realizado pelos comunistas.

VER O FILME
http://www.youtube.com/watch?v=4DH9Qntlq2U

Salvador Caetano-Angélico Vieira*

"Diga à gente, diga à gente , como vai este País!"
"Qualquer morte duma pessoa é sempre uma perda. Ora vejam a escala de valores medida pela importância dada pela nossa Comunicação Social dada a 2 portugueses que faleceram na mesma altura. Vale a pena ler e reflectir sobre os valores que regem esta sociedade".

Salvador-Angélico
Angélico Vieira não resistiu ao brutal acidente de viação que sofreu e acabou de falecer. A geração "Morangos com Açúcar" já tem o seu mártir.
Para o caso não interessa nada que o carro circulasse na via pública sem seguro, ou que a maioria dos ocupantes não tivesse colocado o cinto de segurança.
Também parece não interessar a ninguém saber a que velocidade ia a viatura ou se condutor apresentava excesso de álcool ou drogas no sangue. Ninguém falou disso. A comunicação social em peso preferiu a exploração do efeito emocional e ficou por aí.
Mais ou menos na mesma altura morreu o empresário Salvador Caetano. É verdade que o senhor tinha 85 anos e estava doente, mas a histeria mediática à volta do desaparecimento do jovem artista Angélico Vieira, por contraste com a discrição da notícia da morte do empresário nos órgãos de informação dá-nos um excelente retrato da ordem de valores da sociedade actual.
Por aqui se vê que um jovem cantor e actor é muito mais importante do que um homem que subiu na vida a pulso, construiu um império industrial, contribuiu para a produção da riqueza nacional e deu emprego a milhares de pessoas.
Por aqui se vê que para muita gente é mais importante uma novela de duvidosa qualidade, com adolescentes, do que construir fábricas, criar empregos no país e dar pão a inúmeras famílias.
Apesar de tudo entendo muito bem a reacção dos adolescentes neste caso. A culpa desta inversão de valores nem sequer é deles. É da geração anterior, dos pais, que os educaram assim. Para a diversão e não para o trabalho.
* Texto enviado por um amigo de Mais Lusitânia, sem indicação do autor.

domingo, 10 de julho de 2011

Estudem mais, diz ele…

Heduíno Gomes
Não se aguenta a hipocrisia de Cavaco.
Vão plantar batatas, recomenda ele agora. Mas foi ele que liquidou a agricultura.
Vão ao mar, recomenda ele agora. Mas foi ele que abateu a frota pesqueira.
Estudem mais, diz ele agora às agências de rating. Mas foi ele que as andou a elogiar.
O Poço de Boliqueime transformou-se agora num poço de sabedoria.




sábado, 9 de julho de 2011

Mais uma (três!) do génio Nuno Rogeiro

Miguel Oliveira
Com o seu habitual ar de sábio, o ex-direita e entretanto adaptado ao sistema Nuno Rogeiro apresenta na «Sociedade das Nações» alguns produtos culturais da sua escolha. Normalmente coisas exóticas que ele julga serem o cúmulo do saber e do bom gosto, onde abunda a piroseira e pouca coisa se aproveita. Então no capítulo da música há que partir o coco a rir com as suas sugestões.

Na última edição do programa, Nuno Rogeiro apresentou um livro interessante, Os Quadros da História de Portugal, da autoria de João Soares (o pai de Mário Soares, não o filho) e outros. Trata-se da 3.ª edição do livro, sendo a 1.ª edição de 1917 e a 2.ª de 1932.
Comentário sábio do génio: «Curiosamente, o Estado Novo não censurou este livro.»
Aqui o génio diz uma frase e larga três calinadas.
Primeira calinada. O senhor professor doutor universitário não sabe que em 1932 não havia Estado Novo mas sim a Ditadura Nacional, iniciada em 1928 com a eleição de Carmona para a Presidência da República, tendo sucedido à Ditadura Militar, saída do Movimento Nacional do 28 de Maio de 1926, e que o Estado Novo data apenas de 1933 com a Constituição da II República.
Que sabedoria é que o senhor professor doutor transmite aos seus alunos?
Segunda calinada. O senhor professor doutor universitário não sabe que a censura prévia, instaurada pelos militares em 1926, era para a imprensa e não para livros.
Que sabe o senhor professor doutor da história de Portugal dessa época?
Terceira calinada. «Curiosamente» não censurou… Porque haveria a Ditadura Nacional ou o Estado Novo de censurar um livro patriótico, sobre história de Portugal, pois se não censurava os livros a criticar o regime? Terá o senhor professor doutor a noção do que era censurado nessa época? Deve estar a confundir o livro em questão com o Avante!.
Que «verdade histórica», politicamente correcta, é que o senhor professor doutor transmite aos seus alunos?
O que o senhor professor doutor pretendia era ficar bem na fotografia a cinzento. Ficou mal.
Professores destes dão a ideia do estado em que se encontram Portugal e as suas universidades.






sexta-feira, 8 de julho de 2011

Programa de (des)governo

João Louro

Ao ler as generosas 128(133) páginas de programa de Executivo (apenas formalmente poderá ser designado de programa de Governo) não podemos deixar de notar que, apesar de pontualmente aparecerem medidas genéricas que todos subscreveriam, o documento nunca será ponto de partida para a mudança necessária já que insiste em erros graves de natureza estratégica e omissões inexplicáveis que dificilmente permitirão a Portugal sair da crise para a qual o actual Regime arrastou o país.

Na página 4(9) somos brindados com o que aparenta ser o mote deste Executivo, ideia que a leitura da restante prosa parece confirmar. Vale a pena dedicar uma atenção especial ao que lá está escrito já que de pouco valem as medidas sectoriais se as linhas estratégicas estão incorrectas.

«(...)O programa do Governo reflecte amplamente o mandato que recebeu para a mudança. Trata-se de mudar com realismo e coragem, isto é, sem falácias ideológicas que escondem sempre falsos desígnios. Pelo contrário, o desígnio do Governo é um compromisso com a cidadania, com a solidariedade, com a iniciativa e com a criatividade.(...)»
São reconhecíveis neste texto a argumentação habitual do desgoverno tecnocrático que sem pensamento global estruturado é incapaz de um rumo coerente e é presa fácil senão mesmo colaborante com interesses particulares e agendas nocivas à Nação a coberto de qualquer «relatório» ou «estudo» encomendado. Aqui não teremos mudança nenhuma...

«(...)O Governo pugnará por uma sociedade mais cosmopolita e liberta das tentações periféricas que as mais de três décadas de democracia não conseguiram afastar plenamente e que, entre outros aspectos, se evidenciaram na estagnação económica, no abandono do País por parte de tantos que nele não encontraram as oportunidades que desejavam, assim como na sua crescente marginalização relativamente aos centros de prosperidade e de progresso do mundo globalizado.(...)»

Quem tenha lido «As Crises e os Homens» ou «Juízo Final», não pode deixar de reconhecer imediatamente os sinais típicos do que o embaixador Franco Nogueira classificava de «elites alienadas» que traem habitualmente Portugal.

A tal «sociedade mais cosmopolita» nada mais é que a defesa do deslumbramento bacoco sobre tudo o que é estrangeiro, duma negação da Identidade Nacional, da promoção experimentalismos sociais, dos tiques igualitários a nível cultural e civilizacional (conhecidos por multiculturalismo), revelador de um mal disfarçado «incómodo» em ser português. A Esquerda pode ficar tranquila que os seus retrocessos civilizacionais não serão minimamente beliscados por esta «Direita», por mais graves que sejam as consequências, por pior que seja a situação do país, especialmente a gravíssima crise demográfica que essa sim coloca em risco a sobrevivência da Nação.

A expressão «tentações periféricas» revela os desígnios federalistas europeus e iberistas deste Executivo que, a nossa História o demonstra, sempre se traduzem em perda de independência para Portugal e consequentemente perda de liberdade para os portugueses, a tal liberdade que frequentemente prometem defender. Basta ter a mínima noção de história e da realidade geopolítica de que Portugal faz parte para perceber que o nosso país tem uma posição estratégica no Atlântico, apesar dos graves danos causados pela habitualmente designada «Descolonização», que só pode ser classificada de periférica pelos ignorantes ou traidores para quem o Mundo parece restringir-se à fraude da «União Europeia», cortina de fumo sob a qual se acobertam os iberistas. Adicionalmente, a única ligação à Europa por via terrestre é através do nosso ambicioso vizinho o que aliado à desigual dualidade peninsular transforma numa dupla perda a opção continental a nível estratégico.

O autor deste trecho deixa também implícita uma crítica ao «Estado Novo», pela suposta «estagnação económica» e pelo «abandono do País por parte de tantos que nele não encontraram as oportunidades que desejavam». Para quem denuncia as «falácias ideológicas que escondem sempre falsos desígnios» não deixa de ser curioso como abraça as mentirolas ideológicas da esquerda mais radical, que não encontram sustentação em estatísticas minimamente credíveis ou então não permitem destacar o «Estado Novo» como responsável numa comparação com outros regimes. A «estagnação económica» também é conhecida por corresponder a um crescimento de 241% do PIB per capita entre 1950 e 1973 (média de quase 4% ao ano) sem alienação de soberania, sem endividamento significativo, sem défices orçamentais relevantes, sem privatizações que colocam sectores estratégicos em mãos estrangeiras por vezes com agendas perniciosas, sem intervenções externas vexantes que neste regime sucedem ao ritmo de uma por década e suspeito serão cada vez mais frequentes agora que pouco sobra para vender. A somar a isto, o país combatia e ganhava uma guerra anti-subversiva envolvendo centenas de milhar de efectivos em «frentes» separadas de milhares de quilómetros, contando com a hostilidade activa de uma das super-potências e a má-vontade da outra.

Tendo em conta o passado de emigração e a situação actual de saída de portugueses qualificados e não só para o estrangeiro que dizer do «abandono do País por parte de tantos»?

Ou será que o autor pretende, como a restante esquerda parlamentar, ainda insistir na pesada «herança Salazarista» como a responsável pelo desgoverno abrilino?

Qual será o verdadeiro desígnio deste Executivo escondido pela falácia marxista?

«(...)O Governo assume neste programa um registo de combate sereno e determinado às injustiças. Temos a noção de que Portugal é em muitos planos, e não obstante os progressos realizados, uma sociedade injusta e desigual.(...)»

Não poderia faltar neste Executivo abrilino a já habitual invocação das «desigualdades», bem ao estilo marxista. Há de facto injustiças, mas quantas delas resultam desta obsessão igualitária que acaba sempre por nivelar por baixo?

Será justo alguém que trabalha acabar por ficar com tanto dinheiro ao final do mês como quem recebe o RMG/RSI, esse prémio a quem não trabalha?(na pág. 88(93) aborda-se esta questão mas a «solução» acaba por ser ainda mais burocracia para fiscalizar...)?

Será justo diabolizar as pensões mais elevadas que resultem de descontos para a Segurança Social, quando para além da SS o agora pensionista ainda pagou proporcionalmente mais IRS quando estava no activo?

E que dizer da crescente transformação em impostos indirectos que as taxas de utilização de serviços têm sofrido e vão ainda sofrer, com escalões de acordo com rendimento/património? Afinal de contas porque é que o IRS é progressivo, se mesmo depois de pagar mais em termos relativos e absolutos, se continua a ser perseguido?

E como sustentar a «desigualdade» entre trabalhadores do privado que podem ser despedidos e a segurança para toda a vida dos funcionários públicos perante tal determinação igualitária do Executivo?

Não admira pois que a palavra mérito não passe de destroço perdido num mar de «solidariedade». Não é por acaso, já que o reconhecimento do mérito implica discriminação positiva dos melhores algo que desafia o conceito igualitário e no específico da área fiscal implica que se permita a quem faz algo de valor conservar para si algum desse valor e não despoja-lo como um criminoso. Muito presente está a palavra solidariedade mas sem qualquer sentido cristão já que, não se trata nem de uma acção voluntária nem os principais destinatários são os que necessitam, tratando-se sim de mais impostos para sustentar uma burocracia intocável que devora recursos com impunidade. Não é conciliável mérito com esta «solidariedade», já que o reconhecimento do primeiro traduz-se sempre em «desigualdades» inaceitáveis para o marxismo (e seus derivados) na sua vertigem empobrecedora.

Muito mais haveria a dizer sobre as incoerências entre a anunciada coragem em enfrentar as crises e a baixíssima prioridade concedida à crise demográfica, confirmada não só na ausência de algo concreto no estímulo à natalidade como na omissão relativa ao Aborto e ao papel activo do SNS como carrasco dos nascituros; entre a promessa de promover o Mar como vector estratégico e a mais que certa ausência de meios(NPOs) para a Armada; entre o anunciado reforço da nosso protagonismo na NATO e mais um perigoso corte anunciado para as FAs cujo número de efectivos operacionais começa a parecer ridículo; entre a anunciada defesa das famílias e a cumplicidade real com a agenda homossexual que verá as suas imposições tresloucadas protegidas pela inação deste Executivo; entre o Ensino supostamente mais exigente e a negação das diferenças das capacidades dos alunos presente na obsessão com o sucesso escolar e não com a qualidade dos conhecimentos daqueles que conseguem aprovação; entre a propalada simplificação do código fiscal e os inúmeros incentivos prometidos sectorialmente; entre a liberdade a dar ao privado na actividade económica e os tiques de micro-gestão implícitos nas políticas sectoriais com políticos e burocratas a decidir o que é «bom», «inovador» e «ecológico»(quando o registo deste Regime no apoio aos projectos «vistosos» em detrimento àqueles que realmente produzem riqueza nacional é vergonhoso); entre a promessa de renegociação das PPP existentes e a continuação da utilização desse instrumento de forma a «minimizar o esforço financeiro e aumentar a respectiva eficiência»(pág. 38(43)) facto que está por provar.
O documento não termina sem antes «ratificar» o Acordo Ortográfico e ainda a propósito da cultura, deixar transparecer o modelo de Regionalização a implementar com mais cinco «continentais» candidatos a Jardim ou César.

Suspeito que o Sr. Eng. José «Espanha,Espanha,Espanha» Sócrates tenha no Sr. Dr. Passos «Espanha,Espanha,Espanha,Espanha» Coelho um sucessor à altura, já que as extraordinárias declarações que este último proferiu em Madrid em pleno caso PT/Vivo/Telefónica defendendo que as «parcerias» a nível de Estados se estendessem ao sector privado não foram um acidente antes uma revelação duma alienação que ambos partilham com o Sr. Dr. Paulo «furtivo» Portas e que é mais que confirmada neste programa de Executivo e o seu fascínio sebastianista com a «integração europeia», ou mais correctamente, com a integração ibérica. Este programa é pois mais uma etapa descendente de Portugal rumo a uma nova escravatura felipina e só podemos esperar que a situação piore enquanto estas elites permanecerem no poder.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Lésbicas protagonizam primeiro "divórcio " na Argentina

Um casal de lésbicas protagonizam o primeiro divórcio homossexual na Argentina, desde que o Parlamento modificou o Código Civil para incluir o matrimónio entre pessoas do mesmo sexo em Julho de 2010.
As mulheres identificadas apenas como Ángela e Vanesa, de 46 e 26 anos de idade, «casaram-se» há apenas seis semanas e as bodas monopolizaram a atenção da imprensa por ter sido o primeiro "matrimónio homossexual" celebrado na província de La Rioja, no noroeste argentino.
Segundo vários órgãos de imprensa locais, o divórcio é causado pela infidelidade de uma delas.



domingo, 3 de julho de 2011

A alcateia promove uma loba como se fora ovelha
--- Heresias ao molho

Nuno Serras Pereira
Assunção Cristas em santinha
Pouco tempo depois de ter feito uma declaração de voto favorável ao pseudocasamento entre pessoas do mesmo sexo a deputada Assunção Cristas foi convidada, pelos nossos Bispos, a dar o seu testemunho de política católica diante dos fiéis e das televisões, no terreiro do paço, em Lisboa, como preparação para a Missa celebrada por sua Santidade o Papa Bento XVI, aquando da sua última visita apostólica a Portugal.
No sítio da Inter-rede do secretariado nacional da pastoral da cultura, da responsabilidade do Bispo do Porto, Senhor D. Manuel Clemente, e do seu braço direito P. Tolentino Mendonça, deparamos, seis meses depois da visita do Papa, com um texto, no qual Assunção Cristas testemunha o que é ser “católica na política” (sic).
O P. Tolentino Mendonça sem saber
se lhe entrou qualquer coisa
para o olho ou para o cérebro.
Hoje na revista “única” do semanário “expresso”, página 44, a agora ministra do novo governo, afirmando-se católica praticante e empenhada, que vai à Missa e Comunga, e pertencente a uma equipa de casais de Nossa Senhora, cujo assistente espiritual é o P. Tolentino Mendonça, teima obstinadamente no pseudocasamento entre pessoas do mesmo sexo, em nome de uma “felicidade”, entendida, digo eu, de forma hedonista e utilitarista, dos contraentes e da “fidelidade” à sua, dela, “consciência”, concebendo-a, interpretação minha, como uma entidade solipsista e não como um “órgão espiritual” que escuta e obedece à voz de Deus.
Que o casamento criado e instituído por Deus consista unicamente numa união exclusiva, fiel e fecunda entre um varão entre e uma mulher, até que a morte os separe é uma Verdade de Fé, Revelada por Deus e testemunhada quer na Sagrada Escritura quer na Tradição na Igreja é inegável para qualquer católico. Que a admissão do falsamente chamado casamento entre pessoas do mesmo sexo implique necessariamente a denegação daquela Verdade revelada é tão evidente que não carece de demonstração.
A Palavra de Deus testemunhada na Sagrada Escritura e na Tradição da Igreja considera os actos homossexuais como abominações aos olhos de Deus e adverte repetidamente que aqueles que os praticarem, consciente e livremente, e não se arrependerem nem se converterem “não herdarão o Reino de Deus” – que dessas práticas possa derivar alguma felicidade é um absurdo, que só pode ser afirmado por quem desconhece aquilo em que ela consiste. Uma Verdade, assim atestada e repetidamente ensinada pelo Magistério Ordinário e Universal da Igreja, não pode deixar de ser imutável, infalível e pertencente ao património da Fé. Pelo que, parece-me, podemos concluir tranquilamente que quem advoga ou promove obstinadamente o casamento entre pessoas do mesmo sexo incorre em heresia.
Grande desventura!, grande desgraça!, grande horror!, que não haja por parte dos Pastores um mínimo de caridade, de compaixão, de misericórdia para com uma ovelha transformada em loba, e em vez de a corrigirem antes lhe dão sacrilegamente a Sagrada Comunhão e a apresentam como modelo aos demais fiéis!
Oh infelizes sodomitas (é assim que a Bíblia chama a quem pratica actos sexuais com pessoas do mesmo sexo)!, que sois adulados e iludidos por quem vos devia dizer a Verdade, eminente forma de caridade, e auxiliar-vos a recuperar aquela mesma dignidade que o filho pródigo, de que nos fala o Evangelho, recuperou, depois de a ter perdido.

domingo, 26 de junho de 2011

As estrelas de Passos Coelho
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É um bronco, o Álvaro da economia. E já começou!

José Cruz

Aquele ministro que gosta mais de que lhe chamem Álvaro do que ministro já começou a revelar as suas reais capacidades.

De visita à Feira do Artesanato (25.6.2011), Álvaro Santos Pereira, Ministro da Economia, olhando para uma peça de artesanato português, tem esta saída airosa: «É tão bonito e tão bom que parece que não é português.»

Por aqui se pode ver o que podemos esperar daquela cabecinha académica com sorriso de deslumbrado. Quem quiser conhecer melhor as suas virtudes intelectuais, pode dar uma vista de olhos pelo seu livro Portugal, na Hora da Verdade (Gradiva, 2011). Aí terá oportunidade de se aperceber do liberalismo descabelado do sujeito em todas as áreas, desde a economia à educação, da deliberada manipulação de estatísticas e de falsificações na história contemporânea de Portugal.

terça-feira, 21 de junho de 2011

O elogio fúnebre

Gonçalo Portocarrero de Almada*, Público

Foi apenas quem conduziu o país à bancarrota
e ao maior desprestígio internacional,
que é "o que fica" para a História
No tom laudatório que é da praxe nos elogios fúnebres, o ideólogo de serviço do defunto Governo e do seu primeiro, veio à praça pública defender os méritos daquela governação, agora valentemente repudiada pelo povo, em expressivas eleições legislativas.
Embora mereçam a minha simpatia os que defendem, ao jeito do Robin dos Bosques, os desgraçados, e reconheça que é de uma rara nobreza elogiar os vencidos, confesso que não pude deixar de sorrir ao ler o obituário, não obstante o seu tom pesaroso. Aliás, já me divertira com o encenado drama da comunicação pós-eleitoral do derrotado chefe do Governo, que mais me pareceu uma medíocre comédia. A grandiloquente peça de oratória do demissionário primeiro-ministro, decerto mais preocupado com a sua própria imagem pessoal do que com o interesse da população, que certamente dispensava uma tão extensa alegação de auto-exaltação, era caricata, se não fosse tão verdadeiramente expressiva do que foi o seu desgoverno.
Embora respeitável a opinião do cronista, parece que o seu panegírico do infeliz político agora apeado é, na realidade, uma crítica à vontade soberana do povo, cujo veredicto é tanto mais censurável quanto louvável era o agora deposto governante. Na sua óptica, se o povo não peca por ignorante e injusto, peca pelo menos por ingénuo, por ter acreditado naqueles que triunfaram nas eleições e que, segundo o articulista, tinham ao seu dispor a comunicação social. São desculpas de mau perdedor que, talvez, relevem alguma saudade do "centralismo democrático" de outras eras. Mudam-se os tempos e mudam-se as vontades, mas nem sempre as mentalidades acompanham essas mudanças...
Tem de facto graça o estilo barroco do bacoco texto encomiástico, palpável na adjectivação magnânima do cadáver político do querido líder: a convicção reformista deste é "notável"; o progresso que introduziu na modernização e na simplificação administrativa é "impressionante"; as suas reformas foram "profundas", como "profundo" é o seu espírito de modernização (outra vez, à falta de melhor...). Quem, sem o conhecer, lesse a citada nota necrológica poderia pensar que o país lhe deve o caminho marítimo para a Índia, a descoberta do Brasil, o Mosteiro da Batalha, Os Lusíadas, as pontes sobre o Tejo e o Douro ou qualquer outro feito histórico. Na realidade, foi apenas quem conduziu o país à bancarrota e ao maior desprestígio internacional, que é "o que fica" para a História de Portugal, já que na mundial não terá qualquer cabimento. Não é fácil ganhar eleições, mas é muito mais difícil saber perdê-las com a dignidade que só a humildade e a veracidade conferem.
Mas é certeiro o articulista, quando afirma que "a despenalização do aborto, a agilização do divórcio e a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo ficarão a marcar" o consulado agora findo. De facto, foi contra a vida e a família que mais se destacou o Governo demissionário, que em poucos anos conseguiu a proeza de lograr um extraordinário retrocesso civilizacional, tanto mais questionável quanto realizado por pressão de grupelhos sem representatividade nacional e à revelia da vontade popular, porque até mesmo o resultado do referendo sobre o aborto não foi vinculativo, nem expressivo de uma inequívoca determinação nesse sentido.
Se foram de facto, como o dito jurista pretende, reformas de carácter civilizacional, que legitimidade tinha o anterior poder para as realizar, sem um mandato explícito dos eleitores?! Não é verdade que, para uma reforma constitucional, que é de menor importância do que uma mudança civilizacional, se exige uma maioria qualificada? Será portanto necessário que a nova maioria reveja essas reformas que, ao contrário do que se pretende, não são indeléveis - alguns estados dos EUA revogaram, depois de consulta popular, a autorização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo - e oportunamente as corrija, para que a sociedade portuguesa recupere alguma da liberdade e da decência perdidas.
"Em Portugal, onde por via de regra as modas chegam quando lá fora já deixaram de o ser, ainda não veio ninguém a público - que eu saiba - defender a impunidade absoluta ou relativa do aborto [...] e nisso tem a intelectualidade portuguesa dado uma prova exuberante do seu fino quilate", escreveu, em 1935, o dr. Alfredo Ary dos Santos, em O Crime de Aborto. Hoje, a ufania desse advogado e publicista já não tem cabimento, porque o provincianismo de alguns levou a trazer cá para dentro tudo o que de pior se faz lá fora. Mas, como então escreveu aquele precursor da defesa do direito à vida no nosso país, "temos pois - sincera e gostosamente o dizemos - que seguir na retaguarda desse movimento e assim estar na vanguarda do progresso, visto que o progresso, em ciência moral e política, não é necessariamente tudo quanto seja novo, senão tudo quanto seja verdadeiro".
* Licenciado em Direito e doutorado em Filosofia; Vice-Presidente da Confederação Nacional das Associações de Família (CNAF)

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O Exército dos generais sentados

Vídeo à atenção do Comandante da GNR (aquela corporação militar das duas
fufas que «casaram») e seus responsavelmente semelhantes em qualquer dos
ramos de terra, mar e ar.
Não percam.

domingo, 19 de junho de 2011

Com a Paulinha abortista em Ministro da Justiça...

Heduíno Gomes
Com a Paulinha abortista em Ministro da Justiça, o aborto vai deixar de ser livre e gratuito para ser obrigatório e remunerado.

«A solução para a guerra era política e não militar»...

João José Brandão Ferreira










«Se não ganhássemos o de além, poderíamos perder o de aquém”.
          Gomes Eanes de Zurara

          (Crónica da Conquista da Guiné)

À semelhança de muitas outras atitudes, discussões e comportamentos, também passou a ser “normalmente” aceite ou, se quiserem, politicamente correcto e tranquilizador do espírito, afirmar que a solução da guerra contra subversiva, que travávamos em África (1961-1974), era «política» e não «militar», e que as Forças Armadas (FAs), pela sua acção, garantiram o tempo suficiente para que essa solução fosse encontrada.
A frase foi primeiramente proferida em Lisboa, durante a leitura do primeiro comunicado ao país da Junta de Salvação Nacional, em 26 de Abril de 1974. A partir daqui, a confusão de conceitos e de ideias instalou-se, porém, nada de substantivo veio a público. A questão já tinha sido abordada no livro "Portugal e o Futuro", escrito pelo então General Spínola (ou por quem o ajudou nesse intento), mas sem especificar o que queria dizer exactamente com isso.
Todavia, não deixa de ser curioso (apesar de se ter revelado dramático), que o então famoso general se tenha esquecido do antigo princípio clausewitiano de que a «guerra é a continuação da política por outros meios», querendo passar a fazer da política a continuação da guerra. Ignoramos se alguém que o rodeava lhe terá chamado alguma vez a atenção para isto.
Além de mito a frase, como tem sido usada, é uma falácia. Vejamos porquê. A decisão para acabar com uma guerra - mesmo em caso de desaire militar - é política, assim como também a decisão de a travar é, acima de tudo, política. Se dúvidas houver, lembra-se que as decisões políticas devem reflectir os interesses nacionais, neste caso dos portugueses, e não dos seus inimigos. Ora, tendo o governo português e os portugueses, reagido em legítima defesa contra agressões violentas, vindas do exterior e apoiadas por potências estrangeiras, a territórios e populações que eram legitimamente nossas, por direito e por devoção, e como essa defesa obrigava a desencadear e manter operações militares, caberia naturalmente às FAs ocuparem-se dessa missão. É essa a razão da sua existência.
Iniciadas as hostilidades, estudado o inimigo e apreciadas as ameaças, ficou estabelecido como objectivo político, a defesa intransigente da soberania portuguesa em todos os seus territórios, a defesa do território e a protecção das suas populações, bem como a salvaguarda do património cultural e espiritual da nação. Além disso, instituiu-se um conceito estratégico que nas palavras do Ministro da Marinha, o Almirante Pereira Crespo, se pode enunciar da seguinte maneira:
-- Mostrar uma vontade firme de resistir e de vencer (o inimigo teria de acreditar que a luta em que estávamos empenhados era para nós vital e de que nunca desistiríamos, fosse por fadiga, fosse por traição);
-- Acelerar o desenvolvimento económico e social dos territórios ultramarinos, aumentando a participação dos portugueses de raça negra na administração dos negócios públicos. (O inimigo teria de optar entre os sacrifícios de uma luta de guerrilha e a sua integração numa sociedade em pleno desenvolvimento, na qual poderia participar);
-- Receber, como irmãos e sem qualquer preconceito, aqueles que, tendo lutado contra nós, desistissem de tal luta.
Esta estratégia obrigava a uma guerra de desgaste, cuja duração dependia, essencialmente, da resistência do inimigo. Parece-nos evidente que a estratégia dos inimigos, neste ponto, era idêntica à nossa, embora de sinal contrário, isto é, pretendia impor-nos uma guerra de longa duração, que se arrastaria o tempo que fosse necessário, até nos levar ao cansaço e ao desgaste, o que por sua vez criaria tensões internas que enfraqueceriam a nossa vontade de lutar e obrigariam eventualmente o governo português a mudar de política.
Todavia, ao contrário de Portugal (que ainda assim tentou substituir a liderança política na Guiné - Conacri por uma que lhe fosse favorável, através da operação «Mar Verde»), os movimentos subversivos dispunham do apoio de vários países e de «quintas colunas» portuguesas, para, por meio de um golpe de Estado, substituir o governo de Lisboa por outro ideologicamente mais próximo das teses independentistas (ou por compromissos assumidos) e negociar, assim, a capitulação.
Os defensores da «solução política» versus «solução militar» costumam cair ainda noutro paradoxo: esquecem-se que uma solução política, num contexto complexo de relações internacionais e de guerra total, apoia-se não só na força militar, mas também no âmbito estratégico, económico, financeiro, social, diplomático e psicológico. Em todos eles estavam a ser desenvolvidos vários esforços e era necessário, para tal, de mais tempo. E assim sendo, as Forças Armadas não seriam as únicas a determinar as condições que deveriam estar na base das decisões políticas, nem o "timing" em que estas deveriam acontecer. Quando se diz que a guerra durava há demasiado tempo, o que é que isso quer dizer concretamente? Alguém se pode atrever a definir um prazo para o tempo que uma guerra deve durar?
No plano das contendas internacionais, é possível isolar quatro grandes formas de coação: políticas, económicas, diplomáticas e militares.
O conflito que estamos a analisar, não fugiu à regra. Em termos militares, costuma-se ouvir dizer que uma guerra de guerrilha é impossível de vencer militarmente. Não é verdade, como o provam as vitórias inglesas na guerra da Malásia (1946-1957), e no Quénia (1952-1960), bem como as várias tentativas de subversão falhadas que os cubamos, após a vitória de Fidel Castro, tentaram fazer em vários países da América do Sul (por exemplo, na Venezuela, na Guatemala, no Peru, na Colômbia e na Bolívia).
No entanto, uma vitória militar como essas, aparentemente, não era aplicável ao nosso caso, mesmo quando se sabia que em 1973, o inimigo tinha praticamente desistido de lutar em Angola. As tácticas utilizadas pela guerrilha permitiam atacar em pequenos grupos e escolher a altura e o local para o fazer, já que podiam atravessar as fronteiras quando lhes aprouvesse (relembre-se que nas ilhas africanas que pertenciam ao território português nunca se verificou qualquer tipo de subversão). Podiam, portanto, prolongar a luta indefinidamente.
Para os aniquilarmos teríamos de os perseguir sistematicamente nos territórios onde se refugiavam, porém, uma decisão dessas conduziria, quase de certeza, a uma guerra clássica ou, então, criaria problemas militares e diplomáticos de muito difícil previsão.
Por outro lado, a guerrilha não tinha qualquer hipótese de bater as Forças Armadas Portuguesas, que estavam muito bem estruturadas, eram numerosas (em termos relativos) e actuavam no seu próprio território. O inimigo teria de subir a parada e constituir forças de exército regular que conseguissem suplantar o nosso potencial, como aconteceu, por exemplo, na Indochina contra os franceses e americanos. Ora, na altura não se conseguia vislumbrar qualquer hipótese do inimigo, mesmo contando com o apoio dos exércitos regulares de alguns países limítrofes, conseguir atingir esse objectivo.
Além disso, tanto a Rússia como a China mostravam muita relutância em fornecer tanto meios militares mais sofisticados como pessoal para realizar operações desse género. Assim, tudo indicava que a solução para a guerra não passava pelo campo militar.
No âmbito diplomático, o impasse era idêntico, não havendo perspectivas de que fosse possível encontrar uma solução para qualquer dos lados. Os sucessivos ataques desferidos pelos inimigos de Portugal, na ONU, OUA, etc., nunca tiveram quaisquer resultados práticos e a sua repetição e ineficácia acabou por cair numa indiferença generalizada. Por outras palavras, tornaram-se irrelevantes.
Do nosso lado, era inviável «obrigar» a URSS e seus satélites ou aliados a mudar a sua política de apoio à guerrilha, afinal, estavam a defender os seus interesses. De igual modo, estava fora de questão conseguir convencer os dirigentes dos países que tinham fronteiras com as nossas províncias ultramarinas a desistir de conceder apoio ao inimigo. Mesmo que o quisessem (e alguns, como o Senegal e o Malawi, até queriam), não o poderiam dizer publicamente, tendo em conta a política seguida por praticamente todos os países de maioria negra e árabe do continente africano.
No âmbito económico, era igualmente impossível obter uma solução para o conflito. Uma acção da nossa parte teria de ser feita, não contra o PAIGC, a Frelimo, a FNLA ou o MPLA, mas sim contra as potências que os apoiavam, pois eram estas que forneciam toda a logística que permitia à guerrilha sobreviver. Ora, tal estava completamente fora das nossas possibilidades. A pressão que eventualmente poderíamos exercer sobre o Zaire e a Zâmbia, no que tocava à importação e exportação de mercadorias através dos nossos portos e caminhos-de-ferro, estava reservada para situações críticas, sendo preferível, por enquanto, mostrar boa vontade e garantir uma boa vizinhança.
O inimigo também não tinha força para prejudicar a economia de Angola e Moçambique e só muito dificilmente o fazia na Guiné o que, no contexto geral, era irrelevante. E se no campo internacional era possível que nos conseguissem causar sérios problemas económicos ou até impedir de realizar trocas comerciais no nosso espaço ultramarino, através da interdição das linhas de comunicação marítima, por exemplo, isso iria levantar problemas geopolíticos delicados no equilíbrio mundial, pelo que nunca foram tentados.
A única solução para ambos os lados da contenda era, pois, obter a vitória pela via política. Ora o objectivo do inimigo passava por fazer com que Portugal entregasse os territórios ultramarinos. De que forma? Esse “pormenor”parecia irrelevante. Para as potências comunistas, nomeadamente a URSS, o mais importante era conseguir que o poder fosse entregue a movimentos marxistas e não a outros, que teriam de ser excluídos ou eliminados. O resultado final da estratégia era a substituição de soberanias, não a autodeterminação dos povos.
Após a independência, os movimentos, reféns da ajuda recebida, teriam o apoio dos países que a forneceram e poderiam quebrar quaisquer compromissos que tivessem feito. A potência «colonizadora», neste caso Portugal, ficaria de pés e mãos atados e a mais pequena objecção seria imediatamente qualificada de «tentativa de ingerência» ou tique neocolonialista.
Já vimos que a estratégia para se alcançar esse objectivo político implicava o desgaste do nosso exército através de operações de guerrilha ou então precipitar a substituição do governo de Lisboa por outro favorável à retirada portuguesa dos territórios africanos. Note-se que a primeira via ajudava e conduzia à segunda. E se as actividades de guerrilha podiam ser deixadas aos movimentos que lutavam contra nós, já para subverter a Metrópole era preciso contar com o apoio tanto de algumas grandes potências, como de alguns portugueses pouco dignos desse nome e que se prestassem à infâmia. E foi isso precisamente que aconteceu.
A subversão foi dirigida preferencialmente aos meios estudantis, donde sairiam os oficiais e os sargentos milicianos que iriam dirigir as tropas portuguesas, ao mesmo tempo que procurava explorar todos os sinais de descontentamento que pudessem existir entre os militares do quadro permanente.
A primeira movimentação deu-se logo em princípios de 1969, quando os sargentos fizeram saber do seu descontentamento (e com razão) relativamente a uma actualização geral de vencimentos, que vinha piorar a sua já difícil situação económica. O problema foi corrigido, não se tendo verificado uma politização desse movimento, como chegou a ser tentado. Em simultâneo, algumas organizações clandestinas levaram a cabo actos de sabotagem na Metrópole.
No entanto, o inimigo insistiu principalmente na solução política, não descurando, porém, a acção militar e diplomática. Foi para fazer face a esta estratégia do inimigo que também o governo português se viu obrigado a definir uma solução política, nomeadamente através de acções de contra-guerrilha, durante o tempo que fosse necessário, de modo a causar desgaste no inimigo que, inevitavelmente, dariam origem a divisões internas e criariam um ambiente de desmoralização generalizada, ao ponto de fazer com que deixassem de acreditar na vitória e perdessem assim a vontade de lutar. No fundo, pretendia-se que os guerrilheiros chegassem à conclusão que era mais vantajoso permanecerem portugueses, ou seja, plenamente integrados no todo nacional. Para tal, era importante não descurar nenhum âmbito de actuação.
Por isso é que não cabia aos militares dar tempo aos políticos para eles encontrarem uma solução política; cabia sim aos políticos dar aos militares (e aos diplomatas, empresários, investidores, etc.), as condições necessárias para que eles pudessem cumprir a sua parte no esforço comum, a fim de que fossem atingidos os objectivos políticos definidos! O que, à excepção do caso da Índia, não se pode dizer que não tivesse sido feito.
Resta agora especular sobre outras possíveis soluções políticas que Portugal poderia ter aplicado. A primeira, defendida por alguns, mesmo dentro do regime, era mudar a estrutura política nacional, quer através de outras alternativas de autonomia ultramarina, confederação ou federação (tese defendida pelo general Spínola no livro Portugal e o Futuro), quer transformando o regime numa democracia do tipo ocidental, como pretendia a oposição «democrática» e «liberal». Do nosso ponto de vista, esta discussão não fazia qualquer sentido tendo em conta o problema que se tinha entre mãos, já que as forças inimigas não iriam mudar a sua política ou as suas exigências, qualquer que fosse o tipo de regime ou de organização político/administrativa que os portugueses decidissem adoptar.
Por outro lado, a forma como nós estávamos a conduzir a guerra não tinha de ser alterada, fosse qual fosse a natureza das instituições a estabelecer. Além disso, a organização política do Estado Português era um assunto interno nacional e o que se viesse a decidir em Lisboa não poderia ir à revelia do sentimento dominante em cada um dos territórios, sobretudo em Angola e Moçambique, pois eram aqueles que maior peso relativo viriam a deter.
Outra hipótese que chegou a ser equacionada passava por fazer um referendo ou um plebiscito, perguntando às populações ultramarinas qual o destino que pretendiam para as suas terras. A vivência, os testemunhos e a informação existentes na altura, não admitem qualquer dúvida: os resultados seriam esmagadoramente favoráveis à manutenção de uma pátria portuguesa pluricontinental e multirracial. Dito de outro modo, se tivesse sido essa a solução escolhida, os interesses portugueses não seriam afectados.
Ainda assim, e deixando de parte a discussão sobre a legitimidade de se referendar a soberania, seria uma ingenuidade acreditar que o inimigo aceitaria um resultado que lhe fosse desfavorável; ou que quisesse até sujeitar-se a esta prova, dadas as suas conhecidas debilidades e faltas de apoio interno. Além disso, e na hipótese de concordar com essa solução, faltava saber se ele estaria disposto a colaborar honestamente na sua realização e a acatar as decisões maioritárias. De outro modo, os resultados jamais seriam aceites pela comunidade internacional.
Mesmo que um ou outro grupo de guerrilha aceitasse participar, provavelmente com o objectivo de colher alguns dividendos, era pouco provável que desmantelassem as suas organizações clandestinas ou que depusessem incondicionalmente as armas, para assim poderem reiniciar a luta quando lhes aprouvesse. Acreditar que os países comunistas, que apoiavam a subversão à distância e ansiavam por se instalar nos nossos territórios, iriam desistir dos seus intentos por causa de um referendo, usando métodos tidos como democráticos, seria uma ingenuidade ainda maior.
Políticos e simples cidadãos, nacionais e estrangeiros, e até diferentes comentadores e "adivinhos", tanto na década de 60 do século XX, como já no período pós revolucionário, relativamente às desgraças ocorridas na fase das independências (a que, por decoro, não chamamos pelo nome de descolonização), defenderam que se deveria já ter concedido a independência aos territórios de além-mar, nomeadamente a Angola e Moçambique , de modo a que se pudessem criar "novos Brasis" e constituir, dessa forma, uma comunidade de países de expressão lusíada, ou seja, com uma matriz portuguesa a uni-los. Todavia, esta solução seria outra ingenuidade, impossível de realizar, que além disso traria graves consequências.
Com efeito, dificilmente essa solução seria realizável enquanto esses movimentos inimigos não fossem vencidos. Mas se isso acontecesse, os grupos armados da guerrilha não teriam qualquer hipótese de vir a participar no poder, já que não possuíam apoio nem estrutura para tal. Depois, uma comunidade de países de inspiração portuguesa iria impossibilitar que esses países caíssem na órbita comunista. Além disso, a permanência de uma larga comunidade branca seria igualmente um entrave a esses desígnios e, por isso, seria duramente combatida.
Ficar ligado a Portugal significava continuar na área de influência ocidental, exactamente o contrário daquilo que o bloco marxista pretendia. É importante não esquecer que estávamos no «último pico» da Guerra Fria. Ou seja, caso Angola e Moçambique se tornassem independentes em circunstâncias que fossem favoráveis tanto para os portugueses como para esses novos países, o mais certo era que a guerra de guerrilha continuasse, apoiada nas organizações já existentes, que não seriam desmanteladas. Ora, sem a presença dos meios metropolitanos, Angola e Moçambique não teriam qualquer capacidade para se defender, além de que a vulnerabilidade das suas fronteiras (incluindo a aérea e marítima) aumentaria desmesuradamente. E, nessa altura, Portugal não poderia ajudar militarmente os novos Estados. Infelizmente, muitos dos pseudo - eruditos que viviam naqueles territórios não foram capazes de perceber estas evidências.
Finalmente - a não ser que alguém consiga apontar mais alguma - restava como solução política a tão apregoada via das negociações com o inimigo. Deve começar por dizer-se que as negociações em tempo de guerra não são um fim, mas um meio. Um meio para um dos contendores alcançar a vitória ou então tentar evitar a derrota. Ora, como Portugal não estava a perder a guerra, não fazia qualquer sentido entabular negociações com o objectivo de evitar uma catástrofe maior. E, no primeiro caso, só fazia sentido negociar partindo de uma posição de força e com objectivos claros que pudessem fazer balancear decisivamente a contenda em favor dos nossos interesses.
Em casos mais raros, um dos contendores, pelas posições que conseguiu conquistar, pode julgar-se vencedor à partida e, como tal, tentar impor uma solução ao inimigo, fazendo com que este capitule sem mais luta - caso, por exemplo, de Hitler em relação à Inglaterra, após ter conquistado a França. De qualquer forma, uma negociação faz-se sempre Estado a Estado, o que não era, manifestamente, o caso.
No contexto do conflito que travávamos, seria muito difícil, diríamos mesmo impossível, negociar qualquer solução de compromisso, pois tal implicava que não houvesse um vencedor declarado; além disso, era preciso ter em conta que não estaríamos a negociar apenas com os grupos guerrilheiros, mas também com as potências, sobretudo as comunistas, que os apoiavam (a UNITA ilustra bem o que acabámos de afirmar, já que foi possível chegar a um entendimento com esse movimento - não marxista - que não só o neutralizou face aos nossos interesses como ainda por cima começou a combater os movimentos rivais). De facto, tanto o MPLA em Angola, como a Frelimo em Moçambique, nunca aceitaram negociar coisa alguma a não ser a independência, quaisquer que fossem as circunstâncias em que esta viesse a ser obtida. Perante isso, o governo português ia negociar o quê?
A excepção a estes casos foi a Guiné e teve como intermediário o Presidente Senghor, do Senegal, a quem repugnava a influência que a Guiné - Conacri poderia vir a ter sobre a Guiné portuguesa. Os contactos começaram em 1971, através dos bons ofícios de um terceiro governo. Senghor defendia que a Guiné deveria ser independente no âmbito de uma comunidade luso- afro- brasileira extensiva, naturalmente, às restantes províncias e estava disposto a discutir essa questão com o governo português . Lisboa reagiu bem a esta iniciativa e enviou um alto representante a Dacar propor diligências preparatórias . Por razões que só o então presidente senegalês saberia explicar, esta iniciativa não teve continuação. Em meados de 1972, Senghor fez saber ao Governador da Guiné, que gostaria de falar com ele. Autorizado pelo governo, Spínola encontrou-se com Senghor em Cap Skiring, na fronteira norte da Guiné, mas em território senegalês. Dessa conversa resultou uma proposta de encontro entre Spínola e Amílcar Cabral, onde seria negociado um cessar-fogo, após o que se acordaria que o PAIGC seria integrado nas estruturas portuguesas e passaria a colaborar no governo do território. Daí se evoluiria para uma consulta às populações sobre o seu destino futuro.
As propostas foram analisadas em Lisboa com profundidade, tanto a nível do governo, como a nível do Conselho Superior de Defesa Nacional, e ainda por diversas personalidades. Ficou decidido - e bem - não prosseguir as negociações. Em primeiro lugar, porque ao sentar Spínola e Amílcar Cabral à mesma mesa, o governo de Lisboa estava a reconhecer, implicitamente, que o PAIGC era uma força beligerante respeitável, algo que seria aproveitado, como é lógico, pelos outros movimentos. Tal facto teria amplas repercussões (como tudo o resto) na imprensa internacional. O PAIGC não se limitaria, naturalmente a fazer reivindicações apenas sobre a Guiné, procuraria englobar Cabo Verde, onde nunca se tinha disparado um tiro; a partir do momento em que aceitássemos um cessar-fogo, ficaríamos com as mãos amarradas para fazer fosse o que fosse, ao passo que o PAIGC conservaria toda a liberdade para fazer o que bem entendesse. E havia a hipótese de nos serem preparadas várias armadilhas.
De resto, não se percebia ainda muito bem como seriam as relações entre a tropa portuguesa e os guerrilheiros. Independentemente do que acontecesse, o início das negociações seria sempre visto como uma vitória para o inimigo e teria uma acção moralizadora nas suas hostes. Mesmo na suposição de que tudo corresse bem, seria impensável que Sekou Touré e a URSS aceitassem tal acordo. Amílcar Cabral seria facilmente denunciado como revisionista, ou como traidor e a luta prosseguiria apoiada em grupos ainda mais pequenos. Ora o efeito de tudo isto sobre o moral das tropas portuguesas poderia ser catastrófico, a confusão ficaria rapidamente instalada e sobreviria depois uma desmobilização psicológica, pois a mensagem que se estaria a transmitir era que a guerra tinha chegado ao fim e que, portanto, o regresso a casa estava próximo. Para além de tudo isso, nenhuma decisão deveria ser tomada em relação à Guiné que não tivesse em conta o seu impacto nas restantes parcelas de Portugal, nomeadamente Angola e Moçambique.
Spínola foi informado de que as soluções tinham de ser pensadas tendo em conta o contexto global do conflito, ou seja, não podiam ser vistas apenas pela fresta de Bissau. Nesse sentido, o general foi convidado a ir conhecer a realidade dos outros teatros de operações o que aceitou. Foi nesta entrevista com o chefe do governo que este último proferiu a célebre frase que apontava para a possibilidade de uma derrota militar na Guiné, o que muito escandalizou o general, que pelos vistos nunca aceitou nem digeriu a argumentação apresentada, tendo regressado a Bissau visivelmente transtornado. A partir de então, espalhou-se a ideia de que a solução era «política» e não militar; que os militares deram tempo e até encontraram soluções para a guerra, que os políticos em Lisboa é que não queriam, ainda por cima não se importando com uma derrota militar (o que trouxe ao de cima o espectro da Índia). Daí para a frente, as coisas só pioraram. O «acto» seguinte foi a elaboração do livro "Portugal e o Futuro".
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Eis pois o que entendemos equacionar sobre a tão propalada "teoria" de que a solução para as últimas campanhas ultramarinas - apelidadas em certos meios como "guerra colonial" -era política e não militar. Expressão que tem sido proferida por respeitáveis figuras do mundo civil e militar, com ar sério e cândido, porém sem lhes acrescentar qualquer substância ou enquadramento especifico.
Politica e socialmente tem sido correcto q.b.
Na realidade, porém, não passa de uma frase oca que apenas serve para tranquilizar (más) consciências – ou pior ainda, servia objectivamente, os intentos do inimigo.
Em qualquer caso longe de um nexo politico/estratégico que fosse ao encontro da matriz dos interesses portugueses e do futuro dos territórios em causa.
Parece que, passados 37 anos, só não vê quem não quer.