sexta-feira, 12 de abril de 2013

Afinal o Júdice é por governos
de salvação nacional!


Heduíno Gomes

Foi tão giro ouvir o Júdice, com as suas prudentes palavras, a defender um governo de salvação nacional (TVI 24, 11.4.2013)!

Ele, dantes, era um tão puro sacarneirista, que não queria alianças com o PS (mesmo mais puro do que o próprio Sá Carneiro, que pretendeu filiar-se na Internacional Socialista), e afinal conspurcou-se agora a este ponto!

Para quem não sabe ou não se lembra, a história foi assim.

Em 1983, com o despesismo eleitoralista da AD (Sá Carneiro e depois Balsemão), Portugal ficou de tanga. Houve eleições, que não deram nenhuma maioria absoluta a qualquer dos partidos. O PS (Mário Soares) ficou em primeiro lugar e o PSD (Carlos Mota Pinto) em segundo.

Aí, o FMI, para abrir os cordões à bolsa, punha uma condição: haver um governo estável, com ampla maioria parlamentar. Isto é, pelo menos o PS e o PSD deveriam coligar-se.

E assim foi. O PS e o PSD formaram governo, a que se chamou o «bloco central», cobrindo 63,65% dos votos e 70,4% dos lugares da Assembleia. Com Mário Soares em Primeiro-Ministro e Carlos Mota Pinto em Vice-Primeiro-Ministro.

Não esquecer, Portugal estava de tanga e precisava de pão para a boca, e quem lho daria seria o FMI.

Ora bem! Por essa altura, havia no PSD um bando oficialmente denominado «Nova Esperança», conhecido por «grupo de Lisboa». Júdice, na altura Presidente da Distrital de Lisboa, era um dos chefes desse bando (como também o impagável Santana).

A essência do grupo é fácil de explicar.

Oportunistas nos princípios: a sua doutrina política era suficientemente elástica, superficial e palavrosa para dar para tudo; as alianças eram válidas se lhes dessem poder, a eles, bem entendido.

Demagogos na luta política interna: se alguém preconizasse alguma aliança com o PS (ponto de clivagem com a direcção e mobilizador de adeptos), seria traidor à sacra referência Sá Carneiro.

Sequiosos de poder: tratava-se de um simples projecto de poder, como as carreiras deles, um a um, posteriormente bem o demonstraram. Integraram-se no cavaquismo, em comunhão com a esquerda que este apadrinhava.

E assim, para o bando, Carlos Mota Pinto seria um traidor à chamada «social-democracia», essa coisa exclusiva do pensamento de Sá Carneiro, de quem eles eram os herdeiros! Ah! Já me esquecia! No bando estava Conceição Monteiro, que tinha sido secretária de Sá Carneiro por ter vagar (deste modo explicou o seu ingresso na função), pessoa muito dotada intelectual e politicamente, encontrando-se assim em condições de transmitir ao bando o ceptro mágico da pureza da «social-democracia» de Sá Carneiro. Transmitir ao bando, mas especialmente ao afilhado Pedrocas.

Enfim. Este bando fez uma guerra suja a Carlos Mota Pinto, acusado de participar no pecaminoso «bloco central». Não esqueçamos, aliança imposta pelo FMI nas circunstâncias políticas de então.

E não é que agora o grande estratega Júdice vem defender precisamente o pecado que atacou em 1983?! E com a agravante de o PSD não precisar de uma aliança com o PS, pelo menos numericamente!

Mas que grande traidor se deve sentir na sua pele!O que estará por detrás desta sua evolução de «princípios»? Mais algumas torres à beira-Tejo (mas tudo graciosamente!)?





quinta-feira, 11 de abril de 2013

PEN Internacional
condena por unanimidade
o Acordo Ortográfico


Teresa Salema e Maria do Sameiro Barroso

Foi aprovada por unanimidade no 78.º Congresso do PEN Internacional, que reuniu na Coreia delegações de 87 Centros de todo o mundo entre 9 e 15 de Setembro de 2012, uma resolução do Comité de Tradução e Direitos Linguísticos (CTDL) que manifesta uma evidente preocupação pela ameaça à língua portuguesa representada pelo Acordo Ortográfico de 1990 (AO/90). Tal resolução, traduzida na íntegra a seguir, inclui anexos explicativos de todo o processo. A incredulidade manifestada pela maioria dos escritores presentes, que se interrogavam como se teria chegado a tal situação, justificou a posteriori tal inclusão.
O processo que conduziu à redacção da mesma Declaração teve início no inquérito realizado pelo PEN Clube Português entre os seus sócios, tendo a esmagadora maioria rejeitado o AO 90 e declarado expressamente a conveniência de uma actuação por parte da actual direcção. No encontro de Barcelona do CTDL, de 4 a 6 de Junho de 2012, os resultados desse inquérito foram relatados pela Vice-Presidente, Maria do Sameiro Barroso. Na sequência de tal partilha de preocupações por uma situação que contraria os princípios do Manifesto de Girona do CTDL, foi redigida pelo PEN Internacional a subsequente Declaração.

Durante a Assembleia Geral na Coreia, a discussão deste tema foi introduzida por uma declaração da Presidente do PEN Clube Português, Teresa Salema (delegada oficial ao Congresso com Maria do Sameiro Barroso), manifestando uma preocupação pela situação com que um número crescente de escritores e tradutores se vê confrontado. A alternativa que se coloca aos primeiros, na medida em que não se identifiquem com o AO/90, ou de deixarem que os seus textos sejam convertidos para uma ortografia que lhes é alheia, ou de não verem as suas obras publicadas, foi por todos sentida como um problema complexo. Também os tradutores que em princípio não pretendam seguir o AO/90 se vêem submetidos às imposições administrativas e comerciais, como sublinha a resolução do PEN Internacional.

Na discussão houve intervenções de colegas de vários Centros, nomeadamente por parte do Centro PEN galego, manifestando a sua afinidade na diferença linguística e reiterando o seu apoio incondicional à Declaração. Também o Centro PEN alemão repudiou firmemente a ingerência de autoridades governamentais em assuntos linguísticos de reconhecida complexidade. O presidente do Comité de Escritores para a Paz sublinhou a sua preocupação pela divisão – e possível aumento de conflitualidade – que tais medidas estão a causar entre os cidadãos portugueses. Todos sentiram ainda o carácter nocivo e desestabilizador de uma medida que fere os princípios pedagógicos da democracia, nomeadamente a intenção de contribuir para um aprofundado contacto de amplas camadas das populações com a diversidade linguística e a herança cultural.

O PEN Internacional, como sublinhou o presidente John Ralston Saul, reeleito no Congresso para um segundo mandato de 3 anos, é o único fórum mundial de escritores existente. Neste espírito compete ao PEN Clube Português, como membro do PEN Internacional, defender os princípios e as práticas da liberdade de expressão, bem como do debate esclarecido e empenhado, sobretudo quando está em causa o nosso principal instrumento de trabalho, a língua portuguesa.





segunda-feira, 1 de abril de 2013

Explicando a obsessão de Obama
em relação a Israel

Daniel Pipes
Porque é que Barack Obama dá tanta atenção a Israel e ao seu conflito com os árabes?

Não se trata apenas do facto de ele passar esta semana, quatro dias, em Israel mas sim a sua procura exagerada em solucionar o conflito israelo-árabe. Desde o seu primeiro dia como Presidente, em 2009, já nomeou George Mitchell como enviado especial para o Próximo Oriente, além de telefonar para os líderes de Israel, Egipto, Jordânia e a Autoridade Palestina. O secretário de imprensa da Casa Branca justificou essa surpreendente diligência, dizendo que Obama usou o seu primeiro dia de trabalho «para comunicar o seu compromisso de colocar em prática o seu empenho na procura da paz israelo-árabe, a partir do início do seu mandato». Alguns dias depois, Obama concedeu a sua primeira entrevista formal como Presidente ao canal de televisão Al-Arabiya.
Hisham Melhem, chefe da sucursal da Al Arabiya
em Washington, obteve a primeira entrevista
 de Obama como presidente.
Não ficou apenas por aí. Em Junho de 2009, Obama anunciou que «chegou a hora de agir», diminuir a tensão entre Israel e os seus vizinhos, declarando «quero ter a sensação de que as coisas estão andando, com algum progresso. Estou convicto que se nos ativéssemos a esse propósito, começando cedo, atingiríamos um progresso substancial ainda este ano».Em Maio de 2011 ele deu sinal de impaciência em relação à diplomacia israelo-árabe: «não podemos dar-nos ao luxo de esperar mais uma, duas ou três décadas para alcançar a paz». Em Janeiro de 2013 o novo secretário de estado, John Kerry, manifestou a mesma disposição, na sua audiência de confirmação: «Precisamos encontrar uma maneira de avançarmos nessa questão».

Porquê essa obsessão em relação ao conflito israelo-árabe, que se encontra na 49.ª posição em fatalidades, desde a Segunda Guerra Mundial? Por conta da estranha convicção da esquerda, raramente exposta abertamente, de que essa questão é a chave, não apenas para os problemas do Próximo Oriente, mas para o mundo.

Para avaliar uma declaração extraordinariamente franca sobre esse ponto de vista, observe os comentários espontâneos e inconvenientes de James L. Jones, então conselheiro de segurança nacional de Obama, em Outubro de 2009. Discursando na J Street, mencionou «procurar a paz entre Israel e seus vizinhos» continuando:

de todos os problemas mundiais enfrentados pela administração, se há um que eu recomendaria ao Presidente que fizesse o que bem entendesse para solucioná-lo, seria a questão do Próximo Oriente. Encontrar uma solução para o problema acarreta repercussões que ecoam, que se alastrariam a todo o mundo e afectariam outros problemas que enfrentamos no globo. O inverso não é verdadeiro. Esse é o epicentro, onde deveríamos concentrar os nossos esforços. E estou feliz que esta administração esteja agindo assim, com entusiasmo e dedicação.
James L. Jones discursando perante a J Street.
Embora tivesse sido proferida um ano antes do levante árabe, vale a pena analisá-la pelo facto dela fornecer um importante insight da visão do mundo na Casa Branca.

Solucionar o conflito israelo-árabe «afectaria outros problemas que enfrentamos no mundo». Jones infere que a continuação do conflito exacerba aqueles problemas. De certa maneira, essa argumentação é estereotipada: é claro, solucionar qualquer conflito melhora o clima geral. Mas atordoa a imaginação pensar que a Casa Branca aguarda que Jerusalém e Palestina resolvam o problema dos refugiados para tratar da agitação curda, ataques islamistas, insurreição civil síria, ambições nucleares iranianas, dificuldades económicas egípcias e a anarquia iemenita.

«O inverso não é verdadeiro». Porque é que a solução de outros problemas não atenuaria o conflito israelo-árabe? Não há provas que sustentem esse disparate ilógico e insensato. Obviamente, derrotar o islamismo, iria realmente ajudar a resolver o conflito israelo-árabe, bem como acabar com a ameaça da bomba iraniana.

«Este é o epicentro». Em 2009, a onda islamista já havia rachado o Próximo Oriente em blocos de guerra fria liderados pelo Irão e pela Arábia Saudita: Israel e os palestinianos não eram então, nem agora, o centro regional. Incontestavelmente, o Irão, a Turquia ou a Arábia Saudita são.

«É lá que deveríamos concentrar os nossos esforços». Aqui chegamos ao cerne da questão: Jones quer o foco nas construções em Jerusalém e na rede eléctrica na Cisjordânia em vez de se concentrar no término do programa nuclear iraniano, em assegurar o fornecimento de petróleo e gás, em lidar com o padrão das ditaduras versus as insurgências islamistas ou com o governo cada vez mais perigoso da Turquia.
Alguns ainda vêem Jerusalém como centro ou epicentro, do mundo.
Pelo menos Jones não fez a declaração antissemita bizarra e limítrofe que Israel é responsável por todos os problemas do Próximo Oriente, mas a sua versão mais amena dessa farsa não é menos idiota. Lamentavelmente, a sua análise encaixa-se na mentalidade anti-sionista que impregna, cada vez mais, a ala esquerda do Partido Democrata.

Para compreender a visita de Obama a Israel, os próximos quatro anos e a diplomacia europeia, tenha em mente essa estranha e deformada lógica.






sábado, 30 de março de 2013

O Manifesto de Girona
e os «fatos com-seus-medos»


Teresa R. Cadete, Público, 21.2.2013

Em Maio de 2011, os participantes do encontro anual do Comité de Tradução e Direitos Linguísticos do PEN Internacional, reunidos na cidade catalã de Girona, terminavam de redigir um pequeno manifesto que sintetizava em 10 pontos o documento muito mais extenso, até então em vigor, de defesa dos direitos das línguas, sobretudo minoritárias, em particular daquelas que estavam – e estão – ameaçadas de extinção. Pela sua importância, transcrevemos aqui este texto, que condensa as preocupações de todos os que cuidam do tecido que nos conecta quando pensamos, comunicamos, criamos, sonhamos:

1.º A diversidade linguística é um património da humanidade que deve ser valorizado e protegido.

2.º O respeito por todas as línguas e culturas é fundamental no processo de construção e manutenção do diálogo e da paz no mundo.

3.º Cada pessoa aprende a falar no seio de uma comunidade que lhe dá vida, língua, cultura e identidade.

4.º As diversas línguas e os diversos falares não são só instrumentos de comunicação; são também o meio em que os seres humanos crescem e as culturas se constroem.

5.º Qualquer comunidade linguística tem direito a que a sua língua seja utilizada oficialmente no seu território.

6.º O ensino escolar deve contribuir para prestigiar a língua falada pela comunidade linguística do território.

7.º O conhecimento generalizado de diversas línguas por parte dos cidadãos é um objectivo desejável, porque favorece a empatia e a abertura intelectual, ao mesmo tempo que contribui para um conhecimento profundo da língua própria.

8.º A tradução de textos – particularmente dos grandes textos das diversas culturas – representa um elemento muito importante no necessário processo de maior conhecimento e respeito entre os homens.

9.º Os meios de comunicação são amplificadores privilegiados quando se trata de tornar efectiva a diversidade linguística e de prestigiá-la com competência e rigor.

10.º O direito ao uso e protecção da língua própria deve ser reconhecido pelas Nações Unidas como um dos direitos humanos fundamentais.

Este Manifesto encontra-se traduzido em numerosas línguas e foi ratificado na Assembleia Geral anual do PEN Internacional, que ocorreu em Belgrado no mês de Setembro desse mesmo ano. Como vemos, não se trata apenas de uma defesa da integridade das línguas, na sua qualidade de organismos vivos, que não só palpitam mas fluem como rios. Note-se de passagem que a defesa do método directo de aprendizagem das línguas começou por ir a par da ideia de falar fluentemente uma língua. Num primeiro momento, tal método terá contribuído para libertar muitas pessoas do espartilho gramatical a que obrigava uma aprendizagem obsessivamente fixada em regras.

Se a valorização da comunicabilidade imediata é importante num primeiro momento, porém o caminho para uma aprendizagem aprofundada – sustentada – passa pela interiorização de regras. Isso pode ser feito de numerosas maneiras e sempre com o suporte da leitura em voz alta de autores consagrados, da poesia musicada (sim, sim, vivam essas lyrics que nos acompanham no dia-a-dia, graças às novas tecnologias: e experimente-se cantar ao volante sobre as palavras de um dos nossos autores de culto, também como meio seguro para evitar o cansaço). Ora tal interiorização torna-se numa verdadeira descoberta quando se cria esse tecido, essa ponte imediata, sobretudo num registo de musicalidade. Não o advogavam já os teóricos clássicos da linguagem, de Rousseau a Herder e Humboldt?

O mais profundo prazer com a língua materna, ou com outra língua que se aprende, ousaria afirmá-lo, pode sentir-se quando a sabemos integrada numa família de história e geografia específicas. E essa família é grande e antiga. Dou um exemplo da aprendizagem do alemão, língua cuja dificuldade (mas nenhuma língua é «fácil» como mascar pastilha elástica) é sentida por quem não aprendeu latim e não treinou a suspensão da respiração até chegar, nas orações subordinadas, ao fio condutor da frase e do pensamento: o verbo que exprime a acção. Aqui chegamos, quase sem nos apercebermos, ao domínio da filosofia da linguagem: toda a narrativa conseguida culmina num desfecho que terá entretanto mantido preso o ouvinte ou o leitor.

Foi precisamente Wilhelm von Humboldt (1767-1835) que se opôs ao positivismo nascente que tratava a língua como um produto reversível (ergon) e não como «um ser individual, com carácter e configuração definidos, dotado de uma força que age sobre o ânimo, e que não é destituído da faculdade de se reproduzir» (Introdução ao Agamemnon, 1816, trad. de José Miranda Justo) – ou seja, uma forma de energeia que se vai moldando nesse fluir da aprendizagem e da prática da descoberta que é sempre uma forma de tradução, de auto-recriação, mesmo dentro da mesma língua e sobretudo dentro da língua materna.

Hoje, dia mundial da língua materna, é uma data que podemos celebrar de forma serena, reflectindo, questionando. Quererá, poderá um professor privar os seus alunos de descobrir a familiaridade dessas percePções – e isso porque a terão perceBido nesse entrosamento encantatório de intuição, mnemónica, ritmo e reflexão? Quererá, poderá um tradutor – sobretudo numa edição bilingue de texto – decepar a raiz indo-europeia CT e colocar, numa linha paralela ao inglês a Ct, um mísero ato que nem sequer tem a graça explosiva que ficámos a conhecer do filme de Almodovar? Quem poderá censurar aqueles que porventura, munidos de uma caneta correctora (de preferência para escrever em acetatos), tentam reparar um mal que contudo é remediável, bastando que deputados e governantes tenham a humildade de reconhecer um erro que ficou à vista de todos o mais tardar desde o adiamento da entrada em vigor de um recorte ortográfico (sim, porque «acordo» é pura ficção)? E sabemos que os brasileiros, a fazerem um «acordo», fá-lo-ão uma vez mais à sua maneira, como em 1955?

Em Setembro de 2012, no Congresso do PEN Internacional na Coreia do Sul, os delegados dos 89 Centros presentes aprovaram por unanimidade a resolução redigida pelo Comité de Tradução e Direitos Linguísticos. Devo sublinhar que o Centro português não tomou parte na redacção da mesma – apenas apresentou o problema, sobre o qual os redactores se debruçaram, e traduziu o texto. Este pode ser lido através do link http://proximidade.penclubeportugues.org. Interessante foi, neste contexto, a incredulidade dos presentes – anglófonos, francófonos, hispanófonos e outros – e a veemência com que afirmaram que tal ocorrência seria impossível nos seus países.

Vamos acreditar que estamos num regime totalitário, como um discurso acordista fundamentalista, usando tortamente o programa Lince já em si uma máquina de produzir erros? Tratando a língua como um ergon, alega-se «factos consumados» quando na realidade se joga com receios atávicos, com «fatos com-seus-medos» por parte de pessoas que não gostam «daquilo» mas acham que têm de aplicar «aquilo» no quotidiano, sem saberem os seus direitos constitucionais? Não existirão razões de sobra, expostas por especialistas qualificados, que provam a barbaridade imposta pelo desacordo ortográfico? Não estará aberta a possibilidade de usar meios jurídicos para o travar, mas não seria preferível uma corajosa vontade política que o revogasse?



quinta-feira, 28 de março de 2013

Frei Fernando Ventura chantageia com cisma

L. Lemos

Frei Fernando Ventura e a «teóloga» Teresa Toldy participaram no debate «Um novo Papa, uma nova Igreja?», que decorreu em Lisboa (26 de Março de 2013), organizado por três jornalistas que acompanharam no Vaticano a eleição do novo Papa.

O padre, conhecido «progressista», chantageia com ameaças de cisma na Igreja caso… a Igreja não vá pelos caminhos que ele considera os melhores.
Este padre já tinha sido chamado por uma das televisões para comentar o Conclave e os primeiros dias do pontificado do Papa. Como não podia deixar de ser, os inimigos da Igreja espalhados por aí vão buscar padres deste género para comentadores. Escolhem-nos a dedo.

Diz ele: «O risco é grande de podermos viver um cisma dentro da Igreja.»

E acrescentou ainda que se sente «muito mais desconfortável a falar com algumas realidades de reflexão teológica dentro da Igreja Católica do que com outras experiências religiosas», como o Judaísmo e o Islão.

Portanto, entenda-se, para este padre, o cristianismo não é a verdade, é «uma» «experiência religiosa».

E manifestou o seu desejo e esperança de que o novo Papa possa «furar as barreiras» e que impeça que a seguir a ele venha «alguém que volte aos fumos imperiais, às borlas, às rendas e aos bordados, assim como à exterioridade bacoca e vazia», que estava a «infectar» a Igreja.

Portanto, entenda-se, para este padre, os símbolos de autoridade dos anteriores papas são «fumos imperiais» – e, claro, a seguir o sujeito exigirá o fim da própria autoridade «imperial»…

Entenda-se ainda que, para este padre, João Paulo II e Bento XVI, por exemplo, entre muitos, é que andavam a «infectar» a Igreja. Não Fernando Ventura e a sua companhia de «progressistas» – além, claro, dos pedófilos, carreiristas e outras espécies que conhecemos.
No mesmo debate, em que estavam todos de acordo, também participou a dita «teóloga» Teresa Toldy. É que, por cá, dizem-se teólogos os indivíduos licenciados em teologia, os quais ficam desde logo autorizados a largar as suas bacoridades sobre assuntos de teologia. No caso, ainda por cima, a sujeita, além de licenciada, é doutorada na área da Teologia Feminista, calcule-se!

E melhor ainda, ensina para aí numa universidade de papel «Estudos de Género e da Cidadania»!

E ainda melhor, é Presidente da Associação Portuguesa de Teologias Feministas e Vice-Presidente da Associação Portuguesa de Estudos sobre as Mulheres!

Ora bem, com toda esta «teologia», a sujeita destacou em Francisco «o facto de se referir sempre a si próprio como bispo de Roma», o que é «muito importante em termos teológicos».

A dita «teóloga» elogiou ainda o costume de «cumprimentar as mulheres com um beijo», algo «nunca visto», e apontou reticências quanto ao novo Papa por ser, «segundo dizem, um conservador no que diz respeito à moral sexual».

Fez também votos para que o Papa abra «espaço para o debate» com «as vozes das filhas e filhos críticos da Igreja», sobretudo pessoas que «sofrem formas de exclusão» dentro do catolicismo, como os «divorciados recasados, padres casados, homossexuais, mulheres que desejam participar mais nas decisões» ou que aspiram a «ser ordenadas». (Porque será que a conversa destes «progressistas» vai sempre parar à cama e ao deboche?).

Quer ainda a dita «teóloga» continuar a aplicação do Concílio Vaticano II (1962-1965) numa óptica «progressiva, e não regressiva, como aconteceu nos últimos 30 anos».

E, ao que já estamos habituados, a «progressista» agência Ecclesia, pela pena do «progressista» redactor Rui Jorge Martins, dá grande ênfase às declarações do «progressista» padre Fernando Ventura e da «teóloga» Teresa Toldy, sendo aí qualificada com elevados atributos académicos. Tudo do mesmo, incluindo os seus superiores hierárquicos.



quarta-feira, 27 de março de 2013

Reviravolta


Portugueses estão reféns de governo incompetente e não depositam qualquer esperança na oposição

Paulo Morais
A governação de Passos Coelho falhou em toda a linha. Este já só se aguenta no poder porque não há à vista qualquer alternativa credível.

A equipa de Coelho, Portas e Gaspar, não só não conseguiu tirar o País do beco para onde Sócrates nos tinha atirado, como ainda piorou a situação.

As finanças públicas estão num caos. Há milhares de empresas a fechar, o desemprego é galopante. Os mais pobres passam fome, a classe média extingue-se. A coligação PSD-CDS não reduziu a despesa com as estruturas inúteis do Estado. Não se baixaram sequer as rendas das parcerias, como preconizava o memorando com a troika.

Caminhamos para o abismo e o maior drama é que nem sequer há alternativa eleitoral. O PS é inconsistente. Seguro é feito da mesma massa de Passos e Relvas. Vindo das juventudes partidárias, não têm mundividência nem currículo. Não se lhe conhece uma ideia. Apenas se sabe que domina bem o aparelho socialista. Seguro é, afinal, um clone de Passos.

Restaria, como opção, a hipótese de um governo de iniciativa presidencial, apadrinhado por Cavaco Silva. Mas quais seriam as políticas desse seu executivo? Provavelmente, apenas fazer chegar à governação a ala cavaquista do PSD, constituída por gente habituada a bons empregos do Estado, negócios fáceis e privilégios; e que está ávida de poder.

E quem seria o preferido de Cavaco para primeiro-ministro? Talvez Rui Rio ou Guilherme de Oliveira Martins.

Mas das escolhas de Cavaco há que temer. Recorde-se que foi o actual Presidente que, enquanto líder do PSD, nomeou para secretário-geral Dias Loureiro, um dos principais responsáveis pela maior burla financeira do regime, o BPN. Como primeiro-ministro, designou como líder parlamentar um actual presidiário, Duarte Lima. E já recentemente, para liderar o grupo de sua iniciativa «EPIS – empresários pela inclusão social», escolheu João Rendeiro, o responsável pela fraude do BPP. Não se pode pois confiar em quem erra tão clamorosamente em nomeações de tamanha importância.

Os portugueses estão em fim de linha, reféns de um Governo incompetente, e não depositam qualquer esperança na oposição. Sabem que o Presidente é desastrado. Só com novos protagonistas poderemos sair deste atoleiro. O regime precisa de uma reviravolta.



terça-feira, 26 de março de 2013

Multidão protesta contra
o casamento invertido em Paris


Centenas de milhares de pessoas foram para as ruas contra lei já aprovada na Assembleia e que vai ser discutida no Senado em Abril.
24/03/2013 Esta é a segunda grande manifestação contra o casamento invertido em 2013 na França
Eric Feferberg/AFP
Centenas de milhares de pessoas foram para as ruas de Paris, este domingo, para protestar contra a lei do casamento invertido que, na França, irá permitir não só a união de pessoas do mesmo sexo como a adopção de crianças pelo casal.

A manifestação decorreu durante algumas horas e teve momentos de maior tensão, nos quais a polícia francesa lançou gás lacrimogéneo contra a multidão. Segundo a polícia, cerca de 300.000 pessoas estiveram na rua. A organização contou 1,4 milhões de pessoas.

Esta é a segunda grande manifestação contra o casamento invertido desde o início de 2013. Nas esferas políticas, a lei elaborada pelo Governo do Presidente François Hollande já foi aprovada na Assembleia da República pela maioria de esquerda e irá agora ser discutida no Senado, a partir de 4 de Abril.

Mas nas ruas, o movimento que defende que as crianças devem crescer numa família com um pai e com a mãe não desistiu de travar aquilo que a ministra da Justiça, Christiane Taubira, descreveu como um «mudança civilizacional», cita a Reuters.

O movimento La manif pour tous – que se opõe ao projecto do Governo e é co-liderado pela humorista Frigide Barjot – e outros opositores da lei argumentam que as crianças de um casal do mesmo sexo irão ter problemas sociais e psicológicos.

Esta posição é defendida também pelos líderes religiosos franceses e pela direita. Na manifestação esteve presente Jean-François Copé, presidente da UMP, o principal partido da oposição.



domingo, 24 de março de 2013

Grupos interessados em destruir a Igreja,
adverte autoridade vaticana


O Subsecretário da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, Mons. Juan Miguel Ferrer Grenesche, assinalou que existem alguns grupos que tentam destruir a Igreja porque a vêem como um obstáculo que lhes impede de dominar o mundo com legislações «que atentam contra os próprios fundamentos da civilização».

«Hoje temos desafios semelhantes em diversos países do mundo. A globalização trouxe legislações que se difundem nas diferentes nações; e que atentam contra os próprios fundamentos da civilização», advertiu durante a sua visita ao Seminário Maior São José de La Prata (Argentina).

Mons. Ferrer Grenesche disse que estas legislações «apontam à secularização e laicização da sociedade. E há grupos bem interessados em destruir o que se oponha a isso. Por isso, vêem a Igreja como um perigo para o seu plano de dominação. Porque não procura acordos, a meio caminho, entre a verdade e a mentira».

A autoridade vaticana disse que, neste cenário, o trabalho dos sacerdotes e fiéis é «retomar intensamente a nossa identidade (católica), e a conversão interior; a vocação à santidade e à missão. Onde refere a Nova Evangelização».

«Como bem nos ensina isso o Santo Padre (Bento XVI), temos três vias de evangelização: a ordinária, nas nossas comunidades, fiéis que estão na Igreja; a missionária, onde não se conhece a Cristo, e a Nova Evangelização, para todos aqueles que se afastaram ou não vivem, com intensidade, a sua prática cristã», assinalou.

Para isso, deve-se procurar o encontro dos fiéis com Deus e uma ferramenta importante é a liturgia. «Por isso é responsabilidade dos pastores do povo de Deus, como parte do seu ofício de amor, cuidar dela. E isso começa aqui, no Seminário», afirmou.

Mons. Ferrer, que foi reitor do Seminário Maior de Toledo (Espanha), recordou que a liturgia pertence a Deus e não aos homens, e por isso «celebrar os sagrados mistérios é o mais importante na vida de qualquer sacerdote, bispo e do próprio Papa. E, além disso, a forma em que o Santo Padre celebra se constitui no modelo perfeito para toda a Igreja».

«A liturgia é escola de fé e de vida cristã, e deve impregnar toda a vida do Seminário. Nela convergem o Magistério, a Bíblia e os Sacramentos. Por isso, já desde o Seminário, temos que viver o que a Igreja nos pede no dia da nossa Ordenação: ‘Configura a sua vida com o mistério da Cruz do Senhor’», assinalou.



sábado, 23 de março de 2013

Notícias de Roma

O Papa Francisco almoça e canta tango
com 50 argentinos em Roma

ROMA, 22 Mar. 13 (ACI/Europa Press) .- O Papa Francisco teve uma refeição com um grupo de 50 argentinos presentes em Roma nesta quarta-feira às 12:30h em um dos salões adjacentes à Sala Paulo VI.

Entre os convidados, com os quais cantou tangos argentinos, encontrava-se o presidente da Conferência Episcopal Argentina, Dom José Maria Arancedo, o mestre geral da Ordem de Nossa Senhora das Mercês, Frei Pablo Bernardo Ordoñe, sacerdotes, religiosas e alguns casais com seus filhos.

No dia seguinte do início do Pontificado do Francisco, o frade argentino recebeu uma chamada que anunciava que "o novo Papa Francisco queria 'comer alguma coisa' com ele, e com outros argentinos presentes em Roma", conforme indicava a Rádio Vaticano.

Sobre o encontro, Frei Pablo Bernardo Ordoñe, destacou que tudo foi "com uma grande naturalidade", que recebeu "o abraço típico e o conselho do bom pai" e que cantaram algum tango, pois "tratava-se também de recuperar as raízes e tradições".

Do mesmo modo, o Mestre Geral da Ordem de Nossa Senhora das Mercês assinalou que "os convidados também rezaram juntos" e que o Papa insistiu "em rezar muito e rezar juntos".

Por outro lado, Pablo Bernardo Ordoñe ressaltou que o novo Papa "não é um homem que fica dando voltas ao problema, mas um homem que sabe aonde vai, com quem vai, e com que conta" e acrescentou que os presente disseram ao Pontífice que "estão dispostos a colaborar com ele, a apoiá-lo, a acompanhá-lo" pois querem "que tudo caminhe bem para todos, em toda a Igreja".



sexta-feira, 22 de março de 2013

Da fraude Roberto Carneiro a Domingos Cunha


Heduíno Gomes

Domingos Cunha, médico, deputado do PS-Açores e antigo secretário regional da Saúde, afirmou que o facto das crianças terem a barriga vazia – passarem fome – não tem influência no seu aproveitamento escolar.

Por outro lado, quando a fraude Roberto Carneiro ocupava o lugar de Ministro da Educação da fraude Cavaco (ambos viriam salvar Portugal, como se viu, cada um na área respectiva), dizia ele que o problema do insucesso escolar era a fome das crianças…

E daí, a fraude Roberto Carneiro inventou um programa que consistia em dar pacotinhos de leite com chocolate às criancinhas. E pronto! Bastou decretar que as professoras apenas poderiam chumbar os miúdos na 2.ª e na 4.ª classes – nada de chumbos na 1.ª e na 3.ª – e as estatísticas corresponderam de imediato à milagrosa receita láctea!

Agora vem Domingos Cunha, um médico – pasme-se com a sua ciência –, dizer que a fome não tem influência no aproveitamento escolar!

Qual deles será o melhor?

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quinta-feira, 21 de março de 2013

Salazar, a pobreza, o pó e o ouro


Fernando Sobral
Os portugueses iludiram-se culturalmente: julgaram que o dinheiro fácil que chegou durante três décadas comprava a solidez da educação e o espírito da invenção e inovação. E do risco. É uma tónica portuguesa: prefere-se a renda ao risco. O resultado está à vista.

Em 1962, António Oliveira Salazar sintetizou de forma clara a visão que tinha do seu Portugal: «Um país, um povo que tiverem a coragem de ser pobres são invencíveis». Este mundo pobre, ou remediado, acabou após a entrada na União Europeia.

Em cima da nossa pobreza caíram toneladas de dinheiro. O país ficou sulcado por auto-estradas e rotundas. As mercearias de bairro fecharam e nasceram hipermercados. Os portugueses passaram a preferir ir passear para os centros comerciais do que para os jardins. A democracia de consumo chegou como se fosse um milagre redentor.

Todos acharam que faziam parte da classe média, alimentada pelo crédito fácil. O paraíso tinha também construído na sombra o purgatório, feito de cumplicidades: do BPN à Parque Escolar foi um mundo de oportunidades de «negócio» para muitos. Deixando de ter a coragem de ser remediado o povo português tornou-se uma presa fácil de uma crise que não percebesse.

Destruída a base industrial, agrícola e piscatória do país, com fundos comunitários para abater tudo isso e trazer a «modernidade», Portugal ficou indefeso quando chegou a grande crise de 2008. Já antes era visível mas todos se recusavam a ver: o Estado continuava a ser a mãe de todas as batalhas e de todas as rendas. A própria sociedade civil e iniciativa privada viviam de bem com o Estado, fosse ele guiado pelo PS ou pelo PSD. A mais breve nota de suicídio da história portuguesa foi escrita por José Sócrates, o último da linhagem de destruidores de um país que poderia ser remediado mas inteligente.

Tudo se desvaneceu no ar. O crédito fácil foi substituído pela amarga austeridade. António de Oliveira Salazar, em 1963, dizia: «Quero este país pobre, se for necessário, mas independente – e não o quero colonizado pelo capital americano». A colonização é hoje exercida pela Comissão Europeia e pela troika, numa Europa que parece cada vez mais dividida cultural e moralmente, entre um norte protestante e um sul católico. A moral calvinista é uma forma demolidora de salvação (salvamo-nos pelo trabalho), face à forma como se perdoam os pecados, no confessionário, a sul.

Tudo nos divide. A forma como os protestantes criaram o capitalismo moderno enquanto nós víamos as naus carregadas de pimenta e ouro irem directas para Amesterdão e Londres para pagar os nossos prazeres ao sol diz muito do que são formas diferentes de olhar para a civilização.

Mas, ainda assim, os portugueses iludiram-se culturalmente: julgaram que o dinheiro fácil que chegou durante três décadas comprava a solidez da educação e o espírito da invenção e inovação. E do risco. É uma tónica portuguesa: prefere-se a renda ao risco. O regime atolou-se e o BPN representa-o perfeitamente nas suas ligações pouco transparentes a tudo e a todos. Se quisermos estudar este regime estudemos o BPN. Antes e depois da nacionalização. Está lá tudo o que se andou a fazer desde a entrada na União Europeia.

Maquilhou-se a pobreza com um falso riquismo que só encheu os bolsos e a estima de alguns. Que hoje vivem acima dos dramas dos comuns portugueses que só acreditaram no cartão de crédito, na casa acima das suas possibilidades, nas férias nos «resorts» mais aprazíveis, no carro do último modelo e no telemóvel 3G. Esse mundo ruiu para a maioria. Mas na sombra da crise há quem continue a viver de rendas, escudado nos invencíveis contratos com que o Estado prometeu dar tudo sem receber nada. Voltamos assim aos anos de 1960, como se tudo não tivesse passado de uma ilusão.

Com uma diferença:

Em Agosto de 1968, Oliveira Salazar dizia: «No dia em que eu abandonar o poder, quem voltar os meus bolsos do avesso, só encontrará pó». Hoje, nos bolsos de alguns que nasceram, cresceram e singraram com este regime, só se encontrará ouro.