terça-feira, 30 de setembro de 2014


Lenda do milagre de Ourique


Muito se tem falado, discutido e escrito sobre o já famoso milagre de Ourique. Porém, a nós, interessa-nos apenas o verdadeiro aspecto lendário de cada história – aquele meio-termo que se situa sempre entre a realidade e o sonho, entre o natural e o sobrenatural, entre a banalidade das coisas correntes e a poesia das coisas raras. Por essa razão, voltando as costas às polémicas acesas em torno do caso, vamos contar aqui apenas a lenda – sem dúvida uma das mais belas lendas de Portugal.

A batalha de Ourique tem sido considerada por muitos «a pedra angular da monarquia portuguesa». Diz-se que foi aí que pela primeira vez os nobres aclamaram D. Afonso Henriques rei de Portugal.


Fins de Julho de 1130. D. Afonso Henriques, já com a retaguarda coberta por castelos e cidades cristãs, já na posse de Leiria, de Ourém, Penela, Almourol, Zêzere e Cera – que depois adoptou o nome de Tomar – julgou-se apto a poder aventurar-se pelo território dos mouros, levando as suas armas pelo Alentejo, talvez na direcção de Silves. Reuniu os seus homens e lançou-se ao caminho.

A notícia desta agressão do infante D. Afonso fez tremer de receio Ismael ou Ismar, que então governava esta parte da Península ainda em poder dos sarracenos. Imediatamente ele convocou os chefes e guerreiros de Sevilha, Badajoz, Elvas, Évora e Beja, bem como os de todas as praças fortes até Santarém. E os sarracenos acorreram de toda a parte. Os exércitos marchavam um contra o outro. Mas por alturas do Campo de Ourique fez-se alto de ambos os lados. Então, João Fernandes de Sousa, camareiro do infante, apressou-se a entrar na tenda do seu senhor. D. Afonso Henriques parecia dormitar, tendo sobre os joelhos o Velho Testamento.

— Senhor... Perdoai-me se vos acordo...

D. Afonso Henriques nem pestanejou. Aflito com o rumor dos homens, lá fora, pois começavam a recear a multidão enorme de mouros que estava em frente e à vista, João Fernandes tocou no ombro do vencedor da batalha de S. Mamede.

— Acordai, Senhor meu!

O Velho Testamento caiu no chão. D. Afonso Henriques olhou o seu camareiro como se o tivesse visto pela primeira vez:

— Que me quereis? Estava a dormir... e a sonhar...

— Perdoai-me se vos interrompi... Mas está lá fora um homem velho que vos quer falar.

— Donde vem?

— Vem daqui perto e insiste em ser recebido por vós.

— Se é cristão, pode entrar.— Está aqui, meu Senhor.

E voltando-se para o velho, João Fernandes indicou com a mão direita a entrada da tenda.

— Por aqui. E não vos demoreis!

O velho entrou, olhando fixamente Afonso Henriques. Este, porém deu quase um salto no escabelo onde estava sentado.

— Senhor! Acabo de vos ver em sonhos! Que me quereis?

— Dizer-vos, Senhor, que deveis ter bom coração, porque vencereis e não sereis vencido. Sois amado do Senhor, porque sem dúvida Ele pôs sobre vós e sobre a vossa geração os olhos da Sua Misericórdia, até à décima sexta descendência, na qual se diminuirá a sucessão. Mas nela, assim diminuída, Ele tornará a pôr os olhos e verá! Ele me mandou dizer-vos que na noite que se seguirá a esta, se ouvirdes a sineta da minha ermida, na qual vivo há sessenta e seis anos, guardado no meio dos infiéis por alto favor de Deus – pois, como ia dizendo, se ouvirdes a sineta, deveis sair fora do arraial, sozinho.

D. Afonso arriscou:

— Devo sair de noite, sem companhia?

O velho voltou à sua fala serena:

— Sim, saireis sozinho, porque Ele vos quer mostrar a Sua grande Piedade.

— Senhor! Se sois um embaixador de Deus, eu vos venero e sabei que tudo farei para ser digno de tão grande mercê!

Sem mais palavras, o velho saiu da tenda. D. Afonso veio aliás dele. Em breve o perdia de vista. Entretanto, inquietos, os soldados discutiam. Logo se aproximou João Fernandes. D. Afonso Henriques perguntou-lhe:

— Que dizem os nossos homens?

— Acham uma temeridade o que ides fazer, Senhor! Os sarracenos têm aqui cinco reis e cinco exércitos para nos combaterem!

— Reúne-os! Quero falar-lhes.

Era quase noite quando D. Afonso Henriques se dirigiu aos seus homens:

— Companheiros! Nem paz, nem trégua, nem fuga se nos consente! É infalível, o pelejar aqui. Cinco exércitos nos cercam. Nós não poderemos ter mais socorros além daquele que nos vier de Deus. Mas n’Ele confio! Ele, Senhor de todos os exércitos, estará connosco! E connosco Ele vencerá em nós, e nós sobre esses homens que O não aceitam porque O não conhecem! Na madrugada de amanhã será a batalha. Encomendemos pois a Deus, esta noite, a nossa causa! E entretanto... esperemos que a hora soe!

Os homens entreolharam-se, sem saberem que dizer. Acreditavam no seu chefe e acreditavam na causa que os trouxera ali. Todavia, a vista da massa imensa do inimigo, muito maior do que eles em número, punha nesses homens um certo receio, perfeitamente humano...

O dia seguinte decorreu sereno. A noite chegou. Nem cá nem no arraial fronteiro havia movimento de tropas. Observava-se um silêncio enervante. De repente, esse silêncio foi cortado pela voz dorida de um sino que tangia ao longe. D. Afonso Henriques, curvado numa oração muda, ergueu-se e dirigiu-se lentamente para fora do arraial. A mão na espada, o olhar vivo e atento, D. Afonso Henriques caminhou sozinho. Já fora das vistas dos seus homens e em plena escuridão, o jovem chefe guerreiro deu conta de um raio resplandecente que surgia do seu lado direito. D. Afonso estacou. Mas o raio de luz foi alargando, alargando iluminando tudo em redor. De súbito, D. Afonso Henriques distinguiu o Sinal da Cruz mais resplandecente que o Sol e Jesus Cristo crucificado nela. De um lado e de outro, grupos de anjos, vestidos de branco, de um branco que resplandecia também!

O coração de D. Afonso Henriques bateu forte. Num gesto rápido, atirou para o chão a espada e o escudo. Descalçou-se em sinal de vassalagem e lançou-se de bruços, com as lágrimas a correrem-lhe pelo rosto. O peito arfante, nem atinava com o que queria dizer.


— Senhor!... Por que me apareceis?... Que me quereis dizer?... Desejareis, por ventura, acrescentar fé a quem tanta traz no peito? Se o inimigo Vos pudesse ver, como eu Vos estou vendo, talvez esse pudesse acreditar em Vós! Por mim, creio que sois Deus Verdadeiro, Filho da Virgem e do Padre Eterno!

Calou-se D. Afonso Henriques. Ergueu um pouco o busto, olhando uma vez mais a cruz levantada da terra cerca de dez côvados. E então a voz do Senhor fez-se ouvir, serena e bela:

— Afonso! Não te apareci deste modo para acrescentar a tua fé em mim, mas para fortalecer o teu coração neste conflito, e fundar os princípios do teu reino sobre pedra firme. Confia, Afonso, porque não só vencerás esta batalha, mas todas as outras em que pelejares contra os inimigos da minha Cruz. Vai! Vai, que acharás a tua gente alegre, esforçada para a peleja, e pedir-te-ão que entres na batalha com o título de rei. Não ponhas dúvida! A quanto te pedirem, deves conceder facilmente. Eu sou o fundador e destruidor dos reinos e impérios. Em ti e teus descendentes, quero fundar para mim um império, por cujo meio seja meu nome publicado entre as nações mais estranhas. E para que os teus descendentes conheçam quem lhes dá o reino, comporás o escudo de tuas armas com o preço com que eu remi o género humano. Olha para o meu corpo e contempla as minhas chagas! A elas juntarás o preço com que fui comprado aos Judeus. Assim esse reino ser-me-à santificado, puro na fé e amado por minha Piedade!


Calou-se, o Senhor. Os anjos vestidos de branco luzente sorriam. Então D. Afonso Henriques tentou dizer algo:

— Senhor!... Por que méritos me mostrais tão grande misericórdia? Olhai na verdade para os meus sucessores e guardai salva a gente portuguesa! Se acontecer que tenhais contra ela algum castigo, executai-o antes em mim e em meus descendentes, e livrai este povo que amo como único filho!

De novo a voz do Senhor voltou a cortar a escuridão e o silêncio:

— Não se apartará deles nem de ti nunca a minha Misericórdia, porque por sua via tenho em vista grandes searas e a eles escolhidos por meus segadores em terras mui remotas. E agora, volta para a tua tenda. Um novo caminho vai abrir-se!

Calou-se a voz e desapareceu a luz. Um silêncio quase aflitivo deu o braço à escuridão. D. Afonso Henriques ergueu-se. A hora devia ir avançada e no arraial já talvez tivessem dado pela sua ausência. Tomou o escudo e a espada, e voltou serenamente para a sua tenda. Ao chegar, João Fernandes de Sousa e mais três homens da sua confiança esperavam-no com certa impaciência.

— Senhor, como tardastes!

— Estai calmos, que a vitória será nossa. Como estão os nossos homens?

— Bem, Senhor. Ansiosos que a manhã chegue para que seja dado o sinal de combate!

— Pois se estão assim ansiosos, ide reuni-los e prepará-los. Iniciaremos a luta antes mesmo que a manhã desponte!

A batalha travou-se, dura. Desde as primeiras horas da manhã até à noite que os soldados de D. Afonso viam chegar hordas de sarracenos, como se fossem em número jamais capaz de extinguir-se. O arraial era acometido por todos os lados; e dir-se-ia que a sorte não ficaria com eles, quando um troço de cavalaria escolhida, caindo sobre a primeira coluna sarracena, a separou do resto do exército, dizimando-a. Perto, andava Ismael, que ao ver completamente derrotada a sua primeira coluna e vendo o arrojo com que os portugueses lutavam, indiferentes ao perigo, prontos a vencer ou a morrer, encheu-se de um pavor súbito e fugiu. Então o resto do exército, vendo em fuga o seu rei, seguiu-o em debandada. As forças portuguesas foram-lhe no encalço.


O desbarato dos sarracenos foi total. Um monte de cadáveres cobria o terreno desde Ourique até às Cabeças de Reis – onde os cinco reis mouros foram degolados. E em campo aberto, loucos pela vitória, os homens de D. Afonso Henriques aclamaram-no rei pela primeira vez! E ali mesmo o primeiro rei de Portugal resolveu que a bandeira portuguesa passasse a ter cinco escudos em cruz, representando os cinco reis vencidos e as cinco chagas de Cristo, carregadas com os trinta dinheiros por que Judas vendeu o Redentor. A 25 de Julho de 1139, a vitória de Ourique impôs para todo o sempre as cinco quinas na bandeira de Portugal.




        

segunda-feira, 29 de setembro de 2014


Quando um Estado não se dá ao respeito


Pedro Quartin Graça

Selvagens:
independentistas vão pagar multa
de quatro euros


Os dois independentistas das Canárias, membros do ANC com ligações à Frente Polisário, que, na segunda-feira, protagonizaram um protesto nas Ilhas Selvagens, ficaram alojados num hotel no Funchal, Madeira, não foram detidos e, inclusive, «apanharam uma boleia» da Marinha no seu regresso ao Funchal por não disporem de meios de transporte.

Pela invasão e ocupação do território nacional foram multados em, pasme-se, apenas quatro(!!!) euros, por terem pernoitado nas Ilhas Selvagens, sem autorização da gestão do Parque Natural da Madeira. Foram, ademais, muito bem tratados pela Marinha e pelas autoridades portuguesas.

Eis o resultado da forma ligeira como o Governo de Portugal tratou do assunto. Da forma ligeira e, sobretudo, do erradíssimo entendimento que por parte dos governantes portugueses existiu relativamente ao incidente em causa.

A este propósito, vejam-se as nossas próprias declarações ao Diário de Notícias da Madeira:

«Quando uma parte do território é ocupada e hasteiam uma bandeira que não é nossa o mínimo é enviarem meios aéreos e não um barco» (...) «O Governo reagiu de forma muito lenta e pouco ousada» (...) «os poucos recursos alocados à defesa fazem com que «nos tomem o pulso e façam o que entendem». (...)  «Há uma parte do território ocupado e o Governo português está mudo» (...) «Isto não é mais um incidente, faz parte de uma escalada de incidentes e desta vez até foram mais longe» (...) e, por último, é «inacreditável que um Governo não reaja de forma firme a um desaforo destes». «Quem está a reagir é a sociedade civil», concluímos, não deixando de apontar a «irresponsabilidade total» do Governo da República já que (...) «o facto de se tratar de um movimento separatista não é caso para desvalorizar a questão, já que há vários exemplos destes pelo mundo em que se põe em causa a soberania dos países.»

Esta atitude do Governo português é demonstrativa de uma enorme incapacidade de análise e de total ausência de sentido de responsabilidade que seria expectável por parte de um Governo que encarasse de forma séria a conjuntura geo-estratégica internacional. Estamos, infelizmente, entregues a um grupo de amadores.



COMENTÁRIO:

Daquela inteligência em Ministro da Defesa, que já promoveu exercícios militares com o arqui-inimigo castelhano para poupar dinheiro, o que se esperava?

Sem dúvida que Aguiar Branco é a maior galinha tonta que já passou pela Defesa Nacional desde que Portugal existe. O Botelho Moniz e mesmo o Silvano Ribeiro, este Ministro da Defesa do Vasco Gonçalves, comparados com esta galinha tonta, eram capazes de ser inteligentes e patriotas.





domingo, 28 de setembro de 2014


Revista Fortune desmente mito

das «grandes riquezas» do Vaticano


A revista norte-americana Fortune, especializada em temas económicos, desmentiu o mito das «grandes riquezas» do Vaticano, e informou que se a Santa Sé fosse uma corporação, nem sequer chegaria perto das 500 mais ricas da sua famosa lista Fortune 500.

No seu artigo intitulado «This pope means business» («Este Papa leva a sério»), a Fortune indicou que «frequentemente é assumido que o Vaticano é rico, mas se fosse uma companhia, não chegaria nem perto da lista Fortune 500».

A Fortune assinalou que o orçamento operacional do Vaticano é de apenas 700 milhões de dólares, e «em 2013 registou um pequeno superávit global de 11,5 milhões de dólares».

A revista estadunidense assinalou, além disso, que a maioria dos activos mais valiosos do Vaticano, «alguns dos maiores tesouros de arte do mundo, estão praticamente sem avaliação e não estão à venda».

«A Igreja Católica é altamente descentralizada financeiramente. Em termos de dinheiro, o Vaticano basicamente está por conta. Essa é uma importante razão pela qual as suas finanças são muito mais frágeis e a sua situação económica é muito mais modesta que a sua imagem de luxuosa riqueza».

O Vaticano, indicou a revista económica, não tem acesso ao dinheiro nem das dioceses nem das ordens religiosas.

Explicou que «cada diocese», em termos económicos, «é uma corporação separada, com os seus próprios investimentos e orçamentos, incluindo as arquidioceses metropolitanas».

A Fortune assinalou que as dioceses de todo o mundo «mandam quantidades importantes de dinheiro para o Vaticano todos os anos, mas a maior parte deste dinheiro é destinada ao trabalho missionário ou às doações de caridade do Papa».

O Vaticano, indicou, «paga salários relativamente baixos, mas oferece benefícios generosos de saúde e aposentadoria».

«Os cardeais e bispos das congregações e dos conselhos muitas vezes não recebem mais de 46 mil dólares por ano».

«Os empregados leigos do Vaticano têm emprego vitalício, e praticamente ninguém se aposenta antes da idade», assinalou.






Mais uma vez, o Alegre fica a chupar no dedo

Brandão Ferreira absolvido


Heduíno Gomes

Não é de hoje que o enxofrável Alegre põe processos a quem contraria as suas sábias e revolucionárias opiniões. Já quando era Secretário de Estado da Comunicação Social, nos anos 70, o «democrata» Alegre perseguia quem se lhe opusesse. Por isso foi baptizado de coroné, numa alusão a uma sinistra personagem da telenovela Gabriela.

Agora, finalmente, foi lida a sentença do julgamento que mais recentemente opôs o coroné Manuel Alegre ao TC Brandão Ferreira, acusado de difamação... O réu foi absolvido.





Eis parte da noticia da Lusa que reflecte a decisão e o que se passou.

O tenente-coronel aviador (na reforma) Brandão Ferreira e o director do semanário 
O Diabo, Esteves Pinto, foram hoje absolvidos do crime de difamação contra o histórico dirigente socialista Manuel Alegre.

«O tenente-coronel João José Brandão Ferreira foi julgado por difamação por causa de artigos publicados em blogues, tendo o arguido reiterado em julgamento a tese que Manuel Alegre cometeu, aos microfones da rádio Voz da Liberdade, em Argel, traição à pátria, ao incitar os militares portugueses a desertar, ao conviver com os líderes dos movimentos de libertação de Angola, Moçambique e Guiné e ao ajudá-los na guerrilha contra as tropas portuguesas no Ultramar.»







sexta-feira, 26 de setembro de 2014


Isso é tão iluminismo


Robert Royal

Um dos recursos de estilo mais irritantes no discurso público actual é quando se critica uma coisa como sendo «medieval». O crítico não está a referir-se à janela de rosa da catedral de Chartres, nem os tratados místicos de Bernardo de Clairvaux sobre o amor divino, nem o código de conduta elaborado da tradição cavalheiresca. Essas tradições, por alguma razão, não contam como «medievais». Só a brutalidade, que é comum a todas as eras, infelizmente, define o que é medieval, bem como um certo obscurantismo religioso, cujos registo históricos são difíceis de encontrar, mesmo quando comparado com a confusão dos nossos tempos.

As calúnias sobre a superstição e a violência da Idade Média começaram durante o Renascimento – apesar de a suposta «redescoberta da razão» ter sido na verdade um declínio em relação à racionalidade medieval. Basta dar uma vista de olhos sobre a política no Renascimento para se perceber que não se trata propriamente de um grande avanço.

Mas as calúnias foram reforçadas pela Reforma e pela Revolução Científica. São Edmund Campion foi enforcado e esquartejado por causa das suas crenças religiosas em Inglaterra em 1581, mas curiosamente não criticamos esse tipo de comportamento como sendo «tão reformista» ou «tão pré-modernismo».

Mas a maior impostura na nossa história imaginada do Ocidente tem a ver com o Iluminismo. O verdadeiro Iluminismo apresentou-se sob várias formas. Algumas foram úteis – algo de que nos devemos lembrar quando precisarmos de antibiótico – e poderiam ter sido ainda mais se tivessem beneficiado de alguma continuidade com conhecimentos mais antigos. Muitas figuras do Iluminismo, mesmo que se tenham tornado deístas, continuavam a acreditar num Ser Supremo, na imortalidade da alma, no juízo final e na vida eterna no Céu ou no Inferno (ver o Vigário de Saboia de Rousseau). Sem esses mínimos, pensavam, a moralidade humana não teria rumo.

Mas o Iluminismo radical – a parte que Edmund Burke discerniu na Revolução Francesa e que descreveu como operando «com a metafísica de um caloiro e a matemática e aritmética de um cobrador de impostos», continua connosco e fornece grande parte da banda sonora das nossas vidas. Vêmo-lo nas figuras públicas que parecem acreditar na existencia de curas conhecidas para todos os males sociais, que apenas não se aplicam por causa da má-vontade dos privilegiados ou a ignorância dos pobres, sendo que tanto uns como outros podem ser ignorados e, até, eliminados da conversa.

Burke acrescentava que: «É notável, que num grande arranjamento de humanidade, não se encontra qualquer referência a qualquer coisa moral ou qualquer coisa política; nada que se relacione às preocupações, acções, paixões, ou interesses dos homens. Hominem non sapient [Eles não conhecem o homem].»

Desde então as coisas não melhoraram muito. Olhando à volta continuamos a ver que as grandes influências do Iluminismo para nós continuam a ser coisas como a ideia de que os «verdadeiros» interesses das pessoas são económicos e que tudo o resto é ilusão, loucura ou pior. É evidente que houve guerras travadas por razões económicas, mas são surpreendentemente poucas ao longo dos últimos séculos. Basta pensar na Primeira e Segunda Guerra Mundial, Coreia, Vietname, Afeganistão e Iraque.

Neste momento decorre uma guerra na Ucrânia que o nosso presidente pensa derivar de uma mentalidade «do século XIX» que, como sabem os sofisticados da comunidade internacional, nem compreende os seus próprios interesses. Ou seja, nós compreendemos Vladimir Putin melhor do que ele próprio. As elites bem-pensantes sabem que devíamos limitar-nos ao desenvolvimento económico e cooperação internacional  e, claro, sabemos que forma deve assumir essa cooperação, porque todos os objectivos humanos legítimos são já conhecidos: uma presunção tão iluminista.

Edmund Campion, vítima do Iluminismo

Temos guerras entre o povo antigo de Israel e os habitantes muçulmanos de Gaza e da Cisjordânia, bem como entre as diferentes facções religiosas da Síria, Iraque, Líbia, Egipto, Sudão, Nigéria, etc. É tão deprimente – e tão iluminista – pensar que os seres humanos se mantêm agarrados dessa forma à religião e à história. A não ser que, em vez de olharmos para o mundo pelo prisma dos nossos critérios olharmos, como diz Burke, para as «preocupações, acções, paixões e interesses dos homens» – os seres humanos verdadeiros e não aqueles que gostaríamos que existissem.

Quando pensamos desta forma começa a fazer sentido que as pessoas se agarrem à religião, família e pátria – e que estejam dispostos a defendê-las, pela força, se for caso disso, mesmo que isso não beneficie os seus «interesses económicos» – porque  a maioria das pessoas não se entusiasmam nem se inspiram em abstracções. Os homens simplesmente não são assim. É muito iluminista pensar que sim.

Ou melhor, essa é uma das contradições do Iluminismo. Porque se levássemos a sério os esforços para se reduzir o homem a um mero animal, essas ligações de matilha fariam todo o sentido. Foi Vladimir Soloviev que ironizou, certa vez, que a visão moderna é de que «todos descendemos de macacos, por isso amemo-nos uns aos outros».

Claro que se levássemos a sério a redução iluminista dos seres humanos a um mero animal complexo, ou mais ainda a uma série de interacções químicas complexas, não acreditaríamos em nenhuma daquelas coisas que verdadeiramente nos tornam humanos. E porque razão pensaríamos que algo que não passa de uma série de reacções químicas complexas tem direitos, liberdades ou objectivos para além do bem-estar físico? Os tecnocratas estão a investir em força nesse raciocínio.

Levou o seu tempo para que esta atitude iluminista entrasse no discurso público. Há correntes na nossa cultura – pós-modernas, neo-ortodoxas, filosóficas – que já compreenderam as limitações e os perigos deste desenvolvimento. Remam contra a maré, mas acabam muitas vezes por dar mais força ao cepticismo em vez de restaurar sentido de verdade mais rico do que um orgulhoso racionalismo anterior permitia.

Aquele pensamento antigo e medieval que suportava a ideia de que o ser humano é algo especial – enraizado num mundo que tinha um lugar especial para essa especialidade – pode ter sido banido da praça pública. Alguns até podem pensar que se trata de uma libertação. Mas essa é uma visão tão iluminista e à medida que as consequências se fizerem notar, poderá não tardar o dia em que sentimos saudades de um tempo menos iluminado.


(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing , 4 de Agosto de 2014. Tradução de Filipe d'Avillez)





quinta-feira, 25 de setembro de 2014


Onde já vai no Brasil o «Aborto Hortográfico»

Jabuticaba no Senado



Ana Maria Machado

Não faz muito tempo, você comprou uma torradeira e, em casa, não conseguiu ligá-la. A legislação agora exige três pitocos nos plugues dos novos aparelhos, que não servem mais nos dois buracos da tomada de sempre. Foi preciso comprar um adaptador. Uma chatice, mas mais seguro. Progresso tecnológico. É para o bem de todos, o governo sabe o que faz. Mesmo quando o novo padrão é tão original quanto jabuticaba, que só tem no Brasil. Não serve para qualquer aparelho importado que por acaso você tivesse. E tome adaptador. Você acabou chamando um eletricista e trocando todas as tomadas da parede. Ufa!

Pois aí vem nova surpresa. Você nem imagina o que o Senado anda debatendo a sério, considerando a hipótese de mudar geral. Sem ao menos reparar no ridículo da esquisitice. Se for aprovado, vira lei. Só que, desta vez, não vai haver eletricista que dê jeito. Discute-se uma reforma ortográfica brasileira. Brasileiríssima, que nem jabuticaba. Ainda que sem as delícias da fruta.

«Mas não fizeram uma reforma ainda outro dia? Para que outra?», talvez você pergunte. Vamos esclarecer. O que se fez há pouco tempo (aliás, num processo que ainda não se encerrou) foi um acordo ortográfico entre países de língua portuguesa. Não uma reforma. O objetivo foi que se escreva da mesma maneira o português falado em qualquer parte do mundo. Assim, passa-se a ter um padrão unificado em documentos internacionais que se queira redigir no idioma. E os leitores de todos os países lusófonos passam a se acostumar com a grafia única, que nos permitirá ler livros uns dos outros com menos estranheza (já bastam as do próprio vocabulário, por vezes tão diferente).

Precedido por outros acordos e protocolos em busca desse entendimento, o processo foi amplamente discutido durante 18 anos, em negociações entre filólogos e instituições responsáveis. Venceu impasses e divergências de todo tipo. Foi aprovado pelo legislativo dos países interessados. Foi assinado e promulgado pelos presidentes do Brasil e de Portugal em 2008. Entrou em vigor em janeiro de 2009, com prazo de adaptação estendido no Brasil até dezembro de 2012. Em Portugal, até 2016.

Sabe-se lá por que (ou por quem), na semana antes de terminar nosso prazo oficial, entre o Natal e o Ano Novo de 2012, a presidente Dilma resolveu prorrogá-lo. Não chegou a fazer nenhuma diferença prática. No Brasil, como já estávamos fazendo, continuamos todos usando a ortografia que segue o acordo — é como se escreve neste jornal e nos livros publicados no país e como se ensina nas escolas. Todo mundo entende. A experiência poderá, eventualmente, revelar a necessidade de pequenos ajustes. Mas não é disso que se trata agora.

A jabuticaba que está na Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado é outra. É uma proposta de reforma ortográfica, para que se passe a escrever como se fala, «para simplificar e aperfeiçoar a ortografia», de modo a facilitar a alfabetização. Sem letras que não se pronunciam e sem duplicidade de grafia para o mesmo som. A justificativa populista é ajudar as crianças, ensinando-as a escrever, por exemplo, «O omen xora porqe qer caza para abitar» (sic).

Nem vale discutir os detalhes dessa ideia estapafúrdia. Questiona-se é a premissa, em nome de uma pretensa inclusão social.

Nada disso é necessário. O linguista Marcos Bagno lembra que as línguas mais faladas e escritas internacionalmente (como o inglês e o francês) têm ortografias complicadas e nem por isso deixaram de se difundir. Não precisaram de jabuticabas simplificadoras. Será que as crianças deles são mais capazes que as nossas?

O filólogo e acadêmico Evanildo Bechara insta a CE do Senado a não levar adiante a proposta de «simplificação», um equívoco talvez baseado em «amnésia ou ignorância». A professora Marília Ferreira, presidente da Associação Brasileira de Linguística, encaminhou aos senadores documento em que sublinha que o que dificulta o processo de alfabetização de crianças oriundas de segmentos sociais de pouca familiaridade e contato com a língua escrita não é a ortografia. É a falta de uma experiência letradora significativa anterior e paralela ao processo escolar.

Há casos em que essa vivência falta também a muitos professores, lembro eu. Sinal de melhora: gente vinda de um ambiente iletrado está chegando à alfabetização nas últimas décadas. Algo a se celebrar. Mas também sinal de alerta: a formação de nossos professores precisa ser de melhor nível, capaz de incorporar alternativas pedagógicas mais eficientes, de corrigir eventual falta de intimidade com a cultura escrita e de compensar desigualdades de origem. Precisa capacitá-los a alfabetizar.

Tomara que o Senado consiga perceber isso. Mais clareza nas prioridades, gente. O remédio é qualidade na educação. Não é jabuticaba.


Ana Maria Machado é escritora.
Originalmente publicado no Globo em 20 de Setembro de 2014.





terça-feira, 23 de setembro de 2014


A aliança entre a máfia verde e a indústria automóvel

Defesa do ambiente ou corrupção

Berlim-Paris-Bruxelas-Lisboa?


Heduíno Gomes

Quem não gostará de ar puro? Toda a gente gosta.

E nós com uma certa dificuldade em escoar os automóveis que produzimos! (ver http://noticiatuga.blogspot.pt/2014/06/milhares-de-carros-novos-nao-vendidos.html).

Então nós, indústria automóvel e nossos lacaios na política, incluindo os «ecologistas», vamos estabelecer uma série de proibições de utilização de automóveis mais antigos e assim obrigar o pagode a comprar-nos carros novos.

Que se lixe a capacidade económica do pagode e de cada país...

Tudo isto pela mão dos políticos corruptos que ocupam os gabinetes de Bruxelas, de São Bento e dos municípios.

Entretanto, esta fauna anda montada à borla em carros novos pagos pelo contribuinte.



(Notícia do Correio da Manhã)


Lisboa fica sem carros «velhos»

Autarquia instala leitura de matrículas para identificar infractores.

Por João Saramago

A partir de 3 de Novembro está prevista, em Lisboa, a interdição de circulação a veículos com matrículas anteriores a 2000 na zona da Baixa, Avenida da Liberdade e Cais do Sodré – área onde hoje não podem circular veículos com matrícula anterior a 1996.

Para a concretização do plano, a Câmara de Lisboa deverá instalar um sistema de leitura automática de matrículas. O mecanismo conta já com a autorização da Comissão Nacional de Protecção de Dados, explicou ao CM Hugo Tente, professor da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. De acordo com o investigador, a medida irá afastar da Baixa Pombalina cerca de 95 mil veículos por dia.

Os veículos infractores estarão sujeitos a uma multa de 24 euros, referente ao incumprimento do sinal de zona. Nos dias úteis, das 07h00 às 21h00, poderão circular nesta área os residentes, veículos de colecção e transportes públicos, incluindo táxis. O mesmo grupo de veículos pode também entrar na circular denominada ZER 2, onde hoje está proibida a entrada de veículos com matrícula anterior a 1992.

Caso a proposta venha a ser aprovada em reunião de câmara, a partir de Novembro nesta zona ficam interditos os carros posteriores a 1996.






A sargeta literária de Marcelo


Luís Lemos

Todos nós conhecemos a banha-da-cobra de Marcelo. Mas ainda há a promoção que faz de certos livros que são autênticos ataques à Civilização cristã. No último domingo apresentou a sua «escolha», melhor, a sua sargeta literária, à cabeça da qual estavam livros de Júlio Machado Vaz (sexólogo decadente), Alice Vieira (endoutrinadora comuna de crianças) e Daniel Sampaio (pedagogo decadente).

Isto é o real Marcelo.






domingo, 21 de setembro de 2014


Lançado nos EUA livro escrito por cinco cardeais

sobre a doutrina da Igreja sobre o matrimónio.



Cinco membros do Colégio de Cardeais uniram-se para escrever um livro em defesa da doutrina da Igreja sobre os católicos divorciados numa nova união e afirmaram que se trata do enfoque mais misericordioso que se pode esperar.

O livro «Remaining in the Truth of Cristo: Marriage and Communion in the Catholic Church» (Permanecendo na verdade de Cristo: Matrimónio e comunhão na Igreja Católica) oferece uma resposta à proposta do cardeal Walter Kasper para que os católicos divorciados numa nova união possam receber a Eucaristia.

Os cinco cardeais autores do livro são Gerhard Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé; Raymond Leo Burke, Prefeito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica; Walter Brandmüller, presidente emérito do Comitê Pontifício de Ciências Históricas; Carlo Caffarra, Arcebispo de Bolonha e um dos teólogos mais próximos a São João Paulo II em questões de moralidade e família; e Velasio Di Paolis, Presidente emérito da Prefeitura para os Assuntos Económicos da Santa Sé.

Além dos cardeais, quatro professores e teólogos também fizeram contribuições ao livro: Robert Dodaro (OSA), o editor John Rist, o jesuíta Paul Mankowski e o Arcebispo Cyril Vasil.

Segundo a editora Ignatius Press, o livro aborda argumentos bíblicos sustentados pela actual doutrina da Igreja assim como os ensinamentos e práticas da Igreja primitiva.

No seu site, Ignatius Press explica que o livro «percorre a história de séculos de resistência católica» à recepção da comunhão por parte de católicos divorciados numa nova união. Do mesmo modo, revela «sérias dificuldades teológicas e canónicas inerentes nas práticas do passado e presente da Igreja Ortodoxa».

«Em nenhum destes casos, bíblicos ou patrísticos, estes estudiosos encontram argumentos a favor do tipo de 'tolerância' que o Cardeal Kasper propõe com respeito aos matrimónios civis em que se divorciam», refere a editora.

Em Fevereiro, o cardeal Kasper, presidente emérito do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, referiu-se ao matrimónio e à vida familiar, dedicando a última parte de seu discurso ao «problema dos divorciados recasados» e propôs que os divorciados recasados possam receber a Comunhão.

Ignatius Press sustenta que os diversos estudos analisados no livro «levam à conclusão de que a fidelidade de muitos anos da Igreja à verdade do matrimónio constitui o fundamento irrevogável da sua resposta misericordiosa e amorosa à pessoa que está civilmente divorciada e recasada».

«Portanto, o livro desafia a premissa de que a doutrina tradicional católica e a prática pastoral contemporânea se contradizem».





sexta-feira, 19 de setembro de 2014


A resposta do meu pai...


Levei o meu pai a um supermercado outro dia para lhe comprar uns sapatos (ele está com 76 anos).

Decidimos comer qualquer coisa na zona dos restaurantes.

Reparei que ele estava a olhar fixamente para uma adolescente sentada perto dele.

A adolescente tinha pintado o cabelo de várias cores – verde, vermelho, cor-de-laranja e azul.


O meu pai continuava a olhar insistentemente para ela.

A rapariga ia olhando à volta de vez em quando e dava sempre com o meu pai a olhar fixamente para ela.

Quando se fartou de ser olhada pelo meu pai, perguntou sarcasticamente:

«Qual é o problema, avozinho, nunca fez nada bárbaro na sua vida?»

Conhecendo o meu pai, eu engoli a comida que tinha na boca à pressa, para não me engasgar com a resposta dele. Eu sabia que ele havia de ter uma das boas!

No seu estilo clássico, ele respondeu-lhe calmamente, sem sequer pestanejar:

«Uma vez fiquei pedrado e fiz sexo com uma arara. Por isso, estava para aqui a pensar se não serás minha filha»?!!!!!!!!





quarta-feira, 17 de setembro de 2014


Qual é o objectivo?


Anthony Esolen

Foi W. H. Auden quem disse que todos os críticos deviam mostrar as suas credenciais antes de escrever sobre literatura. Mas as credenciais a que se referia nada tinham a ver com a formação académica ou bibliografia. Auden dizia que eles deviam confessar aos seus leitores qual era a sua visão do paraíso.

Penso que este requisito devia aplicar-se também a todos os críticos sociais e a todos os que propõem alterações fundamentais às leis ou aos costumes. A todos os que se identificam como progressistas, a pergunta evidente é: «Para onde vamos? E porque é que queremos chegar aí?»

Deixemos de lado, por um momento, o facto de não ser possível um paraíso sobre a terra, pois isso implicaria a perfeição das virtudes entre homens decaídos. Nas palavras de Solzhenitsyn, no coração de cada homem trava-se uma batalha entre o bem e o mal.

Deixemos de lado aquela confiança vã de que podemos chegar à terra prometida se seguirmos a estrada mágica da «ciência» ou da «democracia», ou da «igualdade» ou da «liberdade sexual», e que tudo estará bem.

Deixemos de lado os meios para chegar a essa terra prometida. A questão que se coloca aos progressistas é: «Que terra é esta que nos prometem? Porque é que é esse o vosso destino? Como é que é? Como é que imaginam o paraíso?»

Para o verdadeiro conservador a questão é menos agressiva e urgente, uma vez que o verdadeiro conservador não acredita no paraíso sobre a terra. «Como é que seria um paraíso? Dadas as fragilidades da natureza humana, que pálido reflexo desse paraíso é que os nossos antepassados, ou nós mesmos, já garantimos? Se já perdemos parte dessa boa realidade, como é que a podemos reaver?»

Esta questão tem implicações sobre o grande debate do nosso tempo, o da chamada «libertação sexual». Por isso coloquemos aos progressistas esta questão: Qual é a vossa ideia de paraíso? Para onde nos estão a conduzir?

É uma terra em que a maioria das pessoas no auge das suas vidas são casadas? Pelo que os homens e as mulheres dedicam a maior parte do seu tempo a dedicar-se à disciplina edificante e unificadora da vida familiar?

É uma terra em que praticamente nenhum casamento termina em divórcio?

É uma terra em que praticamente não nascem crianças fora do porto seguro do casamento e de votos de estabilidade e perpetuidade?

É uma terra cuja cultura popular celebra aquilo que há de mais nobre na humanidade e não aquilo que é rude, ordinário e egoísta? Uma terra em que os rapazes e as raparigas aprendem que é errado levar uma vida de hedonismo?

É uma terra em que a pornografia é considerada lixo porque conspurca o corpo e a mente?

É uma terra em que os homens têm muita coisa boa para dizer sobre as mulheres e as mulheres muita coisa boa para dizer sobre os homens?

É uma terra em que os casamentos são tão fortes que aqueles que sucumbem às tentações do mau comportamento podem contar com assistência pronta dos seus vizinhos e familiares?


É uma terra cujas igrejas se enchem ao domingo?

É uma terra cujas famílias são tão estáveis e tão presentes na vida local que os políticos, os professores e os homens de negócios precisam de contar com elas? Uma terra em que as famílias supervisionam as escolas e onde os professores são vistos como representantes dos pais, nomeados à sua discrição?

É uma terra cuja vida familiar é tão produtiva e vibrante que em vez de vermos entretenimento massificado a ser bombeado para dentro das casas, existe uma verdadeira cultura popular a florescer dentro de casa?

É uma terra em que se honram as virtudes que fortalecem e protegem as famílias? Uma terra em que a castidade não é desprezada por ser uma forma de puritanismo mas louvada como forma de autodisciplina que respeita a beleza da sexualidade e a santidade do casamento?

É uma terra em que a primeira prioridade da economia é o bem do lar? Uma terra em que as leis e os costumes fortalecem a vida familiar, aumentando as probabilidades de as crianças passarem a maior parte do tempo em casa na companhia de pelo menos um dos seus pais? Uma terra de vizinhança e não de mera proximidade, onde as famílias que vivem nos mesmos bairros se conhecem ao ponto de formar uma espécie de família alargada em que as crianças podem brincar à vontade, sempre debaixo do olhar de alguém de confiança?

É uma terra em que os Governos podem dedicar-se aos seus afazeres, porque quase todos os assuntos verdadeiramente importantes já são tratados pelos lares, os bairros e as paróquias?

É uma terra em que as crianças não são precocemente sexualizadas, tendo assim tempo para aprender a ser rapazes e raparigas antes de entrar na fase da puberdade? Uma terra em que alguém que expressasse a vontade de se insinuar sexualmente nos desejos sexuais de uma criança seria visto como monstruoso? Uma terra em que um pervertido sexual e uma fraude como Alfred Kinsey não seria celebrado?

Nesta terra poderíamos ter uma parada anual para festejar aqueles que celebram os 40 anos de casados, na companhia dos seus filhos e netos? Uma terra em que a palavra «puro» não é usada como gozo e «decadente» não é considerado um elogio?

A todos os que defendem o absurdo biológico de um homem se poder casar com outro homem, perguntamos: «Essa terra que nos propõem é uma onde seriam felizes? Vocês querem que acreditemos que vos podemos conceder esta coisa que desejam sem termos de abdicar de todas as outras coisas que as pessoas comuns sempre quiseram e das quais tantas vezes puderam gozar. Mas essa não é uma mentira? Não é antes verdade que não querem nenhuma dessas outras coisas?

Para onde nos querem levar? Porque é que havíamos de querer ir convosco?


(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 20 de Agosto de 2014
em The Catholic Thing). Tradução de Filipe d'Avillez)