Heduíno Gomes
Pacheco
Pereira, como é sabido, dispõe de bastante tempo nas antenas do regime, que é
dizer do sistema instaurado com a porca III República, que nos conduziu onde
estamos. Não é por acaso que lhe concedem esse tempo de antena.
Um dos seus programas de televisão, na SIC-N, é o Ponto Contraponto,
uma espécie de Borda d’Água em formato etéreo, cheio de pretensiosismos sociologistas, isto é, de
banalidades e curiosidades de almanaque. É a sua grande cultura.
Na última edição deste programa (1.11.2014), Pacheco Pereira termina em beleza
com mais uns elogios à cultura do grande amor intelectual da sua vida: Álvaro
Cunhal. No caso, Pacheco põe Cunhal nos píncaros como competente crítico
de dança porque viu com os seus próprios olhos, calcule-se, e escreveu sobre
uma encenação do ballet Spartacus, de Khachaturian! Pacheco na
Roménia e seria ele o cronista ideal de serviço a louvar os dotes científicos
da investigadora Elena Ceausescu!
Mas antes, nesta edição do programa, já havia feito outras. Vejamos esta, de
actualidade.
Como é sabido, Pacheco Pereira, estava na área do PS, sector Mário Soares,
concretamente no MASP (Movimento de Apoio Soares à Presidência).
Perante a oferta de lugar como deputado, vendeu o passe ao cavaquismo, à sombra
do que ascendeu no PSD e nas antenas do regime, conciliando – o que não é
difícil – o seu apoio à tecnocracia cavaquista com a sua concepção de esquerda
do mundo. A sua carreira política, deve-a ao cavaquismo. Na federação laranja
de interesses e rivalidades, os seus amigos são os cavaquistas.
Na luta pelo poder que actualmente se desenvolve dentro do PSD, Pacheco Pereira
está presente. Do lado dos cavaquistas, claro. E utiliza as suas antenas para,
por tudo e por nada, atacar as outras facções, especialmente a de Passos Coelho
por estar no poder. Com razão algumas vezes – o que não é difícil, diga-se de
passagem – mas quase sempre na base da pura dor de corno, demagogia e má
língua. Assim, tudo quanto sirva para deitar abaixo o Passos Coelho é bom.
Mesmo que seja porcaria.
É o caso, na referida edição do programa Ponto Contraponto, a
propósito de uma suposta censura a um «estudo» da revista Análise
Social. Não vale a pena repetirmo-nos, pelo que reproduzimos
o comentário de Jorge Almeida Fernandes sobre essa suposta
censura com a qual o democrata Pacheco tanto se indignou no seu programa da
SIC-N. Esse mesmo democrata que andou a apoiar a ditadura cavaquista sobre os
militantes do PSD.
Apenas há a acrescentar que Jorge Almeida
Fernandes indica o link onde o leitor pode ver as
ordinarices contidas nesse «estudo», com as quais Pacheco não se importa de
conviver por considerar úteis para mandar abaixo o Passos Coelho. A utilidade é
o seu critério moral. Já sabíamos.
A «segunda morte» de Sedas Nunes
A revista Análise Social (AS), fundada em 1963 por
Adérito Sedas Nunes e editada pelo Instituto de Ciências Sociais da
Universidade de Lisboa (ICS), produziu insolitamente o escândalo da semana:
censura na universidade. O director do ICS, José Luís Cardoso, retirou da
circulação o último número da AS. Porquê? Um «ensaio visual»
intitulado «A luta voltou ao muro» e composto por uma selecção de graffiti conteria
imagens «chocantes, ofensivas e de gosto duvidoso». Diz tratar-se de uma peça
«inapropriada para publicação numa revista académica» e que, por ser
considerada «decorativa», não foi sujeita «a avaliação e arbitragem científica».
O «director cessante» da revista, João de Pina Cabral, acusa Cardoso de
«censura» e de «ataque de lesa-ciência». Os graffiti em causa,
argumenta, «reflectem a frustração popular que se vive em Portugal contra as
políticas de austeridade». A palavra «censura» — «censura pura e dura» —
espalha-se pelos blogues e comentários de leitores dos jornais.
O graffito que se reproduz — numa foto do PÚBLICO — é o único
imaginativo. Outros são mera grosseria. No que encerra a série, lê-se: «Nos
bolsos dele / Estão os teus sacrifícios /Américo Amorim / Ricardo Salgado /
Belmiro de Azevedo / Soares dos Santos / Pingo Doce / Sacrifícios / O caralho.»
O «ensaio visual» pode ser lido em http://www.esquerda.net/sites/default/files/as_212_ev.pdf.
Os graffiti são um excelente objecto de estudo. O que este
caso tem de interessante é colocar uma velha questão: está-se perante um estudo
«científico» ou perante um panfleto «cientificamente» justificado? Que é
próprio de uma revista académica e que é próprio de uma revista de combate
político? Na História ou na Sociologia, há regras do ofício que não devem ser
atropeladas. A linha divisória nem sempre é evidente. No caso dos graffiti da AS,
a leitura parece-me inequívoca: um panfleto. Este insólito incidente e os comentários
que provocou espelham o estado duma academia em que cresce o «contrabando», se
procuram «temas sexy» e se perde o espírito do rigor — a chave
da sua credibilidade. Se são lamentáveis as derivas do jornalismo, mais
chocantes são as da academia. Falo como mero leitor das suas publicações.
Declaração de interesses: fui secretário de redacção da AS durante
cinco anos, na era de Sedas Nunes. Testemunho o cuidado que ele punha não
apenas no rigor dos estudos mas também na separação de águas entre o trabalho
científico e os textos de intervenção política a coberto da «ciência». Morreria
pela segunda vez ao folhear esta Análise Social.
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Graffito na Avenida Fernando de Sousa, em Lisboa, por ocasião da visita da chanceler Angela Merkel |