terça-feira, 5 de janeiro de 2016
O candidato Henrique Neto conhecia fraudes
Notícias Lusófonas
Henrique Neto, administrador da Iberomoldes que chegou a ser constituído arguido na Operação Furacão, mas não foi acusado, porque pagou o que devia ao fisco, confessou no depoimento que consta do processo ter «consciência» de que estavam a ser criadas ou usadas empresas «para aumentar os custos» da Iber Oleff – sociedade que foi visada na investigação e da qual era sócio – e de que havia «distribuição de ‘dinheiros’ a alguns sócios que não chegavam a ser declarados».
A Iber Oleff – Componentes Técnicos em Plástico, nascida de uma parceria entre o grupo alemão Olho Tecknik e o grupo Iberomoldes, foi uma das empresas que recorreram aos serviços do grupo Finatlantic, que visava obter vantagens fiscais atractivas para os seus clientes. O esquema que levou, em Junho, à acusação de 30 pessoas num processo nascido da Operação Furacão, terá lesado o Estado em mais de 36 milhões de euros (36 639 21 euros) e passava por ocultar os rendimentos através da transferência de dinheiro para entidades sedeadas em paraísos fiscais e no Reino Unido.
A casa e empresa de Henrique Neto foram alvo de buscas no final de 2007. Nessa altura, o ex-deputado socialista adiantou à imprensa não ter razões «para suspeitar» que estariam «em falta». Admitia, contudo, poderem existir «questões pontuais na relação do grupo com o Estado». Dois meses depois, a 13 de Fevereiro de 2008, admitiu aos procuradores Rosário Teixeira e Ana Catalão ter «tomado conhecimento da intenção da sociedade Iber Oleff de aderir a um esquema que visasse a diminuição de resultados ou lucros». Mas acrescentou não saber pormenores sobre como iria funcionar.
Nesse depoimento, o empresário viria também a confessar «ter recebido alguns montantes monetários, tendo-os utilizado, pelo menos em parte, em benefício próprio». Nesse mesmo dia, o administrador da Iberomoldes remeteu às finanças os rendimentos não declarados e pagou o imposto num total superior a 30 mil euros: 22 621,94 euros, relativos ao ano de 2002, e 8 174 euros, relativos a 2005. Um dia depois, foi a vez de a Iber Oleff pagar o que devia às Finanças: 433 487 euros. Por terem pago, apesar da resistência do juiz Carlos Alexandre, quer o empresário, quer a empresa, viriam a beneficiar da suspensão provisória do processo, livrando-se de uma acusação por fraude fiscal qualificada.
No final de 2002, a sociedade Iber Oleff entrou em contacto com a Finatlantic, com vista à criação e/ou utilização de uma sociedade suíça, uma no Delaware, EUA, uma no Reino Unido e outra sedeada no Belize. De acordo com os autos do processo que o i consultou, parte dos montantes que circularam entre as sociedades offshore entre 2002 e 2005 foram transferidos para as contas da sociedade DTA (Belize) e SITAR (Delaware), abertas no Banco Fiduciário Internacional (BFI) até serem finalmente divididos pelos três administradores, consoante a participação que tinham na Iber Oleff: Henrique Neto viria a receber 85 mil euros em 2003 e 17 083 euros em 2005. Interrogado pelos procuradores do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), disse nunca ter ouvido falar do BFI, nem da Finatlantantic, nem do cabecilha da empresa, Diogo Viana.
Juramento d’El-Rei D. Affonso Anriques
Conservado no Archivo do Real Mosteiro de Alcobaça
Eu Affonso Rei de Portugal, filho do Conde Henrique, e neto do grande Rei D. Affonso, diante de vós Bispo de Braga, e Bispo de Coimbra, e Theotonio, e de todos os mais Vassallos de meu Reino, juro em esta Cruz de metal, e neste livro dos Santos Evangelhos, em que ponho minhas mãos, que eu miseravel peccador vi com estes olhos indignos a nosso Senhor JESU Christo estendido na Cruz, no modo seguinte.
Eu estava com meu exercito nas terras de Alentejo, no Campo de Ourique, para dar batalha a Ismael, e outros quatro Reis Mouros, que tinham consigo infinitos milhares de homens, e minha gente temerosa de sua multidão, estava atribulada, e triste sobremaneira, em tanto que publicamente diziam alguns ser temeridade acommetter tal jornada. E eu enfadado do que ouvia, comecei a cuidar comigo, que faria; e como tivesse na minha tenda um livro em que estava escripto o Testamento Velho, e o de Jesu Christo, abri-o, e li nelle a vitoria de Gedeão, e disse entre mim mesmo. Mui bem sabeis vós, Senhor JESU Christo, que por amor vosso tomei sobre mim esta guerra contra vossos adversarios, em vossa mão está dar a mim, e aos meus fortaleza para vencer estes blasfemadores de vosso nome.
Ditas estas palavras adormeci sobre o livro, e comecei a sonhar, que via um homem velho vir para onde eu estava, e que me dizia: Affonso, tem confiança, porque vencerás, e destruirás estes Reis infieis, e desfarás sua potencia, e o Senhor se te mostrará.
Estando nesta visão, chegou João Fernandes de Sousa meu Camareiro
dizendo-me:
Acordai, senhor meu, porque está aqui um homem velho, que vos quer fallar. Entre (lhe respondi) se é Catholico: e tanto que entrou, conheci ser aquelle, que no sonho vira; o qual me disse:
Elle
me manda dizer-vos, que quando na seguinte noite ouvirdes a campainha de minha
Ermida, na qual vivo ha sessenta e seis annos, guardado no meio dos infieis,
com o favor do mui Alto, saias fóra do Real sem nenhuns creados, porque vos
quer mostrar sua grande piedade.
Obedeci,
e prostrado em terra com muita reverencia, venerei o Embaixador, e quem o
mandava; e como posto em oração aguardasse o som, na segunda vela da noite ouvi
a campainha, e armado com espada e rodela sahi fóra dos Reais, e subitamente vi
a parte direita contra o Nacente, um raio resplandecente; e indo-se pouco, e
pouco clarificando, cada hora se fazia maior; e pondo de proposito os olhos
para aquella parte, vi de repente no proprio raio o sinal da Cruz, mais
resplandecente que o Sol, e Jesu Christo Crucificado nella, e de uma e de outra
parte, uma copia grande de mancebos resplandecentes, os quaes creio, que seriam
os Santos Anjos. Vendo pois esta visão, pondo á parte o Escudo, e espada, e
lançando em terra as roupas, e calçado me lancei de bruços, e desfeito em
lagrimas comecei a rogar pela consolação de meus vassallos, e disse sem nenhum
temor.
A que
fim me apareceis Senhor? Quereis por ventura accrescentar fé a quem tem tanta?
Melhor é por certo que vos vejam os inimigos, e cream em vós, que eu, que desde
a fonte do Baptismo vos conheci por Deos verdadeiro, Filho da Virgem, e do
Padre Eterno, e assim vos conheço agora. A Cruz era de maravilhosa grandeza,
levantada da terra quasi dez covados.
O
Senhor com um tom de voz suave, que minhas orelhas indignas ouviram, me disse.
Não te apareci deste modo para accrescentar tua fé, mas para fortalecer
teu coração neste conflito, e fundar os principios de teu Reino sobre pedra
firme. Confia Affonso, porque não só vencerás esta batalha, mas todas as outras
em que pelejares contra os inimigos de minha Cruz. Acharás tua gente alegre, e
esforçada para a peleja, e te pedirá que entres na batalha com titulo de Rei.
Não ponhas duvida, mas tudo quanto te pedirem lhe concede facilmente. Eu sou o
fundador, e destruidor dos Reinos, e Imperios, e quero em ti, e teus
decendentes fundar para mim um Imperio, por cujo meio seja meu nome publicado
entre as Nações mais estranhas. E para que teus decendentes conheçam quem lhe
dá o Reino, comporás o Escudo de tuas Armas do preço com que eu remi o genero humano,
e daquelle porque fui comprado dos judeos, e ser-me-ha Reino santificado, puro
na fé, e amado por minha piedade.
Eu tanto que ouvi estas cousas, prostrado em terra o adorei dizendo:
Eu tanto que ouvi estas cousas, prostrado em terra o adorei dizendo:
Consentindo nisto o Senhor, disse:
Não se
apartará delles, nem de ti nunca minha misericordia, porque por sua via tenho
apparelhadas grandes searas, e a elles escolhidos por meus segadores em terras
mui remotas.
Ditas
estas palavras dezapareceu, e eu cheio de confiança, e suavidade me tornei para
o Real. E que isto passasse na verdade, juro eu D. Affonso pelos Santos
Evangelhos de JESU Christo tocados com estas mãos. E por tanto mando a meus
decendentes, que para sempre succederem, que em honra da Cruz e cinco Chagas de
JESU Christo tragam em seu Escudo cinco Escudos partidos em Cruz, e em cada um
delles os trinta dinheiros, e por timbre a Serpente de Moysés, por ser figura
de Christo, e este seja o tropheo de nossa geração. E se alguem intentar o contrario,
seja maldito do Senhor, e atormentado no Inferno com Judas o treidor.
Foi
feita a presenta carta em Coimbra aos vinte e nove de Outubro, era de mil e
cento e cincoenta e dous.
Eu
El-Rei D. Affonso.
João Metropolitano Bracharense. - João Bispo de Coimbra.- Theotonio Prior. - Fernão Peres Vedor da Casa.- Vasco Sanches.- Affonso Mendes Governador de Lisboa.- Gonçalo de Sousa Procurador de entre Douro e Minho.- Payo Mendes Procurador de Viseu.- Sueiro Martins Procurador de Coimbra.- Mem Peres o escreveu por Mestre Alberto Cancellario del-Rei.
João Metropolitano Bracharense. - João Bispo de Coimbra.- Theotonio Prior. - Fernão Peres Vedor da Casa.- Vasco Sanches.- Affonso Mendes Governador de Lisboa.- Gonçalo de Sousa Procurador de entre Douro e Minho.- Payo Mendes Procurador de Viseu.- Sueiro Martins Procurador de Coimbra.- Mem Peres o escreveu por Mestre Alberto Cancellario del-Rei.
Conferência
A Associação Cristóvão Colon apresenta a Conferência
«Colon, dito Colombo – foi um Português que descobriu a América?»
Organizado pela Junta de Freguesia de Alvalade (Rua Conde de Arnoso, 5-B, Lisboa) no dia 11 de Janeiro às 10h30, e que terá lugar no respectivo auditório.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2016
O CDS depois de Portas
André Azevedo Alves, Observador, 2 de Janeiro de 2016
Não comungando das concepções liberais do autor, não deixamos de achar interessante para documentação este texto sobre Paulo Portas, que reproduzimos.
Mais do que saber quem será o próximo líder, importa que o CDS discuta ideias e políticas e reflicta sobre a sua razão de ser no sistema político-partidário português.
Alguns dias antes do anúncio público de Paulo Portas de que vai abandonar a liderança do CDS, numa conversa informal com um amigo, foi-me perguntado por que utilizo ocasionalmente um tom algo agreste quando escrevo sobre Portas. Respondi que não tenho qualquer animosidade pessoal contra Paulo Portas e que lhe reconheço até várias importantes qualidades para a acção política, mas que ao mesmo tempo o seu tacticismo extremo e a sua excessiva flexibilidade no plano das ideias e dos princípios me desagradam profundamente.
O meu interlocutor nessa conversa – conhecedor profundo da realidade política portuguesa – chamou-me a atenção para o facto de esses defeitos estarem longe de serem exclusivos de Portas, existindo também em muitos outros actores políticos que, adicionalmente, não partilham os seus méritos. Esta pertinente constatação levou-me a examinar de forma mais profunda a avaliação que faço do trajecto e da figura política de Paulo Portas. Uma reflexão que se torna mais oportuna depois do anúncio de que não se recandidatará à liderança do partido que nos últimos 15 anos moldou progressivamente à sua imagem.
Após realizar esse exame, creio que a resposta reside em parte no projecto que trouxe Portas para a ribalta: o semanário «O Independente». Como muitos outros da minha geração, fui um aficionado e, durante bastante tempo, fiel seguidor do jornal. Retrospectivamente, não hesito em concordar com o Henrique Raposo que «O Independente» foi essencialmente um projecto estético, sem um conjunto claro e coerente de ideais morais e políticas orientadoras e mais pós-moderno do que conservador.
Mais: hoje é para mim claro que todo o projecto (incluindo os seus aficionados, grupo de que fiz parte) padecia de um provincianismo e de um deslumbramento com algumas referências externas que o diminuíam. A soberba conduziu com demasiada frequência à boçalidade e a comportamentos mesquinhos e até vingativos. Mas, mesmo reconhecendo tudo isto, «O Independente» não deixou de ter um impacto revolucionário na política portuguesa da época e de ser profundamente marcante. E Paulo Portas foi indiscutivelmente a sua figura de proa.
Ora, creio que é em larga medida por esse trajecto anterior que a conduta política de Portas ao longo dos anos se torna mais criticável. Ao defender ideias que muito justamente criticou e condenou no passado e ao praticar ele próprio grande parte dos vícios que denunciou, Paulo Portas carrega na sua encarnação como político um odioso maior do que a generalidade dos membros da classe política portuguesa. Era-lhe exigível mais e Portas não conseguiu estar à altura do padrão que lhe era exigível.
A situação em que Paulo Portas deixa o seu partido foi muito bem sintetizada por Rui Albuquerque, um conhecedor simultaneamente profundo e distanciado da realidade do CDS:
« (…) Paulo Portas não deixa um projecto político, nem foi capaz de o criar. O CDS é «o partido do Paulo» e, apesar do brilhantismo do «Paulo» ou, se calhar, por causa dele, o CDS não tem alma própria, nem existência real, o que é bem visível na quase inexistência autárquica do partido. Se alguém estiver interessado em encontrar no CDS, não digo um programa político ou uma ideologia, duas ou três ideias avulsas que o caracterizem politicamente, não será fácil achá-las. (…) O problema da demissão de Paulo Portas não está, assim, em encontrar-lhe um sucessor. Nomes e candidatos não faltarão. Mas no facto do carisma de Portas não se transmitir «mortis causa» e do CDS não ter mais nada para legar.»
Ironicamente, neste contexto, a vontade de poder de António Costa e a «geringonça» governamental que articulou em precária articulação com bloquistas e comunistas acabou por dar um valioso contributo para a continuação do CDS enquanto partido autónomo. Depois de praticamente dizimada a base autárquica do CDS, sem princípios que o distingam no panorama partidário português e com uma organização e imagem totalmente centradas na figura do seu líder, dificilmente o CDS resistiria a mais quatro anos de coligação governamental com o PSD.
Chegados a este ponto, importa olhar para o futuro do partido. A escolha caberá – como não poderia deixar de ser – aos militantes do CDS mas parece claro que o grande desafio que se coloca é fazer o que Portas não fez (e já não teria condições para fazer, depois do slogan vazio do «partido do contribuinte» e do inenarrável guião para a reforma do Estado que apresentou): afirmar o CDS como um partido com uma plataforma e discurso consistentes, distintivos e que marquem um espaço próprio à direita. Um espaço que não deve ser delimitado de forma exclusivista e pode provavelmente incluir tendências conservadoras, liberais e democratas-cristãs.
Mais do que saber quem será o próximo líder, importa que o CDS discuta ideias e políticas e reflicta sobre a sua razão de ser no sistema político-partidário português. O primeiro passo para o conseguir é ultrapassar rapidamente a dicotomia entre seguidores e opositores de Paulo Portas. O segundo passo será que o próximo líder não tente imitar Portas que, para o bem e para o mal, será inimitável. Quanto ao próprio Paulo Portas, com todos os seus talentos e defeitos – e, recorde-se, com apenas 53 anos – vai certamente continuar a andar por aí.
sábado, 2 de janeiro de 2016
Cinco razões porque Paulo Portas
sair da liderança do CDS é uma boa notícia
Tiago Cavaco, Voz do Deserto
[Aqui há uns dias explicava da tragédia que é ler alguns pastores espalharem-se ao comprido em comentários políticos descuidados. Espero não fazer o mesmo agora. Mas, precisamente por Paulo Portas estar na área política onde o meu voto tem acontecido, julgo pertinente este comentário.]
1. Porque Paulo Portas nunca foi conservador
A explicação mais erudita deste ponto entrego-a ao Henrique Raposo, que assim bem explicou no Expresso online: «a própria fonte de Portas era pós-moderna, imprecisa, escorregadia. No fundo, ele foi um jovem do seu tempo. Apesar de leituras conservadoras do baú francês, Portas foi varrido pela ‘dispositivo pós-moderno’, isto é, pela fuga às grandes narrativas, pela recusa ideológica da coerência, pela desistência da busca da verdade (quer no sentido objectivo, quer no sentido moral).»
2. Porque Paulo Portas significa continuar a confundir conservadorismo
com o fenómeno MEC
Este ponto é consequente do primeiro, bem explicado pelo Henrique. Aquilo que passou pela suposta nova direita nos últimos trinta anos é uma salganhada burguesa coquete que foi tolerada ao Miguel Esteves Cardoso porque eticamente não se distingue da esquerda niilista (a cartilha coca, cópula e calão). Para ser conservador não chega gostar de comprar roupa em Londres ou citar os Smiths em vez dos Clash.
3. Porque Paulo Portas mostrou-se um homem sem palavra
Decidi não votar mais CDS desde a crise do «irrevogável». Um homem não pode voltar atrás e explicar que mudou de ideias? Certamente que sim. Mas Paulo Portas nunca voltou atrás e explicou que mudou de ideias, simplesmente saltou para a frente como se a sua palavra não valesse nada. Num partido conservador a palavra dada tem de valer a própria vida. Para desconstruções semânticas temos a esquerda.
4. Porque Paulo Portas é demasiado talentoso no seu jogo
para conseguir deixar substituto à altura
Não há nenhum beto mais novo que Portas capaz de disfarçar cinismo em conservadorismo com o talento dele. Digamos que é uma excelente desvantagem da geração de noventa. A geração de noventa sabe ser cínica, claro. Mas já não passou por nenhum fenómeno anglo-pop que a fizesse enamorar-se de aparências conservadoras (o britpop dos Oasis e dos Blur é demasiado classe média comparado com o genuíno snobismo da década anterior).
5. Porque vai fazer com que os que sejam realmente conservadores
no CDS tenham de começar a trabalhar a sério
Eu não tenho problemas pelo CDS ser um partido de betos. Eu tenho problemas pelo CDS ser um partido sem coragem. As vozes tidas por esclarecidas são as que pedem para ir à casa de banho sempre que o assunto exige clareza moral. Divórcio, aborto, o chamado casamento homossexual, adopção por ditos casais homossexuais, e podia continuar. Ou o CDS começa a querer conservar alguma coisa concreta ou restringe ao nosso capitalismo coxo a sua única causa — mas para isso já temos o PSD.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2015
sábado, 26 de dezembro de 2015
terça-feira, 22 de dezembro de 2015
Eslovénia rejeita em referendo
casamento entre pessoas do mesmo sexo
Mais de 60% dos eslovenos rejeitaram hoje em
referendo uma lei que autorizava o casamento entre pessoas do mesmo sexo,
aprovada em Março no Parlamento, segundo os resultados quase definitivos
divulgados pela comissão eleitoral.
O referendo foi realizado por iniciativa dos
opositores do casamento homossexual, que obtiveram 63,12% quando estavam
contados 96% dos votos, enquanto os apoiantes da lei ficaram com 36,88%, de
acordo com os resultados.
A votação contou apenas com a participação de
35,65% dos eleitores, mas mesmo assim o referendo é válido, dado que só
necessitava de uma participação de 20%.
No Parlamento, a lei alcançara uma larga maioria,
com o apoio da esquerda e do partido centrista do primeiro-ministro, Miro
Cerar, reconhecendo aos casais do mesmo sexo os mesmos direitos dos casais
heterossexuais, incluindo o direito de adopção, o ponto mais contestado pelos
opositores.
O Papa Francisco defendeu esta semana o «não»,
convidando os eslovenos a «apoiarem a família, estrutura de referência da vida
em sociedade».
Os defensores do «não» eram apoiados pela oposição
de direita e pela Igreja católica e lançaram este processo conseguindo reunir
as 40 mil assinaturas necessárias para a realização de um referendo de iniciativa
popular.
A organização do referendo suspendeu a aplicação da
lei e não chegou a realizar-se qualquer casamento ao abrigo da mesma.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2015
Como irão contar o Natal
aos vossos filhos e netos
Nuno Serras Pereira
(Ilustrações da responsabilidade da redacção)
Estava Jerusalém inundada de luminárias que faziam da noite, dia, quando sobre ela se abateu uma escuridão sombria, trevas tremendas e pavorosas, das quais se arrancavam guinchos lúgubres, gritos lancinantes, sonoras iras raivosas entoando: glória a lúcifer nas profunduras e prazer irrestrito aos homens de vontade autónoma; anunciamo-vos uma grande dor, nasceu-vos hoje um desprotegedor, que o será para todo o povo; isto vos servirá de sinal, encontrareis um menino, adorado por um homem e pela mulher.
Imediatamente, os sacerdotes do género e os príncipes dos ambientalistas acorreram aos campos até encontrarem num estábulo tudo como lhes tinha sido dito. Os géneristas escandalizados com aquela discriminação claramente homofóbica, logo substituíram o homem por uma mulher, mas ao saberem que a primeira era Virgem, prontamente a vituperaram e expulsaram por constituir um péssimo e devastador exemplo para toda a gente ao renegar tão obstinadamente os ensinamentos dos doutores do género – havia a máxima urgência em retirar a criança àqueles pais, uma vez que era óbvia a sua incapacidade de lhe assegurarem uma formação sexual adequada, livre de preconceitos e discriminações.
Os príncipes dos ambientalistas, por seu turno, ao repararem na vaca, cuja emissão de gazes intestinais constituía um factor alarmante para o aquecimento global e consequente iminente fim do nosso planeta, logo dela se apoderaram para a matar ali mesmo, oferecendo-a como um sacrifício propício à mãe terra, intentando aplacar assim a sua ira – é certo que houve uma grande disputa até tomarem a resolução, pois alguns advogavam que se não se podia matar cães (dentro ou fora de canis), muito menos uma vaca, uma vez que era muito maior pois, de facto, argumentavam, se todos podemos fulminar melgas por serem pequenas, então não se pode aniquilar um bovino por ser muito maior; os sectários da matança do boi (pois, uma vez que a identidade de género não passa de uma construção social, tanto monta uma nomeação feminil como masculina) convenceram, no entanto, os seus adversários, provando que o impacto ambiental do cão era insignificante em comparação com a vaca.
Quanto ao burro, que tinha suportado tão grandes humilhações, sendo compelido violentamente, como se fora uma mísera besta, a percorrer tão longo caminho, suportando a intolerável carga, daqueles humanos – os terríveis predadores da natureza –, a mãe grávida e seu filho, era absolutamente imperativo reconhecer a sua eminente dignidade divina, para reparar uma injúria tão blasfema e sacrílega. Por isso, encaminhando-o para fora daquele reles presépio, de pronto lhe construíram um altar, adorando-o e ofertando-lhe oblações e sacrifícios dignos de tão magnificente divindade, a qual correspondia aos louvores e adorações com jubilosos zurros. Exaustos da cerimónia orgiástica, o frenesim foi diminuindo até que se dirigiram de novo ao presépio onde depararam com gentes esfarrapadas entoando, diante da criança envolta em paninhos, uma estranha antífona: Baixíssimo, impotente, grosseiro escravo, a ti todo o aviltamento, o desprezo, a desonra e toda a maldição. A ti só, baixíssimo, se hão-de prestar e todo o ser humano é digníssimo de te nomear.
De súbito, um estardalhaço de trovão ribombante atroou os campos articulando palavras retumbantes: Sou o vosso Deus, o vosso Pai, que vos tem conduzido através da história operando prodígios de amor e Este é o Meu Filho humanado que vos enviei para vos resgatar.
Imediatamente, à uma, os sacerdotes do género e os príncipes dos ambientalistas desataram numa gritaria estridente enquanto tapavam os ouvidos, não fossem escutar blasfémias maiores.
Espumando raivas incontidas e ódios viscerais desenfaixaram a criança e enquanto o faziam os príncipes dos ambientalistas logo pontificaram que a ser verdade ou ao menos que houvesse uma suspeita razoável da criança ser deus incarnado seria então necessário condená-lo, sem demora, à morte, uma vez que esse deus era malvado, um perigo extremo para o desenvolvimento sustentável. Não tinha ele arrasado as fertilíssimas terras de Sodoma e de Gomorra, tornando-as totalmente estéreis e matando toda a fauna marítima no mar, que por isso mesmo se chama morto? A esta indignação se ajuntou a ira descontrolada dos sacerdotes do género, acusando esse deus de homofobia, de discriminação, de coração duro, mente fechada, alheio a qualquer tipo de misericórdia.
Entretanto, desenfaixada a criança, verificaram se tratava de um varão, de um menino. Este horror veio irritar e transtornar ainda mais os sacerdotes do género, que, imediatamente, em cóleras desenfreadas acusaram a divindade de ser uma fraude, um resquício de uma projecção patriarcal, pois era evidente que o verdadeiro deus, caso se fizesse homem traria no seu corpo simultaneamente todas as características da sua identidade, a saber, lgbtqi. Aliás, a única divindade era a terra e os que naquela diversidade a habitavam.
Sem mais hesitações, num arrebatamento de indignação, desfizeram a manjedoura, e aproveitando os pregos e as tábuas da mesma, com ela formaram uma pequena cruz. Unanimemente o consideraram culpado, um engano do maligno, e todos concordaram que deveria ser crucificado. Como os pregos se mostraram demasiado grossos para prender os pulsos e os pés do Menino, arranjaram uns alfinetes especiais que serviam o propósito. Alguns dos que o escarneciam, impacientes com a demora da sua morte, recorreram a um canivete suíço para lhe trespassar o coração, do qual brotou sangue e água.
Verificada a sua morte, todos se regozijaram e a celebraram com um grande banquete, pois tinham conseguido salvar o planeta e o prazer promíscuo sem freio.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2015
terça-feira, 15 de dezembro de 2015
Breve esclarecimento sobre o texto
Misericonsideração
Nuno Serras Pereira, 12 de Dezembro de 2015
Tenho vindo a receber as mais diversas reacções ao artigo que vos enviei intitulado Misericonsideração. Sobre o mesmo direi somente o seguinte:
1. O texto é ficcional;
2. Com ele pretendi, pintando a traços largos, mostrar que a «lógica» que preside à pretensão de conceder a Sagrada Comunhão aos validamente casados pela Igreja que se divorciaram civilmente e também civilmente «recasaram» conduz necessariamente a concedê-la também às personagens cujo drama desenhei em traços breves;
3. Com isto não quero significar que os casos sejam iguais, mas sim que aquele caminho conduzirá inevitavelmente a uma abertura «inclusiva» (como hoje impropriamente se usa dizer na Igreja) que admita a um grande número de pessoas que vivem numa diversidade enorme de situações;
4. A) Alguns opinaram que era um ultraje ao Santo Padre imaginá-lo (não se diz que se trata de Francisco, nem que foi um pronunciamento Magisterial) dizendo que aquela «família» dava um grande testemunho – somente um delírio psicótico ou uma alucinação patológica é que poderia parir tal fantasmagoria pavorosa, disforme, monstruosa; B) Mas, «contra-ataco», dizei-me com toda a franqueza e honestidade: porventura alguém ao longo de 2014 (dois mil e catorze anos) de Catolicismo imaginou a possibilidade de que um Papa, proclamasse aos quatro ventos (neste caso através da comunicação social) o que Francisco advogou, a propósito dos «casados divorciados recasados» numa entrevista em Dezembro do ano passado ao jornal argentino La Nación, a saber: «¿Por qué no pueden ser padrinos? ‘No, fijate, qué testimonio le van a dar al ahijado’. Testimonio de un hombre y una mujer que le digan ‘mirá querido, yo me equivoqué, yo patiné en este punto, pero creo que el Señor me quiere, quiero seguir a Dios, el pecado no me venció a mí, sino que yo sigo adelante’. ¿Más testimonio cristiano que ése?» Como comentei na altura:
Por outras palavras, talvez cruas mas verdadeiras, continuo a fornicar adulteramente com aquele que não é meu marido, mas o pecado não me venceu. Aliás, transformou-se num modelo de testemunho cristão. Adeus arrependimento, adeus conversão, coisas inúteis e perniciosas, pelos vistos. Um Papa, afirmando isto de pessoas que vivem em estado objectivo de adultério, foi coisa que nunca pensei ouvir (e isto aterra-me ao ponto de pedir ao Senhor que se tem um lugar no Purgatório para mim, me leve antes de que venha a topar com uma decisão nesse sentido). Vive objectivamente em pecado, nele permanece e nada faz para mudar e diz que não foi vencida pelo pecado! E a Santa Igreja confirma-a no seu perverso erro! Se eu fora um demónio, exultaria de alegria … ! É obra!, se não lesse não acreditaria! A não ser, claro, que Francisco subscreva, o que me parece impossível, a heresia de Kasper, em contradição flagrante com as afirmações de Deus feito homem de que é uma injúria dizer que os «divorciados recasados civilmente» vivem em estado de adultério. De facto, só será possível advogar tal tese se se considera que não existem pecados sexuais quando entre adultos e consentidos (o que significaria a rendição da Igreja à revolução sexual); ou então que o casamento civil, e, talvez, a geração de filhos nesse pseudocasamento, têm o mesmo efeito que a Confissão Sacramental e que o Sacramento do Matrimónio. Uma vez que a Doutrina de Cristo na Sua Igreja sempre ensinou que os pecados graves, para os baptizados, exceptuado o perigo de morte iminente, só se perdoam pela Confissão Sacramental, teríamos aqui um novo Sacramento, não instituido por Cristo, mas sim por W. Kasper.;
5. Quando grande parte de católicos, mesmo comprometidos, não se choca, nem estranha, o estado calamitoso das «pregações» contínuas de grandes eminências eclesiais, a elas se habituando e conformando, cuidei que uma «sátira» os despertasse para a gravidade do que se está a passar. Infelizmente, parece que muitos não o entenderam. E, pela Graça de Deus, assanharam-se contra mim o que me dá uma enorme alegria por poder participar na Cruz de Nosso Senhor;
6. Com isto termino. Atendendo a declarações de várias conferências episcopais, de Cardeais, de bispos designados por este Papa, de alguns teólogos, em particular de não poucos jesuítas, a Igreja deveria dar a Sagrada Comunhão a todos sem excepção – Católicos ou não, uma vez que a Igreja tem de ser inclusiva, não excluindo a ninguém e já que desconhece as intenções do coração de qualquer pessoa e a sua culpabilidade subjectiva, que só Deus pode julgar (exceptuando, claro está, os que Francisco julga, porque se escondem atrás da doutrina para fazerem uso da sua soberba), todas elas podem estar na Sua Graça, pelo que a Sagrada Comunhão a ninguém deve ser negada, mas antes distribuída à toa. Afinal, segundo testemunhos de sacerdotes e amigos que colaboraram de perto com o então Cardeal Bergoglio, seria isso, a crer nas suas versões, que ele recomendaria aos padres que fizessem.
domingo, 13 de dezembro de 2015
A misericórdia segundo Bergoglio
Misericonsideração
Nuno Serras Pereira
Tiveram um namoro sério e demorado, sem nunca se terem antecipado aos actos próprios do casamento. Um amor sereno e profundo pedia a entrega total no matrimónio. Assim acabou por ser. Após a celebração do Sacramento, para o qual se tinham preparado com esmero, e das bodas entregaram-se inteiramente no acto conjugal, que incarnou o que tinha sido celebrado na Igreja. Aquele abraço tão íntimo, tão entusiasmante, como que pedia um terceiro, que o amor é por natureza difusivo. Sentiam-se naquela comunhão de amor envoltos por uma multidão de Anjos e penetrados de uma Paternidade transcendente, infinita e vivificante. Nove meses depois acolheram com uma alegria de êxtase aquele que sendo embora um, em que eles estavam e se reviam, entendendo melhor o significado de serem uma só carne, um que era a união dos dois, era também outro diferente, único e irrepetível. Não estiveram com vagares para baptizá-lo, pois sabiam que este Sacramento não só apagava o pecado herdado, chamado original, mas conferindo a Graça o arrancava às mãos sedutoras e sinistras do Maligno, fazendo-o participante da natureza Divina, Filho de Deus, irmão de Cristo, templo vivo do Espírito Santo.
Nesse mesmo dia, no final da cerimónia, ajoelharam-se diante de Jesus Cristo Ressuscitado, presente no Sacrário, e juraram-Lhe solenemente que nunca se deixariam, pois não só acharam oportuno renovar os votos matrimoniais mas também porque não queriam de modo nenhum que seu filho não fosse acompanhado e educado pelos pais que o geraram. Estavam bem cientes do traumatismo que sofreria seu filho caso se divorciassem.
Deram muitas graças e louvores a Deus quando seis meses depois, tendo ela acolhido aquele presente, aquela marca de amor, que o marido numa entrega da totalidade do seu ser, do seu corpo e alma, correspondido evidentemente por ela, veio a tornar-se grávida em virtude da nova geração de uma pessoa humana. Mais tarde vieram a saber que era uma filha, o que lhes deu também grande regozijo. No entanto, a gravidez foi considerada de risco, uma vez que havia grandes probabilidades de nascimento pré-termo, o que poderia significar um aborto espontâneo. Por isso, o médico ginecologista informou-os, que para garantirem a sobrevivência da bebé, teriam de se abster do acto conjugal, recomendando ainda à mãe repouso e quietação. Esta, não sei ao certo se pela mesma causa começou a sentir enjoos, tédios prolongados, algumas impaciências e acessos de ira desusados, apetites bizarros e outras coisas que deixavam o marido perplexo e abatido. Não só se sentia desamparado por falta daquele apoio que em partilhas íntimas habituais com sua mulher o sossegavam nas suas inquietações, o esclareciam nas confusões e o energizavam nos seus desânimos. Depois, aquele jejum prolongado da entrega corpórea-espiritual no acto conjugal, a que se tinha habituado, provocava-lhe uma aridez, uma secura, um aborrecimento feito rebeldia, embora a procurasse conter.
Ora sucedeu que, em virtude da reorganização laboral da empresa, lhe foi destinada uma colega que, independentemente da sua, dele, vontade o deixou em polvorosa, como que se desencadeou uma híper-produção de hormonas animalescas, instintivas, que o deixou literalmente desvairado. Tudo nela, o mais pequeno gesto, um olhar insignificante, a voz na mais pequena observação o deixava excitado, com um ímpeto, que com enorme esforço refreava, sentia que ela era um imã poderosíssimo que o atraía invencivelmente. Ao sair do trabalho procurava esquecê-la, mas era inútil, pois que ela como que tinha entrado na sua cabeça, na sua imaginação, no seu peito, enfim sentia-se dominado, desejava ser seu escravo.
Um ou outro dia almoçavam juntos com outros colegas, no entanto, sucedeu, que tendo estes de viajar por razões de trabalho, se viram a almoçar só os dois. Ela desabafou mágoas, e como as confidências convidam a confidências também ele acabou por se expandir. Dali brotou uma cumplicidade afectiva que veio a desembocar em fornicações adúlteras. Ele confessava-se, arrependido, ao sacerdote da sua paróquia, tanto mais que continuava a amar perdidamente a mulher e a prole. Este confortava-o, dava-lhe bons conselhos, lembrava-lhe a gravidade do adultério, a ofensa para com Deus, o bem infinito e a alegria total que o esperava no Céu, caso fosse fiel, ou o mal horrendo da condenação eterna no Inferno.
Entretanto sucedeu que a sua concubina engravidou de gémeos. Ela ficou esfuziante, ele assustado, mas passado o impacto conformou-se contente, afinal eram seus filhos, e depois, apesar de em nada, assim o achava, ter diminuído o amor por sua esposa, o afecto que tinha por esta tinha vindo a crescer cada vez mais com o tempo.
Terminada a fase da amamentação da filha de seu casamento, propôs a sua esposa que se divorciassem pelo civil argumentando com as facilidades económicas que lhes trariam vantagens. Tratados os papéis, não passou muito tempo até casar pelo civil com a mãe dos gémeos, entretanto já nascidos. Entendia que tinha deveres imperativos de justiça para com ela e seus filhos, sabendo embora que os tinha também, e em primeiro lugar, para com a esposa e filhos. O sacerdote que antes o admoestava em relação ao adultério passou a sugerir-lhe e a acompanhá-lo nestas decisões. Porque, segundo ele seria uma injúria farisaica considerar que ele vivia, nestas circunstâncias, em adultério. Aliás, aconselhou-o mesmo a viverem todos na mesma casa mantendo a relação carnal com ambas, para não injustiçar nenhuma. A concubina, agora elevada à categoria de esposa, achou muito bem, pois ela sabia que nunca o tinha tido exclusivamente para si. Quanto àquela com quem se matrimoniara, ele não tinha dúvidas de que apesar de ser um choque para ela vir a saber a verdade, amava-o tanto e era tão fiel aos seus juramentos que acabaria por aceitar a solução. O tal padre, confessor dele, que os tinha casado e por quem ela tinha um enorme respeito e amizade fez-lhe uma prédica pessoal sobre a Misericórdia de Deus, aplicando-a ao assunto em questão. Todos ficaram a saber que se poderiam confessar e comungar à vontade, continuando a viver assim e mais ainda vivendo todos numa mesma casa para uma comunhão maior entre toda a família. Entretanto nasceram mais filhos dele e de ambas. Entretanto o Pároco fê-los leitores e ministros da Comunhão e pediu-lhes que fossem padrinhos de baptismo de algumas crianças pobres. Tornou-se, enfim, uma família exemplar que o Papa recebeu no Vaticano, apontando-os como um grande testemunho.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2015
Sobre o Informe final do Sínodo 2015
A Relatio Finalis [informe final] do Sínodo 2015 adoptada pelos padres sinodais representa uma enorme melhoria relativamente ao desastroso Instrumentum Laboris [documento de trabalho] que foi a base para o Sínodo. A tremenda diferença entre os dois documentos ilustra como foi fundamental a onda de críticas a nível mundial que surgiram contra as tentativas dos bispos «progressistas», animados pela maçonaria eclesiástica, para a destruição total da doutrina e da moral cristãs.
O resultado do Sínodo não foi bom mas os bispos «progressistas» e a maçonaria eclesiástica, que pretendiam ainda pior. Ficaram estes a perder e ficaram a perder a doutrina e a moral cristãs.
Isto significa que os católicos não podem parar de lutar em defesa da doutrina cristã e dos valores cristãos pois tudo permanece ambíguo e o inimigo interior não desarma.
George Weigel
Diferencias considerables, considerable mejora.
Cargado como estaba de sociología, y no muy buena sociología, el documento de trabajo era, en más de unos cuantos puntos, difícil de reconocer como un documento de la Iglesia. El informe final es claramente un documento eclesial, un producto de la meditación de la Iglesia sobre la Palabra de Dios, entendida como la lente a través de la cual la Iglesia interpreta su experiencia contemporánea.
El documento de trabajo era bíblicamente anoréxico. El informe final es ricamente bíblico, incluso elocuentemente bíblico, como corresponde a un encuentro del Sínodo en el quincuagésimo aniversario de la conclusión del Concilio Vaticano Segundo y su Constitución Dogmática sobre la Revelación Divina, «Dei Verbum».
A veces, el documento de trabajo parecía casi avergonzado de la asentada doctrina de la Iglesia sobre la indisolubilidad del matrimonio, sobre las condiciones necesarias para la recepción digna de la Sagrada Comunión, y sobre las virtudes de la castidad y fidelidad. El informe final reafirma la doctrina de la Iglesia sobre el matrimonio, Sagrada Comunión, y la posibilidad de vivir virtuosamente en el mundo post-moderno. Y lo hace sin reparos, incluso cuando llama a la Iglesia a una proclamación más efectiva de la verdad lo lleva como patrimonio del mismo Señor Jesús, y a un mayor cuidado pastoral de aquellos con circunstancias maritales y familiares difíciles.
El documento de trabajo silenciaba virtualmente el don de los hijos. El informe final describe a los hijos como una de las mayores bendiciones, alaba las familias grandes, tiene cuidado de honrar los niños con necesidades especiales, y eleva el testimonio de parejas casadas felices y fructíferas y a sus hijos como agentes de evangelización.
El documento de trabajo hizo una especie de discusión a fondo de la conciencia y su papel en la vida moral. El informe final hace un mucho mejor trabajo explicando lo que entiende la Iglesia de la conciencia y su relación con la verdad, rechazando la idea que la conciencia es una especie de facultad sin ataduras de la voluntad que puede funcionar como el equivalente de la carta «Queda libre de la cárcel».
El documento de trabajo estaba lleno de ambigüedades sobre la práctica pastoral y su relación con la doctrina. El informe final, aunque no está libre de algunas ambigüedades, deja claro que el cuidado pastoral debe empezar de una base de compromiso con la enseñanza asentada de la Iglesia, y que realmente no hay algo como «opción de Catolicismo local», en términos de soluciones regionales/nacionales a los desafíos o soluciones parroquia por parroquia [en el original pone patish-by-parish, no he logrado encontrar el significado del término patish, creo que es una errata y quería decir parish-by -parish]. La Iglesia continúa siendo una Iglesia.
El documento de trabajo también era ambiguo en la descripción de «familia». El informe final subraya que no es posible trazar analogías entre lo que entiende el Catolicismo por «matrimonio» y «familia» y otros arreglos sociales, no importa su estatuto legal.
Misericordia y verdad a veces parecían en tensión en el documento de trabajo. El informe final es mucho más desarrollado teológicamente al relacionar misericordia y verdad en Dios, y entonces inseparables de la doctrina y práctica de la Iglesia.
El documento de trabajo no era una gran cosa desde el punto de vista literario y era algo más que laborioso de digerir. El documento final es bastante elocuente en un número de puntos y enriquecerá las vidas de los que lo lean, aunque muchos quizás no estén de acuerdo con una u otra formulación.
En resumen, el informe final, aunque no sin defectos, va mucho más lejos –y a años luz más allá del «Instrumentum Laboris»– en aquello que el Papa Francisco y muchos padres Sinodales querían hacer en este proceso de dos años: elevar y celebrar la visión Católica del matrimonio y la familia como una respuesta luminosa a la crisis de estas instituciones en el siglo veintiuno.
Trasfondo y oportunidades perdidas
El Sínodo-2015 también ha traído a la luz varios problemas serios que deben ser tratados mientras la Iglesia se mueve más allá de los Sínodos gemelos de 2014 y 2015, con el informe final del Sínodo-2015 como marco de trabajo para una reflexión adicional (y para el que sea el documento post-sinodal que el Papa Francisco eventualmente elija emitir).
El primero de estos problemas podría llamarse uno de digestión teológica y pastoral. Fue dolorosamente claro en más de unas pocas intervenciones en la asamblea general del Sínodo –y de alguno de los informes de los grupos de discusión del Sínodo basados en la lengua– que amplios sectores de la Iglesia mundial no han ni siquiera empezado a interiorizar la enseñanza de la «Familiaris Consortio» (la exhortación apostólica de 1981 de Juan Pablo II que completa el trabajo del Sínodo de la Familia de 1980), mucho menos la Teología del Cuerpo de Juan Pablo. Peor, algunas partes de la Iglesia Europea occidental parece que consideran cualquier referencia a este material como trillado sin esperanza, incluso si solo tiene algo más de treinta años. El entusiasmo con el que la Teología del Cuerpo fue recibida en las partes más alerta de la Iglesia en Norte América ha sido ciertamente parte de la discusión en el Sínodo-2015; pero queda mucho trabajo por hacer para que esta única perspectiva Católica sobre corporalidad, sexualidad y amor humano dé frutos pastorales en América Latina y Europa.
Todavía, quizás no sorprende que lleva tiempo arraigar la enseñanza genuina que ensancha y desarrolla la tradición Católica; estas cosas siempre llevan tiempo. Pero dada la velocidad con el que le cambio cultural (o deconstrucción cultural) está invadiendo el mundo occidental, ciertamente cabe esperar que las iglesias locales que todavía no han hecho uso de estos recursos aprieten el acelerador.
El Sínodo 2015 habría sido más honesto si hubiese sacado a la superficie el duro hecho de que el asunto de la comunión y de la conciencia a menudo funcionan como pretexto de los episcopados, normalmente desde el mundo germano-hablante, que quieren olvidar la «Humanae Vitae» y deconstruir la «Veritatis Splendor». Esas partes del Iglesia mundial nunca han perdonado a Pablo VI por reafirmar en la «Humanae Vitae», la visión clásica de los medios apropiados para regular la fertilidad. Tampoco han perdonado a Juan Pablo II el rechazo de la teología de la moral proporcionalista de grandes figuras teológicas alemanas como son Bernard Häring y Joseph Fuchs e insistir, en la «Veritatis Splendor», que algunos actos son, en y por ellos mismos, gravemente malos («malum in se»). Un prominente padre sinodal del catolicismo germano-hablante incluso fue tan lejos para sugerir, en un entrevista antes del Sínodo 2015, que siempre se podía encontrar algo bueno en todas las situaciones, que «malum in se» no tiene sentido real en nuestro mundo. (Uno inmediatamente piensa en violaciones, tortura de niños, tráfico sexual de chicas, crucifixiones y decapitaciones de cristianos por el ISIS, y se pregunta que pasa con esta notable afirmación).
Además del orgullo intelectual que he notado como un problema en estas luchas, uno tampoco puede dejar de preguntarse sobre una cierta ceguera de la historia. La desintegración del tejido moral de Occidente está dirigiendo, paso a paso, a lo que Benedicto XVI acertadamente llamó la «dictadura del relativismo» –el uso del poder coercitivo del estado para imponer a fondo un código moral relativístico en toda la sociedad. ¿Por qué prominentes obispos gemano-hablantes no pueden ver esto?
Otro trasfondo en los debates del Sínodo 2015 ha sido una cuestión tan vieja como la controversia entre Agustín y Pelagio –y probablemente mucho más vieja que esa: ¿Somos pecadores necesitados de redención, o somos básicamente buenas personas que pueden, por nuestros propios esfuerzos, empujarnos a nosotros mismos a la nobleza a la que aspiramos? La última opción ahora viene empaquetada como «individualismo expresivo» - el término usado por el catedrático de derecho de Notre Dame Carteer Snead, en observaciones comunicadas esta semana en «Letter to the Synod» [en www.firstthings.com], para resumir la noción post-moderna de la persona como simplemente un manojo de deseos,una voluntad corporal. Es bastante malo, como el catedrático Snead dijo, cuando cinco jueces del Tribunal Supremo de EE.UU. creen en esto y lo usan para encontrar «derechos» en la constitución que habrían sido inimaginables para los que la escribieron y adoptaron ese texto y sus enmiendas. Es mucho más que malo cuando uno encuentra obispos católicos que viran en una dirección similar, equivocada, actuando bajo presiones culturales que parece que estén creando un sentido de desesperación pastoral. Aquí hay, entonces, otro asunto que necesita ser examinado seriamente en la Iglesia post-Sínodo 2015.
Finalmente, y a pesar de todas las cosas buenas del informe final, es una lástima que un Sínodo que pretendía cambiar el mundo ha acabado siendo una batalla sobre cambiar la Iglesia o permanecer fiel a su doctrina constitutiva y formal. Esto no es, uno espera, lo que el Papa Francisco quería, pero es lo que ha ocurrido, y que en sí misma ha sido una oportunidad perdida. También sugiere que la pasión por una «Iglesia permanentemente en misión» de la cual habla el Santo Padre todavía tiene que ser comunicada a algunos sectores muy importantes de la Iglesia mundial.
Una Iglesia vuelta en sí misma no es la Iglesia de la Nueva Evangelización. Queda para los que están comprometidos con el renacimiento evangélico del Catolicismo en el siglo veintiuno enlazar la familia a la misión más estrechamente de lo que ha hecho el Sínodo 2015.
Publicado en First Things, traducido por Josep Maria Fontdecaba Climent, del equipo de traductores de InfoCatólica.
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