sexta-feira, 12 de abril de 2013

Afinal o Júdice é por governos
de salvação nacional!


Heduíno Gomes

Foi tão giro ouvir o Júdice, com as suas prudentes palavras, a defender um governo de salvação nacional (TVI 24, 11.4.2013)!

Ele, dantes, era um tão puro sacarneirista, que não queria alianças com o PS (mesmo mais puro do que o próprio Sá Carneiro, que pretendeu filiar-se na Internacional Socialista), e afinal conspurcou-se agora a este ponto!

Para quem não sabe ou não se lembra, a história foi assim.

Em 1983, com o despesismo eleitoralista da AD (Sá Carneiro e depois Balsemão), Portugal ficou de tanga. Houve eleições, que não deram nenhuma maioria absoluta a qualquer dos partidos. O PS (Mário Soares) ficou em primeiro lugar e o PSD (Carlos Mota Pinto) em segundo.

Aí, o FMI, para abrir os cordões à bolsa, punha uma condição: haver um governo estável, com ampla maioria parlamentar. Isto é, pelo menos o PS e o PSD deveriam coligar-se.

E assim foi. O PS e o PSD formaram governo, a que se chamou o «bloco central», cobrindo 63,65% dos votos e 70,4% dos lugares da Assembleia. Com Mário Soares em Primeiro-Ministro e Carlos Mota Pinto em Vice-Primeiro-Ministro.

Não esquecer, Portugal estava de tanga e precisava de pão para a boca, e quem lho daria seria o FMI.

Ora bem! Por essa altura, havia no PSD um bando oficialmente denominado «Nova Esperança», conhecido por «grupo de Lisboa». Júdice, na altura Presidente da Distrital de Lisboa, era um dos chefes desse bando (como também o impagável Santana).

A essência do grupo é fácil de explicar.

Oportunistas nos princípios: a sua doutrina política era suficientemente elástica, superficial e palavrosa para dar para tudo; as alianças eram válidas se lhes dessem poder, a eles, bem entendido.

Demagogos na luta política interna: se alguém preconizasse alguma aliança com o PS (ponto de clivagem com a direcção e mobilizador de adeptos), seria traidor à sacra referência Sá Carneiro.

Sequiosos de poder: tratava-se de um simples projecto de poder, como as carreiras deles, um a um, posteriormente bem o demonstraram. Integraram-se no cavaquismo, em comunhão com a esquerda que este apadrinhava.

E assim, para o bando, Carlos Mota Pinto seria um traidor à chamada «social-democracia», essa coisa exclusiva do pensamento de Sá Carneiro, de quem eles eram os herdeiros! Ah! Já me esquecia! No bando estava Conceição Monteiro, que tinha sido secretária de Sá Carneiro por ter vagar (deste modo explicou o seu ingresso na função), pessoa muito dotada intelectual e politicamente, encontrando-se assim em condições de transmitir ao bando o ceptro mágico da pureza da «social-democracia» de Sá Carneiro. Transmitir ao bando, mas especialmente ao afilhado Pedrocas.

Enfim. Este bando fez uma guerra suja a Carlos Mota Pinto, acusado de participar no pecaminoso «bloco central». Não esqueçamos, aliança imposta pelo FMI nas circunstâncias políticas de então.

E não é que agora o grande estratega Júdice vem defender precisamente o pecado que atacou em 1983?! E com a agravante de o PSD não precisar de uma aliança com o PS, pelo menos numericamente!

Mas que grande traidor se deve sentir na sua pele!O que estará por detrás desta sua evolução de «princípios»? Mais algumas torres à beira-Tejo (mas tudo graciosamente!)?





quinta-feira, 11 de abril de 2013

PEN Internacional
condena por unanimidade
o Acordo Ortográfico


Teresa Salema e Maria do Sameiro Barroso

Foi aprovada por unanimidade no 78.º Congresso do PEN Internacional, que reuniu na Coreia delegações de 87 Centros de todo o mundo entre 9 e 15 de Setembro de 2012, uma resolução do Comité de Tradução e Direitos Linguísticos (CTDL) que manifesta uma evidente preocupação pela ameaça à língua portuguesa representada pelo Acordo Ortográfico de 1990 (AO/90). Tal resolução, traduzida na íntegra a seguir, inclui anexos explicativos de todo o processo. A incredulidade manifestada pela maioria dos escritores presentes, que se interrogavam como se teria chegado a tal situação, justificou a posteriori tal inclusão.
O processo que conduziu à redacção da mesma Declaração teve início no inquérito realizado pelo PEN Clube Português entre os seus sócios, tendo a esmagadora maioria rejeitado o AO 90 e declarado expressamente a conveniência de uma actuação por parte da actual direcção. No encontro de Barcelona do CTDL, de 4 a 6 de Junho de 2012, os resultados desse inquérito foram relatados pela Vice-Presidente, Maria do Sameiro Barroso. Na sequência de tal partilha de preocupações por uma situação que contraria os princípios do Manifesto de Girona do CTDL, foi redigida pelo PEN Internacional a subsequente Declaração.

Durante a Assembleia Geral na Coreia, a discussão deste tema foi introduzida por uma declaração da Presidente do PEN Clube Português, Teresa Salema (delegada oficial ao Congresso com Maria do Sameiro Barroso), manifestando uma preocupação pela situação com que um número crescente de escritores e tradutores se vê confrontado. A alternativa que se coloca aos primeiros, na medida em que não se identifiquem com o AO/90, ou de deixarem que os seus textos sejam convertidos para uma ortografia que lhes é alheia, ou de não verem as suas obras publicadas, foi por todos sentida como um problema complexo. Também os tradutores que em princípio não pretendam seguir o AO/90 se vêem submetidos às imposições administrativas e comerciais, como sublinha a resolução do PEN Internacional.

Na discussão houve intervenções de colegas de vários Centros, nomeadamente por parte do Centro PEN galego, manifestando a sua afinidade na diferença linguística e reiterando o seu apoio incondicional à Declaração. Também o Centro PEN alemão repudiou firmemente a ingerência de autoridades governamentais em assuntos linguísticos de reconhecida complexidade. O presidente do Comité de Escritores para a Paz sublinhou a sua preocupação pela divisão – e possível aumento de conflitualidade – que tais medidas estão a causar entre os cidadãos portugueses. Todos sentiram ainda o carácter nocivo e desestabilizador de uma medida que fere os princípios pedagógicos da democracia, nomeadamente a intenção de contribuir para um aprofundado contacto de amplas camadas das populações com a diversidade linguística e a herança cultural.

O PEN Internacional, como sublinhou o presidente John Ralston Saul, reeleito no Congresso para um segundo mandato de 3 anos, é o único fórum mundial de escritores existente. Neste espírito compete ao PEN Clube Português, como membro do PEN Internacional, defender os princípios e as práticas da liberdade de expressão, bem como do debate esclarecido e empenhado, sobretudo quando está em causa o nosso principal instrumento de trabalho, a língua portuguesa.