sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Carta aberta a Rui Rio



Caro companheiro Rui Rio,

Acabaste de ser eleito Presidente da Comissão Política Nacional do PPD numa eleição em que grande parte dos militantes votou num dos candidatos para que o outro não ganhasse, sendo que muitos deles nem isso fizeram.

Calhou-te a ti o brinde ou a fava, segundo o ponto de vista.

É bom que a consciência desta realidade te acompanhe durante o teu mandato para gerires da melhor maneira os destinos do Partido.

Nós, reunidos no movimento de reflexão Portugal Laranja, — em que participam quer daqueles que votaram em ti, quer no outro candidato, ou em nenhum, apenas em função de apreciações meramente subjectivas face ao que julgaram ser mais conveniente para o que todos queremos para o PPD e para Portugal — move-nos a defesa do conjunto de valores e políticas que reputamos de essenciais para o bem-estar dos Portugueses.

Não nos move, portanto, a obediência a qualquer grupo de interesses, de políticas indefinidas, alinhamentos erráticos ao sabor dos egos, guerras antinacionais Norte-Sul, tudo sempre ignorando os superiores interesses de Portugal e dos Portugueses.

Sim, frontalmente, nós pretendemos interpretar as consciências caladas de dezenas de milhares de militantes e de milhões de eleitores do Partido, sempre esperançados nas mudanças para bem do País mas sistematicamente frustrados com aquilo que se tem resumido a uma dança de cadeiras.

Não nos ocupamos neste momento da táctica do Partido face ao inimigo, que é a esquerda, nesta ou naquela circunstância política. A táctica é para ser avaliada na circunstância.

Tão-pouco é agora a estratégia que tem a prioridade das nossas preocupações. Ela só pode ser definida depois de se definir o modelo de sociedade que se quer, com os seus próprios valores.

O que nos preocupa sumamente neste momento é precisamente o que qualquer dirigente do Partido possa querer como modelo de sociedade, isto é, que valores defende ou atropela.

Nós, militantes reunidos no movimento de reflexão Portugal Laranja, expressamos a nossa inequívoca defesa dos princípios e objectivos políticos que entendemos que o Partido deveria procurar independentemente das conjunturas que passam e das direcções efémeras que desfilam. Eis os princípios que nos norteiam e objectivos que prosseguimos. Cá dentro e lá fora.

1 — Valores da Civilização — Defendemos a Civilização europeia e a sua matriz ética, a vida humana desde a concepção até à morte natural, a família natural como única forma de família, a moral pública e o bem comum.

2 — Portugal na Europa e no mundo — Queremos uma Europa de identidade europeia, de cultura europeia e das nações europeias e a integração de Portugal nesse espaço e nas alianças ocidentais, salvaguardando sempre a nossa independência política, cultura, língua, identidade, tradições e economia, e em união com a diáspora portuguesa.

3 — Natureza do Estado — Opomo-nos ao socialismo e ao liberalismo, defendemos o Estado forte, independente de capelinhas e baronatos regionalistas, financeiros ou outros, o Estado regulador, nomeadamente na moral e na economia, bem dimensionado para as suas funções, firme e decidido e agente da moral pública e da ordem pública.

4 — Papel do Estado  — Defendemos o Estado claramente assumido como superior protector da Civilização, da Nação e do bem comum.

Pensamos ainda que o Partido deve tomar seriamente como sua tarefa a formação dos seus militantes para que estejam à altura de agir na política com rigor e eficácia a defender estes valores.

São, no fundo, estas as preocupações da larga maioria dos militantes. Por estes princípios e objectivos nos batemos.

Podes, pois, contar com a nossa total disponibilidade para defender estas políticas e nunca o seu contrário, não aquilo que conduziu às mordomias, ao marasmo económico, à degradação da educação, à crise moral, ao suicídio demográfico, ao abastardamento da língua, à perda da independência nacional.


Lisboa, 15 de Fevereiro de 2018

A Comissão Coordenadora de Portugal Laranja





quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

NATO, Guerra Fria, Turquia, Rússia e a Europa. O essencial da entrevista a Jens Stoltenberg

Em entrevista à RTP, Jens Stoltenberg apresenta
a estratégia «dual» da organização para responder a Moscovo.
|Pedro Nunes – Reuters

Christopher Marques, RTP, 29 de Janeiro de 2018

O secretário-geral da NATO garante que a organização está pronta para defender qualquer aliado. Em entrevista à RTP, Jens Stoltenberg apresenta a estratégia «dual» da organização para responder a Moscovo: a busca pelo diálogo mas mostrando firmeza contra a ingerência russa, nomeadamente na Crimeia. O responsável garante ainda que os EUA estão empenhados na NATO e elogiam o aumento do investimento em defesa feito por Portugal.

O secretário-geral da NATO considera que o principal desafio da organização é o facto de se enfrentarem actualmente «muitos desafios complexos ao mesmo tempo». Na conversa com o jornalista Paulo Dentinho, Jens Stoltenberg faz nomeadamente referência aos conflitos que assolam o Norte de África, o Médio Oriente, para além da luta contra o autoproclamado Estado Islâmico.

A estes soma-se o papel «mais assertivo a leste» que a Rússia vai assumindo, as ameaças cibernéticas e o desenvolvimento do poderio nuclear da Coreia do Norte. «Há muitos desafios ao mesmo tempo e daí que a NATO esteja a adaptar-se, a mudar e implementar a maior adaptação na NATO desde o fim da Guerra Fria», explica o responsável máximo da organização.

Jens Stoltenberg lidera desde 2014 a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN-NATO), a aliança militar que nasceu depois da Segunda Guerra Mundial, num período em que o mundo se dividia entre pró-russos e pró-americanos.

O mundo mudou. O muro de Berlim caiu e o ocidente aproximou-se da Rússia, já depois da queda da União Soviética. A aproximação inverteu-se nos últimos anos, com as relações entre o bloco ocidental e a Rússia a deteriorarem-se.

Na conversa com Paulo Dentinho, Jens Stoltenberg rejeita que a NATO esteja a enfatizar a tensão com a Rússia na Europa de Leste, recordando o papel da Aliança Atlântica no combate ao terrorismo, nomeadamente a «maior operação militar de sempre» da NATO que decorre no Afeganistão.

«Trabalhamos para fazer face aos desafios vindos de leste, mas também de desafios vindos de sul. Além disso, por exemplo, o que fazemos para combater as ameaças cibernéticas não está relacionado com o leste, norte, sul ou ocidente. Está relacionado com o domínio cibernético, algo relevante para todos nós, onde quer que estejamos», sublinha o líder norueguês.

«Não voltámos à guerra fria»

A relação do ocidente com a Rússia tem piorado ao longo dos últimos anos. O ocidente tem acusado a Rússia de realizar ciberataques e campanhas de propaganda nas redes sociais, interferindo mesmo em actos eleitorais. A este conflito virtual com consequências reais soma-se o papel russo no conflito militar ucraniano.

Convidado a adjectivar este novo conflito entre o ocidente e Moscovo, Stoltenberg aponta apenas que a Rússia está «mais assertiva» e a usar «muitas ferramentas diferentes».

«Usaram as forças armadas contra a vizinha Ucrânia mas também na Geórgia. E há muitos relatórios sobre as tentativas da Rússia de interferir em processos políticos domésticos, com propaganda, com desinformação e também com ciberferramentas», confirma o secretário-geral da NATO.

Apesar da tensão com Moscovo, Stoltenberg garante que não se regressou ao período que antecedeu a queda do Muro de Berlim. «Não voltámos à Guerra Fria, mas também não estamos na parceria estratégica que tentámos estabelecer após o final da Guerra Fria», assume.

O líder norueguês considera que esta «parceria estratégica» falhou porque Moscovo «decidiu tentar restabelecer esferas de influência e, de certa forma controlar os seus vizinhos como vimos na Geórgia, Moldávia e na Ucrânia». Uma luta que a NATO promete combater.

«Nunca aceitaremos que uma grande potência como a Rússia tenha o direito de controlar vizinhos ou estabelecer qualquer tipo de esfera de influências», garante, prometendo uma abordagem firme mas que tente reduzir a tensão.

A estratégia com a Rússia

Uma das pedras angulares deste clima de tensão com Moscovo é o conflito ucraniano e a anexação da Crimeia à Federação Russa em 2014. Apesar do conflito, Stoltenberg acredita que é possível «combinar a defesa, dissuasão e diálogo» no que considera ser uma abordagem «dual» com Moscovo.

«A Rússia é nossa vizinha. A Rússia está cá para ficar. Não queremos uma nova Guerra Fria, não queremos uma nova corrida ao armamento. Temos de ser firmes quando a Rússia emprega a força contra um vizinho, como fez com a Ucrânia. A Rússia tem de perceber que não pode fazer nada semelhante a qualquer aliado da NATO, esteja onde estiver. Mas também queremos ter um diálogo significativo com a Rússia», explica.

É com este diálogo em vista que Stoltenberg recorda as reuniões do Conselho NATO/Rússia que tiveram já lugar. Apesar de ainda terem ocorrido poucos encontros, o dirigente da Aliança Atlântica enfatiza a existência de «um diálogo com a Rússia» onde se falam precisamente de questões como a Ucrânia.

Para o responsável, é necessário enviar uma «mensagem clara à Rússia»: «a forma como se comportou na Ucrânia, com a violação do direito internacional e da integridade e soberania de uma Nação a quem já tinham garantido as fronteiras antes, tem de ter consequências».

Com o diagnóstico feito, Stoltenberg apresenta o caminho mais rápido para a melhoria das relações entre o ocidente e a regime de Vladimir Putin. «A melhor maneira de melhorar relações entre a NATO e a Rússia é a Rússia deixar de violar o direito internacional. Nós estamos dispostos a trabalhar com eles mas têm de respeitar a soberania e a integridade territorial de todos os membros, incluindo o Reino Unido», afirma.

Solução para a Ucrânia

O secretário-geral da NATO considera que a solução para o conflito ucraniano não é militar mas política. Na entrevista à RTP, o responsável recorda que «a solução política está nos acordos de Minsk», numa referência ao protocolo assinado em 2014 entre Kiev, Moscovo, Donetsk e Lugansk sob o amparo da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa.

«O que temos visto é que os acordos de Minsk não são cumpridos. Os acordos de Minsk exigem que todas as tropas estrangeiras se retirem da Ucrânia e de Donbass, do leste da Ucrânia. Não é o que acontece. A Rússia continua lá, a apoiar os separatistas, e isso é uma violação clara dos acordos», afirma.

Confrontado com a acusação russa de que há nações ocidentais a vender armamento à Ucrânia, Soltenberg recorda que Kiev é um «governo soberano numa nação soberana» e «tem o direito de comprar armas para se defender».

«A NATO não fornece armas porque não as temos. Mas alguns dos aliados da NATO vendem e fornecem à Ucrânia. A grande diferença é que a Ucrânia tem um governo legítimo em Kiev. A integridade territorial e a soberania da Ucrânia são violadas na Crimeia e no Leste da Ucrânia por forças apoiadas pela Rússia e pela presença das capacidades militares russas», insiste.

Questionado sobre um eventual receio de Moscovo perante a presença de tropas atlânticas no Leste da Europa, Stoltenberg realça que a mobilização só surgiu depois do conflito na Ucrânia. «É uma consequência directa das acções agressivas da Rússia contra a Ucrânia», justifica.

O secretário-geral da NATO rejeita ainda a ideia de que a Rússia tenha receio por estar rodeada por nações da NATO, depois da adesão de países como a Polónia, a Letónia e a Lituânia a partir de 1999.

«São nações soberanas e independentes que decidiram, através de processos democráticos, que queriam aderir à NATO. Não é uma provocação ou uma ameaça para a Rússia. É o resultado de decisões democráticas por nações soberanas», afirma.

«Defender qualquer aliado»

Questionado sobre se a NATO seria capaz de seguir uma estratégia semelhante à adoptada pela Rússia na Crimeia nos países bálticos, Jens Stoltenberg responde positivamente. «A NATO está preparada para defender qualquer aliado contra qualquer ameaça. Esta é a mensagem principal da NATO», recorda.

O ex-primeiro-ministro norueguês lembra que a missão da NATO é «evitar um conflito» e não provocá-lo, mantendo sempre a solidariedade entre Estados-membros: «Um por todos, todos por um».

«Esta ideia de defesa colectiva manteve a paz na Europa durante quase 70 anos, um dos mais longos períodos de paz durante séculos na Europa. Iremos continuar a fazê-lo, evitando e prevenindo conflitos e não provocando-os», assegura.

Investimento em defesa

O secretário-geral da NATO considera que os EUA têm mostrado que «estão empenhados nos laços transatlânticos», assinalando que Washington está mesmo a aumentar a presença militar no continente europeu. «Não são só palavras, são factos», afirma Stoltenberg.

O líder da Aliança Atlântica espera agora que os restantes Estados-membros «cumpram o que decidiram», numa referência ao aumento da despesa com defesa tendo por objectivo os dois por cento do Produto Interno Bruto, uma meta que Portugal – e a maioria dos países – não cumpre actualmente.

«Vejo com bons olhos o facto de Portugal ter acabado com os cortes e começado a aumentar. Depois de anos de cortes nas despesas de segurança, vimos um aumento nos últimos dois anos», afirma.

Stoltenberg vê neste aumento uma «expressão do compromisso de Portugal para com a NATO», mas pede «mais» investimento em defesa. O líder defende que o investimento em defesa deve ser flexível e admite que ele próprio, quando exercia cargos políticos na Noruega, defendeu cortes no passado.

«Tal como reduzimos os gastos com defesa quando as tensões diminuíram, também temos de as aumentar quando as tensões se agravam», justifica.

O secretário-geral da Aliança Atlântica admite ainda que é preciso melhorar a forma como se deslocam meios militares entre Estados-membros na Europa. «Vivemos num ambiente de segurança diferente a que temos de fazer frente», justifica, sem comentar a possível criação de um «espaço Schengen militar».

Turquia tem «direito a defender-se»

Questionado sobre a situação política na Turquia e a sua adequação aos valores da NATO, Stoltenberg recorda a localização estratégica do país e o seu papel «crucial» na luta contra o autoproclamado Estado Islâmico. «A Turquia sofreu muitos ataques terroristas, mais do que qualquer outro aliado da NATO, e uma tentativa de golpe sangrenta», afirma.

Ancara tem comprado armamento a Moscovo e tem combatido os curdos, que são apoiados por Washington, Londres e Paris. Stoltenberg insiste que a Turquia tem o direito a defender-se mas assinala que deve fazê-lo de «forma proporcional».

O responsável admite ainda que «a indústria de defesa europeia é demasiado fragmentada», com muitos modelos diferentes do mesmo sistema. Por exemplo, há cerca de 20 tipos diferentes de caças. O secretário-geral da NATO assinala que este é um tema sensível, porque está relacionado com empregos em diferentes países.

Jens Stoltenberg acredita que o fortalecimento da cooperação em matéria de defesa na União Europeia irá contribuir para «resolver a fragmentação da indústria europeia de defesa, tornando-a mais competitiva e reduzindo os vários modelos de cada tipo de arma».


VER LINK:
https://www.rtp.pt/noticias/mundo/jens-stoltenberg-a-rtp-a-entrevista-na-integra_v1055056







sábado, 6 de janeiro de 2018

Bem-vindo ao Inferno chamado Bruxelas


Batalhão de choque com apoio de um canhão de água e blindado antiprotesto, tentando afastar
arruaceiros do centro de Bruxelas, Bélgica, em 12 de Novembro. Centenas de «jovens»
de origem estrangeira «comemoravam» a classificação para o Mundial de Futebol
da equipa marroquina promovendo tumultos, nos quais 22 policiais ficaram feridos.
(Imagem: captura de tela de vídeo da Ruptly)

Drieu Godefridi, Gatestone Institute, 31 de Dezembro de 2017


Original em inglês: Welcome to the Hell Hole
that is Brussels

Tradução: Joseph Skilnik


  • No mês passado Bruxelas foi alvo de três ondas de tumultos e saques numa gigantesca escala.
  • Ao penetrarmos na espessa nuvem da indignação profissional, a fim de esmiuçarmos a realidade da «capital da Europa», o que se pode observar em muitos aspectos é na realidade um verdadeiro Inferno, onde o socialismo, islamismo, confusão e saques são o lugar-comum.
Quando o então candidato à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump salientou em Janeiro de 2016 que, graças à imigração em massa, Bruxelas estava a transformar-se num Inferno, políticos belgas e europeus unidos entrincheiraram-se nas barricadas dos media afirmando: como ele ousa dizer uma coisa destas? Bruxelas, capital da União Europeia, quinta-essência do mundo pós-moderno, vanguarda da nova «civilização global», Inferno? Indubitavelmente a assimilação dos recém-chegados nem sempre é tranquila, podendo haver atritos de tempos a tempos. Mas não importa, eles tornam saliente o seguinte: Trump é um fanfarrão e seja lá como for ele tem zero probabilidades de ser eleito. Estas eram as opiniões dos ávidos leitores do The New York Times International Edition e assíduos telespectadores da CNN International.

No entanto, Donald Trump, no seu inconfundível e impetuoso estilo, simplesmente estava certo: Bruxelas está a mergulhar rapidamente no caos e na anarquia. Exactamente dois meses depois deste dramático «trumpismo», Bruxelas foi abalada por um execrável ataque terrorista islâmico que tirou a vida a 32 pessoas. Esta é somente a ponta do monstruoso iceberg que se vem  avolumando há mais de três décadas via imigração em massa e loucura socialista.

No mês passado Bruxelas foi alvo de três ondas de tumultos e saques numa gigantesca escala.

Primeiro, Marrocos classificou-se para o Mundial de Futebol: entre 300 e 500 «jovens» de origem estrangeira tomaram as ruas de Bruxelas para «comemorar» o acontecimento à maneira deles, saqueando dezenas de lojas no centro histórico de Bruxelas, devastando avenidas desertas da «capital da civilização» e, no meio do quebra-quebra feriram 22 policias.

Três dias mais tarde, uma estrela da música rap das redes sociais chamada «Vargasss 92», cidadã francesa de origem estrangeira, resolveu organizar outra «comemoração» não autorizada no centro de Bruxelas, que rapidamente se transformou em mais um quebra-quebra. Lojas foram novamente destruídas e pessoas foram agredidas sem motivo algum a não ser o de estarem no lugar errado na hora errada. Breves videoclipes do acontecimento foram transmitidos pelas redes sociais, mostrando ao mundo (e aos belgas) a verdadeira face de Bruxelas sem a maquilhagem dos políticos. Não é de se admirar que a elite política da Europa odeie do fundo d'alma as redes sociais. Preferem a imprensa tradicional, politicamente correcta, fortemente subsidiada tanto em França quanto na francófona Bélgica.

Por fim, em 25 de Novembro, as autoridades socialistas que administram a cidade de Bruxelas tiveram a brilhante ideia de autorizar a realização de uma manifestação contra a escravidão na Líbia que rapidamente se precipitou em mais uma confusão: lojas destruídas, carros incendiados, 71 pessoas presas.

Este vale-tudo, sem a menor justificação política, é o novo lugar-comum em Bruxelas. Os políticos podem não gostar desta realidade, consequência do seu lamentável fracasso, mas é, no entanto, uma verdade incomensurável além de inevitável. A nova Bruxelas caracteriza-se por tumultos e saques cometidos por pessoas de origem estrangeira, bem como pela ininterrupta presença de militares fortemente armados nas ruas de Bruxelas, paradigma desde 22 de Março de 2016, dia em que islamistas europeus assassinaram 32 pessoas e outras 340 ficaram feridas no pior ataque terrorista na Bélgica.

Desperta curiosidade saber porque é que estes belos soldados belgas que patrulham as ruas não fazem nada para evitar a bagunça. Pelo simples motivo de que está fora da sua alçada. Se um soldado ferir um saqueador, provavelmente será execrado em público, ridicularizado pelos media, julgado e expulso do exército com desonra.

Seria engraçado se não fosse gravíssimo. Depois dos dois primeiros tumultos desta última série, a televisão estatal belga (RTBF) organizou um debate com a participação de políticos e especialistas de Bruxelas. Entre os participantes estava o senador Alain Destexhe, do movimento reformista de centro-direita (partido do primeiro-ministro belga).

Destexhe é uma figura interessante na política belga. Na Bélgica francófona,  tem sido um dos poucos a dizer publicamente que a imigração em massa que os belgas estão impondo a si próprios é insustentável, que o Islão não pode ser considerado uma religião tão pacífica assim e que as escolas nas quais 90% das crianças são de origem estrangeira e que não falam francês nem holandês em casa, não são a receita ideal para o sucesso. Declarações como estas podem até ser o óbvio em grande parte do mundo ocidental, mas na parte francófona da Bélgica, fortemente influenciada pela visão do mundo dos franceses, foi considerado de extrema-direita, extremista até, racista e outras subtilezas que a esquerda aprecia tachar.

No debate, assim que Destexhe tentou provar que existe uma conexão entre a não integração de muitas pessoas de origem estrangeira em Bruxelas e o alto grau de imigração que já dura décadas, o moderador literalmente gritou com ele salientando que «a migração não é o assunto do debate Monsieur Destexhe! MIGRAÇÃO NÃO É O ASSUNTO, PARE COM ISSO!», antes de dar a palavra a um «poeta sem papas na língua», uma jovem que explicou que o problema é que as mulheres que usam o véu islâmico (que ela mesma usa) não se sentem bem-vindas em Bruxelas. A plateia foi logo estimulada a aplaudi-la. Também no estúdio encontrava-se um político do Partido Verde que afirmou: «ninguém sabe qual é a origem dos arruaceiros». Dica: eles «comemoravam», de maneira idiossincrásica a vitória de Marrocos. Um glorioso momento do surrealismo belga? Nada disso, apenas um típico «debate» político na Bélgica de língua francesa, excepto que normalmente Destexhe não é convidado.

O quadro não estaria completo sem mencionar que justamente na noite em que começou o quebra-quebra, 11 de Novembro, uma associação chamada MRAX (Mouvement contre le racisme, l'antisémitisme et la xénophobie) publicou na sua página no Facebook um apelo para que se denunciasse qualquer caso de «provocação policial» ou «violência policial». Resultado da revolta? Número de policias feridos: 22, número de prisões: zero. MRAX não é só um monte de esquerdistas que simpatizam com os islamistas, recebem pesados recursos pagos com dinheiro dos contribuintes. Os movimentos de direita também são financiados pelos contribuintes? Resumindo numa palavra: não. Em Bruxelas a taxa de desemprego é surpreendentemente de 16,9%, é assombroso também que 90% dos que dependem do Estado de bem-estar social tenham origens estrangeiras e, ainda que os impostos estejam entre os mais altos do mundo, os cofres públicos estão, apesar disso, a sangrar. Um breve flash de mais um fracasso socialista.

Mas há esperança. Bruxelas não se resume em Molenbeek e em tumultos, a municipalidade conta com uma robusta tradição de empreendedorismo, o governo federal da Bélgica, em particular o componente flamengo conhece bem os desafios que precisam ser enfrentados. Mas nada vai mudar se não for reconhecido que, em muitos aspectos, Bruxelas se transformou, da opulenta cidade conservadora e «burguesa» que era há 25 anos, num Inferno.

Ironicamente o que Bruxelas obviamente precisa é de um Donald Trump.





sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Alemanha, Áustria: Imãs advertem muçulmanos a não se integrarem

Centro Islâmico de Viena.
(Imagem: Zairon/Wikimedia Commons)

Stefan Frank, Gatestone Institute, 3 de Janeiro de 2018


Original em inglês: Germany, Austria:
Imams Warn Muslims Not to Integrate

Tradução: Joseph Skilnik

  • «Enquanto fora da mesquita se conversa muito sobre integração, dentro dela o contrário é pregado. Somente em casos excepcionais, trechos do sermão, e mais excepcionalmente ainda, todo o sermão, é traduzido para o idioma alemão...» — Constantin Schreiber, autor de Dentro do Islão: O que está a ser pregado nas mesquitas da Alemanha.
  • «Os políticos que enfatizam repetidamente a intenção de cooperarem com as mesquitas, que convidam os seus membros para conferências sobre o Islão, não fazem ideia de quem está a pregar o quê naquelas mesquitas». − Necla Kelek, consagrada activista dos direitos humanos e crítica do Islão, no Allgemeine Zeitung.
Na polémica que gira em torno dos migrantes na Alemanha e na Áustria, nenhum outro termo é usado com mais frequência do que «integração». Contudo, a instituição mais prestigiada por muitos migrantes muçulmanos, via de regra, não colabora muito neste empreendimento e não raramente se opõe a ele, qual seja: a mesquita. Esta é a conclusão de um estudo oficial austríaco, bem como de um levantamento do sector privado realizado por um jornalista alemão.

No final de Setembro, o Austrian Integration Fund (ÖIF), órgão do Ministério das Relações Exteriores, publicou o estudo: «o papel da mesquita no processo de integração». Para efeitos do estudo, funcionários do ÖIF estiveram em dezasseis mesquitas em Viena, participaram em diversos sermões à sexta-feira e conversaram com os imãs em segredo, isto é, quando os imãs se disponibilizavam a conversar, o que amiúde não era o caso. A conclusão, de acordo com o ÖIF, é que apenas duas das associações de mesquitas fomentam a integração dos seus membros. O estudo aplaude uma associação de mesquitas da Bósnia que também dirige um clube de futebol. Durante a conversa, o imã salientou: «qualquer país, como a Áustria por exemplo, tem as suas leis e os seus costumes e não me canso de dizer, é nosso dever religioso respeitar as normas e integrar-se como manda o modelo».

No tocante aos papéis de género, em todas as mesquitas em que estiveram, os autores foram surpreendidos pela quase total ausência de mulheres nas rezas à sexta-feira:

«Apenas três das mesquitas percorridas... proporcionam espaço reservado para as mulheres, reservado e ocupado por elas. Caso haja este tipo de acomodação, a maioria das mesquitas também transforma estes espaços à sexta-feira em lugares para os homens».

Separação por etnia

Salvo raríssimas excepções, as mesquitas de Viena são divididas de acordo com a etnia:

«Há mesquitas turcas, albanesas, bósnias, árabes, paquistanesas e outras, nas quais os sermões são, via de regra, proferidos exclusivamente no respectivo idioma da terra natal. Somente em casos excepcionais, trechos do sermão, e mais excepcionalmente ainda, todo o sermão, é traduzido para o idioma alemão».

Portanto as associações de mesquitas são «espaços fechados em termos de etnia e idioma». Esta diferenciação estimula a «integração social num ambiente étnico próprio e, consequentemente, a segmentação étnica». Em oito das dezasseis mesquitas avaliadas, esta propensão é ainda mais reforçada pelo «nacionalismo predominante, flagrantemente difundido».

A mesquita gerida pelo movimento turco Milli Görüs destacou-se pelo alto grau de radicalismo. Milli Görüs é uma das organizações islâmicas da Europa mais influentes e está intimamente ligada ideologicamente ao presidente turco Recep Tayyip Erdogan. De acordo com o estudo, o imã da mesquita de Milli Görüs «defende abertamente o estabelecimento de uma Ummah (nação muçulmana) politicamente unida regida por um califado». Atribui a instabilidade no Islão à fitna («revolta») trazida para a comunidade islâmica de fora para dentro. Segundo os autores do estudo, o imã «vê-se cercado em todo o lado pelos inimigos do Islão que querem impedir a comunidade islâmica de dominar o mundo conforme previsto nas profecias». Nos três serviços religiosos nos quais participámos, o tema crucial era a unidade dos muçulmanos: muçulmanos de um lado, «infiéis» do outro. De acordo com o estudo, algumas das declarações do imã indicaram uma «pesada visão do mundo impulsionada por teorias da conspiração», como por exemplo: «as forças que estão fora da Ummah fizeram tudo o que estava ao seu alcance para minar a percepção da Ummah pela própria Ummah».

A conclusão do estudo assinala:

«Em síntese, poder-se-ia dizer que das dezasseis associações de mesquitas avaliadas neste estudo, com excepção das mesquitas D01 (uma das poucas mesquitas de língua alemã) e B02 (a mesquita da Bósnia mencionada acima), que não promovem diligentemente a integração social dos seus membros. Na melhor das hipóteses não impedem que isso ocorra. Na maioria das vezes têm em si um efeito inibitório no processo de integração».

Conforme a matéria, seis das dezasseis mesquitas avaliadas (37,5%) cortejam «uma política que impede diligentemente a integração dos muçulmanos na sociedade e, até certo ponto, manifestam propensões fundamentalistas». Metade das dezasseis mesquitas examinadas «pregam uma visão do mundo dicotómica, cujo princípio central é a divisão do mundo em muçulmanos de um lado e o restante do outro». Constatou-se que seis das mesquitas praticavam o «enxovalhamento explícito da sociedade ocidental».

Recriminação ao estilo de vida na Alemanha

Observações parecidas foram feitas pelo jornalista alemão Constantin Schreiber que em 2016 passou mais de oito meses a assistir a serviços religiosos à sexta-feira em mesquitas alemãs. Schreiber, fluente em árabe, é conhecido como moderador de programas de televisão em árabe, nos quais explica como funciona a vida na Alemanha aos imigrantes. Publicou as suas experiências nestas mesquitas num livro que esteve na lista dos best sellers na Alemanha durante meses a fio: Dentro do Islão: O que está a ser pregado nas mesquitas da Alemanha.

Schreiber apresentou-se às associações das mesquitas como jornalista, revelando que pretendia escrever um livro de não ficção sobre as mesquitas na Alemanha. Pouquíssimos imãs se dispuseram em aceitar conceder uma entrevista. Numa ocasião, foi informado de que era «proibido» falar com ele. Normalmente os imãs com os quais era permitido conversar não falavam praticamente nada de alemão. «Ao que tudo indica, é possível viver na Alemanha durante anos a fio, com esposa e filhos e sequer ser capaz de falar alemão ao comprar pão», salienta Schreiber.

Um assunto habitual nos sermões que Schreiber assistiu nas mesquitas consistia em recriminações ao estilo de vida na Alemanha.

«Vira e mexe, como acontece na mesquita Al-Furqan (mesquita árabe sunita em Berlim), os muçulmanos parecem estar comprometidos com a ideia de que são uma espécie de comunidade com um destino em comum: 'vocês são a diáspora! Nós somos a diáspora! Eles (alemães) assemelham-se a uma torrente que vos aniquila, que vos destrói e tira de vos os valores e substitui-os pelos valores deles'».

Na mesquita sunita/turca Mehmed Zahid Kotku Tekkesi em Berlim, no sermão à sexta-feira, no dia anterior à véspera de Natal, o imã alertou para a ameaça do «maior de todos os perigos», o «perigo do Natal»: «todo aquele que imita outra tribo torna-se membro dela. É a nossa passagem do Ano Novo? As árvores de Natal têm algo a ver com a gente? Não, nada a ver com a gente!»

O imã da mesquita de Al-Rahman em Magdeburg comparou a vida na Alemanha com um caminho através de uma floresta sedutora, realça Schreiber. Os seus encantos têm o poder de desviar os muçulmanos, de afastá-los do caminho da virtude, de perderem o caminho na «mata densa» até serem «devorados pelos animais selvagens que vivem na floresta».

O Estado não tem uma panorâmica clara

O que chamou a atenção de Schreiber, ainda no estágio de planeamento das visitas às mesquitas, foi a falta de transparência envolvendo as mesquitas na Alemanha. Para começar, não existe um directório oficial de mesquitas. Ninguém sabe quantas mesquitas existem na Alemanha. O Website Moscheesuche.de, mantido pela iniciativa privada, é o único cadastro desta natureza. «De modo que as autoridades alemãs», salienta Schreiber, «dependem de cadastros compilados por um particular, que obviamente é caracterizado por um determinado posicionamento ideológico». Além disso, como a inserção de dados no cadastro é voluntária, é incerto se as mesquitas que desejam permanecer à socapa estejam lá cadastradas. Schreiber considera improvável que o cadastro esteja perto de ser concluído ou actualizado:

«Deparei-me com mesquitas que constam do cadastro, mas já não existem, pelo menos por enquanto. Ou então mesquitas recém inauguradas que não estão registadas em nenhum lugar, nem os serviços de inteligência nem as autoridades regionais sabem da sua existência».

Além disso, o pedido de Schreiber à prefeitura de Hanover revelou que as autoridades alemãs sentem-se constrangidas no tocante ao fornecimento de informações sobre as mesquitas da sua própria cidade. Um funcionário da administração local escreveu num e-mail: «por gentileza, forneça informações mais detalhadas sobre a finalidade do cadastro. Não queremos que estas instituições estejam sob suspeição generalizada».

Medo e silêncio

Schreiber ficou surpreendido com a reacção defensiva daqueles cujas profissões exigem transparência e cooperação. Como Schreiber queria certificar-se de que, na tradução dos sermões, não haveria nenhuma interpretação errada, contactou o que afirma ser uma das agências de tradução mais conceituadas da Alemanha:

«A agência solicitou o envio da transcrição de um dos sermões para análise e estimativa de precificação. A agência recusou o trabalho. O texto foi considerado 'fora da alçada habitual de trabalho' dos tradutores, uma vez que não havia ninguém suficientemente seguro para traduzir correctamente este tipo de texto».

Achar um tradutor dos sermões proferidos no idioma turco também foi difícil: «o simples facto de estar interessado neste assunto resultava na imediata acusação de que o que eu realmente queria era instigar «atacar o Islão».

Schreiber também se viu diante de forte resistência ao procurar estudiosos alemães especializados no Islão para conversar com eles sobre o conteúdo dos sermões. Professores universitários, cujos salários são pagos pelos contribuintes alemães, recusaram-se em providenciar informações sobre matéria relacionada com a sua própria especialidade.

«Durante meses a fio, enviei consultas a diversas faculdades de estudos islâmicos com as quais trocávamos ideias na nossa função de editores. Uma universidade ficou a enrolar-me durante meses com a desculpa de que ainda estavam a procurar a pessoa certa. Em 16 de Dezembro, isto é, três meses depois do meu primeiro pedido, o professor de estudos islâmicos escreveu-me que já não havia tempo suficiente para marcar uma reunião. Quando respondi que, se necessário fosse, poderíamos marcar outra reunião no início de Janeiro, não recebi mais nenhuma resposta. Vários professores da universidade pediram-me para que lhes enviasse os sermões, o que eu fiz de imediato. Após enviá-los não recebi mais nenhum e-mail, sequer uma confirmação do recebimento».

Segundo Schreiber, todo este trabalho mostrou ser uma «experiência interessante», a despeito do facto de estudiosos de estudos islâmicos e especialistas em Islão «serem por demais prestativos em se disponibilizarem em conceder entrevistas sobre questões de política actual». Entretanto, esta abertura não existe, quando se trata de sermões em mesquitas alemãs: «inúmeros especialistas evitam-me após receberem as minhas perguntas, sem responderem, de forma consistente, aos meus e-mails». Um estudioso do Islão  aconselhou-me, indirectamente, a abandonar o projecto, porque isso poderia, «hipoteticamente», «aumentar ainda mais o abismo». Porquê isto? Porque, segundo este estudioso de estudos islâmicos, «mesmo leitores liberais e tolerantes poderiam facilmente achar estes textos extremamente incompreensíveis e estranhos, bem como grosseiros».

Políticos ingénuos

A conclusão de Schreiber sobre os sermões que presenciou:

«Após 8 meses de pesquisa devo dizer que as mesquitas são espaços políticos. A maioria dos sermões em que participei visava resistir à integração dos muçulmanos na sociedade alemã. Quando o assunto se voltava para o estilo de vida na Alemanha, isto acontecia primordialmente em contexto negativo. Normalmente os imãs retratavam a vida quotidiana na Alemanha como ameaça e exortavam as suas comunidades a resistirem. A característica comum de quase todos os sermões é o apelo aos fiéis para se fecharem e não compartilharem».

Em «todas as mesquitas praticamente», Schreiber notou a presença de «dezenas de refugiados que não estavam há muito tempo na Alemanha». Eles também tinham sido alertados para o perigo da integração: «fora da mesquita há muita conversa sobre integração, o contrário é pregado dentro dela».

O perigo desta abordagem fica evidente pelo assassinato de Farina S., uma afegã que foi assassinada na cidade bávara de Prien. Há oito anos ela abandonou o Islão, converteu-se ao cristianismo e, dois anos depois, fugiu para a Alemanha. Em 29 de Abril, foi assassinada por um muçulmano afegão em plena luz do dia. Inúmeros muçulmanos que moram na cidade foram ao funeral, ao passo que as associações de mesquitas faziam de conta que o assassinato não lhes dizia respeito. Karl-Friedrich Wackerbarth, pastor da igreja evangélica de Prien, onde Farima S. era filiada, pediu às associações que condenassem o crime. Em Outubro, meio ano após o assassinato, respondeu a um pedido do Gatestone Institute: «lamentavelmente, até hoje», salientou, «ninguém se manifestou».

Wackerbarth acha que as associações islâmicas não querem emitir um comunicado contra as fatwas emitidas pela Universidade Al-Azhar do Cairo e de outras, segundo as quais os «apóstatas» (aqueles que abandonam o Islão) devem ser mortos.

Este quadro levanta a questão da razão do governo alemão acreditar que as associações de mesquitas o ajude a resolver os problemas. Não faz muito tempo, a consagrada activista dos direitos humanos e crítica do Islão, Necla Kelek salientou:

«Os políticos que enfatizam repetidamente a intenção de cooperarem com as mesquitas, que convidam os seus membros para conferências sobre o Islão, não fazem ideia de quem está pregando o quê naquelas mesquitas».





segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Carta do maçon cardeal Ravasi: «Cari fratelli massoni,»


A FOTOMONTAGEM DA REALIDADE

O maçon cardeal Ravasi, responsável pela cultura de Bergoglio, enviou em 2015 uma carta aos maçons em que começa logo a tratá-los por «irmãos» [ fratelli ]. O desenvolvimento do texto, como se pode ver, é a negação da doutrina cristã em geral e da doutrina da Igreja sobre a maçonaria.

É no seu serviço «cultural» em Roma que se encontra acoitado o «irmão» (dele) Carlos Azevedo, bispo exportado para Roma depois de rebentar o escândalo de homossexualidade que o envolveu. É curioso notar que, mais uma vez, a maçonaria, aparece associada à homossexualidade e pedofilia, como foi nos grandes escândalos da Casa Pia e da Bélgica. O que não é de espantar pois a doutrina subjacente à maçonaria, incluindo a maçonaria eclesiástica, é o subjectivismo e consequente relativismo moral.

De recordar que, antes deste facto, o satânico Carlos Azevedo, então na calha mediática e palaciana para suceder ao «irmão» Policarpo, foi entrevistado por uma televisão, tendo aí afirmado que isso das guerras entre a Igreja e a maçonaria «são coisas do  passado» — como se não houvesse um antagonismo filosófico e religioso entre ambas.

Ravasi e Azevedo pretendem afinal esbater as diferenças e antagonismo entre a Igreja fiel e a maçonaria em prejuízo do cristianismo.

O DESAPARECIDO DE CÁ...

Eis o texto em francês.

FALSO      SINTOMÁTICO


CHERS FRÈRES MAÇONS,

J'ai lu il y a quelque temps dans un magazine américain que la bibliographie internationale sur la franc-maçonnerie dépasse cent mille titres. À cet intérêt contribuent certainement l'aura de secret et de mystère qui, plus ou moins à raison, enveloppent dans une sorte de nébuleuse les différents «obédiances» et «rites» maçonniques, sans parler de la genèse elle-même, qui selon l'historienne anglaise Frances Yates, «est l'une des questions les plus débattues et controversées dans le domaine de la recherche historique» (curieusement son essai était consacré aux «Lumières» des Rose-Croix).

Nous ne voulons évidemment pas pénétrer dans cet archipel des «loges», de l' «Orient», des «arts» (?) «affiliations» et dénominations, dont l'histoire souvent se confond — pour le meilleur ou pour le pire — avec celle politique de nombreuses nations (pensez, par exemple, à l'Uruguay où j'ai participé récemment à différents dialogues avec des représentants de la société et de la culture de tradition maçonnique), de même qu'il n'est pas possible de tracer les lignes de démarcation entre l'authentique, le faux, le dégénéré, ou la para-franc-maçonnerie et les différents milieux ésoteriques ou théosophiques.

Il est également ardu de dessiner une carte de l'idéologie qui régit un univers aussi fragmenté, pour lequel on peut peut-être parler d'horizon et de méthode plutôt que d'un système doctrinal codifié.

Au sein de ce domaine fluide, on rencontre toutefois certains carrefours assez marqués, comme une anthropologie fondée sur la liberté de conscience et d'intellect et sur l'égalité des droits, et un déisme qui reconnaît l'existence de Dieu, laissant toutefois mobiles les définitions de son identité. Anthropocentrisme et spiritualisme sont donc deux chemins assez balisés dans une carte très variable et mouvante que nous ne sommes pas en mesure d'ébaucher avec rigueur.

Nous, cependant, nous nous contentons simplement de signaler un petit livre intéressant qui a un but très circonscrit, définir la relation entre la franc-maçonnerie et l'Eglise catholique. Entendons-nous tout de suite: il ne s'agit pas d'une analyse historique de cette relation, ni d'une éventuelle contamination entre les deux parties. Il est en effet évident que la maçonnerie a assumé des modèles chrétiens, et même liturgiques. Nous ne devons pas oublier, par exemple, qu'au XVIIe siècle, de nombreuses loges anglaises recrutaient leurs membres et leurs maîtres dans le clergé anglican, tant, il est vrai que l'une des premières et fondamentales «constitutions» maçonniques a été écrite par le pasteur presbytérien James Anderson, mort en 1739. On y affirmait, entre autres choses, qu'un adepte «ne sera jamais un athée stupide ou un libertin irréligieux», même si le credo proposé à la fin était le plus vague possible, «celui d'une religion sur laquelle tous les hommes sont d'accord».

L'oscillation des contacts entre l'Eglise catholique et la franc-maçonnerie a connu des mouvements très variés, atteignant même l'hostilité ouverte, marquée par l'anticléricalisme d'un côté et les excommunications de l'autre.

En effet, le 28 avril 1738 le pape Clément XII, le florentin Lorenzo Corsini, promulgua le premier document explicite sur la franc-maçonnerie, la Lettre apostolique In eminenti apostolatus specula, dans laquelle il déclarait «se devoir de condamner et d'interdire... les Sociétés précitées, Unions, Réunions, Rencontres, Agrégations ou conventicules de Francs-maçons, ou tout autre nom qu'on leur donne». Une condamnation répétée par les papes suivants, de Benoît XIV jusqu'à Pie IX et Léon XIII, qui affirmmait l'incompatibilité entre l'appartenance à l'Eglise catholique et l'obéissance maçonnique. Lapidaire était le Code de droit Canonique de 1917, dont le canon 2335 récitait: «Ceux qui sont inscrits à la secte maçonnique ou d'autres associations du même genre qui complotent contre l'Eglise ou les autorités Civiles légitimes, encourent ipso facto l'excommunication réservée simpliciter au Saint-Siège».

Le nouveau Code de 1983 tempèrera la formule, évitant la référence explicite à la franc-maçonnerie, conservant la substance de la peine, quoique destinée de façon plus générique, à «celui qui donne son nom à une association qui complote contre l'Eglise» (Canon 1374). Mais le texte ecclésial le plus détaillé sur l'inconciliabilité entre l'adhésion à l'Eglise catholique et la franc-maçonnerie est la Declaratio de associationibus massonicci, émise par la Congrégation vaticane pour la doctrine de la Foi, le 26 Novembre 1983, sous la signature du Préfet d'alors le cardinal Joseph Ratzinger. Elle précisait justement la valeur de l'assertion du Nouveau Code de droit Canonique, réitérant que restait «inchangé le jugement de l'Église envers les associations maçonniques, parce que leurs principes ont toujours été considérés inconciliables avec la doctrine de l'Église, raison pour laquelle il restait interdit de s'y inscrire».

Le petit livre auquel nous nous référons maintenant est intéressant, parce qu'il inclut — en plus d'une introduction du Préfet de la Congrégation le Cardinal Gerhard Müller  deux articles de commentaires à cette Declaratio, publiés à l'époque par «l'Osservatore Romano» et par «La Civiltà Cattolica», deux documents d'autant d'épiscopats locaux, la Conférence épiscopale allemande (1980) et celle des Philippines (2003). Il s'agit de textes significatifs, car ils abordent les raisons théoriques et pratiques de l'inconciliabilité entre la maçonnerie et le catholicisme, comme les concepts de vérité, de religion, de Dieu, de l'homme et du monde, la spiritualité, l'éthique, les rituels, la tolérance.

La méthode adoptée par les évêques philippins qui articulent leur discours à travers trois trajectoires (celle historique, celle plus explicitement doctrinale et celle des orientations pastorales) est particulièrement significative.

Le tout est rythmé selon le genre catechétique des questions-réponses: il y en a 47, et elles permettent également d'entrer dans les détails, comme la cérémonie d'initiation, les symboles, l'utilisation de la Bible, la relation avec les autres religions, le serment de fraternité, les grades hiérarchiques et ainsi de suite.

Ces diverses déclarations d'incompatibilité entre les deux appartenances, à l'Eglise et à la franc-maçonnerie, n'empêchent cependant pas le dialogue, comme l'indique explicitement le document des évêques allemands qui déjà à l'époque énumérait les domaines spécifiques de confrontation, comme la dimension communautaire, la bienfaisance, la lutte contre le matérialisme, la dignité humaine, la connaissance réciproque. On doit également surmonter cette attitude de certains milieux catholiques intégristes, lesquels — pour frapper certains membres de la hiérarchie de l'Eglise qui n'ont pas l'heur de leur plaire — recouraient à l'arme de l'accusation apodictique d'une appartenance maçonnique.

En conclusion, comme l'écrivaient déjà les évêques d'Allemagne, il faut aller au-delà de l'hostilité, des outrages, des préjugés réciproques, parce que «par rapport aux siècles passés, le ton, le niveau et la manière de manifester les différences, ont changé et se sont améliorés, bien que celles-ci perdurent clairement».

FALSO      SINTOMÁTICO





sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

«Um Costa matou o Rei/ Outro Costa o Presidente/ E um Costa que eu cá sei/ Foi quem deu cabo da gente»


José Luís Andrade, Alameda Digital, 14 de Dezembro de 2017

O PRESIDENTE-REI SIDÓNIO PAIS

Cumprem-se hoje 99 anos sobre a morte de Sidónio Pais, o carismático republicano que Fernando Pessoa cognominaria como «o Presidente-Rei». No meio da maior comoção popular, as paredes apareceram pichadas com a quadra em epígrafe, em que se faziam referências ao regicida Alfredo Luís Costa, a José Júlio da Costa, o assassino de Sidónio, e, obviamente, a Afonso Costa que era visto por muitos não só como o inspirador de tais acções mas também o grande responsável pela situação caótica em que o país se encontrava. Quem era Sidónio e qual foi a sua acção carismática? Procuraremos traçar de seguida os apontamentos mais relevantes do seu reinado presidencial. Para maior comodidade para o leitor dividimos o ensaio em duas partes, publicando hoje apenas a primeira.

Como não podia deixar de ser, a repercussão dos ecos da mitificada «revolução de Outubro», a «madrasta» de todas as revoluções do século XX, iria deixar uma indelével marca nas barricadas políticas portuguesas.[1] No palco político nacional, com Afonso Costa com as rédeas do poder nas mãos, mantinha-se o primado do triunvirato guerrista nuclear, com Norton de Matos na Guerra e Augusto Soares nos Estrangeiros. Provavelmente porque os evolucionistas estivessem ainda a digerir os remorsos pela sua responsabilidade na manutenção dos afonsistas no Poder, são os unionistas ou camachistas, como se designavam os partidários de Manuel Brito Camacho, que tomam a iniciativa de preparar um golpe militar para derrubar os «democráticos». Do «comité director» inicial faziam parte os coronéis Alberto da Silveira e Alves Roçadas, os capitães Tamagnini Barbosa e Vicente Ferreira e o comandante médico naval Alexandre José Botelho de Vasconcelos e Sá. Reuniam-se habitualmente nas instalações de A Lucta e na Farmácia Durão, ao Chiado, propriedade do igualmente unionista António Ferreira. Mas por todo o lado se remordia e conspirava num mal disfarçado rancor aos afonsistas.

A gestão da «União Sagrada», dominado pelos «democráticos», deixara o país à beira da bancarrota e a carestia de bens de primeira necessidade era mais que notória. Faltava um caudilho que conseguisse agregar em torno de si todos os excluídos e rejeitados pelo PRP, desde os anarco-sindicalistas até aos católicos e aos monárquicos. E ele surgiu, providencialmente, na figura de um unionista de 45 anos, antigo ministro do Fomento (Economia) e das Finanças e ex-representante de Portugal em Berlim, de onde regressara depois de a Alemanha ter declarado guerra a Portugal. Sidónio Pais, lente de Matemática da Universidade de Coimbra e major do Exército (embora há muito sem função castrense), um republicano de sempre, nacionalista e maçon, acabou a encabeçar a conspiração, pondo nela toda a sua energia e poder de persuasão, aliciando e recrutando camaradas do Exército bem como civis. Com ele estavam igualmente dois dos principais cabecilhas do 5 de Outubro, José Carlos da Maia e Machado Santos. Este último encontrava-se preso no Fontelo, em Viseu, desde Dezembro do ano anterior e com ele, sob a sua influência, viriam também muitos «abrilistas» [participantes na revolta contra a hegemonia dos «democráticos» de 27 de Abril de 1913]. Durante os preparativos da conspiração, Camacho,[2] porventura cioso da liderança e do protagonismo, abandona a conjura, argumentando com o peso, que considerava excessivo, dos militares nos centros de decisão da conspiração. Mas a falta daquele apoio, sobretudo na vertente financeira, é suprida rapidamente por outro rico proprietário alentejano, António Miguel de Sousa Fernandes.[3] Se o 5 de Outubro fora um movimento estruturado por sargentos, a revolução pendente iria ser enquadrada por tenentes e alferes, cada vez mais receptivos à inspiração cultural dos intelectuais que rejeitavam a «tirania democrática», incluindo os do grupo do Integralismo Lusitano.

A 5 de Dezembro de 1917 estala a revolta em Lisboa; embora sem a maioria dos seus quadros superiores, várias unidades da capital avançam para a Rotunda e para o morro sobranceiro ao Parque Eduardo VII, onde Sidónio estabeleceu o seu posto de comando. No total, incluindo os soldados de Infantaria 5, 33 e 16, de Artilharia 1 e de Cavalaria 7, não atingiriam os dois mil homens já contando com os cadetes[4] da Escola de Guerra. Machado Santos preparava-se para se pôr em marcha a partir de Viseu, revoltando as unidades da Beira. Com Costa e Soares ausentes de Lisboa, a regressar ao país depois da «visita à guerra» e das reuniões de trabalho em França, Norton de Matos e Leote do Rego assumiram a coordenação da resistência governamental. Sabiam que contavam com forças muito superiores aos insurrectos, nomeadamente com a Marinha, a GNR, a Guarda Fiscal e os efectivos da Polícia. Nas ruas, os formigas brancas e os carbonários preparavam-se para defender os seus «patrões» e cabecilhas. Mas o que realmente marcava mais a diferença eram os canhões dos navios de guerra ancorados no Tejo e fiéis à gente no poder. E foi do contratorpedeiro Guadianae do cruzador auxiliar Gil Eanes, onde o segundo comandante era irmão de Sidónio, que partiram os primeiros bombardeamentos sobre a Rotunda. De onde lhes responderam as peças de Artilharia 1, calando alguns navios.

Mas, tolhido por uma estranha apatia, só na manhã do dia 7 o Governo tomou a iniciativa da contra-ofensiva terreste. Ao fim da tarde do dia anterior, tinha declarado o estado de sítio, perante o assalto generalizado às lojas e armazéns da Baixa por parte de uma turbamulta vinda dos bairros mais pobres da capital. Entretanto, resistindo serenamente, Sidónio via as suas forças civis, organizadas por Manuel Inácio Ferraz e por Manuel Pedro de Abreu, muitas delas de origem proletária, «engordarem», com o apoio negociado[5] que a União Operária Nacional, de tendência maioritária anarco-sindicalista, lhe aportou. E foram essencialmente essas forças populares que travaram a contra-ofensiva governamental, imobilizando, com os seus petardos e bombas artesanais, as tropas da GNR e dos marinheiros que a partir da beira-rio tentavam envolver os insurrectos. A mais valente tentativa de furar o perímetro dos sublevados, embora condenada ao insucesso, protagonizou-a no largo do Rato, um destacamento de marinheiros, sob o comando de Agatão Lança que ficaria gravemente ferido no assalto. Perante o impasse, Norton de Matos tenta a táctica do 14 de Maio, procurando ganhar tempo com iniciativas de parlamentação com os revoltosos. Mas Sidónio não cai na esparrela, mantendo-se firme na sua lógica de vitória; «morrer ou vencer!» era o grito que se ouvia na Rotunda.

Perante o fracasso da iniciativa, Norton de Matos vê-se então obrigado, em nome do governo, a apresentar a demissão a Bernardino Machado. Este, manhosamente, para dividir os adversários, convidou Camacho a formar Ministério, depois de ter conseguido um cessar-fogo. Contudo, Sidónio Pais não desarma e, em nome da Junta Revolucionária,[6] recusa a «solução Camacho» e procede ele mesmo a nomeações políticas e militares para os cargos mais críticos. A partir do seu quartel-general no Arsenal, Norton de Matos e Leote do Rego conseguem fugir, refugiando-se no navio inglês Woodnut, um vapor de passageiros armado surto no Tejo e que zarparia a 12 de Dezembro. Afonso Costa,[7] acompanhado pelo seu cunhado e secretário José de Abreu e pelo ministro Augusto Soares, é detido no Porto[8] e enviado, a 11, no vapor Viana sob prisão, primeiro para a Trafaria e depois, a 18, para o Forte da Graça, em Elvas, de onde só sairá a 30 de Março de 1918, com destino ao exílio em Paris. Caíra pela terceira vez; o seu último executivo durara 231 dias.

Bernardino, no seu tradicional estilo, entre cordial, trapaceiro e casmurro, fingindo-se incauto, resiste à renúncia do cargo pelo que a delegação que Sidónio lhe enviara, os oficiais Eurico Cameira, Teófilo Duarte e Sá Guimarães, se vê obrigada a dar-lhe voz de prisão em nome da Junta insurrecta. Ficará em Belém até ao dia 15, quando lhe é imposto o exílio no estrangeiro, tendo então apanhado o comboio com destino a França. Machado Santos, que conseguira sublevar as Beiras provocando um efeito de contágio noutras regiões do país, chega entretanto a Lisboa. Após a incerteza de alguns dias, depois de uma centena de mortos e de mais de quinhentos feridos, a 8 de Dezembro, a «revolução» para apear os «democráticos» do poder triunfara. O delegado militar inglês em Portugal, o general Barnardiston apressou-se a ir cumprimentar o vitorioso chefe revolucionário que também não se fez rogado em se deixar fotografar a seu lado, procurando, com calculismo diplomático, tranquilizar os espíritos dos aliados. E, em breve, Portugal e Inglaterra elevariam as suas representações diplomáticas à categoria de Embaixadas; o que iria deixar os derrotados próceres «democráticos» à beira de um ataque de nervos.

Sidónio não pensara em si próprio para chefiar o governo que sairia da revolução triunfante. Quando depois do abandono de Camacho se virara para o seu correligionário António Maria Bettencourt Rodrigues[9] tinha-lhe dito: «eu ficarei de fora, garantindo a ordem, e o senhor governará, ao que o médico retorquira que quem sai vencedor de uma revolução é quem ganha prestígio diante das multidões; nele confiam, a ele se entregam…» Tentou ainda convencer o independente José Relvas mas igualmente sem sucesso. De facto, era o próprio Sidónio que surgia aos olhos do povo como o «messias redentor» capaz de varrer do Poder a «corja de facciosos radicais, demagogos e malabaristas» parlamentares, que haviam dividido e atirado o país para o plano inclinado da bancarrota. O Major praticava a antítese do comportamento dos «democráticos» que tinham tiranizado o país, fracturando-o, lançando uns contra outros. A sua ascensão fora um típico fenómeno que se aproximava do que hoje se designaria por bonapartismo. Sidónio possuía um «não sei quê», uma «graça», que inspirava nas massas, e não só, uma atracção que raiava a veneração. À frequente adulação respondia que «Sidónio Pais não existe; é, se quiserem, o símbolo das aspirações da Pátria». E era o «herói» que prometia para um horizonte temporal quase imediato o «fim da desordem», gerada pela «demagogia», e a afirmação do «império da lei».

Superando as convicções individuais sobre o regime, ou mesmo sobre o «sistema», gerou-se em torno dele um ralliement de personalidades que ficariam conhecidas como «dezembristas». Quase todas elas intuíam ser mais importante, naquele momento, o interesse nacional que a afirmação das expressões políticas particulares. Os dezembristas e Sidónio sempre afirmaram que o golpe tinha como intuito «acabar com os ódios que dividem a família portuguesa» e que era preciso «implantar um regime novo em que monárquicos e republicanos possam viver». E neste pressuposto nasceu a 11 de Dezembro o primeiro Executivo dezembrista. O chefe do Governo tutelava, em acumulação, as pastas dos Negócios Estrangeiros e da Guerra. Machado Santos ficava com o Interior e José Feliciano da Costa com o Trabalho; os unionistas António dos Santos Viegas, Alberto de Moura Pinto e António Aresta Branco, com as Finanças, a Justiça e a Marinha, respectivamente; dois «centristas», Alfredo de Magalhães e João Tamagnini Barbosa (ex-unionista), assumiam a Instrução Pública e as Colónias e Francisco Xavier Esteves o Comércio. Enquanto o Congresso não elegesse um novo Presidente da República seria também Sidónio o Chefe de Estado interino. E, uma vez confirmado o triunfo da revolução, antes mesmo de o novo executivo ter tomado posse formal, já a 9 de Dezembro a Junta Revolucionária mandara suspender o Parlamento, anular as sanções impostas aos bispos e sacerdotes, libertar os implicados na intentona de 13 de Dezembro de 1916 e reintegrar os saneados políticos. Procurando tirar partido da sua «participação à ilharga» na vitória revolucionária, a União Operária Nacional manifesta-se publicamente, apresentando à Junta Revolucionária um conjunto de reivindicações de onde sobressaía a «utilização imediata dos terrenos baldios». A formiga branca, fenómeno emblemático dos executivos «democráticos», seria agora parcialmente imitada pelos «lacraus» sidonistas.

Ainda não tinha decorrido um mês sobre a eclosão da revolta dezembrista quando a 8 de Janeiro de 1918, os vencidos e humilhados marinheiros se revoltam a partir dos seus coutos habituais: o quartel de Alcântara e o navio Vasco da Gama que se encontrava, na altura, em reparação. Para subjugar os marinheiros em terra, aparentemente sem oficiais, Sidónio enviou Teófilo Duarte que rapidamente os submeteu; quanto ao Vasco da Gama ele próprio dirigiu a artilharia que do Castelo de São Jorge obrigou o navio à rendição. Dominada a revolta, Sidónio percebe que tem de avançar depressa para o seu modelo de governação que deverá assentar no apoio popular e na força armada, garante da Autoridade. A 12 de Janeiro, ainda com o cheiro a pólvora e os ecos da revolta dos marinheiros no ar, já Sidónio tinha iniciado um périplo pelo país para contacto pessoal com as massas. Diz que o faz para «tactear a opinião pública», porque «não se pode governar sem o apoio da opinião e não há força alguma militar que a domine».[10] Dirige-se primeiro ao Porto de onde havia notícias vagas sobre uma conspiração em maturação, promovida por «figuras pouco queimadas» dos «democráticos». E é no Porto que, pela primeira vez, falará em República Nova, repetindo o soundbite em toda a tournée, onde pode testemunhar a enorme popularidade de que gozava, de Norte a Sul, nos meios rurais e nas cidades. Em sucessivos banhos de multidão, por todo o país foi vitoriado entusiasticamente pelo Povo que esperava dele a panaceia milagrosa que os curasse do caos permanente, da fome iminente e da calamidade da Guerra.

Sidónio propunha-se «restaurar a república generosamente proclamada a 5 de Outubro e miseravelmente atraiçoada por uma casta política» que «explorava» o Estado «em proveito próprio e com grave dano para o país», dizia. E insistia nas teclas do «triunfo da república contra a demagogia» para salvaguarda da «harmonia e unidade da Pátria», como constava no programa do Governo. A sua ideia geratriz era o conceito de República Nova em que «monárquicos e republicanos pudessem viver», lado a lado, livres da ditadura da esquerda radical. Procurou reconciliar o regime com a Igreja,[11] apoiando as iniciativas do ministro Moura Pinto na redefinição do papel das comissões cultuais, na anulação das disposições persecutórias e discriminatórias[12] de Afonso Costa e no reatamento das relações com o Vaticano.[13] A 11 de Março, a restritiva lei eleitoral afonsista iria mesmo ser modificada por decreto (complementado por outro a 30 do mesmo mês) com vista ao sufrágio universal;[14] agora, «todos os cidadãos portugueses do sexo masculino, maiores de 21 anos, no gozo dos seus direitos civis e políticos, sabendo ou não ler e escrever», iam poder votar. E na República Nova, quer os monárquicos quer os católicos passavam a ter direito de expressão política igual ao dos outros.

Tal facto levou a que, em protesto, se tivesse organizado um bloco opositor que englobava unionistas, evolucionistas e os «democráticos» que, na campanha eleitoral de Abril, mesmo para uma assembleia eventualmente «constituinte», se iriam manifestar pela abstenção. Muitos deles alertaram Sidónio para o facto de que o sufrágio universal iria beneficiar sobretudo os monárquicos. Mas já antes, a 7 de Março, na fase inicial do processo de contestação às intenções eleitorais de Sidónio, os três ministros unionistas tinham abandonado o governo,[15] tendo sido o ex-ministro da Justiça, Moura Pinto, a propor a abstenção como atitude a assumir pelos unionistas nas eleições que se aproximavam. Camacho, o dirigente unionista, o próprio partido de origem de Sidónio, entendeu que ele, ao dissolver as câmaras do Congresso, fora longe demais na sua atitude anti-parlamentar. E reunindo o plenário da União Republicana, a 8 de Abril de 1918, repetirá o que já anteriormente tinha feito a Pimenta de Castro, retirando o apoio político ao Governo numa altura crítica. Mas, em protesto contra essa atitude, um número significativo de unionistas abandona estrondosamente o partido, manifestando o seu apoio a Sidónio Pais. Camacho, bem como alguns outros próceres republicanos, não conseguia encarar sem desconforto as ideias subjacentes à República Nova. Afinal, tinham querido apenas corrigir o rumo da «República Velha», sequestrada pelos «democráticos». A gota de água era agora a pretensão de Sidónio em eleger o Chefe de Estado pelo método directo, por sufrágio universal. E para concretizar a sua ideia-força «presidencialista», vai pôr todo o seu peso carismático na legitimação democrática, através de eleições, directas e universais que pudesse pôr rapidamente fim ao «introito ditatorial».

A deserção dos homens de Camacho, em vez de atrapalhar Sidónio, liberta-o de compromissos e dá-lhe campo livre para implementar as suas ideias. O seu cargo diplomático em Berlim expusera-o a um conjunto de ideias novas em que o individualismo liberal fora suplantado pela lógica do bem comum, da superioridade da comunidade sobre as partes e, concomitantemente, pela «razão de Estado». E todas essas doutrinas, que estruturavam o organicismo alemão, tinham por referência axial a figura do «César», geratriz da Autoridade. Na Alemanha tinha podido perceber como o exercício desse poder emanante havia mitigado a questão social, conduzindo a um equilibrado processo justicialista, justamente o oposto do que se verificava em Portugal onde o progressismo burguês era o principal carrasco das organizações operárias. Em Beja, onde se deslocara para mais um contacto com o povo, aclarando os seus propósitos sobre a sua concepção do sistema político, tivera ocasião de proclamar:

«O regime parlamentar já deu todas as suas provas durante oitenta anos de constitucionalismo monárquico e as provas são negativas. Em pleno século XX não é possível o regime absoluto, tendo-se portanto que optar pelo regime republicano; mas para isso é necessário que o país se pronuncie sobre a forma de regime que deve adoptar: se parlamentar, se presidencialista. O primeiro faliu, o segundo é a Ideia Nova.»[16]

Sidónio irá manter a fachada institucional republicana mas procurará superar a inconciliável e mutuamente destruidora divisão política do país, chamando a si o comando centralizado do Estado. Queria implantar um sistema político «que não fosse reaccionário nem demagógico». Pela primeira vez, são autorizadas as mulheres com o curso de Direito a exercerem advocacia e a candidatarem-se a cargos públicos. Em meados de Março de 1918, em reacção ao insistente acosso que alguns sectores da oposição faziam ao sidonismo, a imprensa generalista anuncia a criação de uma auto-intitulada Junta de Salvação Nacional que, sem nomes que a identifiquem, propõe, em manifesto, a prisão dos boateiros e a suspensão dos jornais afectos aos «democráticos» a quem acusa de serem uma «associação de malfeitores». E como instrumento de projecção eleitoral do sidonismo é criado, em 30 de Março de 1918, o Partido Nacional Republicano – PNR. Constituíam-no personalidades republicanas conservadoras como António Egas Moniz que pouco antes, depois de encabeçar uma cisão no partido evolucionista, em 20 de Outubro de 17, havia fundado o Partido Centrista Republicano com Eurico Cameira, Simas Machado, Tamagnini Barbosa, Gomes da Costa, Vasconcelos e Sá e o padre Casimiro Rodrigues de Sá, abade de Padornelo e ex-deputado à constituinte de 1911.[17] O PNR, além dos quadros do Partido Centrista, pôde contar durante algum tempo com o próprio Machado Santos e os seus reformistas, um jovem militar chamado Francisco da Cunha Leal e com quase todos os verdadeiros dezembristas.

Comungando desse clima de congraçamento e concórdia, em Fevereiro de 1918, António Sérgio, Reis Santos, Ruy Enes Ulrich, Francisco António Correia e Pedro José da Cunha tinham criado a Liga de Acção Nacional. Este último, reitor da Universidade de Lisboa, será o presidente desse «movimento de opinião pública», que, fora e acima de qualquer partidarismo político, no dizer de António Sérgio, «apenas visava a verdadeira união sagrada – a Concórdia Nacional».[18] E será Sérgio que, com a colaboração de Ezequiel de Campos e de Raul Proença, publicará a Pela Grei, «revista para o ressurgimento nacional, pela formação e intervenção de uma opinião pública consciente»[19], apontada como órgão da Liga. No âmbito da acção prosélita da organização, Sérgio proferiu na Sociedade de Geografia de Lisboa a sua célebre conferência intitulada «O Ensino como factor de ressurgimento nacional».

No exterior, a ascensão ao poder do antigo representante de Portugal em Berlim havia feito temer aos Aliados, nomeadamente aos franceses, uma deriva germanófila em Lisboa. De facto, Sidónio tinha-se demarcado de Paris sem no entanto pôr em causa a tradicional orientação pró-inglesa. E procurou aproximar-se de Madrid,[20] cordialmente mas com cautela. Como prova da sinceridade das suas intenções, Egas Moniz, chefe do partido centrista, verdadeiro sustentáculo inicial do sidonismo, é nomeado para representante de Portugal em Espanha, substituindo Augusto de Vasconcelos que, por sua vez, parte para a embaixada de Londres[21] de onde Teixeira Gomes tinha sido afastado. Demarcando-se da política externa dos governos dominados pelos «democráticos», o executivo de Sidónio dava início a um período de verdadeira distensão diplomática, com Lisboa a procurar resolver o contencioso económico-financeiro com o país vizinho. E, eventualmente, ir mais longe, formalizando um «tratado de aliança».

Em Londres, Augusto de Vasconcelos, que, recorde-se, fora chefe do Governo em que Sidónio se ocupara das Finanças, recebeu a incumbência de auscultar o Foreign Office sobre a pretendida mudança na orientação política portuguesa face a Espanha. Arthur James Balfour, o sucessor de Grey, teve dificuldade em perceber o porquê dos intuitos aliancistas e desaconselhou-os, afirmando que «os Aliados deviam reservar a sua completa liberdade de actuação sobre essas questões para, depois do fim da guerra, combinarem entre si o que mais convém a todos e a cada um».[22] Mas o que animava Sidónio eram outros propósitos: além de procurar reduzir a nossa dependência face a Londres e romper com o restritivo bloqueio na orientação da nossa política externa, já estava a pensar no após-guerra. Sabendo ler os «tempos» e ouvir os «ventos», para Sidónio, além da normalização das relações económico-financeiras, havia a intenção de criar com Madrid um sólido instrumento de defesa recíproca contra a emergente «revolução social».

A 9 de Abril de 1918, os germânicos, depois de uma intensa barragem de fogo de artilharia e de metralhadoras de que não havia memória, com várias Divisões, esmagaram a linha portuguesa no sector da ribeira de La Lys.[23] As forças do CEP, reconhecidamente esgotadas, foram apanhadas em contrapé, no meio da agitação de uma operação de substituição por unidades frescas inglesas. Por sobre os escombros da Batalha do Lys, de que os jornais não haviam conseguido transmitir toda a dimensão da dantesca hecatombe, Sidónio, querendo validar a sua estratégia política, punha todas as esperanças no processo eleitoral por sufrágio directo universal masculino. Procurando acomodar as várias sensibilidades «dezembristas», as eleições deveriam não só referendar o Chefe de Estado mas, simultaneamente, eleger «os representantes do país, com poderes para elaborarem a Constituição». Contra a intenção assumida por Sidónio Pais, o bloco das velhas facções em que o PRP se tinha cindido iria fazer obstinada campanha pela abstenção. No dia 28 de Abril de 1918, dos cerca de oitocentos e oitenta mil recenseados votariam em Sidónio mais de quinhentos e catorze mil,[24] ou seja mais de 58,4%, uma percentagem muito elevada para a habitual participação política de então. Para as legislativas, devido à ausência dos três principais partidos republicanos, a participação dos eleitores não foi famosa. O PNR elegeu 108 dos 155 deputados, sendo os outros 37 monárquicos, 5 independentes, 4 católicos[25] e 1 «regionalista» (o advogado e jornalista são-tomense João Monteiro de Castro, tido por socialista). O Senado terá 77 lugares, organizados num misto de regras parlamentares clássicas com princípios corporativos. Mas apesar da assunção «cesarista» de Sidónio ter sido ratificada por mais de quinhentos mil votos, os opositores não desarmavam e continuavam com a sua febricitante actividade conspirativa,[26] alarmados com a «escandalosa» subida eleitoral dos monárquicos que, em Arganil, por exemplo, até tinham batido os próprios candidatos sidonistas. Embora reconhecendo o apoio dos monárquicos, «que até são pessoas honestas», à situação, Sidónio nunca deixará de insistir que «diga-se o que se disser, agrade a quem agradar, o governo é republicano».[27]

À instabilidade que entretanto a «augusta ordem», e os sectores a ela associados, pretendiam impor na sociedade portuguesa respondia a «situação» com uma constante e implacável actividade repressiva. A tão criticada lei da censura do Executivo de Afonso Costa, de 28 de Maio de 1916, foi reposta em vigor. E vários foram os cabecilhas, sobretudo «democráticos», detidos ou exonerados dos seus cargos públicos. Muitos tiveram que se recolher no outro lado da fronteira, onde as redes maçónicas, designadas genericamente por «republicanas», os acolhiam e suportavam. Quando a dinâmica das conspirações anti-sidonistas o exigia, muitos deslocavam-se facilmente entre os dois países sem grandes entraves das autoridades fronteiriças, quer portuguesas quer espanholas. Mas é sobretudo em França que mais se agita o núcleo duro dos conspiradores «democráticos», agasalhados por Le Grand Orient de France. E é na sua própria sede em Paris, na rue Cadet, que medra a «loja» Portugal, baluarte máximo da conspiração anti-dezembrista. No espírito dos emigrados políticos crescia a ideia de que, sendo difícil minar o exército, só eliminando Sidónio se evitaria que o dezembrismo ganhasse raízes em Portugal. E falou-se em enviar um assassino, um oficial do exército que se predispusera a «resolver o assunto».[28]

Proclamado Presidente da República a 9 de Maio de 1918, logo Sidónio, com intuitos pacificadores, promovera uma amnistia que abrangia os delitos políticos bem como alguns crimes comuns derivados da actividade política, como, por exemplo, o de deserção; mas contemplava apenas as praças, não os oficiais, deixando assim de fora figuras como Norton de Matos ou Leote do Rego. Na sequência da sua tomada de posse como Presidente da República, democraticamente eleito, Sidónio, nos termos do decreto de 30 de Março, devia substituir o Governo. E, quiçá para melhor vincar o carácter presidencialista do regime, os novos titulares passam a ser designados por Secretários-de-Estado, à inglesa. Assim, a 15 de Maio é apresentado um novo executivo, como caras novas mas também com muitos repescados do anterior elenco,[29] na realidade, apenas dois governantes, próximos de Sidónio, abandonam funções: Feliciano da Costa e Pinto Osório. Na abertura do Parlamento, a 22 de Julho de 1918, no seu discurso, Sidónio, focado no país mas sobretudo no estrangeiro, onde os exilados guerristas «democráticos» insistiam em denegrir a sua imagem, taxando-o de germanófilo, afirma: «Por dois inflexíveis princípios guiamos a nossa política internacional desde a primeira hora da Revolução de Dezembro: a nossa dignidade de povo livre e uma perfeita lealdade para com os nossos amigos e aliados». E, dando claro sinal do desinvestimento no teatro da Guerra, ao saudar os combatentes, acrescenta: «A melhor recompensa que poderemos dar a esses bravos, enquanto não nos cabe a honra de ir verter com eles o nosso sangue pela Pátria, será o de dedicarmos todos os nossos esforços e votarmos a nossa vida à causa da felicidade do povo português de quem são nobres representantes na formidável luta mundial». Mas logo no dia seguinte, Cunha Leal, na Câmara dos Deputados, e Machado Santos que entretanto abandonara o governo em Junho,[30] no Senado, abrirão as hostilidades, começando por questionar, cada um à sua maneira, o desaparecimento da figura de «Presidente do Ministério», prevista na Constituição de 1911. E em breve juntarão as suas vozes às d’O Mundo e d’A Lucta nas críticas ao «evidente comportamento autocrático» de Sidónio, digno «de reis absolutos».

A facção mais parlamentarista consegue então eleger Egas Moniz para chefe parlamentar do PNR. Mas a volubilidade e irrequietismo de grande parte da bancada sidonista não lhe facilitaram o trabalho. E, apesar de não existirem representantes dos «democráticos», nem dos unionistas ou dos evolucionistas, nem por isso o Parlamento parecia dar melhor conta de si que as tão vituperadas pretéritas legislaturas da apeada «república velha». E o caldo entornou-se quando o secretário-de-Estado da Guerra, o coronel Amílcar de Castro Abreu e Mota, ao responder a uma interpelação que lhe fora feita na Câmara dos Deputados sobre a participação de Portugal na Guerra,[31] destapou o bem tapado arquivo dos governos guerristas a quem teceu graves acusações. Para gáudio, diga-se, da minoria monárquica que se manifestou com grande efusão, relembrando a sua tradicional posição anti-intervencionista. No meio de um tumulto pouco edificante, foi requerido que o assunto passasse a ser debatido em sessões secretas, as quais, no entanto, nunca viriam a ser convocadas. Para esfriar a agitação parlamentar que ameaçava contagiar a «rua», os trabalhos foram dados por encerrados a 6 de Agosto, sendo a retoma agendada para 4 de Novembro.

Como se percebia, no crescente clima de crispação que então se começara a viver, não só os opositores declarados, unidos na azáfama de preparar a queda do regime, criavam dificuldades a Sidónio. Também os seus apoiantes dezembristas impediam a estabilização política. Primeiro, antes das eleições, havia sido a própria questão da opção presidencialista, entre sidonistas e unionistas. Estes tinham usado como porta-voz José Barbosa que até defendia uma visão presidencialista[32] mas que insistia que a eleição do Chefe de Estado por sufrágio universal, por representar uma alteração constitucional, deveria ser precedida por uma que elegesse um Congresso com claras atribuições para o efeito. Mas mesmo depois, ultrapassada pelo facto consumado, a alegada inconstitucionalidade do rumo presidencialista, os propriamente ditos sidonistas estavam cada vez mais polarizados entre o presidencialismo integral e o de raiz parlamentar. Enquanto João Tamagnini Barbosa defendia o primeiro, o radicalismo liberal de António Egas Moniz e a maioria dos trânsfugas unionistas agregavam à sua volta os defensores do segundo. O busílis da questão residia na hipótese de se consagrar na putativa Constituição a possibilidade de dissolução parlamentar pelo Presidente da República, defendida por Sidónio e por João Tamagnini e a que se opunha Egas Moniz. Apesar da forte atracção que o «Presidente-rei», como o etiquetaria Fernando Pessoa, continuava a gerar nas massas populares, o regime manifestava, no entanto, uma fragilidade política notória que enfraquecia a sua base de sustentação junto das elites sociais.

A 18 de Julho desse ano nascera a Cruzada Nacional D. Nuno Álvares Pereira[33] ou, abreviadamente, a Cruzada Nun’Álvares, como ficaria conhecida. Fundada pelo tenente João Afonso de Miranda era um movimento patriótico, apelativo à direita e aos católicos mas cuja base heterogénea ganharia igualmente a adesão inicial de várias personalidades da elite republicana laicista como Braamcamp Freire, Egas Moniz, João de Barros, Guerra Junqueiro, Leonardo Coimbra, Manuel Teixeira Gomes, Freire de Andrade, Alfredo de Sousa, José Jacinto Nunes, Henrique Trindade Coelho ou António José de Almeida que foi o seu primeiro presidente honorário. Tal como vinha acontecendo em França com a evocação de Joana d’Arc, a «donzela de Orleães», a mítica figura de Nun’Álvares iria fornecer o símbolo axial capaz de reerguer o orgulho da comunidade, ferido pela turbulência dos primeiros anos da República e, sobretudo, pelo desastre militar de proporções anormais ocorrido em La Lys. Como salienta Castro Leal,[34] a «função simbólica da Cruzada», mormente o seu messianismo redentor e regenerador, resultava da síntese da «tradição providencial católica», expressa na figura do «Santo», e da «hagiografia positivista» republicana, manifestada no culto do «Herói». A dinâmica regeneradora dos mitos nacionais da Cruzada, sublimados no Santo Condestável, viria a ter uma grande influência no desenrolar futuro do regime e na formação dos seus quadros mais à direita. No providencialismo católico português, quatro projecções messiânicas têm especial significado: «o milagre de Ourique», no séc. XII, na alvorada da fundação da nacionalidade, «o Santo Condestável», no séc. XIV, «Nossa Senhora da Conceição» de Vila Viçosa, no séc. XVII, e, finalmente, as «Aparições de Fátima», no séc. XX. E, como sabemos, Fátima projectara-se de forma indelével no subconsciente do povo português desde o início das Aparições.

(Fim da primeira parte: Continua)


NOTAS

[1] No Bandeira Vermelha, de 7 de Outubro de 1919, ler-se-ia:

«Proletários: Perante a questão russa só há dois campos, duas bandeiras, dois partidos nitidamente definidos. Dum lado os exploradores e os negreiros, o bando negro dos inimigos e detractores da Revolução, qualquer que seja a máscara que afivelem – republicana ou clerical, liberal ou conservadora – os Tzaristas. Do outro lado, a ala vermelha dos emancipadores, dos revoltados, dos produtores, dos trabalhadores, dos proletários – os Bolchevistas. Tzarismo e Bolchevismo são os dois polos opostos da sociedade actual.»

[2] Na decisão de Camacho não foi despicienda a conversa que manteve com Augusto de Vasconcelos, recém-chegado de Madrid, que lhe sugeriu que qualquer manobra revolucionária, na altura em que a frente externa portuguesa estava exposta na Guerra, poderia ser percebida como uma traição. Dir-lhe-á também, mais tarde, que Bernardino Machado estava já a par da conjura. Mas isso também já os conspiradores sabiam pois o agente policial infiltrado, Carlos Santos, havia-se manifestado e passado para o seu lado.

[3] O dinheiro fazia falta não só para custear as deslocações dos conjurados às várias unidades militares do país mas também para subornar adversários que pudessem contribuir para a colaboração, por inacção até, de hostes tradicionalmente leais aos «democráticos», como foi o caso do cabo marinheiro Gabriel, um dos cabecilhas dos «sovietes» da Armada.

[4] Dos chamados «cadetes de Sidónio», como Teófilo Duarte, Assis Gonçalves, Henrique Galvão, Eurico Cameira, Luna de Oliveira, Manuel Faria, José Mariares, Jorge Botelho Moniz ou Jorge da Costa Pereira, alguns eram já, na realidade, oficiais subalternos, tenentes que tinham servido como oficiais milicianos na Grande Guerra, decidindo-se depois pela carreira das armas. Mas outros, como Duarte ou Botelho Moniz, tinham apenas 19 anos quando foram chamados ao exercício de importantes cargos executivos.

[5] Acordo intermediado pelo dirigente acrata Aurélio Quintanilha, antigo aluno de Sidónio em Coimbra. A aparente postura anti-guerrista de Sidónio granjeou-lhe um autêntico estado de graça junto das camadas populares que odiavam os «democráticos». Mas para o movimento operário sindical seria «Sol de pouca dura». Contudo, alguns sindicalistas revolucionários como Sebastião Eugénio, o João Corticeiro e o acrata Bourbon e Meneses namoraram mesmo o sidonismo, a fazer fé em Emídio Santana. Vd. Memórias de um militante anarco-sindicalista, op. cit..

[6] Constituída por ele próprio, por Machado Santos e pelo capitão José Feliciano da Costa Júnior.

[7] Afonso Costa ficou transtornado quando soube que a arraia-miúda lisboeta, que tanto o tinha idolatrado no passado, lhe havia invadido a casa e exposto na rua, à laia de saque, um anacrónico achado: uma variegada colecção de arte sacra, formada por piedosas imagens religiosas e pinturas de Santos e Virgens. Jamais lhes perdoaria o gesto.

[8] O revolucionário dezembrista capitão Alfredo Melo de Carvalho queria trazer Costa de automóvel para Lisboa. O general Ilharco, na altura o comandante da 3.ª Divisão, a do Porto, temendo pela vida de Afonso Costa, opôs-se-lhe e enviou-o com os seus acompanhantes para o quartel de Infantaria 6.

[9] Cf. MONIZ, António Egas – Um ano de política. Lisboa: Portugal-Brasil, 1919, p. 53

[10] Cf. O Século, de 19 de Janeiro de 1918; visto em História de Portugal (Dir. Damião Peres). Barcelos, Portucalense, 1954, Suplemento, p. 173.

[11] Sobre este assunto, Vd. O Estado e a Igreja em Portugalop. cit., pp. 249-261.

[12] Ao interpretar o n.º 4 do artigo 3.º da Constituição de 1911, como atendendo à liberdade de exteriorização do pensamento, Moura Pinto não só reconheceu o direito dos crentes de, sem necessidade de qualquer autorização do Estado, se poderem congregar para providenciar ao culto, como acabou com o indigno e intromissor regime de pensões e subvenções a sacerdotes. Mandou ainda cessar a prática do «beneplácito» e a proibição do uso de hábitos talares em público. Mas a sua intervenção era meramente «política» e instrumentalmente pacificadora; em 1 de Junho de 1922, Moura Pinto considerará um «mero capricho» a posição dos católicos em não concordar com uma proposta de lei em que constava que o baptismo poderia ser administrado por qualquer cidadão, com excepção dos sacerdotes católicos. Cf. António Lino Neto: intervenções parlamentares 1918-1926, Lisboa, Texto Editores, 2009, pp, 66 e 135.

[13] O sucesso desta iniciativa ficou a dever-se essencialmente à acção diplomática do então ministro plenipotenciário em Madrid, o maçon António Egas Moniz. Mas, segundo ele, quer Bernardino Machado quer António José de Almeida já o haviam tentado à revelia dos principais cabecilhas «democráticos». Cf. Um ano de políticaop. cit., pp. 113-114.

[14] O universo eleitoral passa então de 471.557 para perto de 880.000 recenseados.

[15] Na remodelação que se seguiu, Francisco Xavier Esteves transitou para as Finanças, Henrique Forbes Bessa (alferes, estudante do IST, com 23 anos) é nomeado para o Interior, Manuel José Pinto Osório para o Comércio e Martinho Nobre de Melo, um jovem professor universitário de 27 anos, «maçon a coberto», que então já dizia «não ser monárquico nem republicano» mas sim «neo-sindicalista à maneira de Duguit» (ou seja, corporativista), tomou conta da Justiça. Dois dias depois, José Carlos da Maia passa a tutelar a Marinha, Machado dos Santos assume o novo ministério das Subsistências e Transportes e Eduardo Fernandes de Oliveira o da Agricultura, também criado na altura. Sidónio continuou a assegurar, em acumulação, os Estrangeiros.

[16] Retirado de Nobre Povo de Nogueira Pinto que, por sua vez, cita SILVA, Armando Malheiro da – Sidónio e Sidonismo. Coimbra: Imprensa da Universidade, 2006. Vol. I e II.

[17] Outras figuras de relevo do Partido Centrista foram Eduardo de Almeida, João Pinheiro, Ângelo Ribeiro, Jerónimo Osório de Castro, Alfredo Machado, Francisco Newton de Macedo, Alberto Osório de Castro, Jorge Couceiro da Costa, Alberto Madureira, Carlos Pereira, João Ruella Ramos e António Malva do Vale.

[18] Cf. O Século, de 8 de Março de 1918.

[19] De entre os colaboradores da revista, para além dos já citados, salientaram-se Ezequiel de Campos, Raul Proença, António Arroio, Jaime de Magalhães Lima, Augusto Reis Machado, etc.

[20] «da Espanha, a nossa irmã peninsular, recebemos a cada instante novas demonstrações da sua amizade» dirá na sua mensagem presidencial nas cerimónias de abertura do Congresso, em 21 de Julho de 1918, transcrita em NETO, Roma – A morte do Dr. Sidónio Paes e a actual situação política. 1917 – 1919. Lisboa: Biblioteca do Povo, s/d., p. 32. É admissível que Roma Neto seja o pseudónimo do coronel Carlos Roma Machado de Faria e Maia.

[21] Não deixa de ser curioso o facto de terem sido nomeados três insignes professores de Medicina para as três representações diplomáticas mais significativas na conjuntura de então: Vasconcelos em Londres, Egas Moniz em Madrid e Bettencourt Rodrigues em Paris.

[22] Cf. Na Encruzilhada da Grande Guerraop. cit., p. 194. N’A Época, de 31 de Dezembro de 1919, o dezembrista Cunha e Costa afirmará que «Sidónio foi o único estadista republicano que compreendeu o problema peninsular. […] além da reciprocidade dos interesses económicos fora prevista a recíproca defesa contra quaisquer veleidades de revolução social […]. Não quis o destino que a questão se resolvesse.» Idemibidem.

[23] As forças portuguesas perderam, entre mortos, feridos, desaparecidos e prisioneiros, 327 oficiais e cerca de 7.500 soldados, dos 721 e 20.359, respectivamente, que haviam entrado em combate.

[24] Quando Sidónio Pais foi proclamado Presidente da República, a 9 de Maio, faltava ainda o apuramento da contagem dos votos relativos aos círculos ultramarinos e a uma parte dos açorianos. Mas já tinham sido contados 513.958 votos favoráveis.

[25] Alberto Pinheiro Torres, Francisco Veloso, Alberto Dinis da Fonseca e Lino Netto.

[26] Sob a batuta de Luz de Almeida, à Carbonária sucedera uma nova associação terrorista designada por A Serrania. Cf. Episódios da minha vidaop. cit., p. 295.

[27] Luís de Magalhães dirá depois que «os monárquicos deram ao sidonismo a carne da maioria e ficaram, para si, com o osso da minoria».

[28] Cf. ROCHA MARTINS, Francisco José da – Memórias sobre Sidónio Pais. Lisboa: Sociedade Editorial ABC, 1921, pp. 264-265.

[29] Tamagnini é transferido das Colónias para o Interior, indo Forbes Bessa para o Trabalho. Vasconcelos e Sá, mais um «histórico do 5 de Outubro», entra para o Governo, assumindo as Colónias; igualmente estreantes, Osório de Castro fica com a Justiça, Amílcar Mota, com a Guerra, Espírito Santo Lima, com os Estrangeiros e Mendes do Amaral, com o Comércio.

[30] Machado Santos, por sugestão de Cunha Leal, então director-geral dos Transportes Terrestres, mandara prender os administradores da CP, maioritariamente unionistas. Mas Sidónio não o permitiu pelo que o ministro, sentido-se desautorizado decidiu bater com a porta. A saída inopinada de Machado Santos obrigou Sidónio a atribuir interinamente a pasta ao secretário-de-Estado da Agricultura. Em 14 de Julho fará transitar os serviços das Subsistências para o Interior e o dos Transportes para o Comércio.

[31] Sidónio não podia fazer marcha atrás na participação no teatro de guerra europeu, procurando honrar lealmente o compromisso aliancista. Mas, como facilmente se percebia, havia um sub-reptício desinvestimento no esforço combatente que, muitas vezes, chegou a roçar o desinteresse. Paradigma disso foi o encerramento da revista Portugal na Guerra que desde 1 de Junho de 1917 se editava em Paris, dando nota gráfica dos factos mais relevantes para a vida do CEP. O seu último número, o 8.º, está datado de Janeiro de 1918 e ainda apresenta uma recensão ao livro «intervencionista» de Sebastião de Magalhães Lima, Terras Santas da Liberdade, onde o grão-mestre do GOL expõe a sua ideia sobre a necessidade da entrada de Portugal na «verdadeira guerra», sob o título «Que representa o esforço português?».

[32] N’O Século, de 25 de Janeiro de 1918, defendera que o presidencialismo era mais apropriado à verdadeira separação dos poderes executivo e legislativo do que o parlamentarismo.

[33] Note-se que o condestável Nuno Álvares Pereira fora beatificado em Roma, a 23 de Janeiro de 1918.

[34] Cf. A Cruzada Nacional D. Nuno Álvares Pereiraop. cit., p. 26.