domingo, 4 de dezembro de 2016


Anticomunista, graças a Deus




P. Gonçalo Portocarrero de Almada, Observador, 3 de Dezembro de 2016

Os regimes não se medem pelas suas belezas retóricas mas pelas suas obras. O sonho revolucionário de Fidel, um terrível pesadelo para os cubanos, não o exime das atrocidades perpetradas pelo castrismo.

Apesar de esperada, a morte de Fidel Castro foi uma notícia surpreendente. Talvez porque a invulgar resistência do ancião guerrilheiro tivesse levado a crer que alcançara, como os antigos deuses, o dom da imortalidade. Mas, humano como era, embora não muito, Fidel também tinha os seus dias contados e, a estas horas, já prestou contas ao Criador. Paz à sua alma e, já agora, à nossa também. A sua morte não significa, para o seu país, o fim do comunismo mas, desaparecido o ditador, está mais próxima a tão desejada libertação de Cuba. Neste sentido, é um sinal de esperança.

Apesar de decorrida uma semana sobre a sua morte, continuam as inevitáveis reacções à sua vida e acção política, em catadupa de declarações mais ou menos hipócritas, ou mais ou menos comprometedoramente envergonhadas. É sabido que, no que se refere aos ditadores falecidos, a esquerda é como aquele detergente que lava duas vezes mais branco. A imprensa, enquanto por um lado diaboliza Adolf Hitler e Augusto Pinochet; pelo outro absolve e idealiza as atrocidades de Che Guevara e de Fidel Castro … enfim, o costume.

Não vale a pena insistir nas atrocidades protagonizadas por Fidel Castro, ou por ele consentidas, porque são já sobejamente conhecidas e foram, em sua vida, denunciadas pelos Repórteres sem Fronteiras (O livro negro de Cuba, prefácio e introdução de José Manuel Fernandes, Aletheia, 2005). Mas vale a pena retirar uma conclusão a que nem todos se atrevem: a natureza essencialmente antidemocrática da ideologia comunista.

Há quem distinga a teoria da prática comunista: desculpam a realidade ditatorial dos regimes comunistas, à conta do alegado altruísmo do marxismo-leninismo. Uma atitude tão incoerente como seria condenar Hitler, mas ressalvando o nacional-socialismo. Os regimes políticos não se medem pelos seus encantos retóricos, mas pelas obras. O indiscutível ideal patriótico de Hitler não o desculpa dos crimes do nazismo, do mesmo modo como o sonho revolucionário de Fidel, que foi um terrível pesadelo para milhares de cubanos, o não exime das atrocidades perpetradas pelo castrismo. Como se costuma dizer, de boas intenções está o inferno cheio.

O nazismo não foi apenas um fracasso político mas, sobretudo, uma aberração ideológica. O comunismo não é apenas uma prática que nunca resultou, nem sequer economicamente, mas também uma ideologia intrinsecamente contrária à liberdade e à dignidade humana. Ou seja, não se pode ser comunista e democrata, nem humanista, como aliás a história não se cansa de provar e a trágica vida de Fidel Castro, mais uma vez, confirmou. Considerar o marxismo-leninismo como um regime democrático é já um embuste da propaganda comunista.

Mas mesmo sabendo, como ninguém minimamente honesto pode hoje ignorar, que o comunismo é uma ideologia per se antidemocrática, poucos são os que ousam dizê-lo. Todos os democratas são unânimes em excluir, em absoluto, qualquer regime fascista ou nazi mas, paradoxalmente, alguns ainda toleram o comunismo, que é analogamente antidemocrático. Ninguém tem qualquer pejo em se afirmar, sem tibiezas, antifascista, mas – muito embora seja evidente que um verdadeiro democrata não pode, sem cair em contradição, deixar de ser anticomunista – poucos são os que têm a coragem de o assumir. Quanto muito, alguns mais afoitos dirão que não são comunistas, ou que são não comunistas, mas não anticomunistas, porque uma tal afirmação parece relevar radicalismo e cheira a extremismo fascista, ou coisa que o valha. Contudo, o mesmo não se verifica quando alguém se define, sem rebuço, como antifascista, ou antinazi…

Marx e Engels invocaram a história como o garante da inevitabilidade das suas previsões políticas e económicas, mas a história não só não confirmou os seus prognósticos como os desmentiu categoricamente. Mais ainda, a história veio dar razão ao juízo profético da Igreja católica que, pela encíclica Qui pluribus, já em 1846 condenou o comunismo, precisamente por ser contrário à liberdade humana, à justiça social e ao bem comum.

Foi pena que o mundo ocidental não tivesse ouvido a voz autorizada do beato
Pio IX e de todos os papas que lhe sucederam e que também condenaram, sem cobardes ambiguidades, o comunismo. Se se tivesse feito caso ao magistério da Igreja, hoje ninguém deploraria os muitos milhares de vítimas de meio século de ditadura comunista em Cuba. E, no mundo inteiro, haveria menos cem milhões de vítimas a lamentar.





quarta-feira, 30 de novembro de 2016


Porque Cuba se chama Cuba




Heduíno Gomes

D. João II, através de navegações secretas, havia ficado a conhecer a geografia e verificou que o Tratado de Alcáçovas não nos convinha nada...Então, para convencer os reis de Espanha a aceitar o Tratado de Tordesilhas, precisava de fazê-los acreditar que poderiam chegar à Índia navegando para Ocidente.

Tratou pois de enviar o seu primo Salvador Fernandes Zarco como espião junto dos reis de Espanha, e montar assim a primeira grande operação de desinformação à escala global que deixa os especialistas do KGB a léguas de distância...

Salvador Fernandes Zarco era filho de D. Isabel Perestrelo (filha do descobridor da Madeira) e de D. Fernando, Duque de Beja (este era irmão de D. Afonso V, e tio de D. João II, e pai da Rainha D. Leonor e do D. Manuel I). Portanto, Salvador Fernandes Zarco era primo de D. João II e meio-irmão da Rainha D. Leonor e do D. Manuel I.

Então lá vai o Salvador a caminho da corte de Espanha, com as tábuas de Abraão Zacuto no bolso (informação científica altamente secreta que D. João II lhe deu para se orientar correctamente no Atlântico), dizendo ser genovês e chamar-se Cristovão Colon e a vender a ideia de chegar à Índia navegando para Ocidente...



Os reis de Espanha embarcaram na patranha e promoveram a viagem. Salvador Fernandes Zarco regressou da América dizendo que tinha chegado à Índia (é por isso que hoje os índios assim se chamam...) e os reis de Espanha prontificaram-se a assinar o Tratado de Tordesilhas. E assim estariam a enganar um dos nossos maiores de todos os tempos, D. João II... Ah, ah!

Um pormenor interessante. O papa, como mediador na contenda, propôs como linha divisória o meridiano de Cabo Verde. Mas D. João II, que conhecia a geografia e queria sacar o Brasil sem perder o Oriente, exigiu que o meridiano passasse a 370 léguas mais para Oeste... 370! Não eram 300 nem 400!

Nas suas andanças por aquelas bandas da América central, Salvador Fernandes Zarco foi dando como nomes àquelas terras os nomes da sua região natal. Ele nasceu em Faro, pequena aldeia perto da Cuba, no Baixo-Alentejo, a 5 km desta e a 18 km de Beja. Aquela ilha levou com o nome de Cuba e um dos seus locais o nome de Faro.

Eis porque o Castro é de Cuba — e não da Cuba.

É por esta razão que, como se vê no filme 1492, o chamado «Cristovão Colon» (que nunca assinou «Colombo»!), ao regressar da América, antes de ir para Sevilha contar aos reis de Espanha que tinha encontrado a «Índia», vai a Santarém fazer o relatório ao Príncipe Perfeito: missão cumprida!







D. Athanasius Schneider em defesa dos 4 Cardeais


«Nada podemos fazer contra a Verdade, mas somente a favor desta» (2 Cor 13, 8).
Uma voz profética de quatro Cardeais da Santa Igreja Católica Romana

Athanasius Schneider,

Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Santa Maria em Astana

24 de Novembro de 2016

Sua Excelência Reverendíssima, Msgr. Athanasius Schneider escreveu o seguinte texto para apoiar os 4 Cardeais que pediram ao Papa Francisco que lhes esclarecesse 5 dúvidas (dubia) sobre a aplicação pastoral da Exortação Apostólica «Amoris Laetitia»:

Movidos por uma «profunda preocupação pastoral», quatro Cardeais da Santa Igreja Católica Apostólica Romana – Sua Eminência Joachim Meisner, Arcebispo Emérito de Colónia (Alemanha), Sua Eminência Carlo Caffarra, Arcebispo Emérito de Bolonha (Itália), Sua Eminência Raymond Leo Burke, Patrono da Soberana Ordem Militar de Malta, e Sua Eminência Walter Brandmüller, Presidente Emérito do Pontifício Comité para as Ciências Históricas – publicaram, a 14 de Novembro de 2016, um texto com cinco questões – chamadas dubia (em latim, «dúvidas») – que, a 19 de Setembro de 2016, juntamente com uma carta, tinham enviado ao Santo Padre e ao Cardeal Gerhard Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

No texto os Cardeais pedem ao Papa Francisco para esclarecer a «grave desorientação e grande confusão» acerca da interpretação e aplicação prática, particularmente do capítulo VIII, da Exortação Apostólica Amoris Laetitia, e as suas passagens relacionadas com a admissão de divorciados recasados aos sacramentos e ao ensino moral da Igreja.

Na sua declaração intitulada «Procurando clareza: alguns nós por resolver em Amoris Laetitia», os Cardeais afirmam que para «muitos – bispos, párocos, e fiéis –, estes parágrafos fazem alusão, ou ensinam explicitamente, uma mudança da disciplina da Igreja a respeito dos divorciados que vivem numa nova união».

Ao dizê-lo, os Cardeais meramente afirmaram factos reais na vida da Igreja. Esses factos são demonstrados pelas orientações pastorais a cargo de diversas Dioceses e por declarações públicas de alguns Bispos e Cardeais, que afirmam que, em alguns casos, católicos divorciados recasados podem ser admitidos à Sagrada Comunhão, embora continuem a gozar dos direitos reservados pela Lei Divina a esposos validamente casados.

Ao publicar um apelo por clareza numa matéria que toca a Verdade e a Santidade simultaneamente de três sacramentos – Matrimónio, Confissão e Eucaristia – os quatro Cardeais apenas cumpriram o seu dever básico enquanto Bispos e Cardeais, que consiste em contribuir activamente a fim de que a revelação transmitida pelos Apóstolos possa ser sagradamente guardada e fielmente interpretada.

Foi, especialmente, o Concílio Vaticano II que recordou todos os membros do colégio dos bispos, enquanto sucessores dos apóstolos, da sua obrigação, «por instituição e preceito de Cristo, à solicitude sobre toda a Igreja, a qual, embora não se exerça por um acto de jurisdição, concorre, contudo, grandemente para o bem da Igreja universal. Todos os Bispos devem, com efeito, promover e defender a unidade da fé e disciplina comum a toda a Igreja» (Lumen gentium, 23; cf. também Christus Dominus, 5-6).

Ao fazer um apelo público ao Papa, Bispos e Cardeais deveriam ser movidos por uma genuína afeição colegial pelo Sucessor de Pedro e Vigário de Cristo na terra, na esteira do ensinamento do Concílio Vaticano II (cf. Lumen gentium, 22); ao fazê-lo, devem render «serviço ao ministério primacial» do Papa (cf. Directório para o Ministério Pastoral dos Bispos, 13).

Toda a Igreja, nos nossos dias, deve reflectir sobre o facto de que o Espírito Santo não inspirou em vão São Paulo a escrever na carta aos Gálatas sobre o incidente da sua correcção pública a Pedro. Deve-se confiar que o Papa Francisco aceitará esse apelo público de quatro Cardeais no espírito do Apóstolo Pedro, quando São Paulo o corrigiu fraternalmente, para o bem de toda a Igreja.

Possam as palavras do grande doutor da Igreja, São Tomás de Aquino, iluminar e confortar-nos a todos: «Correndo iminente perigo a fé, os súbditos devem advertir os prelados, mesmo publicamente. Por isso, São Paulo, súbdito de São Pedro, repreendeu-o em público, por causa do perigo iminente de escândalo para a fé. E, assim, diz a Glosa de Santo Agostinho: ‘O próprio Pedro deu aos maiores o exemplo de se porventura desviarem do caminho recto, não se dignem ser repreendidos mesmo pelos inferiores’» (Suma Teológica, II-II, q. 33, ad 2).

O Papa Francisco, frequentemente, clama por um franco e destemido diálogo entre todos os membros da Igreja em matérias relacionadas ao bem espiritual das almas. Na Exortação Apostólica Amoris Laetitia, o Papa fala da «necessidade de continuar a aprofundar, com liberdade, algumas questões doutrinais, morais, espirituais e pastorais. A reflexão dos pastores e teólogos, se for fiel à Igreja, honesta, realista e criativa, ajudar-nos-á a alcançar uma maior clareza» (n. 2). Ademais, o relacionamento em todos os níveis na Igreja deve ser livre de um clima de medo e intimidação, como pediu o Papa Francisco em vários dos seus pronunciamentos.

À luz destes pronunciamentos do Papa Francisco, e do princípio do diálogo e aceitação da legítima pluralidade de opiniões promovido pelos documentos do Concílio Vaticano II, as reacções incomumente violentas e intolerantes provenientes de alguns Bispos e Cardeais, contra o calmo e circunspecto apelo de quatro Cardeais, causa enorme perplexidade. De entre essas reacções intolerantes podem-se ler afirmações como: os quatro Cardeais são tolos, ingénuos, cismáticos, heréticos, e mesmo comparáveis aos hereges arianos.

Esses julgamentos, claramente sem misericórdia, revelam não só intolerância, recusa ao diálogo e ira irracional, mas demonstram também uma capitulação à impossibilidade de dizer a Verdade, uma capitulação ao relativismo doutrinal e prático, na fé e na vida. As reacções clericais mencionadas contra a voz profética de quatro Cardeais ostentam, em última análise, impotência diante da Verdade, que inquieta e importuna a aparentemente pacífica ambiguidade desses críticos do clero.

As reacções negativas à declaração pública dos quatro Cardeais assemelha-se à confusão generalizada da crise Ariana no século IV. É útil citar, na situação de confusão doutrinal dos nossos dias, algumas afirmações de Santo Hilário de Poitiers, o «Atanásio do Ocidente».

«Vós [os bispos da Gália], que ainda permaneceis juntos de mim fiéis a Cristo, não cedais quando ameaçados com a investida da heresia; e agora, ao encontrar essa investida, rompeis toda a sua violência. Sim, irmãos, vós conquistastes, para a abundante alegria daqueles que compartilham a vossa fé: e a vossa inalterada constância conquistou a dupla glória de manter uma consciência pura e dar um exemplo de autoridade» (Hil. De Syn., 3).

«A vossa fé invencível mantém a honrosa distinção de cioso valor e, contentada por repudiar a acção astuta, vaga ou hesitante, seguramente obedece em Cristo, preservando a profissão da sua liberdade. Pois, desde que sofremos todos profunda e penosa dor pelas acções dos iníquos contra Deus, apenas dentro das nossas fronteiras pode ser encontrada a comunhão em Cristo, a partir do momento em que a Igreja passou a ser atribulada por perturbações, como o exílio dos bispos, a deposição dos padres, a intimidação do povo, a ameaça à fé, e a definição do significado da doutrina de Cristo por força e vontade humana. Vossa resoluta fé não pretende ignorar esses factos ou professar que se possa tolerá-los, notando que, por um assentimento enganoso, ela se veria diante das grades da consciência» (Hil. De Syn., 4).

«Hei dito o que eu mesmo creio, consciente de que era meu dever como soldado ao serviço da Igreja, segundo o ensinamento do Evangelho, o enviar-lhes por estas cartas a voz do ofício que sustento em Jesus Cristo. Corresponde a vós discutir, prover e actuar, e que possais guardar com corações zelosos a fidelidade inviolável que mantendes, e que continueis sustentando o que sustentais» (Hil De Syn., 92).

As seguintes palavras de São Basílio Magno, dirigidas aos bispos latinos, podem ser aplicadas em certos aspectos à situação daqueles que em nossos dias solicitam clareza doutrinal, incluindo os quatro cardeais: «Um único delito que hoje em dia será severamente castigado é o de manter cuidadosamente as tradições dos nossos pais na fé. Não estamos sendo atacados por riquezas, glória ou benefícios temporais. Descemos ao campo de batalha para lutar por a nossa herança comum, pelo grande tesouro da fé recebido dos nossos pais. Aflijam-se connosco todos que amam os seus irmãos, pelo silêncio dos homens da verdadeira religião, pela abertura dos lábios ousados e blasfemos de todos os que pronunciam injustiças contra Deus, e pelos pilares da fé sendo destruídos. Nós, cuja insignificância há permitido que passemos ignorados, e estamos privados do nosso direito de falar livremente» (Ep. 243, 2.4).

Hoje, estes bispos e cardeais que solicitam clareza e que intentam cumprir o seu dever guardando santa e fielmente a Revelação Divina transmitida em relação aos sacramentos do Matrimónio e da Eucaristia, já não estão exilados como o estavam os bispos da Niceia durante a crise ariana. Ao contrário do tempo da crise ariana, tal como escreveu em 1973 Rudolf Graber, bispo de Ratisbona, hoje o exílio dos bispos é substituído por estratégias para silenciá-los e por campanhas de difamação (Cf. Athanasius und die Kirche unserer Zeit, Abensberg 1973, p. 23).

Outro campeão da fé católica durante a crise ariana foi São Gregório Nazianzeno. Ele escreveu a seguinte descrição do comportamento da maioria dos pastores da Igreja daquele tempo. Essas palavras do grande doutor da Igreja deveriam ser uma advertência salutar para os bispos de todos os tempos: «Certamente os pastores agiram como insensatos, porque, salvo um número muito reduzido – que resistiu por a sua virtude, mas que foi desprezado por a sua insignificância, e que havia de restar como uma semente ou raiz de onde renascesse o novo Israel sob o influxo do Espírito Santo –, todos os outros cederam às circunstâncias, com a única diferença de que uns sucumbiram de imediato e outros mais tarde, uns estiveram na linha da frente dos campeões e chefes da impiedade, e outros uniram-se às filas dos seus soldados na batalha, vencidos pelo medo, pelo interesse, pela adulação ou, o que é mais inexcusável, por sua própria ignorância» (Orat. 21, 24).

Quando no ano de 357, o Papa Libério assinou uma das denominadas fórmulas de Sirmium, na qual descartava deliberadamente a expressão dogmaticamente definida de «homoousios», e excomungou Santo Atanásio para ficar em paz e harmonia com os bispos arianos e semi-arianos do leste, alguns fiéis católicos e bispos, especialmente Santo Hilário de Poitiers, escandalizaram-se profundamente.

Santo Hilário transmitiu a carta que o Papa Libério escreveu aos bispos orientais, anunciando a aceitação da fórmula de Sirmium e a excomunhão de Santo Atanásio. Com grande dor e consternação, Santo Hilário agregou à carta, numa espécie de desesperação, a frase: «Anathema tibi a me dictum, praevaricator Liberi» («Eu te digo ‘anátema’, prevaricador Libério»), (cf. Denzinger-Schönmetzer, n.º 141). O Papa Libério queria paz e harmonia a todo custo, incluso às expensas da Verdade Divina. Na sua carta aos bispos heterodoxos latinos Ursácio, Valente e Germínio, anunciando-lhes as decisões acima mencionadas, escreveu que preferia antes paz e harmonia do que o próprio martírio (cf. Denzinger-Schönmetzer, n.º 142).

Em que contraste dramático jazia o comportamento do Papa Libério frente à seguinte convicção de Santo Hilário de Poitiers: «Não conseguimos paz às custas da Verdade, fazendo concessões para adquirir a fama de tolerantes. Conseguimos paz lutando legitimamente segundo as regras do Espírito Santo. Há um perigo em aliar-se secretamente com a impiedade que se adorna com o formoso nome da paz» (Hil. Ad Const., 2, 6, 2).

O beato John Henry Newman falou sobre esses lamentáveis e inusuais feitos com a seguinte afirmação sábia e equilibrada: «Se bem seja historicamente certo, não é de nenhuma maneira doutrinalmente falso que um papa, como doutor privado, e muito mais os bispos, quando não ensinam formalmente, possam errar, tal como vemos que erraram no século quarto. O papa Libério podia assinar a fórmula Eusebiana em Sirmium, e a massa dos bispos em Rimini ou outro lugar, e apesar desses erros continuar sendo infalível nas suas decisões ex cathedra.» (The Arians of the Fourth Century, London, 1876, p. 465).

Os quatro cardeais, com a sua voz profética, pedindo clareza doutrinária e pastoral, têm um grande mérito diante das suas próprias consciências, diante da história, e diante dos inumeráveis simples fiéis católicos dos nossos dias, empurrados para a periferia eclesial pela sua fidelidade aos ensinamentos de Jesus Cristo sobre a indissolubilidade do Matrimónio. Mas, sobretudo, os quatro cardeais têm um grande mérito aos olhos de Jesus Cristo. Devido à coragem das suas palavras, os seus nomes brilharão resplandecentes no dia do Juízo Final. Eles obedeceram à voz das suas consciências, recordando o que dissera São Paulo: «Nada podemos fazer contra a Verdade, mas somente a favor desta» (2 Cor 13, 8). Seguramente, no Juízo Final, os já mencionados críticos dos quatro cardeais – na sua maioria clérigos – não terão uma resposta fácil a dar pelo seu ataque violento ao justo, valioso e meritório acto destes quatro membros do Sagrado Colégio Cardinalício.

As seguintes palavras inspiradas pelo Espírito Santo retêm o seu valor profético, especialmente diante da crescente confusão doutrinal e prática a respeito do sacramento do Matrimónio nos nossos dias: «Porque virá um tempo em que os homens não suportarão mais a sã doutrina, mas sim, com ânsias de ouvir novidades, se darão mestres que agradem a sua concupiscência. Apartarão o ouvido da Verdade, para voltá-lo às fábulas. Por tua parte, sê sóbrio em tudo, suporta o adverso, faz obra de evangelista, cumpre bem o teu ministério» (2 Tim 4, 3-5).

Que todos aqueles que, nos nossos dias, levam ainda a sério os seus votos baptismais e as suas promessas sacerdotais e episcopais, recebam a fortaleza e a graça de Deus para reiterar com Santo Hilário as palavras: «Que fique eu para sempre no exílio, desde que a Verdade comece a pregar-se outra vez!» (De Syn., 78). Desejamos de todo o coração essa fortaleza e graça aos quatro cardeais, assim como aos que os criticam.


(Tradução: Senza Pagare)





terça-feira, 29 de novembro de 2016


Portugal na Ibéria




Repensar Portugal

A posição de Portugal na Ibéria deve ser vista à luz de vários factores.

Primeiro. Apenas uma forte identidade como a portu­guesa, fruto das parti­cularidades do seu povo e de novecen­tos anos de história rica de êxitos, poderia manter a sua indepen­dência face a um vizinho cobiçoso, militarmente mais po­deroso e ameaçador.

Segundo. O Estado espanhol, tutelado por Castela, per­manece um arqui-inimigo da independência portuguesa, ape­sar de hoje ser obrigado a agir de forma própria no quadro interna­cional actual, que já não lhe permite as veleidades militares de ou­trora, a que aliás assistimos até mesmo no século XX.

Terceiro. A luta dos movimentos independentistas das nações ibéricas hoje submetidas a Castela previsivelmente conduzirá, a prazo, ao desman­telamento do Estado espa­nhol, acontecimento apenas protelado pela ainda manuten­ção do regime monárquico, entretanto já posto em causa.

Quarto. A ultrapassagem económica de Portugal pela Espanha como consequência do acidente histórico do 25 de Abril de 1974 pode ser apenas um episódio conjuntural, dependendo a recolocação de Portugal na dianteira exclu­si­vamente das políticas portuguesas serem adequa­das, isto é, dependendo exclu­si­vamente dos Portugueses.

Quinto. O actual adiantamento conjuntural da Espanha se­duz alguns portugueses e é utilizado como isco por co­mer­­ciantes ávi­dos e sem valores patrióticos, tecnocratas apátridas e políticos e in­telec­tuais ven­didos a inte­resses castelhanos, que procuram camuflar os seus interesses materiais com variantes do velho ibe­rismo.

Sexto. A integração de Portugal e do Estado espanhol na União Europeia não significa de modo nenhum o desa­parecimento das fronteiras entre os dois estados, como pretendem falacio­samente os hiper-europeístas internos, com interesses co­merciais ou políticos, e os seus seguidores inconscientes.


Num momento em que se adivinha o desman­telamento do Estado espanhol, tornam-se visivelmente irrealistas as aspirações e a propaganda para realizar o sonho unifi­cador iberista de alguns. No entanto, o neo-iberismo, hoje mais de cariz mercanti­lista do que político, exerce sobre alguns responsáveis políticos portugueses, se não um certo fascínio, pelo menos uma influência inibidora dos seus deveres de Estado no relacionamento com o Estado espa­nhol, no­meadamente no cenário europeu.

Hoje, no cenário das instituições europeias, joga-se em grande parte não apenas o futuro de Portugal mas também as relações entre Portugal e o Estado espanhol. Aí, tal como ontem em Aljubarrota e Montes Claros, os representantes de Portugal devem demonstrar grande consciência e gran­de firmeza na defesa dos interesses portugue­ses.

O Estado espanhol ocupa ilegalmente as terras portu­guesas de Olivença e procura fazer cair no esquecimento o assunto. Portugal deve utilizar todas as tribunas interna­cionais à sua disposição, no­meadamente as insti­tuições europeias, a NATO e as Nações Unidas, para fazer valer os seus direitos e obter a reso­lução deste problema pendente.

Das previsíveis e inevitáveis mudanças profundas nas estruturas de Estado peninsulares resultará uma maior influência por­tuguesa no contexto ibérico. Com essa trans­formação política, também a língua castelhana per­derá influência na Europa e no mun­do e, consequente­mente, a língua portuguesa ganhará uma melhor posição relativa.






segunda-feira, 28 de novembro de 2016


A propósito de Olivença e da visita do novo Filipe


Declaração do Grupo dos Amigos de Olivença


Por ocasião da visita a Portugal do Chefe de Estado de Espanha, Sua Majestade o Rei Filipe VI, o Grupo dos Amigos de Olivença, torna público o seguinte:

A Questão de Olivença, inquestionavelmente presente na realidade política luso-espanhola, continua por resolver, uma vez que Portugal não reconhece a soberania de Espanha sobre o território e considera o mesmo, de jure, português. Aliás, o Governo português, conforme o comando constitucional, tem reafirmado publicamente que «mantém a posição conhecida quanto à delimitação das fronteiras do território nacional» e que «Olivença é território português».

O litígio à volta da soberania de Olivença, propiciando, pela sua natureza, desconfiança e reserva entre os dois Estados, tem efeitos reais e negativos no seu relacionamento. Se o confronto se evidencia em episódios «menores», também é certo que muitos dos atritos e dificuldades verificados em áreas relevantes da política bilateral terão causa na persistência da Questão de Olivença.

Porque uma política de boa vizinhança entre os dois Estados não pode ser construída sobre equívocos e ressentimentos, sendo escusada, inadmissível e insustentável a tentativa de esconder a existência política da Questão de Olivença e os prejuízos que ela traz ao relacionamento peninsular, impõe-se que a mesma seja inscrita — com natural frontalidade e sem subterfúgios — na agenda diplomática luso-espanhola.

Nas circunstâncias actuais, em que se procura aprofundar essa visão de amizade fraterna entre os dois povos, assente numa amizade antiga e por conseguinte experimentada, exigente e desafiadora, e integrando Portugal e Espanha os mesmos espaços políticos, económicos e militares, com salutar aproximação e colaboração em vastas áreas, são propícias a que ambos os Estados assumam que é chegado o momento de discutir, de forma adequada, a Questão de Olivença e de dar cumprimento à legalidade e ao Direito Internacional.

O Grupo dos Amigos de Olivença, com a legitimidade que lhe conferem 78 anos de esforços pela retrocessão do território, lança um desafio aos Governantes dos dois Estados para que, no respeito pela História, pela Cultura e pelo Direito, dêem início a conversações que conduzam à solução justa do litígio.

O Grupo dos Amigos de Olivença, na véspera do 1.º de Dezembro, dia em que se assinala a Restauração da Independência Nacional, obra do glorioso e unânime esforço colectivo do povo português, fazendo seus os anseios de tantos e tantos portugueses, apela ao Governo de Portugal para que, resolutamente, leve por diante a sustentação dos direitos de Portugal. 

O Grupo dos Amigos de Olivença, apela a todos os cidadãos para que, no pleno exercício dos seus direitos, manifestem o seu apoio à defesa de Olivença Portuguesa.


OLIVENÇA É TERRA PORTUGUESA!

VIVA OLIVENÇA PORTUGUESA!





«Eu matei Castro — assinado: Deus»


Daniel Martins, IPCO, 26 de Novembro de 2016

Morre em Havana, aos 90 anos, o ditador comunista Fidel Castro. Perto de um século de tirania, de chantagem ao mundo Ocidental, de perseguição e matança de tantos e tantos que pereceram no seu paredón bradando «Viva Cristo Rei».

A sua morte faz lembrar a frase do ímpio filósofo Nietsche, cujos seguidores inscreveram no seu túmulo, logo após a sua morte: «Eu matei Deus – ass. Nietsche». Dias depois, um católico, não sem uma saborosa pitada de ironia, escreveu ao lado um epitáfio irrefutável e muito mais apropriado: «Eu matei Nietsche – ass. Deus». Contra factos, não há argumentos… Naquele lugar, jazia o cadáver de alguém que julgava ter morto, na mente dos homens, a ideia de um Deus transcendente e todo-poderoso.

Desejamos de todo o coração que, vencidas as convulsões que nos ameaçam de todas as partes, a Revolução, na qual Castro teve um infame papel, morra de uma vez por todas. É o que desejamos, motivo pelo qual lutamos, tendo Deus do nosso lado.




quarta-feira, 23 de novembro de 2016


As sucessivas derrotas políticas

de Bergoglio exprimem claramente

a sua fraca influência moral no mundo




FratresInUnum

Bergoglio perdeu no plebiscito que excluiu da política da Colômbia os criminosos das FARC.

Bergoglio perdeu na Hungria, que continuou com a política restritiva aos imigrantes islâmicos, protegidos dele.

Bergoglio perdeu na Argentina, que derrotou Kirchner, beijada
e paparicada por ele.

Bergoglio perdeu no Brasil, com o impeachment da Dilma, momento triste para ele, que causou o tristíssimo cancelamento da viagem dele.

E Bergoglio perdeu nos Estados Unidos, onde acaba de ser eleito Trump, que ele, fora das suas atribuições e imprudentemente, atacou.

Na entrevista do vôo de regresso da América, Bergoglio declarou sobre Trump:

«Uma pessoa que pensa em construir muros, quem quer que seja, não é cristão. Este não é o Evangelho», disse Bergoglio aludindo às declarações do candidato à presidência dos EUA que planeia construir 2 500 km de muro ao longo da fronteira entre os EUA e o México e deportar 10 milhões de imigrantes ilegais.

Os católicos americanos devem votar nele? «Eu não me meto, apenas digo que este homem não é cristão, se ele diz essas coisas. É preciso ver se ele disse isso ou não. Sobre isso dou-lhe o benefício da dúvida.»

Por sua vez, Trump não o deixou sem resposta:

«O Papa é uma figura muito política. Para um líder religioso, pôr em dúvida a fé de uma pessoa é vergonhoso. Eu sou orgulhoso de ser cristão e como Presidente não vou permitir que a Cristandade continue a ser constantemente atacada e enfraquecida, como está acontecendo com o actual Presidente norte-americano».

E na sua página do Facebook, Donald Trump respondeu assim a Bergoglio:

«Se e quando o Vaticano for atacado pelo ISIS, que, como todos sabem, é o troféu mais cobiçado pelo ISIS, eu posso assegurar-lhes que o Papa teria desejado e rezado para que Donald Trump fosse o Presidente, porque comigo isso não teria acontecido. O ISIS já teria sido erradicado, ao contrário do que está a acontecer agora com os nossos políticos, que são tudo conversa e nada de acção».

Fazendo bem as contas...

Pois bem, vê-se que a influência de Bergoglio sobre o mundo é mínima, ao contrário do que pretendem os progressistas, cuja insistência em propagandeá-la apenas revela a sua real irrelevância moral. Um verdadeiro Papa, com autoridade moral, fala por si mesmo, não precisa dessa corte de propagandistas maçónicos. A simpatia que o povo tem por Bergoglio é apenas pela sua figura, pelo personagem apresentado como humilde e simpático. No entanto, sobre o que vai pelo mundo Bergoglio diz o contrário do que dele se esperaria.

Bergoglio anda ao contrário do povo, ao contrário da realidade. Que os bispos acordem. Se eles continuarem pelo mesmo caminho, deixarão a Igreja como apêndice da história, e eles mesmos se tornarão cada dia mais inócuos, distantes dos fiéis e emudecidos pela vida.





terça-feira, 22 de novembro de 2016


«Lutero representa a alma da modernidade

na sua luta frontal contra a Igreja católica»


En un texto claro y contundente, la historiadora Angela Pellicciari
presenta al Lutero real, sin edulcoraciones impuestas por la conveniencia.


Carmelo López-Arias, ReligiõnenLibertad, 21 de Novembro de 2016

La conmemoración del quinto centenario de la Reforma protestante ha reabierto el interés por la personalidad histórica de Martín Lutero (1483-1546). El 31 de octubre de 1517, el entonces monje agustino clavó en la puerta de la iglesia del palacio de Wittenberg sus célebres 95 tesis, dando origen a una revolución que cambió la faz de Europa.

Angela Pellicciari, doctora en Historia Eclesiástica y profesora de Historia de la Iglesia en los seminarios Redemptoris Mater, acaba de publicar en España su libro La verdad sobre Lutero (Voz de Papel), donde examina la vida y obra del reformador.

Curiosamente, su interés por la figura de Lutero surgió a raíz de sus estudios sobre otro fenómeno histórico de gran relevancia para la Iglesia, el Risorgimento, que dio origen a la unidad de Italia y acabó con los Estados Pontificios, un periodo histórico al que ha dedicado ya varios libros.

Antes de explicarnos por qué esa línea de trabajo le llevó a Lutero, ¿puede sintetizarnos qué fue el Risorgimento?

Es el periodo a mediados del siglo XIX en el que la península italiana, hasta entonces dividida en muchos estados pero perfectamente unida desde un punto de vista cultural y religioso, se unificó políticamente bajo los Saboya. El Risorgimento se realizó oficialmente en nombre de la moral, del progreso, de la constitución y de la libertad.

¿Por qué dice «oficialmente»? ¿No fue así?

En realidad, por primera vez en su historia milenaria la Iglesia fue reducida a una colonia. Colonia de las potencias liberales anticatólicas. Las cosas sucedieron exactamente al revés de como se contaron y siguen contándose.

¿Y cómo sucedieron?

En vez de la libertad, triunfó la «tiranía liberal». En nombre de la constitución, la sistemática violación de todos los artículos de la constitución, comenzando por el primero, que definía la religión católica como única religión del Estado. En nombre del progreso, de la libertad y de la civilización, se desató una guerra frontal contra la identidad italiana, basada desde hace casi dos milenios en la difusión capilar de la fe católica. Se suprimieron todas las órdenes religiosas de la «Iglesia de Estado» (57.493 personas fueron privadas de todo lo que poseían y literalmente arrojadas a la calle) y enormes riquezas culturales, artísticas y económicas terminaron en manos del 1% de la población de fe liberal. La ocupación liberal del Estado provocó una emigración masiva porque la población italiana, por primera vez en su historia, fue reducida a la miseria.

Al Sud, del cantautor italiano Povia, sintetiza en un bello tema
el efecto del
 Risorgimento 
en el antiguo Reino de Nápoles (Dos Sicilias).
Pincha aquí para saber más sobre Povia.

En toda esa historia, ¿cuál fue el proceso que le llevó hasta Lutero?

Del análisis de las mentiras liberales pasé inevitablemente al análisis del fenómeno masónico y de la relación entre el Papado y la masonería. De ahí me elevé hacia atrás hasta el alma de la modernidad con su lucha frontal contra la Iglesia católica, representada por Lutero y por el protestantismo.

Pero ¿no hay una cierta leyenda negra contra Lutero fabricada en la Contrarreforma católica?

No lo creo. Para quien conozca a Lutero, hay poco que inventar para fabricar una leyenda negra: una oposición total entre sus palabras de orden y su concreta acción política; la propaganda del odio anticatólico llevada a cabo con todos los medios, incluidos la calumnia y la mentira; una ferviente defensa de la libertad que, unida a la negación del libre albedrío, conduce a una libertad solo respecto a los principios.

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¿A qué se refiere?

A la negación radical de la afirmación de Jesús: «Dad a Dios lo que es de Dios y al César lo que es del César». Lutero da al César también lo que es de Dios, ¡y lo hace en nombre de Dios! En nombre de la libertad impone el final de los votos religiosos y del matrimonio como sacramento.

¿Hubo un Lutero sinceramente reformador antes del Lutero revolucionario?

Toda la vida pública de Lutero es revolucionaria. Desde el inicio.

¿Desde la escena de Wittenberg en 1517?

De 1517 a 1520 ya está perfectamente delineado el plan revolucionario luterano. Revolucionario, porque no hay nada de reformista en el monje agustino que pretende fundar la identidad alemana sobre el «verdadero Evangelio» predicado por él, fundado sobre el odio al Papa-anticristo y sobre el odio a Roma-Babilonia.

Pero una Reforma de la Iglesia sí era necesaria...

Tras el periodo de la iglesia en Aviñón (1305-1377), con la plaga del nacionalismo, del fiscalismo y de la commenda, y tras el cisma de Occidente (1378-1417), cisma político con el que Francia intenta llevarse la Iglesia a Aviñón, la Iglesia necesita absolutamente una reforma: deben desaparecer el nacionalismo, el fiscalismo y la commenda, que devastan la vida eclesial y de hecho impiden la pastoral.

¿Cómo combatirlos?

Las órdenes religiosas deben volver a la observancia de sus reglas, los obispos deben ocupase de sus diócesis y de la predicación, no deben tener más de un cargo pastoral (basta pensar que en algunos casos los obispos tenían más de doscientas diócesis, y también los párrocos, con el necesario corolario del nombramiento de vicarios y de vicarios de vicarios), deben residir en sus diócesis, deben ser moralmente irreprensibles y cultos... Lo contrario de lo que sucedía en la mayoría de los casos.

¿Y tuvo lugar esa reforma antes de Lutero?

Sí, la Iglesia se reforma.

Pero no en todas partes...

Comienza en Italia por el monasterio de Santa Justina en Padua, donde en 1419 un grupo de monjes venecianos inicia una profunda reforma de la vida religiosa. La reforma tuvo lugar con el apoyo del Papa y se difundió como una mancha de aceite por toda la península. En España la reforma, que precedió en cien años a las decisiones tomadas por el Concilio de Trento, actuó con gran celo y determinación, con gran fe, impulsada por los reyes católicos Fernando de Aragón e Isabel de Castilla, que se casan en 1469 y actúan en estrecha comunión con Roma.

¿Y en Alemania?

También en Alemania, como en todas partes, grandes personalidades, grandes santos, promueven una vida religiosa reformada. Sin embargo, allí la reforma sólo sucedió en forma de manchas de leopardo, en algunas zonas.

¿Por qué?

En Alemania hay una Iglesia imperial, una Iglesia de enorme poder y grandísima riqueza (se considera que poseía una tercera parte de todo el patrimonio nacional), que desde hace más de quinientos años comparte con el emperador el cuidado de la administración de las grandes ciudades y feudos. Los obispos tienen memoria del emperador Otón. En Alemania todos los obispos son nobles, todos provienen de grandes familias, y en consecuencia, el ansia de poder, prestigio y riqueza ocupa un puesto importante en la vida eclesial.

La verdad sobre Lutero se publica en español tras obtener
un gran éxito de ventas y resonancia pública en Italia.

De todos los errores de Lutero, ¿cuáles podrían abandonar más fácilmente los protestantes de hoy?

La violencia de su desprecio antijudío, cuyas horrorosas consecuencias hemos visto. O el retorno a la verdad histórica, apreciando la cultura y la civilización romana... Pero es un proceso difícil, porque la identidad de las naciones protestantes se basa precisamente en el odio antirromano y en un nacionalismo descarnado que ha arruinado la universalidad romana.

Y volviendo al hilo que a usted le llevó a Lutero: ¿qué relación hay entre la Reforma y la Masonería?

Con el «libre examen», esto es, con la libre interpretación de la Biblia por parte de cada fiel, a quien se considera directamente asistido por el Espíritu Santo, Lutero hace imposible el discurso de la verdad teológica: la verdad teológica explota en miles de interpretaciones contradictorias entre sí. El resultado es que la teología ya no es el vértice del saber humano y se considera que sólo los filósofos tienden a la verdad. Unos filósofos que, por primera vez después de muchos siglos, razonan prescindiendo de la Revelación para luego, rápidamente, empezar a filosofar contra la Revelación. Ese saber gnóstico, un saber elitista fabricado por unos pocos desde finales del siglo XVI y durante todo el siglo XVII, aporta al pastor presbiteriano James Anderson las bases filosóficas con las que trazará, en sus Constituciones, las coordinadas esenciales del mundo de las logias.

¿Participaron los protestantes en el Risorgimento?

En Italia los protestantes siempre fueron pocos. Sin embargo, la élite que impone el Risorgimento es una élite gnóstica, liberal-masónica, que para arrancar el catolicismo en Italia intenta (sin conseguirlo) la difusión del protestantismo. Por otro lado, las políticas religiosas, económicas y sociales de los gobiernos liberales son las mismas adoptadas tres siglos antes por los gobiernos protestantes: fin de la libertas Ecclesiae, disolución de las órdenes religiosas, privatización del inmenso patrimonio religioso, cultural, artístico y económico de la nación... La única diferencia entre la revolución italiana y la realizada en el resto de la Europa protestante es que en Italia los Saboya combatieron a la Iglesia en nombre de la Iglesia. Proclamaban ser mejores que los demás por respetar la constitución, cuyo primer artículo [el catolicismo como religión de Estado] no podían contradecir abiertamente.