sexta-feira, 10 de maio de 2013

António Primaldo e 800 mártires
assassinados por mulçumanos
serão canonizados este Domingo


Este Domingo o Papa Francisco presidirá na Praça de São Pedro à Missa de canonização do Beato António Primaldo e dos seus 800 companheiros, martirizados pelos muçulmanos do Império Turco durante a sua incursão na pequena cidade italiana de Otranto, na Apulia, em 29 de Julho de 1480.

António Primaldo é o único nome que se conhece dos oitocentos desconhecidos pescadores, artesãos, pastores e agricultores de Otranto, cujo sangue foi derramado pelo exército muçulmano só porque eram cristãos.

Nesse dia, às primeiras horas da manhã, nas muralhas de Otranto avistou-se no horizonte uma frota de 90 galeras, 15 mahonas e 48 galeotas, com 18 mil soldados a bordo. A armada era comandada pelo paxá Agometh, que estava às ordens de Maomé II, chamado Fatih, o Conquistador, que em 1453 tinha conquistado Bizâncio e agora queria Roma.

Em Junho de 1480 Maomé II retirou o cerco a Rodi, defendida com coragem pelos seus habitantes, e dirigiu a sua frota em direcção ao mar Adriático. Otranto era – e é – a cidade mais oriental da Itália. A importância do seu porto fez com que assumisse o papel de ponte entre o oriente e o ocidente.

Cercado, o castelo converteu-se no refúgio dos habitantes e era defendido somente por 400 soldados que não demoraram em abandonar a cidade deixando os refugiados sozinhos.

Depois de quinze dias de cerco, ao amanhecer de 12 de Agosto, os turcos concentraram o fogo contra um dos pontos mais fracos das muralhas, abriram uma brecha, irromperam nas ruas, massacraram todos os que viram pela frente e chegaram à catedral onde se refugiou boa parte dos habitantes.

Derrubaram a porta e cercaram o Arcebispo Stefano, que estava com os trajes pontificais e com o crucifixo na mão. Ao ser intimado a não falar mais no nome de Cristo, já que desde aquele momento quem mandava era Maomé, o Prelado respondeu exortando os assaltantes à conversão, e por isso foi decapitado.

Entre aqueles heróis houve um de nome António Primaldo, alfaiate de profissão, de idade avançada, que, em nome de todos, afirmou: «Todos acreditam em Jesus Cristo, Filho de Deus, e estamos dispostos a morrer mil vezes por Ele». Agometh decreta a condenação à morte de todos os 800 prisioneiros.

Na manhã seguinte estes foram conduzidos com cordas ao pescoço e com as mãos amarradas  atrás até à colina de Minerva, a poucas centenas de metros fora da cidade. Repetiram todos a profissão de fé e a generosa resposta dada antes; por isso o tirano ordenou que começasse a decapitação e, que primeiro cortassem a cabeça do velho Primaldo.

Ele era motivo de ódio para os muçulmanos porque não deixava de representar-se como apóstolo entre os seus, mais ainda, antes de inclinar a cabeça sobre a rocha, afirmava aos seus companheiros que via o céu aberto e os anjos a encorajá-los; que se mantivessem fortes na fé e que olhassem o céu já aberto para recebê-los.

Ele inclinou-se, a sua cabeça foi cortada, mas o corpo ficou de pé: e apesar dos esforços dos assassinos, permaneceu erguido imóvel, até que todos fossem decapitados.

Este facto teria sido uma lição para a salvação dos muçulmanos. Um só verdugo de nome Berlabei, valorosamente acreditou no milagre e, declarando-se em alta voz cristão, foi também martirizado.

Bento XVI assinou em 20 de Dezembro de 2012 o decreto com o qual se reconhece o milagre graças à intercessão deste grupo de mártires.





quarta-feira, 8 de maio de 2013

Francisco continuará a «operação limpeza»
perante os abusos sexuais, asseguram especialistas


Especialistas assinalaram que a luta do Papa Francisco contra os casos de abusos sexuais contra menores seguirá a mesma linha introduzida por Bento XVI continuando assim com a «operação limpeza».

Até agora, o Papa Francisco já condenou em duas ocasiões os abusos sexuais a menores, uma no dia 5 de Abril deste ano quando solicitou à Congregação para a Doutrina da Fé «actuar com decisão» ante estes casos e outra neste Domingo ao pedir um compromisso «com claridade e coragem».

Em declarações à Europa Press, o professor de Teologia da Universidade de Navarra, Pablo Blanco, referiu que, assim como Bento XVI foi «muito proativo» na luta contra os abusos sexuais, – «talvez o mais urgente e o que mais clamava ao céu» –, o Papa Francisco continuará provavelmente «na mesma direcção» de «purificação» na Igreja.

«Criou-se uma cultura de tolerância zero com estes temas, criaram-se também uns instrumentos jurídicos para erradicá-los; eu não sei se agora é mais ou menos urgente, mas o Papa Francisco quer recordar que não podemos cantar vitória embora tenham sido tomadas muitas medidas nesse sentido, que a necessária purificação tem que seguir em frente, esclarecer de modo definitivo estes temas e acabar com eles», indicou, ao mesmo tempo que precisou que é um problema urgente não só na Igreja, mas também «noutros âmbitos».

Entre os passos que se devem dar perante estes casos, Blanco apontou que a medida número um é sempre «cuidar das vítimas que foram ultrajadas e inclusive traumatizadas» para depois «seguir com o procedimento jurídico que é bastante inexorável». De facto, recordou que «o Parlamento Inglês tomou como modelo e exemplo as medidas que a Igreja Católica assumiu neste âmbito».

Por outro lado, o professor de História da Igreja da Universidade de São Dâmaso, Andrés Martínez, mostrou-se convencido de que o Papa Francisco continuará a linha de «tolerância zero» marcada pelo seu predecessor, algo que se observa não só nas suas últimas declarações como Papa, mas também nos seus pronunciamentos sobre este assunto «nas congregações gerais» dizendo «que era um escândalo para a Igreja».

Sobre o facto de que Bento XVI ter demorado mais de um ano para pronunciar-se publicamente sobre os abusos sexuais frente à rapidez de Francisco, Martínez explicou que se trata de «dois momentos distintos», pois quando Bento XVI foi eleito o processo estava a iniciar-se e era necessário um «tempo de prudência até saber o que é que havia» enquanto que na actualidade já se realizaram todas as investigações.

Martínez indicou que as medidas que têm que adoptar-se perante estes casos têm que ser «sempre preventivas para não chegar ao que se chegou» e, por isso, confia em que se cuidará muito mais da formação nos seminários e ter-se-á «um cuidado extremo» em tudo o que se refere à vida sacerdotal.

Na mesma linha, a catedrática de Direito Eclesial do Estado da Universidade de La Rioja, Ana Vega, considera que, com as suas condenações públicas, o Papa Francisco está dizendo ao mundo graças ao seu «marketing mediático» que tudo o que foi feito nesse sentido por Bento XVI «foi sério».

Para ela, o Bispo Emérito de Roma deu «uma resposta categórica juridicamente» e demonstrou «uma vontade clara de transparência» com intervenções «mais rápidas, mais incisivas e mais eficazes». Igualmente, tem constância de que o Papa Francisco, já como cardeal, foi «duro» com estas condutas apoiando todas as reformas introduzidas pelo seu predecessor.

Entre as reformas que se adoptaram, Vega destacou o facto de que se possa julgar os cardeais, patriarcas e bispos que incorram nestas condutas directamente, o aumento até 20 anos do prazo para a prescrição destas acções e o facto de que possam fazer parte dos tribunais não só sacerdotes mas também leigos.

Para a catedrática, a falta de informação no passado pode ter acontecido devido à forma «tão descentralizada» de organizar a Cúria, algo que fazia com que «a informação pudesse parar em qualquer um dos degraus – a paróquia, a diocese – », mas referiu que as reformas farão com que agora estes casos «saltem directamente para Roma».





domingo, 5 de maio de 2013

A Igreja deve ter coragem
e não deve ser de mornos, diz o Papa


Ao presidir à habitual Missa na manhã de hoje ( 3 de Maio ) na Casa de Santa Marta, o Papa Francisco disse que «quando a Igreja perde a coragem, entra nela uma atmosfera morna. Cristãos mornos, sem coragem... Isso prejudica a Igreja, começam os problemas entre nós: não temos horizonte, não temos coragem, nem a coragem da oração para o céu nem a coragem de anunciar o Evangelho. Somos mornos».

«E devemos ter a coragem de enfrentar as nossas pequenas coisas, os nossos ciúmes, as nossas invejas, o carreirismo, de avançar egoisticamente… Em todas estas coisas porque isto não faz bem à Igreja: A Igreja deve ser corajosa! Todos nós devemos ser corajosos na oração, confiando em Jesus!».




sábado, 4 de maio de 2013

Os «casais» segundo a Rádio Renascença

Nuno Serras Pereira
«É verdadeiramente extraordinário que a autoproclamada, sem pingo de vergonha, rádio católica portuguesa (RR), propriedade do Episcopado português, chame sistematicamente casais àqueles que não o são nem o podem, de facto, ser, contribuindo assim, com inusitado fervor, para a propaganda lgbt.

«Mais inacreditável ainda é a passividade dos prelados portugueses, os quais porventura cuidarão que a publicação de uma nota pastoral sobre a família, aliás bem-feita e com linguagem acessível, é suficiente para se desobrigarem de qualquer outra acção no combate contra este violento vampirismo espiritual e moral. Mas a verdade é que, se puserem de lado as racionalizações autojustificativas e olharem de frente, diante de Deus, as suas consciências saberão muito bem que isso não passa de uma mentira infame. Nem será necessário meditarem atentamente na importantíssima entrevista recente, a propósito de um outro assunto, embora com este relacionado, mas igualmente aplicável neste caso, que o Cardeal Burke concedeu a uma prestigiada agência noticiosa.

«Evidentemente que quando falta o ensinamento insistente, repetido para ser assimilado, o exemplo, o encorajamento e a liderança, andam as ovelhas tresmalhadas, anuindo a tudo o que os lobos vorazes propõem, como meio mais pronto e eficaz para dizimarem facinorosamente o rebanho. Verdadeiramente há pastores que, se não são lobos, imitam muito bem.»




sexta-feira, 3 de maio de 2013

Putin estuda como não permitir
que «casais» invertidos adoptem
crianças russas em França


O presidente russo, Vladimir Putin, pediu esta sexta-feira que se modifiquem os acordos bilaterais em matéria de adopção com a França para evitar que as crianças do seu País sejam entregues a casais invertidos após a aprovação legal das uniões invertidas.

«Precisamos de reagir ao que acontece à nossa volta. Respeitamos os nossos parceiros, mas pedimos que respeitem as nossas tradições culturais, as nossas normas éticas, legislativas e morais», disse Putin citado pelas agências locais.

Putin respondeu assim à proposta apresentada pela presidente da assembleia do enclave báltico de Kaliningrado, Marina Orguíeva, que sugeriu mudanças no acordo com a França para que as crianças russas não sejam adoptadas por casais invertidos.

«Você tem razão (...). Considero que temos motivos para introduzir mudanças no chamado documento. O assunto está em aberto, temos que pensar sobre isso», acrescentou Putin.

O acordo bilateral com a França foi assinado em Novembro de 2011 e ratificado em Julho do ano passado.

A vice-presidente do comité para os Assuntos da Família da Duma Baixa e deputada oficialista, Olga Vatálina, assegurou que para emendar o acordo bilateral com Paris seria suficiente receber a conformidade, por escrito, dos franceses.

«A legalização das uniões invertidas preocupa muito os deputados, que reagiram de maneira sensível perante esta decisão em França e estão categoricamente contra a possibilidade da adopção de crianças russas por parte de famílias do mesmo sexo», assinalou.

O Defensor do Menor, Pável Astájov, que depende directamente do Kremlin, já expressou em várias ocasiões a sua oposição a que os casais invertidos adoptem crianças. O funcionário disse que a Rússia fará tudo o que for possível para impedir que no país se repita a situação da Espanha, Canadá ou França.




quinta-feira, 2 de maio de 2013

O maior perigo para a Igreja
é que seja mundana, diz o Papa


Na homilia da Missa desta manhã (30 de Abril) na Casa Santa Marta, o Papa Francisco disse que quando a Igreja se converte em mundana, por causa do demónio, faz-se incapaz de anunciar o Evangelho e o «escândalo» da Cruz. «Este é o maior perigo!».

Francisco explicou que «pode-se proteger a Igreja, pode-se curar a Igreja e nós devemos fazê-lo com o nosso trabalho; mas é mais importante o que faz o Senhor: Ele é o único que pode olhar cara a cara o maligno e vencê-lo. (…) Se queremos que o príncipe deste mundo não tome a Igreja nas suas mãos, devemos confiá-la ao único que pode vencê-lo». Ele pode levá-la adiante, protegê-la e fazê-la crescer, defendê-la de quem quer que a Igreja se torne mundana. «Este é o maior perigo!».





quarta-feira, 1 de maio de 2013

Quem será o futuro Patriarca de Lisboa…


Nuno Serras Pereira
«Diz um dos periódicos de hoje (30 de Abril de 2013), em primeira página, que o Senhor Bispo do Porto é o preferido para Patriarca de Lisboa. Eu confesso que tenho a maior estima e admiração pelo Senhor D. Manuel Clemente, a quem aliás devo imenso, mas rezo a Deus, apesar de já ter pensado o contrário, que não seja ele.

«O que precisamos é de alguém que saiba governar, tenha mão firme e ortodoxa, seja desassombrado em relação aos princípios inegociáveis, não se deixe lisonjear com adulações, não seja político mas sim Pastor, tenha a coragem de vir para a rua, e o arrojo da verdadeira e completa Misericórdia, com a inteireza de quem sabe, pois é impossível ignorá-lo, que a defesa e promoção da vida e da família são o factor decisivo na Nova Evangelização, isto é, no evangelizar de novo.

«Não saberei dizer se há algum Bispo em Portugal capaz do que digo, mas, se não há, ordene-se. E será seguramente tempo de ser mais rigoroso e responsável nas consultas que a Santa Sé faz em relação aos «episcopáveis». Conheço bem verdadeiros hereges, no rigoroso sentido do termo, que são sistematicamente consultados e santos presbíteros, já anciãos, que nunca o foram… Basta de diabólicos respeitos humanos, de silêncios cobardes e cúmplices. Os tempos são demasiado graves para que nos deixemos afundar nestas areias movediças.»





domingo, 28 de abril de 2013

A Sociedade Portuguesa de Autores
recusa o «Acordo Ortográfico»


A SPA não adopta o novo acordo ortográfico
perante as posições do Brasil e de Angola sobre a matéria


A SPA continuará a utilizar a norma ortográfica antiga nos seus documentos e na comunicação escrita com o exterior, uma vez que o Conselho de Administração considera que este assunto não foi convenientemente resolvido e se encontra longe de estar esclarecido, sobretudo depois de o Brasil ter adiado para 2016 uma decisão final sobre o Acordo Ortográfico e de Angola ter assumido publicamente uma posição contra a entrada em vigor do Acordo.

Assim, considera a SPA que não faz sentido dar como consensualizada a nova norma ortográfica quando o maior país do espaço lusófono (Brasil) e também Angola tomaram posições em diferente sentido. Perante esta evidência, a SPA continuará a utilizar a norma ortográfica anterior ao texto do Acordo, reafirmando a sua reprovação pela forma como este assunto de indiscutível importância cultural e política foi tratado pelo Estado Português, designadamente no período em que o Dr. Luís Amado foi ministro dos Negócios Estrangeiros e que se caracterizou por uma ausência total de contactos com as entidades que deveriam ter sido previamente ouvidas sobre esta matéria, sendo a SPA uma delas. Refira-se que também a Assembleia da República foi subalternizada no processo de debate deste assunto.

O facto de não terem sido levadas em consideração opiniões e contributos que poderiam ter aberto caminho para outro tipo de consenso, prejudicou seriamente todo este processo e deixa Portugal numa posição particularmente embaraçosa, sobretudo se confrontado com as recentes posições do Brasil e de Angola.

Lisboa, 9 de Janeiro de 2013





segunda-feira, 22 de abril de 2013

Argumento irrebatível para «desaplicar» o AO


Ivo Miguel Barroso
1.º – A Resolução do Conselho de Ministros (RCM) n.º 8/2011, de 25-1, mandou aplicar o AO à Administração Pública e a todas as publicações no Diário da República (DR), a partir de 1-1-2012, bem como ao sistema educativo, a partir de Setembro de 2011. Ou seja, a RCM antecipou o fim do prazo de transição (17-9-2016) em 4 anos e 9 meses (!) para a Administração e DR, e em 5 anos para o ensino.

É curioso verificar que a «fonte de obrigatoriedade» no nosso país de «aplicação» do AO seja um «regulamento administrativo» independente, flagrantemente inconstitucional a título orgânico (invade a reserva de lei da AR – art. 165/1, b), da Constituição (CRP)) e formal (não é um decreto regulamentar – art. 112/6). A RCM é aplicável às publicações no DR. Ora, a RCM nunca deverá ser aplicada a actos de órgãos de pessoas colectivas que exercem outras funções jurídicas do Estado diversas da f. administrativa, sob pena de incorrer o grave vício de usurpação de poderes. A RCM não deveria ter sido aplicada nem à AR (exerce a função (f.) legislativa e a política), nem ao PR (f. política), nem aos tribunais (f. jurisdicional); nem a privados (com excepção das escolas particulares).

2.º – A maioria das normas do AO e das Resoluções que o implementam são inconstitucionais.

As pessoas que se queiram informar poderão ver as minutas (funcionários públicos, professores, pais e encarregados de educação, autores, particulares), no grupo «Em acção contra o AO», a que convido todos os anti-acordistas a aderir.

3.º – Em todo o caso, porque explicar as razões de inconstitucionalidade a não juristas pode levantar dúvidas aos superiores hierárquicos, etc., há uma forma, muito simples e eficaz de uma pessoa se eximir a uma «ordem de aplicação» do AO.

Lendo a petição, disponível no grupo «Em acção contra o AO» do Facebook, fica comprovado cientificamente que o AO é violado:

1) pelo conversor «Lince» (oficial, criado pela RCM);

2) pelos restantes instrumentos: Vocabulário Ortográfico do Português (VOP); pelos correctores privados, v. g., da Porto Editora, etc.; e ainda o VOLP brasileiro de 2009 (foi intentada uma acção popular no Brasil, por violar o AO). Este argumento, de o AO ser violado por todos os instrumentos de alegada «aplicação», é irrebatível, demonstrando as contradições de quem é «acordista», mas, ao tentar sê-lo, viola o próprio AO. Logo, ninguém pode utilizar os instrumentos aludidos, sob pena de ilegalidade sui generis, por violação do tratado internacional do AO. Basta alegar isto, para que qualquer pessoa se possa eximir à «aplicação» do AO: não se pode «aplicar» o AO violando-se o próprio AO... Com tanto mais razão, se uma pessoa for favorável ao AO («acordista»), então é que não pode mesmo utilizar o «Lince» nem os correctores; pois estaria a atraiçoar o AO.

4.º – A utilização do «Lince» viola regras elementares de citação das obras, adulterando a sua ortografia original. Viola também o direito ao nome (por ex., o apelido «BaPtista» é mudado para «Batista»).

O VOP também viola o AO (v. audição de Vasco Teixeira, da Porto Editora, no Grupo de Trabalho de Acompanhamento do AO, na 8.ª Comissão da AR).

5.º – Note-se que o AO difere do que designo por «acordês»; ou seja, dos instrumentos que, alegadamente, o «aplicam», mas que, na verdade, o violam. A «criatura» rebela-se contra o criador. O exposto deve-se às debilidades científicas na base do AO (o «critério da pronúncia»; a propalada aproximação da linguagem escrita à linguagem oral, obsoleta desde os anos 60), que geram discrepâncias, na prática, entre as várias formas de grafar um lema; e também devido às facultatividades, que o «Lince», por ex., não reconhece como válidas.

6.º – Em conclusão, exercer o direito-dever (por parte de entidades públicas) de não aplicar normas inconstitucionais, bem como o direito de resistência (por parte dos particulares – art. 21.º da CRP) podem ser muito facilmente exercidos.





quinta-feira, 18 de abril de 2013

«Graças a Deus, sou ateu!»


Heduíno Gomes

O surrealista pessoal do Cachimbo de Magritte, com a superioridade intelectual que lhe conhecemos (é pena ser tão pouco aproveitado!), ostenta em epígrafe que o blogue «Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias.»

Mas, ao mesmo tempo, esse pessoal diz-se — superiormente — liberal.

Então em que ficamos? O liberalismo é ou não uma ideologia? Têm ideologia ou não? Só terão ideologia quando lhes convém para se dizerem liberais?

Ou o liberalismo será apenas assim uma coisa como ser sportinguista, benfiquista ou alpinista. Não será um sistema de ideias — filosófico, político e económico, entre outras coisas — ?

É que, com o demagógico e primário conceito de ideologia que utilizam, até parecem aqueles ateus que dizem «Graças a Deus, sou ateu!»




terça-feira, 16 de abril de 2013

Os bons critérios de recrutamento de políticos


Era uma vez um rei que queria ir pescar.

Ele chamou o seu meteorologista e pediu-lhe a previsão do estado do tempo para as próximas horas.

Este assegurou-lhe que não iria chover.

... Como a noiva do monarca vivia perto de onde ele iria, ele colocou o seu fato mais elegante.

No caminho, ele encontrou um camponês montando o seu burro que viu o rei e disse:

— «Majestade, é melhor regressar ao palácio porque vai chover muito.»

É claro que o rei ficou pensativo:

— «Eu tenho um meteorologista muito bem pago que me disse o contrário. Vou seguir em frente.»

E assim fez ... e, claro, choveu torrencialmente.

O rei ficou encharcado e a namorada riu-se dele ao vê-lo naquele estado.

Furioso, voltou para o palácio e despediu o seu empregado.

Ele convocou o camponês e ofereceu-lhe o trabalho de meteorologista, mas este disse-lhe:

— «Senhor, eu não entendo nada disso, mas se as orelhas do meu burro estão caídas, significa que vai chover.»

O rei contratou o burro.

Assim começou o costume de contratar burros, que desde então têm as posições mais bem pagas no governo…





sexta-feira, 12 de abril de 2013

Afinal o Júdice é por governos
de salvação nacional!


Heduíno Gomes

Foi tão giro ouvir o Júdice, com as suas prudentes palavras, a defender um governo de salvação nacional (TVI 24, 11.4.2013)!

Ele, dantes, era um tão puro sacarneirista, que não queria alianças com o PS (mesmo mais puro do que o próprio Sá Carneiro, que pretendeu filiar-se na Internacional Socialista), e afinal conspurcou-se agora a este ponto!

Para quem não sabe ou não se lembra, a história foi assim.

Em 1983, com o despesismo eleitoralista da AD (Sá Carneiro e depois Balsemão), Portugal ficou de tanga. Houve eleições, que não deram nenhuma maioria absoluta a qualquer dos partidos. O PS (Mário Soares) ficou em primeiro lugar e o PSD (Carlos Mota Pinto) em segundo.

Aí, o FMI, para abrir os cordões à bolsa, punha uma condição: haver um governo estável, com ampla maioria parlamentar. Isto é, pelo menos o PS e o PSD deveriam coligar-se.

E assim foi. O PS e o PSD formaram governo, a que se chamou o «bloco central», cobrindo 63,65% dos votos e 70,4% dos lugares da Assembleia. Com Mário Soares em Primeiro-Ministro e Carlos Mota Pinto em Vice-Primeiro-Ministro.

Não esquecer, Portugal estava de tanga e precisava de pão para a boca, e quem lho daria seria o FMI.

Ora bem! Por essa altura, havia no PSD um bando oficialmente denominado «Nova Esperança», conhecido por «grupo de Lisboa». Júdice, na altura Presidente da Distrital de Lisboa, era um dos chefes desse bando (como também o impagável Santana).

A essência do grupo é fácil de explicar.

Oportunistas nos princípios: a sua doutrina política era suficientemente elástica, superficial e palavrosa para dar para tudo; as alianças eram válidas se lhes dessem poder, a eles, bem entendido.

Demagogos na luta política interna: se alguém preconizasse alguma aliança com o PS (ponto de clivagem com a direcção e mobilizador de adeptos), seria traidor à sacra referência Sá Carneiro.

Sequiosos de poder: tratava-se de um simples projecto de poder, como as carreiras deles, um a um, posteriormente bem o demonstraram. Integraram-se no cavaquismo, em comunhão com a esquerda que este apadrinhava.

E assim, para o bando, Carlos Mota Pinto seria um traidor à chamada «social-democracia», essa coisa exclusiva do pensamento de Sá Carneiro, de quem eles eram os herdeiros! Ah! Já me esquecia! No bando estava Conceição Monteiro, que tinha sido secretária de Sá Carneiro por ter vagar (deste modo explicou o seu ingresso na função), pessoa muito dotada intelectual e politicamente, encontrando-se assim em condições de transmitir ao bando o ceptro mágico da pureza da «social-democracia» de Sá Carneiro. Transmitir ao bando, mas especialmente ao afilhado Pedrocas.

Enfim. Este bando fez uma guerra suja a Carlos Mota Pinto, acusado de participar no pecaminoso «bloco central». Não esqueçamos, aliança imposta pelo FMI nas circunstâncias políticas de então.

E não é que agora o grande estratega Júdice vem defender precisamente o pecado que atacou em 1983?! E com a agravante de o PSD não precisar de uma aliança com o PS, pelo menos numericamente!

Mas que grande traidor se deve sentir na sua pele!O que estará por detrás desta sua evolução de «princípios»? Mais algumas torres à beira-Tejo (mas tudo graciosamente!)?





quinta-feira, 11 de abril de 2013

PEN Internacional
condena por unanimidade
o Acordo Ortográfico


Teresa Salema e Maria do Sameiro Barroso

Foi aprovada por unanimidade no 78.º Congresso do PEN Internacional, que reuniu na Coreia delegações de 87 Centros de todo o mundo entre 9 e 15 de Setembro de 2012, uma resolução do Comité de Tradução e Direitos Linguísticos (CTDL) que manifesta uma evidente preocupação pela ameaça à língua portuguesa representada pelo Acordo Ortográfico de 1990 (AO/90). Tal resolução, traduzida na íntegra a seguir, inclui anexos explicativos de todo o processo. A incredulidade manifestada pela maioria dos escritores presentes, que se interrogavam como se teria chegado a tal situação, justificou a posteriori tal inclusão.
O processo que conduziu à redacção da mesma Declaração teve início no inquérito realizado pelo PEN Clube Português entre os seus sócios, tendo a esmagadora maioria rejeitado o AO 90 e declarado expressamente a conveniência de uma actuação por parte da actual direcção. No encontro de Barcelona do CTDL, de 4 a 6 de Junho de 2012, os resultados desse inquérito foram relatados pela Vice-Presidente, Maria do Sameiro Barroso. Na sequência de tal partilha de preocupações por uma situação que contraria os princípios do Manifesto de Girona do CTDL, foi redigida pelo PEN Internacional a subsequente Declaração.

Durante a Assembleia Geral na Coreia, a discussão deste tema foi introduzida por uma declaração da Presidente do PEN Clube Português, Teresa Salema (delegada oficial ao Congresso com Maria do Sameiro Barroso), manifestando uma preocupação pela situação com que um número crescente de escritores e tradutores se vê confrontado. A alternativa que se coloca aos primeiros, na medida em que não se identifiquem com o AO/90, ou de deixarem que os seus textos sejam convertidos para uma ortografia que lhes é alheia, ou de não verem as suas obras publicadas, foi por todos sentida como um problema complexo. Também os tradutores que em princípio não pretendam seguir o AO/90 se vêem submetidos às imposições administrativas e comerciais, como sublinha a resolução do PEN Internacional.

Na discussão houve intervenções de colegas de vários Centros, nomeadamente por parte do Centro PEN galego, manifestando a sua afinidade na diferença linguística e reiterando o seu apoio incondicional à Declaração. Também o Centro PEN alemão repudiou firmemente a ingerência de autoridades governamentais em assuntos linguísticos de reconhecida complexidade. O presidente do Comité de Escritores para a Paz sublinhou a sua preocupação pela divisão – e possível aumento de conflitualidade – que tais medidas estão a causar entre os cidadãos portugueses. Todos sentiram ainda o carácter nocivo e desestabilizador de uma medida que fere os princípios pedagógicos da democracia, nomeadamente a intenção de contribuir para um aprofundado contacto de amplas camadas das populações com a diversidade linguística e a herança cultural.

O PEN Internacional, como sublinhou o presidente John Ralston Saul, reeleito no Congresso para um segundo mandato de 3 anos, é o único fórum mundial de escritores existente. Neste espírito compete ao PEN Clube Português, como membro do PEN Internacional, defender os princípios e as práticas da liberdade de expressão, bem como do debate esclarecido e empenhado, sobretudo quando está em causa o nosso principal instrumento de trabalho, a língua portuguesa.





segunda-feira, 1 de abril de 2013

Explicando a obsessão de Obama
em relação a Israel

Daniel Pipes
Porque é que Barack Obama dá tanta atenção a Israel e ao seu conflito com os árabes?

Não se trata apenas do facto de ele passar esta semana, quatro dias, em Israel mas sim a sua procura exagerada em solucionar o conflito israelo-árabe. Desde o seu primeiro dia como Presidente, em 2009, já nomeou George Mitchell como enviado especial para o Próximo Oriente, além de telefonar para os líderes de Israel, Egipto, Jordânia e a Autoridade Palestina. O secretário de imprensa da Casa Branca justificou essa surpreendente diligência, dizendo que Obama usou o seu primeiro dia de trabalho «para comunicar o seu compromisso de colocar em prática o seu empenho na procura da paz israelo-árabe, a partir do início do seu mandato». Alguns dias depois, Obama concedeu a sua primeira entrevista formal como Presidente ao canal de televisão Al-Arabiya.
Hisham Melhem, chefe da sucursal da Al Arabiya
em Washington, obteve a primeira entrevista
 de Obama como presidente.
Não ficou apenas por aí. Em Junho de 2009, Obama anunciou que «chegou a hora de agir», diminuir a tensão entre Israel e os seus vizinhos, declarando «quero ter a sensação de que as coisas estão andando, com algum progresso. Estou convicto que se nos ativéssemos a esse propósito, começando cedo, atingiríamos um progresso substancial ainda este ano».Em Maio de 2011 ele deu sinal de impaciência em relação à diplomacia israelo-árabe: «não podemos dar-nos ao luxo de esperar mais uma, duas ou três décadas para alcançar a paz». Em Janeiro de 2013 o novo secretário de estado, John Kerry, manifestou a mesma disposição, na sua audiência de confirmação: «Precisamos encontrar uma maneira de avançarmos nessa questão».

Porquê essa obsessão em relação ao conflito israelo-árabe, que se encontra na 49.ª posição em fatalidades, desde a Segunda Guerra Mundial? Por conta da estranha convicção da esquerda, raramente exposta abertamente, de que essa questão é a chave, não apenas para os problemas do Próximo Oriente, mas para o mundo.

Para avaliar uma declaração extraordinariamente franca sobre esse ponto de vista, observe os comentários espontâneos e inconvenientes de James L. Jones, então conselheiro de segurança nacional de Obama, em Outubro de 2009. Discursando na J Street, mencionou «procurar a paz entre Israel e seus vizinhos» continuando:

de todos os problemas mundiais enfrentados pela administração, se há um que eu recomendaria ao Presidente que fizesse o que bem entendesse para solucioná-lo, seria a questão do Próximo Oriente. Encontrar uma solução para o problema acarreta repercussões que ecoam, que se alastrariam a todo o mundo e afectariam outros problemas que enfrentamos no globo. O inverso não é verdadeiro. Esse é o epicentro, onde deveríamos concentrar os nossos esforços. E estou feliz que esta administração esteja agindo assim, com entusiasmo e dedicação.
James L. Jones discursando perante a J Street.
Embora tivesse sido proferida um ano antes do levante árabe, vale a pena analisá-la pelo facto dela fornecer um importante insight da visão do mundo na Casa Branca.

Solucionar o conflito israelo-árabe «afectaria outros problemas que enfrentamos no mundo». Jones infere que a continuação do conflito exacerba aqueles problemas. De certa maneira, essa argumentação é estereotipada: é claro, solucionar qualquer conflito melhora o clima geral. Mas atordoa a imaginação pensar que a Casa Branca aguarda que Jerusalém e Palestina resolvam o problema dos refugiados para tratar da agitação curda, ataques islamistas, insurreição civil síria, ambições nucleares iranianas, dificuldades económicas egípcias e a anarquia iemenita.

«O inverso não é verdadeiro». Porque é que a solução de outros problemas não atenuaria o conflito israelo-árabe? Não há provas que sustentem esse disparate ilógico e insensato. Obviamente, derrotar o islamismo, iria realmente ajudar a resolver o conflito israelo-árabe, bem como acabar com a ameaça da bomba iraniana.

«Este é o epicentro». Em 2009, a onda islamista já havia rachado o Próximo Oriente em blocos de guerra fria liderados pelo Irão e pela Arábia Saudita: Israel e os palestinianos não eram então, nem agora, o centro regional. Incontestavelmente, o Irão, a Turquia ou a Arábia Saudita são.

«É lá que deveríamos concentrar os nossos esforços». Aqui chegamos ao cerne da questão: Jones quer o foco nas construções em Jerusalém e na rede eléctrica na Cisjordânia em vez de se concentrar no término do programa nuclear iraniano, em assegurar o fornecimento de petróleo e gás, em lidar com o padrão das ditaduras versus as insurgências islamistas ou com o governo cada vez mais perigoso da Turquia.
Alguns ainda vêem Jerusalém como centro ou epicentro, do mundo.
Pelo menos Jones não fez a declaração antissemita bizarra e limítrofe que Israel é responsável por todos os problemas do Próximo Oriente, mas a sua versão mais amena dessa farsa não é menos idiota. Lamentavelmente, a sua análise encaixa-se na mentalidade anti-sionista que impregna, cada vez mais, a ala esquerda do Partido Democrata.

Para compreender a visita de Obama a Israel, os próximos quatro anos e a diplomacia europeia, tenha em mente essa estranha e deformada lógica.






sábado, 30 de março de 2013

O Manifesto de Girona
e os «fatos com-seus-medos»


Teresa R. Cadete, Público, 21.2.2013

Em Maio de 2011, os participantes do encontro anual do Comité de Tradução e Direitos Linguísticos do PEN Internacional, reunidos na cidade catalã de Girona, terminavam de redigir um pequeno manifesto que sintetizava em 10 pontos o documento muito mais extenso, até então em vigor, de defesa dos direitos das línguas, sobretudo minoritárias, em particular daquelas que estavam – e estão – ameaçadas de extinção. Pela sua importância, transcrevemos aqui este texto, que condensa as preocupações de todos os que cuidam do tecido que nos conecta quando pensamos, comunicamos, criamos, sonhamos:

1.º A diversidade linguística é um património da humanidade que deve ser valorizado e protegido.

2.º O respeito por todas as línguas e culturas é fundamental no processo de construção e manutenção do diálogo e da paz no mundo.

3.º Cada pessoa aprende a falar no seio de uma comunidade que lhe dá vida, língua, cultura e identidade.

4.º As diversas línguas e os diversos falares não são só instrumentos de comunicação; são também o meio em que os seres humanos crescem e as culturas se constroem.

5.º Qualquer comunidade linguística tem direito a que a sua língua seja utilizada oficialmente no seu território.

6.º O ensino escolar deve contribuir para prestigiar a língua falada pela comunidade linguística do território.

7.º O conhecimento generalizado de diversas línguas por parte dos cidadãos é um objectivo desejável, porque favorece a empatia e a abertura intelectual, ao mesmo tempo que contribui para um conhecimento profundo da língua própria.

8.º A tradução de textos – particularmente dos grandes textos das diversas culturas – representa um elemento muito importante no necessário processo de maior conhecimento e respeito entre os homens.

9.º Os meios de comunicação são amplificadores privilegiados quando se trata de tornar efectiva a diversidade linguística e de prestigiá-la com competência e rigor.

10.º O direito ao uso e protecção da língua própria deve ser reconhecido pelas Nações Unidas como um dos direitos humanos fundamentais.

Este Manifesto encontra-se traduzido em numerosas línguas e foi ratificado na Assembleia Geral anual do PEN Internacional, que ocorreu em Belgrado no mês de Setembro desse mesmo ano. Como vemos, não se trata apenas de uma defesa da integridade das línguas, na sua qualidade de organismos vivos, que não só palpitam mas fluem como rios. Note-se de passagem que a defesa do método directo de aprendizagem das línguas começou por ir a par da ideia de falar fluentemente uma língua. Num primeiro momento, tal método terá contribuído para libertar muitas pessoas do espartilho gramatical a que obrigava uma aprendizagem obsessivamente fixada em regras.

Se a valorização da comunicabilidade imediata é importante num primeiro momento, porém o caminho para uma aprendizagem aprofundada – sustentada – passa pela interiorização de regras. Isso pode ser feito de numerosas maneiras e sempre com o suporte da leitura em voz alta de autores consagrados, da poesia musicada (sim, sim, vivam essas lyrics que nos acompanham no dia-a-dia, graças às novas tecnologias: e experimente-se cantar ao volante sobre as palavras de um dos nossos autores de culto, também como meio seguro para evitar o cansaço). Ora tal interiorização torna-se numa verdadeira descoberta quando se cria esse tecido, essa ponte imediata, sobretudo num registo de musicalidade. Não o advogavam já os teóricos clássicos da linguagem, de Rousseau a Herder e Humboldt?

O mais profundo prazer com a língua materna, ou com outra língua que se aprende, ousaria afirmá-lo, pode sentir-se quando a sabemos integrada numa família de história e geografia específicas. E essa família é grande e antiga. Dou um exemplo da aprendizagem do alemão, língua cuja dificuldade (mas nenhuma língua é «fácil» como mascar pastilha elástica) é sentida por quem não aprendeu latim e não treinou a suspensão da respiração até chegar, nas orações subordinadas, ao fio condutor da frase e do pensamento: o verbo que exprime a acção. Aqui chegamos, quase sem nos apercebermos, ao domínio da filosofia da linguagem: toda a narrativa conseguida culmina num desfecho que terá entretanto mantido preso o ouvinte ou o leitor.

Foi precisamente Wilhelm von Humboldt (1767-1835) que se opôs ao positivismo nascente que tratava a língua como um produto reversível (ergon) e não como «um ser individual, com carácter e configuração definidos, dotado de uma força que age sobre o ânimo, e que não é destituído da faculdade de se reproduzir» (Introdução ao Agamemnon, 1816, trad. de José Miranda Justo) – ou seja, uma forma de energeia que se vai moldando nesse fluir da aprendizagem e da prática da descoberta que é sempre uma forma de tradução, de auto-recriação, mesmo dentro da mesma língua e sobretudo dentro da língua materna.

Hoje, dia mundial da língua materna, é uma data que podemos celebrar de forma serena, reflectindo, questionando. Quererá, poderá um professor privar os seus alunos de descobrir a familiaridade dessas percePções – e isso porque a terão perceBido nesse entrosamento encantatório de intuição, mnemónica, ritmo e reflexão? Quererá, poderá um tradutor – sobretudo numa edição bilingue de texto – decepar a raiz indo-europeia CT e colocar, numa linha paralela ao inglês a Ct, um mísero ato que nem sequer tem a graça explosiva que ficámos a conhecer do filme de Almodovar? Quem poderá censurar aqueles que porventura, munidos de uma caneta correctora (de preferência para escrever em acetatos), tentam reparar um mal que contudo é remediável, bastando que deputados e governantes tenham a humildade de reconhecer um erro que ficou à vista de todos o mais tardar desde o adiamento da entrada em vigor de um recorte ortográfico (sim, porque «acordo» é pura ficção)? E sabemos que os brasileiros, a fazerem um «acordo», fá-lo-ão uma vez mais à sua maneira, como em 1955?

Em Setembro de 2012, no Congresso do PEN Internacional na Coreia do Sul, os delegados dos 89 Centros presentes aprovaram por unanimidade a resolução redigida pelo Comité de Tradução e Direitos Linguísticos. Devo sublinhar que o Centro português não tomou parte na redacção da mesma – apenas apresentou o problema, sobre o qual os redactores se debruçaram, e traduziu o texto. Este pode ser lido através do link http://proximidade.penclubeportugues.org. Interessante foi, neste contexto, a incredulidade dos presentes – anglófonos, francófonos, hispanófonos e outros – e a veemência com que afirmaram que tal ocorrência seria impossível nos seus países.

Vamos acreditar que estamos num regime totalitário, como um discurso acordista fundamentalista, usando tortamente o programa Lince já em si uma máquina de produzir erros? Tratando a língua como um ergon, alega-se «factos consumados» quando na realidade se joga com receios atávicos, com «fatos com-seus-medos» por parte de pessoas que não gostam «daquilo» mas acham que têm de aplicar «aquilo» no quotidiano, sem saberem os seus direitos constitucionais? Não existirão razões de sobra, expostas por especialistas qualificados, que provam a barbaridade imposta pelo desacordo ortográfico? Não estará aberta a possibilidade de usar meios jurídicos para o travar, mas não seria preferível uma corajosa vontade política que o revogasse?